Como obter um certificado de democracia
por Daniel Vaz de Carvalho
1 O exame
O exame é mediático. Comecemos pela pergunta eliminatória.
O examinador (jornalista apresentador) coloca um ar traquina, estilo "com
esta é que te vou tramar", e pergunta: "Acha que a Coreia do
Norte é uma democracia?".
Não se pode mostrar que se tem dúvidas sobre a ditadura instalada
no país. Se responder como o ex-candidato do PCP, Edgar Silva
que se preocupa com os direitos humanos na Coreia do Norte, como nos
EUA, na Arábia Saudita ou em qualquer outra parte do mundo, está
eliminado. No dia seguinte, o que quer que tenha enunciado sobre as suas ideias
e propostas, sobre as crescentes desigualdades e pobreza no país devido
à política de direita, os destaques na comunicação
social são que "
tem dúvidas que a Coreia do Norte
não seja uma democracia". O que servirá depois para
gáudio dos comentadores.
Se na altura do "exame" houver outro participante este deve
aproveitar mesmo que a pergunta não lhe tenha sido feita
para declarar o seu repúdio pelo "regime comunista" da Coreia
do Norte e do seu ditador. Pode melhorar a nota mencionando também Cuba,
por exemplo. Assim, mesmo que se apresente como "esquerda" ou mesmo
"esquerda radical", os mediáticos examinadores
dar-lhe-ão os mínimos para ser considerado(a) confiável,
ou seja, mais ou menos inofensivo para o que se pretende na
educação das massas.
Porém, para passar no exame não basta ser bom aluno, é
preciso cair nas boas graças dos examinadores. Assim, para adquirir o
certificado e a sua periódica revalidação é
tão importante o que se diz como o que se não diz.
O facto de o poder em Kiev estar nas mãos de neonazis apoiados pela NATO
não deve ser mencionado. Putin deverá sempre ser referido como
ditador e a Crimeia como invadida e anexada. Ter havido um referendo não
conta. No Kosovo, sim, contou, tanto mais que os EUA lá instalaram uma
base militar, mas é melhor não falar nisso. É
também importante achar que para resolver a questão Síria,
Bashar-al-Assad deve ser afastado e o poder entregue à
oposição "moderada".
Outra pergunta eliminatória consiste em saber se "é a favor
da saída do euro". Se disser que o país deve proceder ao
estudo e preparar-se para essa situação, reprova. Escusa de
insistir ou procurar mostrar-se simpático, prepare-se: as entrevistas
vão ser como que interrogatórios e cada resposta contestada.
Dizer que Portugal deve permanecer no euro embora a sua "arquitetura"
tenha de ser modificada, permite passar as eliminatórias, obter simpatia
mediática e lugar como figurante na farsa do pluralismo vigente
desempenhando o seu papel sem pôr em causa o que é fundamental
para o sistema.
Contudo para lhe darem este papel, não caia na asneira de defender o
controlo público ou a nacionalização dos sectores
estratégicos e muito menos de se considerar marxista-leninista, isto
é, ter o materialismo-dialético como referência para
analisar a realidade, a passada e a presente, bem como as perspectivas de
futuro. Se o fizer, será reprovado e qualificado como
"estalinista"
2 Aprofundamento de alguns pontos importantes
É importante repetir como verdade absoluta o que dizem os media de
referência. Sendo estrangeiros confere grande autoridade a quem os
menciona. Nenhum apresentador se atreverá a discutir o que diz o
Financial Times
ou o
Wall Street Journal.
Citar relatórios do FMI ou da CE mostra que se está a lidar com
alguém superiormente equipado intelectualmente, mesmo que
previsões daquelas entidades tenham estado invariavelmente erradas e as
medidas impostas se mostrem contraproducentes.
Mas não se pense que no mundo mediático não há
espaço para ser de esquerda ou mesmo "esquerda radical".
Portanto, não se desista à partida. Pode ficar-se bem cotado na
bolsa mediática se se tiver atenção a algumas
questões já aqui citadas. Salientemos duas muito importantes. A
Coreia do Norte e o "estalinismo". Para não cometer erros
nestas matérias convém ignorar e, se for o caso, repudiar tudo o
que se segue.
É a Coreia do Norte uma democracia? A pergunta não faz sentido
por duas razões. Primeiro, o interlocutor só aceita como
democracia um sistema capitalista parlamentar que não conteste a
hegemonia dos EUA; segundo, a pergunta induz à partida que a Coreia do
Norte seria o único ou dos únicos países do mundo
referenciados como ditadura.
Mas acresce uma outra razão: a Coreia do Norte é um Estado que
permanece em guerra com os EUA e a coligação que chefiaram.
Apesar das tentativas e propostas da Coreia do Norte para ser assinado um
tratado de paz com os EUA que poria fim ao seu programa nuclear, foi sempre
recusado. Existe apenas um armistício com os EUA, que portanto se
mantém como adversário, dispondo de bases militares e importantes
efetivos terrestres, marítimos e aéreos na proximidade das
fronteiras da Coreia do Norte.
Nenhum país em estado de guerra é uma democracia e nem é
preciso chegar a este ponto. Nos EUA e na UE verificamos que cada vez mais as
liberdades democráticas são seriamente cerceadas seja por
razões de "segurança"
[NR]
, seja pelo forçado endividamento e a "austeridade".
Relatos de visitantes e reportagens sobre a Coreia do Norte contrariam o que se
propala sobre aquele país. Apesar da hostilidade de que se vê
rodeado, os testemunhos dão conta de um governo que se esforça
por melhorar a vida dos cidadãos partilhando o seu labor. Cada um
ajuíze por si segundo reportagens que com diversas visões
contrariam a "narrativa" institucionalizada.
[1]
A atual liderança promove uma abertura ao exterior e um grande
esforço de desenvolvimento económico, científico e
tecnológico, evidente nos seus avanços nas tecnologias
aeroespaciais. Uma reportagem dá conta das condições de
vida oferecidas a um cientista, curiosamente não ligado à
produção militar, mas à biologia.
Existe um líder carismático e é inegável a
existência de um culto da personalidade pouco condizente para a
mentalidade ocidental o facto é que no ocidente submetidos
às oligarquias não existem líderes dignos deste nome
.
A direção política norte-coreana considera que o seu
sistema é a forma de manter a soberania do país e não cair
nos erros que as cedências ao ocidente produziram na Líbia, no
Iraque, na Rússia de Ieltsin, ou a algo como o que ocorre na
Síria.
Não desejamos nem propomos nas margens do Tejo um sistema de
organização política como o norte-coreano. Porém a
Coreia do Norte merece a nossa amizade, solidariedade e admiração
pela luta do seu povo na construção pacífica de um Estado
plenamente desenvolvido. Assim deixasse de existir o imperialismo e as suas
ingerências.
Quanto ao chamado "estalinismo" o que quer que isto queira
dizer aqui e agora é um conceito inventado pelo antimarxismo para
condicionar e desacreditar as teses e a ação dos partidos e
movimentos que lutam pela superação da sociedade capitalista e a
construção do socialismo. "Estalinista" passou a ser um
termo de carácter pavloviano (desencadeamento de reflexos condicionados)
muito útil no processo de alienação vigente.
Estaline foi responsável por grandes êxitos do socialismo, mas
também erros e abusos que desvirtuaram a democracia socialista. Contudo,
comprovadas falsidades sobre aquele período histórico são
ampliadas e repetidamente divulgadas. Os crimes do imperialismo e do
colonialismo são escamoteados; as situações de
repressão motivadas pela cruel guerra de agressão das
potências ocidentais 1918 -1921 (dita "guerra civil"),
conspiração, sabotagem e terrorismo posteriores, invasão
nazi-fascista, são integralmente atribuídas ao socialismo e
caluniadas como "estalinismo".
É grosseira violação da verdade histórica ignorar
os êxitos da URSS no desenvolvimento económico e social, na
construção do socialismo, na luta pela emancipação
dos povos e contra o fascismo, durante o período designado
"estalinista".
O termo "estalinista é utilizado atualmente pela direita, pela
social-democracia, e também por certa esquerda como calúnia
contra as teses básicas do marxismo-leninismo, teses que como nenhumas
outras defendem e lutam pela paz, pela democracia económica e social e
pelas relações de igualdade e não ingerência nas
relações entre os povos. O capitalismo mostrou que nada disto
é possível no seu sistema, daí ser usado como
condicionamento intelectual e comportamental o "estalinismo"
termo sem qualquer relação com a realidade do nosso tempo e do
nosso país.
3 Alguns conselhos adicionais
Quando há factos que se tornam evidentes e mesmo escândalo
público, como as alegadas fraudes bancárias no BPN, BPP, BES,
BANIF, as acusações devem ser dirigidas
a pessoas
(administradores, gestores, etc.) nunca denunciando a natureza
predatória do sistema capitalista, que esmaga os povos com impostos em
benefício de uma minoria que vive da usura, da
especulação, da exploração e da austeridade.
A forma escandalosa como foram feitas privatizações e PPPs com
prejuízo para o interesse público foi denunciada em
relatórios do Tribunal de Contas. O tema foi evitado nos media e abafado
pelos múltiplos ruídos em que é fértil. Nestes
casos o que se pode criticar não é a intenção de
privatizar, mas o Estado e os "políticos", defendendo sempre
"menos Estado".
Para obter um certificado com distinção é
necessário defender que a "economia de mercado" é a
única viável e de sucesso, que o privado é eficiente, que
o Estado é mau gestor. Claro que é mau gestor, ao colocar-se ao
serviço dos interesses privados (a "economia de mercado") e
não dos interesses coletivos e sociais, mas isto não se deve
dizer.
Um comentário útil neste processo é exibir "ativo
repúdio" pelo "modelo soviético", o que quer que
isto seja, e o que tenha a ver com qualquer discussão sobre a
situação atual.
Criticar os media e seus comentadores dá direito a
reprovação. Se o fizer será sempre tratado como
"testemunha hostil". É preciso ser bem comportado(a) e
respeitador do seu poder, nunca esquecendo quem os controla. Para não
haver descuidos nesta matéria vejamos o que diz quem sabe.
Segundo William Colby, ex-diretor da CIA, "a CIA controla todos os que
têm importância nos principais media". "Comprar um
jornalista custa mais barato do que uma boa garota, quase duzentos
dólares por mês", afirmou um agente da CIA em
discussão com Philip Graham, do
Washington Post,
sobre a possibilidade de encontrar jornalistas dispostos a trabalhar para a
CIA.
Serge Halimi, diretor de
Le Monde Diplomatique,
afirmou que "a informação tornou-se um produto como
qualquer outro. Um jornalista dispõe sobre a informação de
pouco mais poder que uma empregada de supermercado sobre a estratégia
comercial da empresa".
De facto, "a essência dos media não é
informação: é o poder" diz John Pilger,
acrescentando: "Nos EUA seis mega empresas: GE-(NBC), News Corp (FOX),
Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS, controlam 90% do que vemos, ouvimos ou
lemos; 232 executivos da comunicação social prescrevem a dieta
informativa dos norte-americanos. A faturação destes seis grupos
em 2010 foi de 275,9 mil milhões de dólares."
O fundador da
Seara Nova,
Raul Proença, escrevia em 1928: "Chama-se liberdade de imprensa, o
direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores,
graças à sua fortuna ou às suas chantagens de influir na
opinião do país."
Muito assertivo, Paul Craig Roberts classifica os media como os
"presstitutos" e resume esta questão: "Nos dias de Marx,
a religião era o ópio das massas. Hoje são os media."
Dizia Marx em carta para o seu amigo Ludwig Kugelmann: "E para que outra
coisa são pagos os tagarelas sicofantas que não sabem jogar
nenhum outro trunfo científico a não ser que, em suma, na
economia política não é permitido pensar?"
Nos media proliferam os "comentadores". A designação
é consequente. De facto, na Idade Média, na escolástica,
não havia investigadores, apenas "comentadores" de textos
assimilados como dogmas. E ai daqueles que os contestassem
Atualmente os "comentadores" de serviço ao sistema são
a clerezia do neoliberalismo e suas instituições, FMI, BCE, CE: a
troika dos interesses oligárquicos. Podem passar horas em
monocórdicas charlas sobre a submissão às inquestionadas
"regras da UE" e a conformidade com a dogmática neoliberal.
Queixam-se que a "reestruturação" não foi feita,
mas as causas que originam e agravam as crises não são
averiguadas: tudo o que sai fora do
nihil obstat
neoliberal é dado como não existente, blasfemo ou
herético... Aqui se chegou.
[1]
www.rt.com/shows/documentary/203135-north-korea-kim-jongun/
www.rt.com/news/329192-north-korea-peace-demands/
eoriasdarevolucao.blogspot.pt/2014/11/152-imagens-que-provam-que-coreia-do.html
www.rt.com/news/329192-north-korea-peace-demands/
[NR]
Em França, o parlamento acaba de inserir o
"estado de urgência"
na Constituição, cerceando direitos, liberdades e garantias dos
cidadãos.
Utilizaram como pretexto atentados recentes, de acordo com a receita
americana: a implosão de edifícios do World Trade Center
em 11/Set/2001 permitiu aprovar de imediato a legislação
repressiva que fora previamente elaborada.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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