Implicações económicas do incumprimento da Ucrânia

por Michael Hudson
Entrevistado por The Saker

Christine Lagarde. The Saker: Temos ouvido que a Ucrânia terá de declarar um incumprimento (default), mas que provavelmente será um incumprimento "técnico" e não um incumprimento oficial. Alguns dizem que a decisão do Rada [parlamento] de permitir a Iatseniuk escolher a quem pagar já é em si um "incumprimento técnico". Haverá uma coisa tal como um "incumprimento técnico" e, em caso afirmativo, como seria diferente em termos de consequências para a Ucrânia de um incumprimento "regular"?

Michael Hudson: Um incumprimento é um incumprimento. A tentativa do incumprimento "técnico" tem origem nas reuniões do G8 em 2012 relativas à dívida grega. Geithner e Obama desavergonhadamente fizeram lobby junto ao FMI e ao BCE a fim de salvar a Grécia, só para que ela pudesse pagar possuidores de títulos, porque bancos dos EUA haviam emitido credit default insurance (CDS) contra títulos gregos e estavam em risco de uma grande perda se o incumprimento se verificasse. O BCE sugeriu eufemizar o incumprimento como uma renegociação "voluntária", pedindo a bancos e outros possuidores de títulos que concordassem em cancelar parcialmente (write down) a dívida.

Mas segundo a organização internacional de possuidores de títulos – a International Swaps and Derivatives Associations ( ISDA ) – incumprimentos de crédito podem ser disparados se uma reestruturação de dívida for acordada entre "uma autoridade governamental e um número suficiente de possuidores de tal obrigação para comprometer todos os possuidores", tornando-a obrigatória. De acordo com as definições da ISDA: "Os eventos listados são: redução na taxa de juro ou montante do pagável principal (o que incluiria um "haircut"); adiamento do pagamento do juro ou principal (o que incluiria uma extensão da maturidade de uma obrigação pendente); subordinação da obrigação; e mudança na divisa de pagamento para uma divisa que não é moeda de curso legal num país G7 ou num país da OCDE classificado como AAA". [1]

Isto parece bem claro. Levar a ISDA a classificar o swap de um título como um "evento de crédito" permite aos aceitantes (holdouts) arrecadarem o seguro de incumprimento das suas contrapartes. Há uma espécie de seguro aqui, mas possuidores de títulos podem então efectuar acções para apresar propriedades do governo no exterior. Foi o que fez o fundo abutre de Paul Singer com a Argentina, estabelecendo novo direito internacional que se aplicará à Ucrânia.

Sob o direito das obrigações (debt laws) em Londres (onde a dívida da Rússia está registada), o Parlamento teria de designar a Ucrânia como um país HIPC (tal como os países africanos que Singer perseguiu) para bloquear este comportamento do credor. Não vejo o Parlamento a fazer isto para a Ucrânia, pois a sua pobreza é auto-imposta pela guerra.

Se o FMI pretendesse afirmar que o empréstimo de US$3 mil milhões da Rússia não é oficial, isto reescreveria o direito internacional e significaria que empréstimos de fundos de Riqueza Soberana de qualquer país (OPEP, Noruega, China, etc) não têm protecção internacional. Uma tal duplicidade de padrão fracturaria os mercados da dívida mundial de acordo com a linha da Nova Guerra Fria – com guerra financeira a substituir guerra militar. Duvido que o mundo esteja pronto para esta opção financeira "nuclear".

The Saker: O Rada também aprovou uma lei permitindo ao governo apresar activos russos na Ucrânia. Não estou seguro se se trata de activos do Estado russo ou de privados/corporativos russos. O que seriam as consequências económicas e legais de tais apresamentos de activos se o governo avançasse com este plano? Poderia a Rússia tomar medidas retaliatórias contra a Ucrânia ou recorrer a um tribunal internacional?

Michael Hudson: Seria um passo tão radical que está para além do direito civil. Se a Ucrânia fizesse isto enquanto ainda está a receber empréstimos do FMI [NR] , EUA e Canadá, seus credores poderiam ser considerados como responsáveis. Moralmente é isso. A questão é, que tribunais? É verdade que Israel concebeu esta excepção étnica com árabes – mas será que a Ucrânia quer utilizar isso como justificação legal?

Quando Cuba ou outros países latino-americanos quiseram comprar investimentos dos EUA pelo seu valor contabilístico (book value) declarado, o resultado foi sempre tentativas de golpe militar. Seria um acto de guerra. A Rússia podia pedir reparações, naturalmente – mas a quem? Podia apresar activos ocidentais de países que apoiam a junta de Kiev? Poderia responder nacionalizando haveres alemães e franceses e observar a decorrente gritaria descansadamente?

The Saker: O governo ucraniano deu-se ao trabalho de cortar tantos laços económicos com a Rússia quanto possível. O Donbass foi bombardeado e completamente alienado, todos os contratos de defesa com a Rússia foram também cancelados, companhias russas são excluídas de licitar contratos na Ucrânia, a Rússia foi declarada um "país agressor", etc. Isto significa que por enquanto a Ucrânia quer estar 100% dependente do Ocidente. Acredita que o Ocidente (EUA+UE+FMI+BM+etc) tem a vontade e os meios para continuar a emprestar dinheiro à Ucrânia ou para suportar o actual regime no poder? Pode o governo dos EUA simplesmente imprimir dólares e enviá-los para Poroshenko ou haverá limites materiais sobre quanto o Ocidente pode fazer para suportar o regime actual? O que acontecerá à Ucrânia se o Ocidente não puder suportá-la, quão má espera que seja a crise económica?

Michael Hudson: O "Ocidente" não faz caridade. Suas firmas não querem perder dinheiro e a Constituição da UE proíbe ao Banco Central Europeu e contribuintes europeus financiarem governos estrangeiros. Eles compram títulos do governo só a bancos – e poucos bancos possuem títulos ucranianos!

Futuros governos ucranianos poderiam repudiar transacções económicas [efectuadas] sob a junta da mesma maneira como os Aliados cancelaram dívidas internas da Alemanha em 1947/48 na reforma da divisa – sob a lógica de que a maior parte das dívidas era para com antigos nazis. A actual cleptocracia ucraniana não é um guarda-chuva muito seguro para patrocinar liquidações privatizadoras e outras transacções económicas com o Ocidente, apesar das esperanças de George Soros de adquirir terras e infraestrutura. Mesmo a dívida da Ucrânia para com o FMI e outras agências internacionais pode ser rejeitada como "dívidas odiosas" que financiaram um governo em guerra contra a sua própria população.

The Saker: É geralmente aceite que a recessão da economia russa tem pouco a ver com as sanções impostas contra ela e que resulta principalmente da queda nos preços do petróleo. Acredita que isto foi uma coincidência ou os EUA e os sauditas conspiram em conjunto para derrubar o preço do barril como foi feito no fim da década de 1980 para levar a União Soviética ao crash? Para onde pensa que vai o preço do petróleo no futuro próximo e a médio prazo? Espera que o rublo ascenda outra vez?

Michael Hudson: Não penso que a queda nos preços do petróleo fosse uma conspiração para prejudicar a União Soviética. Muitos modelos têm mostrado o papel da especulação financeira para fazer subir os preços do petróleo (e os e outros minerais, quando especuladores voltaram-se para commodities para fazer o que tinham estado a fazer com acções e títulos durante anos). Os sauditas têm seus próprios objectivos, tentar esmagar a competição estrangeira, incluindo o shale oil.

Não vejo o preço do petróleo a subir muito, porque a economia da Europa está a ser transformadas numa zona morta e a deflação da dívida também está a contrair o crescimento económico dos EUA.

Para o valor do rublo subir, a Rússia precisaria reindustrializar-se. A revolução neoliberal após 1991 foi na verdade destinada a desmantelar a indústria pós soviética, arrancá-la pelas suas raízes. Operacionais do HIID e da AID compraram companhias russas que desempenhavam um potencial papel militar chave e desmantelaram-nas.

Para reindustrializar-se, a Rússia precisa reduzir seu custo de vida, a começar pela habitação. Precisa fazer o que os Estados Unidos realmente fizeram para subsidiar sua indústria e também sua agricultura: forte subsídio público ao subir custos "externos", fornecer extensão agrícola e serviços de investigação, apoios com preços, etc.

Talvez Putin possa convencer os principais oligarcas a "subirem a escada". Eles podem manter sua riqueza, mas concordarão com um imposto sobre a renda económica para impedir novas dádivas e o rendimento não merecido de pesarem sobre a economia russa. Isto incidirá pesadamente sobre as companhias compradas por investidores estrangeiros, acabando com a drenagem de dividendos.

The Saker: A sanção mais penosa contra a Rússia foi a recusa de crédito a companhias russas. Poderiam os russos simplesmente começar a tomar emprestado de, digamos, bancos chineses ou haverá razões objectivas que impeçam a Rússia de fazer isso? Estará a Rússia dependente de bancos ocidentais e, se estiver, por quanto tempo? Poderia a Rússia desenvencilhar-se dos mercados ocidentais e optar ao invés por se voltar para a Ásia, América Latina e África?

Michael Hudson: A Rússia obviamente precisa libertar-se inteiramente dos bancos ocidentais. Ainda mais importante: ela não precisa do seu crédito. (Veja como a China construiu a sua economia sem o crédito da banca estrangeira!) A Rússia precisa de um banco central real para financiar défices do governo e de uma banca pública para conceder crédito em termos facilitados. O governo pode criar crédito nos teclados dos seus computadores do mesmo modo como os bancos comerciais o fazem nos seus teclados. Foi como a União Soviética funcionou durante muitas décadas, afinal de contas.

Não há nenhuma necessidade de bancos ocidentais ou russos financiarem défices orçamentais públicos. Há muitos Teóricos Monetários Modernos ( Modern Monetary Theorists , MMT) capazes de explicar como a Rússia pode fazer isto. É o único meio de minimizar o custo de fazer negócio.

Se encargos financeiros do sector privado (do Ocidente, BRICS ou mesmo internos russos) forem incluídos no custo de vida (habitação) e de fazer negócio, será difícil para a Rússia ser competitiva. Ela precisa fazer o que os EUA, Alemanha e China fizeram. Toda economia com êxito na história foi uma economia mista. A Rússia, ao invés, em 1991 oscilou de um extremo para outro ainda pior – de uma economia estatista para uma extrema economia Ayn Rand/Hayek/Escola de Chicago, com consequências desastrosas – como se não conhecesse a história financeira ocidental ou, quanto a isso, o Volume III do Capital de Marx e a sua Teorias da Mais Valia. A resposta mais eficaz seria a criação proactiva de crédito para subsidiar a reindustrialização e a modernização da agricultura.

The Saker: Como avalia o desempenho do Banco Central Russo à combinação de queda nos preços do petróleo e sanções dos EUA+UE? Muitos, incluindo eu próprio, éramos muito críticos das medidas adoptadas, mas a Rússia desenvencilhou-se muito melhor do que o esperado e alguns estão mesmo a prever um retorno ao crescimento antes do fim do ano. Será que Elvira Nabiullina e seus colegas tomaram a decisão certa ao deixar o rublo flutuar livremente?

Michael Hudson: A Rússia deixou o rublo flutuar porque a alternativa teria sido especuladores estrangeiros estilo Soros conspirarem e saquearem as reservas do seu banco central num jogo de póquer financeiro. Bancos estrangeiros teriam criado crédito suficiente para se empenharem em vendas a descoberto (short selling) a fim de manipularem mercados e fazerem uma matança. A Rússia não é competente neste jogo, parcialmente porque autoridades monetárias da Rússia tiveram seus cérebros lavados pela ideologia neoliberal, sem perceberem seu apadrinhamento anti-socialista, anti-trabalho, pró bancos e pró rentistas.

The Saker: Dentre as várias propostas que circulam na Rússia há duas em particular que têm sido fortemente apoiadas: a nacionalização do "independente" Banco Central e sua subordinação ao governo russo e a criação de um rublo plenamente convertível apoiado pelo ouro russo (alguns sugerem apoiar o rublo pela "energia, isto é, petróleo e gás). O que pensa destas propostas?

Michael Hudson: Um banco central "independente" (tal como o Banco Central Europeu) significa que este é controlado pelos banqueiros privados, impedindo os governos de financiarem sua própria despesa e obrigando-os – e a economia como um todo – a dependerem do crédito com juros da banca privada comercial.

A Rússia precisa de um banco central real que sirva objectivos do governo – reindustrializar a economia e reconstruí-la sem os pesados custos financeiros que no Ocidente inflacionaram custos habitacionais, custos de infraestrutura, custos de educação e custo de vida.

O ouro pode realmente ser uma parte deste sistema – para regularizar desequilíbrios de pagamentos internacionais, não para apoiar a divisa interna. Tornou-se claro na década de 1960 que nenhum país pode participar de um padrão gold exchange e travar guerra. Foi a drenagem do ouro que forçou o US dólar a abandoná-lo em 1971 – como resultado directo do gasto militar estado-unidense, o qual era responsável pela totalidade do défice da balança de pagamentos dos EUA.

Sem ouro, os bancos centrais do mundo mudaram para Títulos do Tesouro dos EUA – IOUs do governo emitidos para financiar o défice orçamental que em grande parte era de natureza militar. Isto significa que reservas monetárias globais monetizaram gastos militares dos EUA para cercarem estes mesmos países e os desestabilizarem se tentassem retirar-se do sistema. (O meu livro Super Imperialism é acerca disso.)

O caminho mais fácil para travar o aventureirismo militar dos EUA é restaurar o ouro e libertar o mundo de ter de utilizar o padrão militarizado do U.S. Treasury-bill como sua base monetária.

The Saker: Se tivesse a atenção unânime e o apoio de Vladimir Putin, Dmitry Medvedev, Anton Siluanov e Elvira Nabiullina, que conselhos lhe daria?

Michael Hudson: Eles precisam ver como os conselhos neoliberais dados pelo HIID e pelo Banco Mundial depois de 1991 arruinaram a capacidade da sua economia para competir. A privatização elevou o custo de vida e de fazer negócio. Os EUA, Alemanha e outras economias industrializadas com êxito elevaram-se a potências mundiais através de investimento forte em infraestrutura pública para manter baixos os preços de necessidades básicas: cuidados de saúde, educação, pensões, transportes, comunicações, energia, água e assim por diante.

Seus economistas, durante o século XIX e princípio do XX, explicaram como a tributação do governo sobre a renda económica – renda da terra, renda de recursos naturais e renda de monopólio (incluindo encargos financeiros dos bancos) – não elevariam preços, mas seriam pagos pela renda económica. Em contraste, a tributação do trabalho e mesmo do lucro não monopolistas provoca aumenta do custo de vida e de fazer negócio. A Rússia foi persuadida a não tributar suas rendas de recursos e rendas de monopólio, a fim de sobrar mais para banqueiros e, no momento devido, para investidores estado-unidenses e europeus – a expensas do colector de impostos russo.

Se líderes russos em 1990 tivessem lido os Volume II e III do Capital de Marx e sua revisão das Teorias da mais valia, teriam visto como aqueles críticos do capitalismo industrial queriam livrar-se dos restos do feudalismo.

O ponto que falta nas reformas económicas de hoje é aquilo em que se centrava a teoria económica clássica, desde os fisiocratas franceses até Adam Smith, John Stuart Mill, Marx e seus contemporâneos: libertar economias industriais dos remanescentes rentistas do feudalismo europeu. O foco da teoria clássica do valor e do preço era libertar economias da renda económica, definida como rendimento não merecido resultante simplesmente do privilégio: renda da terra de absenteístas, renda de recursos minerais e naturais, renda de monopólio e juros financeiros. O objectivo deveria ser impedir actividades de extracção de renda – definida como transferência puramente predatória de pagamentos, uma actividade improdutiva economicamente de soma zero.

A teoria clássica do valor-trabalho tinha como objectivo isolar aquelas formas de rendimento (renda da terra, renda de monopólio e juro) que eram socialmente desnecessárias e que foram simplesmente legados de privilégios passados. A alternativa a meio caminho era tributar a renda da terra e a renda de monopólio (Henry George, et al.). A alternativa socialista era tomar para o domínio público sector produtores de renda naturais.

A Europa fez isto com as principais empresas de utilidade pública – transportes, comunicações, correios, educação, saúde pública e pensões. Os Estados Unidos privatizaram estes sectores, mas criaram comissões reguladoras para manter os preços em correspondência com o valor de custo básico. (Temos que admitir que a captura do regulador sempre foi um problema, especialmente quando se chega aos custos ferroviários.)

The Saker: Rússia e China embarcaram no que acredito ser algo único na história: dois ex impérios que tomaram a decisão política de se tornarem mutuamente dependentes um do outro, criando de facto um relacionamento simbiótico. Exemplo: a China decidiu basicamente tornar-se completamente dependente da Rússia quanto a energia e equipamento militar. A Rússia, por sua vez, espera que a economia chinesa lhe permita diversificar e crescer. Eu argumentaria que em muitos aspectos eles são perfeitamente complementares um do outro. Concorda com esta avaliação? E como avaliaria o potencial da colaboração económico-financeira destas duas super-potências? Será que a Rússia e China podiam, em conjunto, juntamente com os BRICS e a SCO criar uma nova economia e um novo mercado livre do dólar e independente?

Michaek Hudson: Duas dinâmicas principais prevalecem. Em primeiro lugar, ao fazer comércio, investimento e acordos monetários é importante estar seguro de que serão a longo prazo. A América proporcionou esta segurança a longo prazo para a Rússia e a China, deixando claro que se opõe à ascensão de poder tanto da Rússia como da China (bem como do Irão ou de qualquer outro actor potencial).

Aqui está a segunda dinâmica: a estratégia "dividir e conquistar" da América procura um potencial rival após o outro. Com a junção de forças – e ao estenderem a Organização de Cooperação de Shangai de modo a incluir o Irão e outros países – obrigam os Estados Unidos a travar uma guerra em pelo menos duas frentes se actuarem contra a Rússia ou a China. Assim o seu relacionamento a longo prazo é segurança mútua contra o único agressor provável.

O investimento de capital em gasodutos exige um longo período de amortização, assim isto não pode estar sujeito a interferência diplomática estrangeira, como tendem a ser as vendas de gás russo para a Europa. A Europa parece bastante desejosa de ser deixada de fora no frio, ao eleger políticos que simplesmente são comprados pelo dinheiro estado-unidense.

Esta é a chave inconfessada da diplomacia dos EUA: simplesmente subornar políticos, jornalistas, editores e outros. Enquanto o U.S. Treasury puder imprimir moeda sem limites, enquanto os bancos centrais do mundos estiverem desejosos de absorver estes IOUs dolarizados comprando títulos do Tesouro dos EUA para financiar gastos militares americanos destinados a cercá-los, a América está livre do constrangimento da balança de pagamentos e dívida externa que limita gastos militares de outros países.

Para se contrapor a isto, a Rússia, a China e outros países deveriam desenvolver um sistema monetário e de pagamentos alternativo ao US dólar, um sistema financeiro para substituir bancos dos EUA e, finalmente, o seu próprio banco de compensação através de uma alternativa ao SWIFT .

Se tiverem êxito nisto, os neoconservadores dos EUA terão exagerado na dose – e ironicamente terão consolidado uma força para o mundo pacífico, ao unirem o resto das economias, comércio, finanças e mesmo sistemas militares defensivos mundiais, para se protegerem da ameaça estado-unidense. Se tiverem êxito, esta ameaça recuará – mas a retirada estado-unidense provavelmente não será uma coisa bonita para se ver, nem tão pouco o colapso do seu sistema financeiro. O resto do mundo terá de se proteger do efeito colateral, culpabilizando estrangeiros.

The Saker: Apesar de todas as medonhas previsões acerca do futuro do dólar, os EUA continuam a criar dólares a partir do nada, países do mundo inteiro continuam a utilizar o dólar para o comércio, a dívida dos EUA ainda está em ascensão, os pobres tornam-se mais pobres, os ricos mais ricos e nada parece mudar muito embora na sua política externa os EUA andem de um fracasso para outro. Por quanto tempo isto pode continuar? Haverá um limite objectivo a partir do qual este sistema não possa continuar? Pode prever algum evento que forçara os EUA a desistir de ser um Império e tornar-se um país "regular" como tantos outros ex-impérios do passado?

Michael Hudson: Não há limite objectivo para até quando a Dependência do Dólar, a Deflação da Dívida e a Servidão da Dívida (Debt Peonage) possam continuar, a menos que as vítimas se oponham com êxito. A oligarquia credora de Roma deu lugar à Baixa Idade Média que perdurou aproximadamente um milénio.

A Hegemonia do Dólar será cancelada gradualmente quando estiver desenvolvido um veículo alternativo para manter reservas internacionais. Este é o objectivo do novo banco BRICS e do sistema de compensação monetária. O que é necessário agora é um sistema fiscal complementar e uma estratégia de investimento público e subsídio.

Ao invés de um "evento" que leve neocons dos EUA a desistirem dos seus objectivos, o processo provavelmente reflectirá o crash lento das economias ocidentais.

The Saker: A China e os EUA estão claramente numa rota de colisão política, senão militar. Contudo, muitos dizem que a China e os EUA estão demasiado profundamente dependentes um do outro para haver um conflito real. Estão os EUA e a China realmente num relacionamento simbiótico ou pode a China de algum modo desligar-se dos mercados estado-unidenses sem criar um colapso para a economia chinesa?

Michael Hudson: Não há dependência real, porque tanto a China como os Estados Unidos pretendem ser económica e militarmente independentes, de modo que não há uma queda na subserviência. O objectivo dos EUA, naturalmente, é tornar outros países financeiramente dependentes de si e dependentes também militarmente. Eis porque precisa alimentar a fornalha da guerra – como uma espécie de esquema de extorsão, para extorquir tributos financeiros, comerciais e de investimento e aprofundar a dependência dos seus "parceiros" comerciais.

A China e a América têm um relacionamento de comércio mútuo e investimento. Mas ele não é "simbiótico" porque pode ser terminado a qualquer momento sem realmente ameaçar a solvência e sobrevivência da outra parte.

A China já está a comutar a sua produção afastando-se dos mercados de exportação para o mercado interno. E em termos de política monetária, está a patrocinar complementaridade económica com os outros membros do BRICS, Irão, América do Sul e países africanos.

The Saker: Quando diz "China e América têm relacionamento de comércio mútuo e de investimento. Mas ele não é 'simbiótico' porque pode ser terminado a qualquer momento sem realmente ameaçar a solvência e sobrevivência da outra parte" podia por favor explicar porque não pensa que se, digamos, os EUA e a China tiverem de cortar seus laços económicos (Walmart & Co.) isso não prejudicaria gravemente ambas as economias? Será que a Walmart não é crucial para o sector de baixo rendimento da economia estado-unidense e para manter a inflação baixa e será que o rendimento gerado por estes "Walmarties" não é crucial para a China?

Michael Hudson: O que a China tem estado a fornecer à Walmart pode agora ser vendido no seu próspero mercado interno. A China não precisa de mais dólares. Na verdade, com os dólares adicionais que ela obtém a única coisa que pode fazer com segurança é emprestá-los ao Tesouro dos EUA, financiando o "Eixo da Ásia" ("Asia Pivot") dos militares estado-unidenses para cercar a China. (Isso porque o padrão U.S. Treasury-bill substituiu o padrão ouro.)

A Walmart, por outro lado, permanece dependente dos seus fornecedores chineses. Seus agentes de compra dão muito menos lucro para os chineses do que o que eles podem obter no seu próprio mercado e em outros mercados asiáticos.

The Saker: O modelo de capitalismo ocidental e a sua fórmula para a globalização estão a sofrer crítica não só da Rússia e da China mas de muitos outros países do mundo. Alguns dizem que a China desenvolveu um modelo alternativo de capitalismo de estado. Na América Latina, o "Socialismo Bolivariano" está em ascensão e no Médio Oriente a República Islâmica do Irão também oferece um modelo sócio-económico diferente. Como vê o futuro do sistema capitalista, com sua globalização, modelo bancário e financeiro, etc. Vê alguma alternativa viável a emergir ou o "Consenso de Washington" ainda é o único jogo a ser jogado?

Michael Hudson: A teoria económica clássica era uma doutrina de como industrializar e tornar-se mais competitivo – e, ao mesmo tempo, mais justo – levando os preços a alinharem-se com os custos de produção reais, socialmente necessários. A doutrina resultante (com Marx e Thorstein Veblen sendo os últimos grandes economistas clássicos) foi em grande medida um guia do que evitar: o privilégio especial, o rendimento não merecido, os encargos improdutivos.

O objectivo era criar um modelo de fluxo circular do rendimento nacional distinguindo a riqueza real do mero encargo improdutivo. A ideia era remover o que era desnecessário – o que Marx chamava as "excrecências" da sociedade pós feudal que permaneciam embebidas nas economias industriais do seu tempo. Quando os grandes economistas clássicos falavam de um "mercado livre" eles queriam dizer com isso um mercado livre de classes rentistas, livre de monopólios e acima de tudo livre do crédito banco predatório.

Naturalmente, sabemos agora que Marx foi demasiado optimista. Ele descreveu o destino do capitalismo industrial como sendo libertar as economias dos rentistas. Mas a I Guerra Mundial mudou a dinâmica da civilização ocidental. Os rentistas contra-atacaram – a Escola Austríaca, von Mises e Hayek, fascismo e os ideólogos da Universidade de Chicago redefiniram "mercados livres" para significar mercados livres para rentistas, livres da tributação do governo da terra e dos recursos naturais, livre da regulamentação pública dos preços e da supervisão pública. A Era da Reforma foi chamada "a estrada para a servidão" – e em sua substituição os neoliberais pós-clássicos promoveram a estrada actual da servidão da dívida.

A Guerra fria de hoje pode ser encarada nos seus aspectos intelectuais como uma tentativa de impedir países fora dos Estados Unidos de perceberem que (contra a Thatcher) há uma alternativa, e de nela actuar. A luta é pelo cérebro da economia e pelo entendimento por parte de governos. Só um governo forte tem o poder de alcançar as reformas que os reformadores do século XIX não conseguiram.

A alternativa é o que aconteceu quando Roma entrou em colapso [caindo] na servidão e no feudalismo.

The Saker: Quais são, na sua opinião, as principais consequências dos numerosos fracassos da política externa dos EUA para a sua economia?

Michael Hudson: Estrategas dos EUA muitas vezes comparam a sua geopolítica diplomática a um tabuleiro de xadrez. Isto pode ter um sentido do espaço geográfico – onde está o petróleo, onde estão outros recursos minerais, que países estão a ficar bastante fortes para serem independentes – mas a diplomacia resultante não é nada comparável a um jogo de xadrez. Pelo menos, não do modo como os Estados Unidos jogam o jogo.

Mas no xadrez, movem-se ambos os lados. A ideia é pensar à frente e antecipar a estratégia do oponente. A maior parte dos grandes mestres estuda os jogos dos seus oponentes e estão familiarizados com suas tácticas e objectivos quando se sentam para jogar.

Tal bilateralismo não caracteriza a política dos EUA. Recuando às décadas de 1940 e 1950, o Departamento de Estado foi esvaziado de peritos em China pelo senador Joe McCarthy. O expurgo foi conduzido sob o princípio de que a maior parte das pessoas que sabiam muito acerca da Chica era por serem muito simpáticas a ela e provavelmente com o comunismo.

O âmago da contradição aqui era que sem o entendimento dos objectivos políticos da China e de como pretendia alcançá-los, os diplomatas dos EUA estavam a operar no escuro. Naturalmente eles estenderam-se.

Avançando para os dias de hoje. Como o neocon Douglas Feith do Departamento de Estado observou, qualquer um familiar com a história árabe é encarado como suspeito, com a suposição de que ele deve ser simpático. Assim o apoio dos EUA a oligarcas petrolíferos da Arábia Saudita anda de mãos dadas com o anti-arabismo sionista. Quando Feith entrevistou um experiente arabista do Pentágono, Patrick Lang, para um emprego no Iraque após a invasão, Feith perguntou: "É realmente verdade que você realmente conhece bem os árabes que fala bem o árabe? Isso é mesmo verdade?", disse Lang, sim, era. "Isso é uma pena", disse Feith. [2] Não havia espaço para nem um grama de simpatia por "aquele povo". Lang não conseguiu o emprego.

Assim, é pouco surpreendente que o unilateralismo americano tenha conduzido a uma espécie de vácuo político. ("Nós fazemos a nossa própria realidade".) O resultado é a arrogância dando lugar à queda inevitável. É como conduzir a política externa de olhos vendados.

O principal fracasso da política externa dos EUA é portanto o da tragédia clássica: um viés trágico que provoca precisamente o efeito oposto do que é pretendido. Ou como colocava Marx, "contradições internas" e ironia.

A resposta à sua pergunta depende do que quer dizer com "política dos EUA". O que pode ser um desastre para a economia dos EUA pode não ser um desastre para os interesses especiais que ganharam o controle desta política. Os políticos estado-unidenses já não são mais eleitos pelos votantes mas pelos contribuidores das suas campanhas. O peso financeiro da Wall Street e, por trás delas, a indústria petrolífera bem como o sector imobiliário e o complexo militar-industrial tem beneficiado os 1%? Isso foi um êxito para eles – pelo menos no sentido de a política dos EUA reflectir o que os 1% querem. Foi um fracasso para os 99%, naturalmente. E nestes dias, os 1% podem ser de visão tão curta que os seus objectivos podem provocar o oposto do que pretendem. Isto incluiria o fracasso da América em entender a dinâmica das sociedades islâmicas no Oriente Próximo.

Se por "fracassos" quer dizer o dano que tem sido feito, eu classificaria como o mais grave a oposição da América a governos laicos nas terras islâmicas, levando às mais extremistas e literais leituras do Islão, culminando no waabismo saudita.

A viragem fatal começou em 1953 com o derrube estado-unidense do governo Mossadegh no Irão. A intenção era simplesmente proteger o petróleo britânico e americano, não apoiar o extremismo islâmico. Mas apoiar o Xá numa ditadura estilo latino-americana deixou só uma saída prática para a oposição: as mesquitas islâmicas e outros centros religiosos. Khomeini liderou o combate pela liberdade contra a ditadura do Xá, as câmaras de tortura e a subserviência à política externa dos EUA.

No Afeganistão, naturalmente, os EUA criaram a Al Qaeda e apoiaram Bin Laden para combater contra o regime laico apoiado pela Rússia Soviética. A história subsequente do envolvimento estado-unidense no Iraque, Síria, Líbano e alhures no Oriente Próximo tem sido de apoio ao waabismo saudita. E tem sido um desastre de qualquer ponto de vista.

Antropólogos têm condenado o ponto cego da política americana quanto às divisões étnicas e religiosas em acção – não só o antagonismo óbvio entre muçulmanos xiitas e sunitas, mas entre o nomadismo pastorício que era o contexto do extremismo waabita e para a doutrina anti-feminista. O Oriente Próximo tem sido dominado por xeques nos últimos quatro mil anos. Mas a política estado-unidense agrupa todo o Islão junto, perdendo estas divisões.

Sendo uma democracia, a América já não pode permitir-se uma guerra terrestre. Nenhum país democrático pode. Assim a única opção militar que está praticamente disponível é bombardear e destruir. Esta tem sido a política estado-unidense desde o Oriente Próximo até a antiga esfera soviética, desde a América Latina até a África no apoio a ditadores que seguirão a política externa dos EUA e das suas companhias mineiras, de petróleo e outras multinacionais.

A política externa dos EUA é simplesmente "Faça o que dizemos, privatize e venda a compradores estado-unidenses, e permita-lhes evitar que paguem impostos através de preços de transferência e truques de financiarização, ou nós o destruiremos como fizemos na Líbia, Iraque, Síria et al."

O resultado é unificar países estrangeiros numa resistência, obrigando-os a criar um caminho alternativo à hegemonia financeira estado-unidense. Se a América perseguisse uma política de benefício mútuo, outros países provavelmente teriam deixado a América ganhar dinheiro a partir deles, como parte de um ganho mútuo. Mas a posição dos EUA é agarrar tudo, não partilhar. Este egoísmo é o que há de mais auto-destrutivo em última análise.

12/Junho/2015

Notas
[1] Katy Burne, "ISDA: Greek Debt Restructuring Triggers CDS Payouts", Wall Street Journal , March 9, 2012.
[2] Steve Clemons, “Pat Lang & Lawrence Wilkerson Share Nightmare Encounters with Feith, Wolfowitz, and Tenet", washingtonnote.com/pat_lang_lawren/ , citando Jeff Stein, Congressional Quarterly,

[NR] Ver declarações de Christine Lagarde:   Ukraine to get new IMF loans despite inability to repay private lenders (Ucrânia pode obter novos empréstimos do FMI apesar da incapacidade de reembolsar prestamistas privados)


Ver também:
  • IMF Says It Will Continue Lending To Ukraine Even After A Default, And Why This Is Bad News For Greek Gold
  • Hacked Emails Expose George Soros As Ukraine Puppet-Master
  • Kiev Holds Talks With International Money Lenders: This Month is Decisive
  • Printing Press: Kiev’s Last Hope

    O original encontra-se em thesaker.is/the-saker-interviews-michael-hudson/ e em
    www.globalresearch.ca/economic-implications-of-ukraines-default/5455243 . Tradução de JF.


    Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 15/Jun/15