Implicações económicas do incumprimento da Ucrânia
por Michael Hudson
Entrevistado por The Saker
The Saker:
Temos ouvido que a Ucrânia terá de declarar um incumprimento
(default),
mas que provavelmente será um incumprimento "técnico"
e não um incumprimento oficial. Alguns dizem que a decisão do
Rada [parlamento] de permitir a Iatseniuk escolher a quem pagar já
é em si um "incumprimento técnico". Haverá uma
coisa tal como um "incumprimento técnico" e, em caso
afirmativo, como seria diferente em termos de consequências para a
Ucrânia de um incumprimento "regular"?
Michael Hudson:
Um incumprimento é um incumprimento. A tentativa do incumprimento
"técnico" tem origem nas reuniões do G8 em 2012
relativas à dívida grega. Geithner e Obama desavergonhadamente
fizeram lobby junto ao FMI e ao BCE a fim de salvar a Grécia, só
para que ela pudesse pagar possuidores de títulos, porque bancos dos EUA
haviam emitido credit default insurance (CDS) contra títulos gregos e
estavam em risco de uma grande perda se o incumprimento se verificasse. O BCE
sugeriu eufemizar o incumprimento como uma renegociação
"voluntária", pedindo a bancos e outros possuidores de
títulos que concordassem em cancelar parcialmente
(write down)
a dívida.
Mas segundo a organização internacional de possuidores de
títulos a International Swaps and Derivatives Associations (
ISDA
) incumprimentos de crédito podem ser disparados se uma
reestruturação de dívida for acordada entre "uma
autoridade governamental e um número suficiente de possuidores de tal
obrigação para comprometer
todos os possuidores", tornando-a obrigatória. De acordo com as
definições da ISDA: "Os eventos listados são:
redução na taxa de juro ou montante do pagável principal
(o que incluiria um "haircut"); adiamento do pagamento do juro ou
principal (o que incluiria uma extensão da maturidade de uma
obrigação pendente); subordinação da
obrigação; e mudança na divisa de pagamento para uma
divisa que não é moeda de curso legal num país G7 ou num
país da OCDE classificado como AAA".
[1]
Isto parece bem claro. Levar a ISDA a classificar o swap de um título
como um "evento de crédito" permite aos aceitantes
(holdouts)
arrecadarem o seguro de incumprimento das suas contrapartes. Há uma
espécie de seguro aqui, mas possuidores de títulos podem
então efectuar acções para apresar propriedades do governo
no exterior. Foi o que fez o fundo abutre de Paul Singer com a Argentina,
estabelecendo novo direito internacional que se aplicará à
Ucrânia.
Sob o direito das obrigações
(debt laws)
em Londres (onde a dívida da Rússia está registada), o
Parlamento teria de designar a Ucrânia como um país
HIPC
(tal como os países africanos que Singer perseguiu) para bloquear este
comportamento do credor. Não vejo o Parlamento a fazer isto para a
Ucrânia, pois a sua pobreza é auto-imposta pela guerra.
Se o FMI pretendesse afirmar que o empréstimo de US$3 mil milhões
da Rússia não é oficial, isto reescreveria o direito
internacional e significaria que empréstimos de fundos de Riqueza
Soberana de qualquer país (OPEP, Noruega, China, etc) não
têm protecção internacional. Uma tal duplicidade de
padrão fracturaria os mercados da dívida mundial de acordo com a
linha da Nova Guerra Fria com guerra financeira a substituir guerra
militar. Duvido que o mundo esteja pronto para esta opção
financeira "nuclear".
The Saker:
O Rada também aprovou uma lei permitindo ao governo apresar activos
russos na Ucrânia. Não estou seguro se se trata de activos do
Estado russo ou de privados/corporativos russos. O que seriam as
consequências económicas e legais de tais apresamentos de activos
se o governo avançasse com este plano? Poderia a Rússia tomar
medidas retaliatórias contra a Ucrânia ou recorrer a um tribunal
internacional?
Michael Hudson:
Seria um passo tão radical que está para além do direito
civil. Se a Ucrânia fizesse isto enquanto ainda está a receber
empréstimos do FMI
[NR]
, EUA e Canadá, seus credores poderiam ser considerados como
responsáveis. Moralmente é isso. A questão é, que
tribunais? É verdade que Israel concebeu esta excepção
étnica com árabes mas será que a Ucrânia quer
utilizar isso como justificação legal?
Quando Cuba ou outros países latino-americanos quiseram comprar
investimentos dos EUA pelo seu valor contabilístico
(book value)
declarado, o resultado foi sempre tentativas de golpe militar. Seria um acto
de guerra. A Rússia podia pedir reparações, naturalmente
mas a quem? Podia apresar activos ocidentais de países que apoiam
a junta de Kiev? Poderia responder nacionalizando haveres alemães e
franceses e observar a decorrente gritaria descansadamente?
The Saker:
O governo ucraniano deu-se ao trabalho de cortar tantos laços
económicos com a Rússia quanto possível. O Donbass foi
bombardeado e completamente alienado, todos os contratos de defesa com a
Rússia foram também cancelados, companhias russas são
excluídas de licitar contratos na Ucrânia, a Rússia foi
declarada um "país agressor", etc. Isto significa que por
enquanto a Ucrânia quer estar 100% dependente do Ocidente. Acredita que o
Ocidente (EUA+UE+FMI+BM+etc) tem a vontade e os meios para continuar a
emprestar dinheiro à Ucrânia ou para suportar o actual regime no
poder? Pode o governo dos EUA simplesmente imprimir dólares e
enviá-los para Poroshenko ou haverá limites materiais sobre
quanto o Ocidente pode fazer para suportar o regime actual? O que
acontecerá à Ucrânia se o Ocidente não puder
suportá-la, quão má espera que seja a crise
económica?
Michael Hudson:
O "Ocidente" não faz caridade. Suas firmas não querem
perder dinheiro e a Constituição da UE proíbe ao Banco
Central Europeu e contribuintes europeus financiarem governos estrangeiros.
Eles compram títulos do governo só a bancos e poucos
bancos possuem títulos ucranianos!
Futuros governos ucranianos poderiam repudiar transacções
económicas [efectuadas] sob a junta da mesma maneira como os Aliados
cancelaram dívidas internas da Alemanha em 1947/48 na reforma da divisa
sob a lógica de que a maior parte das dívidas era para com
antigos nazis. A actual cleptocracia ucraniana não é um
guarda-chuva muito seguro para patrocinar liquidações
privatizadoras e outras transacções económicas com o
Ocidente, apesar das esperanças de George Soros de adquirir terras e
infraestrutura. Mesmo a dívida da Ucrânia para com o FMI e outras
agências internacionais pode ser rejeitada como "dívidas
odiosas" que financiaram um governo em guerra contra a sua própria
população.
The Saker:
É geralmente aceite que a recessão da economia russa tem pouco
a ver com as sanções impostas contra ela e que resulta
principalmente da queda nos preços do petróleo. Acredita que isto
foi uma coincidência ou os EUA e os sauditas conspiram em conjunto para
derrubar o preço do barril como foi feito no fim da década de
1980 para levar a União Soviética ao crash? Para onde pensa que
vai o preço do petróleo no futuro próximo e a médio
prazo? Espera que o rublo ascenda outra vez?
Michael Hudson:
Não penso que a queda nos preços do petróleo fosse uma
conspiração para prejudicar a União Soviética.
Muitos modelos têm mostrado o papel da especulação
financeira para fazer subir os preços do petróleo (e os e outros
minerais, quando especuladores voltaram-se para
commodities
para fazer o que tinham estado a fazer com acções e
títulos durante anos). Os sauditas têm seus próprios
objectivos, tentar esmagar a competição estrangeira, incluindo o
shale oil.
Não vejo o preço do petróleo a subir muito, porque a
economia da Europa está a ser transformadas numa zona morta e a
deflação da dívida também está a contrair o
crescimento económico dos EUA.
Para o valor do rublo subir, a Rússia precisaria reindustrializar-se. A
revolução neoliberal após 1991 foi na verdade destinada a
desmantelar a indústria pós soviética, arrancá-la
pelas suas raízes. Operacionais do
HIID
e da AID compraram companhias russas que desempenhavam um potencial papel
militar chave e desmantelaram-nas.
Para reindustrializar-se, a Rússia precisa reduzir seu custo de vida, a
começar pela habitação. Precisa fazer o que os Estados
Unidos realmente fizeram para subsidiar sua indústria e também
sua agricultura: forte subsídio público ao subir custos
"externos", fornecer extensão agrícola e
serviços de investigação, apoios com preços, etc.
Talvez Putin possa convencer os principais oligarcas a "subirem a
escada". Eles podem manter sua riqueza, mas concordarão com um
imposto sobre a renda económica para impedir novas dádivas e o
rendimento não merecido de pesarem sobre a economia russa. Isto
incidirá pesadamente sobre as companhias compradas por investidores
estrangeiros, acabando com a drenagem de dividendos.
The Saker:
A sanção mais penosa contra a Rússia foi a recusa de
crédito a companhias russas. Poderiam os russos simplesmente
começar a tomar emprestado de, digamos, bancos chineses ou haverá
razões objectivas que impeçam a Rússia de fazer isso?
Estará a Rússia dependente de bancos ocidentais e, se estiver,
por quanto tempo? Poderia a Rússia desenvencilhar-se dos mercados
ocidentais e optar ao invés por se voltar para a Ásia,
América Latina e África?
Michael Hudson:
A Rússia obviamente precisa libertar-se inteiramente dos bancos
ocidentais. Ainda mais importante: ela não precisa do seu
crédito. (Veja como a China construiu a sua economia sem o
crédito da banca estrangeira!) A Rússia precisa de um banco
central real para financiar défices do governo e de uma banca
pública para conceder crédito em termos facilitados. O governo
pode criar crédito nos teclados dos seus computadores do mesmo modo como
os bancos comerciais o fazem nos seus teclados. Foi como a União
Soviética funcionou durante muitas décadas, afinal de contas.
Não há nenhuma necessidade de bancos ocidentais ou russos
financiarem défices orçamentais públicos. Há muitos
Teóricos Monetários Modernos (
Modern Monetary Theorists
, MMT) capazes de explicar como a Rússia pode fazer isto. É o
único meio de minimizar o custo de fazer negócio.
Se encargos financeiros do sector privado (do Ocidente, BRICS ou mesmo internos
russos) forem incluídos no custo de vida (habitação) e de
fazer negócio, será difícil para a Rússia ser
competitiva. Ela precisa fazer o que os EUA, Alemanha e China fizeram. Toda
economia com êxito na história foi uma economia mista. A
Rússia, ao invés, em 1991 oscilou de um extremo para outro ainda
pior de uma economia estatista para uma extrema economia Ayn
Rand/Hayek/Escola de Chicago, com consequências desastrosas como
se não conhecesse a história financeira ocidental ou, quanto a
isso, o Volume III do
Capital
de Marx e a sua
Teorias da Mais Valia.
A resposta mais eficaz seria a criação proactiva de
crédito para subsidiar a reindustrialização e a
modernização da agricultura.
The Saker:
Como avalia o desempenho do Banco Central Russo à
combinação de queda nos preços do petróleo e
sanções dos EUA+UE? Muitos, incluindo eu próprio,
éramos muito críticos das medidas adoptadas, mas a Rússia
desenvencilhou-se muito melhor do que o esperado e alguns estão mesmo a
prever um retorno ao crescimento antes do fim do ano. Será que Elvira
Nabiullina e seus colegas tomaram a decisão certa ao deixar o rublo
flutuar livremente?
Michael Hudson:
A Rússia deixou o rublo flutuar porque a alternativa teria sido
especuladores estrangeiros estilo Soros conspirarem e saquearem as reservas do
seu banco central num jogo de póquer financeiro. Bancos estrangeiros
teriam criado crédito suficiente para se empenharem em vendas a
descoberto
(short selling)
a fim de manipularem mercados e fazerem uma matança. A Rússia
não é competente neste jogo, parcialmente porque autoridades
monetárias da Rússia tiveram seus cérebros lavados pela
ideologia neoliberal, sem perceberem seu apadrinhamento anti-socialista,
anti-trabalho, pró bancos e pró rentistas.
The Saker:
Dentre as várias propostas que circulam na Rússia há
duas em particular que têm sido fortemente apoiadas: a
nacionalização do "independente" Banco Central e sua
subordinação ao governo russo e a criação de um
rublo plenamente convertível apoiado pelo ouro russo (alguns sugerem
apoiar o rublo pela "energia, isto é, petróleo e
gás). O que pensa destas propostas?
Michael Hudson:
Um banco central "independente" (tal como o Banco Central Europeu)
significa que este é controlado pelos banqueiros privados, impedindo os
governos de financiarem sua própria despesa e obrigando-os e a
economia como um todo a dependerem do crédito com juros da banca
privada comercial.
A Rússia precisa de um banco central real que sirva objectivos do
governo reindustrializar a economia e reconstruí-la sem os
pesados custos financeiros que no Ocidente inflacionaram custos habitacionais,
custos de infraestrutura, custos de educação e custo de vida.
O ouro pode realmente ser uma parte deste sistema para regularizar
desequilíbrios de pagamentos internacionais, não para apoiar a
divisa interna. Tornou-se claro na década de 1960 que nenhum país
pode participar de um padrão
gold exchange
e travar guerra. Foi a drenagem do ouro que forçou o US dólar a
abandoná-lo em 1971 como resultado directo do gasto militar
estado-unidense, o qual era responsável pela totalidade do défice
da balança de pagamentos dos EUA.
Sem ouro, os bancos centrais do mundo mudaram para Títulos do Tesouro
dos EUA
IOUs
do governo emitidos para financiar o défice orçamental que em
grande parte era de natureza militar. Isto significa que reservas
monetárias globais monetizaram gastos militares dos EUA para cercarem
estes mesmos países e os desestabilizarem se tentassem retirar-se do
sistema. (O meu livro
Super Imperialism
é acerca disso.)
O caminho mais fácil para travar o aventureirismo militar dos EUA
é restaurar o ouro e libertar o mundo de ter de utilizar o padrão
militarizado do U.S. Treasury-bill como sua base monetária.
The Saker:
Se tivesse a atenção unânime e o apoio de Vladimir Putin,
Dmitry Medvedev, Anton Siluanov e Elvira Nabiullina, que conselhos lhe daria?
Michael Hudson:
Eles precisam ver como os conselhos neoliberais dados pelo HIID e pelo Banco
Mundial depois de 1991 arruinaram a capacidade da sua economia para competir. A
privatização elevou o custo de vida e de fazer negócio. Os
EUA, Alemanha e outras economias industrializadas com êxito elevaram-se a
potências mundiais através de investimento forte em infraestrutura
pública para manter baixos os preços de necessidades
básicas: cuidados de saúde, educação,
pensões, transportes, comunicações, energia, água e
assim por diante.
Seus economistas, durante o século XIX e princípio do XX,
explicaram como a tributação do governo sobre a renda
económica renda da terra, renda de recursos naturais e renda de
monopólio (incluindo encargos financeiros dos bancos)
não
elevariam preços, mas seriam pagos
pela
renda económica. Em contraste, a tributação do trabalho e
mesmo do lucro não monopolistas provoca aumenta do custo de vida e de
fazer negócio. A Rússia foi persuadida a não tributar suas
rendas de recursos e rendas de monopólio, a fim de sobrar mais para
banqueiros e, no momento devido, para investidores estado-unidenses e europeus
a expensas do colector de impostos russo.
Se líderes russos em 1990 tivessem lido os Volume II e III do
Capital
de Marx e sua revisão das
Teorias da mais valia,
teriam visto como aqueles críticos do capitalismo industrial queriam
livrar-se dos restos do feudalismo.
O ponto que falta nas reformas económicas de hoje é aquilo em que
se centrava a teoria económica clássica, desde os fisiocratas
franceses até Adam Smith, John Stuart Mill, Marx e seus
contemporâneos: libertar economias industriais dos remanescentes
rentistas do feudalismo europeu. O foco da teoria clássica do valor e do
preço era libertar economias da renda económica, definida como
rendimento não merecido resultante simplesmente do privilégio:
renda da terra de absenteístas, renda de recursos minerais e naturais,
renda de monopólio e juros financeiros. O objectivo deveria ser impedir
actividades de extracção de renda definida como
transferência puramente predatória de pagamentos, uma actividade
improdutiva economicamente de soma zero.
A teoria clássica do valor-trabalho tinha como objectivo isolar aquelas
formas de rendimento (renda da terra, renda de monopólio e juro) que
eram socialmente desnecessárias e que foram simplesmente legados de
privilégios passados. A alternativa a meio caminho
era tributar a renda da terra e a renda de monopólio (Henry George, et
al.). A alternativa socialista era tomar para o domínio público
sector produtores de renda naturais.
A Europa fez isto com as principais empresas de utilidade pública
transportes, comunicações, correios, educação,
saúde pública e pensões. Os Estados Unidos privatizaram
estes sectores, mas criaram comissões reguladoras para manter os
preços em correspondência com o valor de custo básico.
(Temos que admitir que a captura do regulador sempre foi um problema,
especialmente quando se chega aos custos ferroviários.)
The Saker:
Rússia e China embarcaram no que acredito ser algo único na
história: dois ex impérios que tomaram a decisão
política de se tornarem mutuamente dependentes um do outro, criando de
facto um relacionamento simbiótico. Exemplo: a China decidiu basicamente
tornar-se completamente dependente da Rússia quanto a energia e
equipamento militar. A Rússia, por sua vez, espera que a economia
chinesa lhe permita diversificar e crescer. Eu argumentaria que em muitos
aspectos eles são perfeitamente complementares um do outro. Concorda com
esta avaliação? E como avaliaria o potencial da
colaboração económico-financeira destas duas
super-potências? Será que a Rússia e China podiam, em
conjunto, juntamente com os BRICS e a
SCO
criar uma nova economia e um novo mercado livre do dólar e independente?
Michaek Hudson:
Duas dinâmicas principais prevalecem. Em primeiro lugar, ao fazer
comércio, investimento e acordos monetários é importante
estar seguro de que serão a longo prazo. A América proporcionou
esta segurança a longo prazo para a Rússia e a China, deixando
claro que se opõe à ascensão de poder tanto da
Rússia como da China (bem como do Irão ou de qualquer outro actor
potencial).
Aqui está a segunda dinâmica: a estratégia "dividir e
conquistar" da América procura um potencial rival após o
outro. Com a junção de forças e ao estenderem a
Organização de Cooperação de Shangai de modo a
incluir o Irão e outros países obrigam os Estados Unidos a
travar uma guerra em pelo menos duas frentes se actuarem contra a Rússia
ou a China. Assim o seu relacionamento a longo prazo é segurança
mútua contra o único agressor provável.
O investimento de capital em gasodutos exige um longo período de
amortização, assim isto não pode estar sujeito a
interferência diplomática estrangeira, como tendem a ser as vendas
de gás russo para a Europa. A Europa parece bastante desejosa de ser
deixada de fora no frio, ao eleger políticos que simplesmente são
comprados pelo dinheiro estado-unidense.
Esta é a chave inconfessada da diplomacia dos EUA: simplesmente subornar
políticos, jornalistas, editores e outros. Enquanto o U.S. Treasury
puder imprimir moeda sem limites, enquanto os bancos centrais do mundos
estiverem desejosos de absorver estes IOUs dolarizados comprando títulos
do Tesouro dos EUA para financiar gastos militares americanos destinados a
cercá-los, a América está livre do constrangimento da
balança de pagamentos e dívida externa que limita gastos
militares de outros países.
Para se contrapor a isto, a Rússia, a China e outros países
deveriam desenvolver um sistema monetário e de pagamentos alternativo ao
US dólar, um sistema financeiro para substituir bancos dos EUA e,
finalmente, o seu próprio banco de compensação
através de uma alternativa ao
SWIFT
.
Se tiverem êxito nisto, os neoconservadores dos EUA terão
exagerado na dose e ironicamente terão consolidado uma
força para o mundo pacífico, ao unirem o resto das economias,
comércio, finanças e mesmo sistemas militares defensivos
mundiais, para se protegerem da ameaça estado-unidense. Se tiverem
êxito, esta ameaça recuará mas a retirada
estado-unidense provavelmente não será uma coisa bonita para se
ver, nem tão pouco o colapso do seu sistema financeiro. O resto do mundo
terá de se proteger do efeito colateral, culpabilizando estrangeiros.
The Saker:
Apesar de todas as medonhas previsões acerca do futuro do
dólar, os EUA continuam a criar dólares a partir do nada,
países do mundo inteiro continuam a utilizar o dólar para o
comércio, a dívida dos EUA ainda está em ascensão,
os pobres tornam-se mais pobres, os ricos mais ricos e nada parece mudar muito
embora na sua política externa os EUA andem de um fracasso para outro.
Por quanto tempo isto pode continuar? Haverá um limite objectivo a
partir do qual este sistema não possa continuar? Pode prever algum
evento que forçara os EUA a desistir de ser um Império e
tornar-se um país "regular" como tantos outros
ex-impérios do passado?
Michael Hudson:
Não há limite objectivo para até quando a
Dependência do Dólar, a Deflação da Dívida e
a Servidão da Dívida
(Debt Peonage)
possam continuar, a menos que as vítimas se oponham com êxito. A
oligarquia credora de Roma deu lugar à Baixa Idade Média que
perdurou aproximadamente um milénio.
A Hegemonia do Dólar será cancelada gradualmente quando estiver
desenvolvido um veículo alternativo para manter reservas internacionais.
Este é o objectivo do novo banco BRICS e do sistema de
compensação monetária. O que é necessário
agora é um sistema fiscal complementar e uma estratégia de
investimento público e subsídio.
Ao invés de um "evento" que leve neocons dos EUA a desistirem
dos seus objectivos, o processo provavelmente reflectirá o crash lento
das economias ocidentais.
The Saker:
A China e os EUA estão claramente numa rota de colisão
política, senão militar. Contudo, muitos dizem que a China e os
EUA estão demasiado profundamente dependentes um do outro para haver um
conflito real. Estão os EUA e a China realmente num relacionamento
simbiótico ou pode a China de algum modo desligar-se dos mercados
estado-unidenses sem criar um colapso para a economia chinesa?
Michael Hudson:
Não há dependência real, porque tanto a China como os
Estados Unidos pretendem ser económica e militarmente independentes, de
modo que não há uma queda na subserviência. O objectivo dos
EUA, naturalmente, é tornar outros países financeiramente
dependentes de si e dependentes também militarmente. Eis porque precisa
alimentar a fornalha da guerra como uma espécie de esquema de
extorsão, para extorquir tributos financeiros, comerciais e de
investimento e aprofundar a dependência dos seus "parceiros"
comerciais.
A China e a América têm um relacionamento de comércio
mútuo e investimento. Mas ele não é
"simbiótico" porque pode ser terminado a qualquer momento sem
realmente ameaçar a solvência e sobrevivência da outra parte.
A China já está a comutar a sua produção
afastando-se dos mercados de exportação para o mercado interno. E
em termos de política monetária, está a patrocinar
complementaridade económica com os outros membros do BRICS, Irão,
América do Sul e países africanos.
The Saker:
Quando diz "China e América têm relacionamento de
comércio mútuo e de investimento. Mas ele não é
'simbiótico' porque pode ser terminado a qualquer momento sem realmente
ameaçar a solvência e sobrevivência da outra parte"
podia por favor explicar porque não pensa que se, digamos, os EUA e a
China tiverem de cortar seus laços económicos (Walmart & Co.)
isso não prejudicaria gravemente ambas as economias? Será que a
Walmart não é crucial para o sector de baixo rendimento da
economia estado-unidense e para manter a inflação baixa e
será que o rendimento gerado por estes "Walmarties" não
é crucial para a China?
Michael Hudson:
O que a China tem estado a fornecer à Walmart pode agora ser vendido
no seu próspero mercado interno. A China não precisa de mais
dólares. Na verdade, com os dólares adicionais que ela
obtém a única coisa que pode fazer com segurança é
emprestá-los ao Tesouro dos EUA, financiando o "Eixo da
Ásia"
("Asia Pivot")
dos militares estado-unidenses para cercar a China. (Isso porque o
padrão U.S. Treasury-bill substituiu o padrão ouro.)
A Walmart, por outro lado, permanece dependente dos seus fornecedores chineses.
Seus agentes de compra dão muito menos lucro para os chineses do que o
que eles podem obter no seu próprio mercado e em outros mercados
asiáticos.
The Saker:
O modelo de capitalismo ocidental e a sua fórmula para a
globalização estão a sofrer crítica não
só da Rússia e da China mas de muitos outros países do
mundo. Alguns dizem que a China desenvolveu um modelo alternativo de
capitalismo de estado. Na América Latina, o "Socialismo
Bolivariano" está em ascensão e no Médio Oriente a
República Islâmica do Irão também oferece um modelo
sócio-económico diferente. Como vê o futuro do sistema
capitalista, com sua globalização, modelo bancário e
financeiro, etc. Vê alguma alternativa viável a emergir ou o
"Consenso de Washington" ainda é o único jogo a ser
jogado?
Michael Hudson:
A teoria económica clássica era uma doutrina de como
industrializar e tornar-se mais competitivo e, ao mesmo tempo, mais
justo levando os preços a alinharem-se com os custos de
produção reais, socialmente necessários. A doutrina
resultante (com Marx e
Thorstein Veblen
sendo os últimos grandes economistas clássicos) foi em grande
medida um guia do que evitar: o privilégio especial, o rendimento
não merecido, os encargos improdutivos.
O objectivo era criar um modelo de fluxo circular do rendimento nacional
distinguindo a riqueza real do mero encargo improdutivo. A ideia era remover o
que era desnecessário o que Marx chamava as
"excrecências" da sociedade pós feudal que permaneciam
embebidas nas economias industriais do seu tempo. Quando os grandes economistas
clássicos falavam de um "mercado livre" eles queriam dizer com
isso um mercado livre de classes rentistas, livre de monopólios e acima
de tudo livre do crédito banco predatório.
Naturalmente, sabemos agora que Marx foi demasiado optimista. Ele descreveu o
destino do capitalismo industrial como sendo libertar as economias dos
rentistas. Mas a I Guerra Mundial mudou a dinâmica da
civilização ocidental. Os rentistas contra-atacaram a
Escola Austríaca, von Mises e Hayek, fascismo e os ideólogos da
Universidade de Chicago redefiniram "mercados livres" para significar
mercados livres
para
rentistas, livres da tributação do governo da terra e dos
recursos naturais, livre da regulamentação pública dos
preços e da supervisão pública. A Era da Reforma foi
chamada "a estrada para a servidão" e em sua
substituição os neoliberais pós-clássicos
promoveram a estrada actual da servidão da dívida.
A Guerra fria de hoje pode ser encarada nos seus aspectos intelectuais como uma
tentativa de impedir países fora dos Estados Unidos de perceberem que
(contra a Thatcher) há uma alternativa, e de nela actuar. A luta
é pelo cérebro da economia e pelo entendimento por parte de
governos. Só um governo forte tem o poder de alcançar as reformas
que os reformadores do século XIX não conseguiram.
A alternativa é o que aconteceu quando Roma entrou em colapso [caindo]
na servidão e no feudalismo.
The Saker:
Quais são, na sua opinião, as principais consequências
dos numerosos fracassos da política externa dos EUA para a sua economia?
Michael Hudson:
Estrategas dos EUA muitas vezes comparam a sua geopolítica
diplomática a um tabuleiro de xadrez. Isto pode ter um sentido do
espaço geográfico onde está o petróleo, onde
estão outros recursos minerais, que países estão a ficar
bastante fortes para serem independentes mas a diplomacia resultante
não é nada comparável a um jogo de xadrez. Pelo menos,
não do modo como os Estados Unidos jogam o jogo.
Mas no xadrez, movem-se ambos os lados. A ideia é pensar à frente
e antecipar a estratégia do oponente. A maior parte dos grandes mestres
estuda os jogos dos seus oponentes e estão familiarizados com suas
tácticas e objectivos quando se sentam para jogar.
Tal bilateralismo não caracteriza a política dos EUA. Recuando
às décadas de 1940 e 1950, o Departamento de Estado foi esvaziado
de peritos em China pelo senador Joe McCarthy. O expurgo foi conduzido sob o
princípio de que a maior parte das pessoas que sabiam muito acerca da
Chica era por serem muito simpáticas a ela e provavelmente com o
comunismo.
O âmago da contradição aqui era que sem o entendimento dos
objectivos políticos da China e de como pretendia
alcançá-los, os diplomatas dos EUA estavam a operar no escuro.
Naturalmente eles estenderam-se.
Avançando para os dias de hoje. Como o neocon Douglas Feith do
Departamento de Estado observou, qualquer um familiar com a história
árabe é encarado como suspeito, com a suposição de
que ele deve ser simpático. Assim o apoio dos EUA a oligarcas
petrolíferos da Arábia Saudita anda de mãos dadas com o
anti-arabismo sionista. Quando Feith entrevistou um experiente arabista do
Pentágono, Patrick Lang, para um emprego no Iraque após a
invasão, Feith perguntou: "É realmente verdade que
você realmente conhece bem os árabes que fala bem o árabe?
Isso é mesmo verdade?", disse Lang, sim, era. "Isso é
uma pena", disse Feith.
[2]
Não havia espaço para nem um grama de simpatia por "aquele
povo". Lang não conseguiu o emprego.
Assim, é pouco surpreendente que o unilateralismo americano tenha
conduzido a uma espécie de vácuo político.
("Nós fazemos a nossa própria realidade".) O resultado
é a arrogância dando lugar à queda inevitável.
É como conduzir a política externa de olhos vendados.
O principal fracasso da política externa dos EUA é portanto o da
tragédia clássica: um viés trágico que provoca
precisamente o efeito oposto do que é pretendido. Ou como colocava Marx,
"contradições internas" e ironia.
A resposta à sua pergunta depende do que quer dizer com
"política dos EUA". O que pode ser um desastre para a economia
dos EUA pode não ser um desastre para os interesses especiais que
ganharam o controle desta política. Os políticos estado-unidenses
já não são mais eleitos pelos votantes mas pelos
contribuidores das suas campanhas. O peso financeiro da Wall Street e, por
trás delas, a indústria petrolífera bem como o sector
imobiliário e o complexo militar-industrial tem beneficiado os 1%? Isso
foi um êxito para eles pelo menos no sentido de a política
dos EUA reflectir o que os 1% querem. Foi um fracasso para os 99%,
naturalmente. E nestes dias, os 1% podem ser de visão tão curta
que os seus objectivos podem provocar o oposto do que pretendem. Isto incluiria
o fracasso da América em entender a dinâmica das sociedades
islâmicas no Oriente Próximo.
Se por "fracassos" quer dizer o dano que tem sido feito, eu
classificaria como o mais grave a oposição da América a
governos laicos nas terras islâmicas, levando às mais extremistas
e literais leituras do Islão, culminando no waabismo saudita.
A viragem fatal começou em 1953 com o derrube estado-unidense do governo
Mossadegh no Irão. A intenção era simplesmente proteger o
petróleo britânico e americano, não apoiar o extremismo
islâmico. Mas apoiar o Xá numa ditadura estilo latino-americana
deixou só uma saída prática para a oposição:
as mesquitas islâmicas e outros centros religiosos. Khomeini liderou o
combate pela liberdade contra a ditadura do Xá, as câmaras de
tortura e a subserviência à política externa dos EUA.
No Afeganistão, naturalmente, os EUA criaram a Al Qaeda e apoiaram Bin
Laden para combater contra o regime laico apoiado pela Rússia
Soviética. A história subsequente do envolvimento estado-unidense
no Iraque, Síria, Líbano e alhures no Oriente Próximo tem
sido de apoio ao waabismo saudita. E tem sido um desastre de qualquer ponto de
vista.
Antropólogos têm condenado o ponto cego da política
americana quanto às divisões étnicas e religiosas em
acção não só o antagonismo óbvio
entre muçulmanos xiitas e sunitas, mas entre o nomadismo
pastorício que era o contexto do extremismo waabita e para a doutrina
anti-feminista. O Oriente Próximo tem sido dominado por xeques nos
últimos quatro mil anos. Mas a política estado-unidense agrupa
todo o Islão junto, perdendo estas divisões.
Sendo uma democracia, a América já não pode permitir-se
uma guerra terrestre. Nenhum país democrático pode. Assim a
única opção militar que está praticamente
disponível é bombardear e destruir. Esta tem sido a
política estado-unidense desde o Oriente Próximo até a
antiga esfera soviética, desde a América Latina até a
África no apoio a ditadores que seguirão a política
externa dos EUA e das suas companhias mineiras, de petróleo e outras
multinacionais.
A política externa dos EUA é simplesmente "Faça o que
dizemos, privatize e venda a compradores estado-unidenses, e permita-lhes
evitar que paguem impostos através de preços de
transferência e truques de financiarização, ou nós o
destruiremos como fizemos na Líbia, Iraque, Síria et al."
O resultado é unificar países estrangeiros numa
resistência, obrigando-os a criar um caminho alternativo à
hegemonia financeira estado-unidense. Se a América perseguisse uma
política de benefício mútuo, outros países
provavelmente teriam deixado a América ganhar dinheiro a partir deles,
como parte de um ganho mútuo. Mas a posição dos EUA
é agarrar tudo, não partilhar. Este egoísmo é o que
há de mais auto-destrutivo em última análise.
12/Junho/2015
Notas
[1] Katy Burne, "ISDA: Greek Debt Restructuring Triggers CDS
Payouts",
Wall Street Journal
, March 9, 2012.
[2] Steve Clemons, Pat Lang & Lawrence Wilkerson Share Nightmare
Encounters with Feith, Wolfowitz, and Tenet",
washingtonnote.com/pat_lang_lawren/
, citando Jeff Stein, Congressional Quarterly,
[NR]
Ver declarações de Christine Lagarde:
Ukraine to get new IMF loans despite inability to repay private lenders
(Ucrânia pode obter novos empréstimos do FMI apesar da
incapacidade de reembolsar prestamistas privados)
Ver também:
IMF Says It Will Continue Lending To Ukraine Even After A Default, And Why This Is Bad News For Greek Gold
Hacked Emails Expose George Soros As Ukraine Puppet-Master
Kiev Holds Talks With International Money Lenders: This Month is Decisive
Printing Press: Kiev’s Last Hope
O original encontra-se em
thesaker.is/the-saker-interviews-michael-hudson/
e em
www.globalresearch.ca/economic-implications-of-ukraines-default/5455243
. Tradução de JF.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
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