O primeiro aniversário do início da guerra civil na Ucrânia

por Coronel Cassad

 
Ele pode fazê-lo odiar. Mas nós não queremos odiar. Queremos um entendimento fundamentado da criminalidade do fascismo e de como deveria ser contido. Devemos perceber que estes assassinatos são os gestos de um rufião, o grande rufião do fascismo. Só há um meio de vencer um rufião e este é abatê-lo...
(c) Hemingway

Exactamente um ano atrás começou uma guerra civil na Ucrânia. O povo estava a merecer mesmo antes do tiroteio em Kiev a 20 de Fevereiro, mas foi precisamente o dia 20 de Fevereiro ( colonelcassad.livejournal.com/1418551.html , em russo) que se tornou um marco após o qual os acontecimentos enveredaram na trilha que é fatal para a Ucrânia. O golpe, a desintegração do país e acção militar em grande escala, à qual seguiu-se o banho de sangue acabaram com o "caminho ucraniano rumo à Europa". Realmente, mesmo antes do golpe acontecido em 21 de Fevereiro, na noite de 20 de Fevereiro ficou claro ( colonelcassad.livejournal.com/1419873.html , em russo) que não há "planos brilhantes" e que se verifica uma catástrofe total do regime de Yanukovich, o qual empurrou a Ucrânia para o fundo juntamente consigo próprio.

Quanto a mim, pessoalmente, apesar de todo o meu cepticismo quanto aos contos eloquentes do "plano brilhante de Yanukovich", a princípio não pesei que o gorbachevismo ucraniano acabasse com uma guerra civil real estilo jugoslavo. Um entendimento completo foi alcançado por mim, pessoalmente, em 16 de Fevereiro, quando os fascistas publicamente sovaram os manifestantes pacíficos em Kiev. Naqueles dias escrevi ( colonelcassad.livejournal.com/1410828.html , em russo) acerca da guerra civil contra o fascismo, não imaginando que nos meses seguintes esta guerra deixaria de ser apenas uma figura de estilo.

O que pode um cidadão fazer quando está a enfrentar o fascismo no seu próprio país? Ele pode aceitá-lo e esperar sobreviver ao "tempo de perturbações" na esperança de que não o tocarão. Isto é uma ingénuo ilusão comum, a qual os cidadãos comuns alemães desfrutavam até o momento em que o fascismo trouxe às suas cidades não apenas não apenas as notícias felizes das frentes, as boas das terras subjugadas e dos escravos eslavos, mas também os fluxos de bombas que destruíram suas cidades e mataram mulheres e crianças – e no fim um colapso absoluto do estado e o desmembramento da Alemanha. De modo que aqueles que pretendem não participar são adormecidos na complacência – quando o fascismo se propaga, ele afecta a todos.

Quanto a isto é importante entender que convencer os fascistas de que eles estão errados é uma tarefa inútil e fútil. A força bruta, a qual é utilizada pelo fascismo, deve se contrabalançada pela força bruta – isto é, unidades semi-militarizadas, as quais devem ser criadas pelos comunistas e organizações anti-fascistas e também por aqueles cidadãos que entendem o que é fascismo e o que ele provoca. Estas unidades são necessárias porque o aparelho de segurança do incompleto estado ucraniano é incapaz de preencher os deveres elementares de suprimir o fascismo.

Naturalmente, levanta-se a questão da legalidade de tais acções porque os responsáveis utilizam uma mão para apoiar os fascistas e criar ao máximo um ambiente favorável para eles e utilizam a outra mão para bloquear quaisquer tentativas de auto-organização para combater a ameaça do fascismo. A este respeito é importante entender que, do ponto de vista do governo existente, a luta contra o fascismo é ilegal. Se você, ao ver a fraude das autoridades correntes que encorajam o fascismo, tentar criar uma estrutura para combater contra isso e dela participar, então é mais do que provável que esteja a cruzar a linha legal. Tal é a realidade ucraniana de hoje, sem enfeites.

E isto é uma escolha simples. Obedecer e limitar-se a manifestações pacíficas, onde os fascistas podem sovar civis com impunidade, ou seguir o exemplo dos que se opõem, a actuar no princípio do "recusar-se a ouvir".

Basta observar como os fascistas se comportam: se o Ministério Público proíbe algo, então eles fazem-no. Se o juiz proíbe seus comícios, eles fazem os comícios. Um ministro manda-os dispersar? Eles permanecem. Alguns dos militantes foram detidos? Eles aplicam uma pressão vigorosa e as autoridades deixam-nos ir. Todas estas acções são ilegais, mas elas funcionam. Até os anti-fascistas entenderão que ao permanecerem dentro das fronteiras da lei ucraniana eles desarmar-se-ão a si próprios frente aos fascistas, os civis serão duramente espancados, assim como quando eles atacaram os veteranos da Grande Guerra Patriótica em Lvov vários anos atrás, dando aos fascistas o pretexto para mofar da fraqueza e falta de valor dos anti-fascistas, os quais seriam bons só para comícios e para fugir de bastões e pontapés. E isto é uma fraqueza, a qual só os convence de que estão certos, de que isto é exactamente o meio para eles de alcançarem seus objectivos.

É tempo de nos livrarmos das ilusões de que a voz da razão será ouvida no tortuoso mundo do fascismo. O canto do "não deve haver guerra" já não funciona, porque o fascismo é guerra e não há meio de escapar.

Deve ser claramente entendido que não importa como acabará a crise actual e não importa quem se tornará presidente em 2015 – Yanukovich, Tymoshenko, Yatsenyuk, ou Klitschko, o próprio fascismo, o qual mostrou os seus dentes durante o Inverno de 2014 em Kiev, não irá embora; ele já se tornou um factor da realidade ucraniana e mais cedo ou mais tarde haverá uma guerra para a sua destruição. E quanto mais cedo o povo entender isto, mais baixo será o preço final que teremos de pagar no fim para a eliminação do fascismo ucraniano.

Quanto a isto, a guerra civil que começou após os sangrentos acontecimento na Ucrânia mostrou bem que só naqueles lugares onde o fascismo recebeu uma resposta armada a junta fascista fracassou em assegurar o seu poder. Isto mais uma vez mostra que espécie de linguagem é entendida pelo fascismo. Bem, quanto à utilização de exortações e compromissos com os fascistas, já vimos isso claramente ao longo do ano passado na Ucrânia, quando a próprio vida mostrou claramente a deficiência e as consequências sangrentas do tolstoismo ucraniano e do não-envolvimento. E mesmo a lenga-lenga do "não deve haver guerra", por trás da qual pessoas comuns se escondem, não funcionou – aquelas pessoas comuns que tentaram evitar a guerra contra o fascismo começaram simplesmente a ser conduzidas para a guerra como carne de canhão do fascismo ucraniano.

A questão de quem deve ser culpado do que aconteceu é agora bastante trivial.

Será que o regime Yanukovich queria sangue? Teria sido melhor se tivesse querido, o medo patológico de Yanukovich ao derramamento de sangue nas ruas transformou-se em correntes de caixões vindos do Donbass. Isto foi apenas clássico: a estrada do inferno ucraniano está pavimentada com boas intenções.

Será que a Rússia quis sangue? Bem, considerando o facto de que foi precisamente a Rússia que aconselhou Yanukovich a abster-se de utilizar a força ( www.youtube.com/watch?v=pH13Kl9VIHM ) e a negociar com a oposição pró-americana, enquanto dava crédito a Yanukovich (depois de a China e a UE os terem recusado), é difícil acusar a Rússia de que queria deitar abaixo o regime de Yanukovich, mergulhando o país numa guerra civil.

Será que a União Europeia queria sangue? Mais um não do que um sim. A covardia dos patrões europeus, que naqueles dias apostavam em Klitschko [1] (por mais ridículo que isto soe agora), foi mostrada claramente nas conversações descobertas da sra. Nuland [2] , onde a atitude de hegemonia global em direcção da Europa, a qual teme "tomar decisões difíceis", podia ser muito bem vista. A Europa apoiou o golpe, mas tentou fazê-lo de modo a enroscar a Rússia mas não a si própria, mas isto não aconteceu. E os actuais esforços da Merkel para travar os acontecimentos são como uma retribuição da sua cegueira política de Fevereiro-Março de 2014, quando a Europa arrastou-se para dentro de uma guerra que foi arranjada pelos EUA e não sabe mais como livrar-se dela.

Será que os EUA queriam sangue? Sim, eles quiseram. Foram precisamente os EUA que apoiaram os grupos mais extremistas da oposição ucraniana e foram precisamente eles que apostaram em pessoas como Yatsenyuk e o fascista vulgar Tyagnybok, o qual se tornou um dos carneiros que arruinou o regime Yanukovich. Foi precisamente o seu agente Nalivaychenko que supervisionou o trabalho de Yarosh e do "Right Sector", o qual tornou sangrenta a confrontação em Kiev. E os EUA não lamentam isto, muito pelo contrário, estão orgulhosos de terem ajudado a transição de poder na Ucrânia ( http://colonelcassad.livejournal.com/2025917.html , em russo) muito embora soubessem as suas consequências.

Será que a oposição ucraniana queria sangue? Considerando o facto de que os atiradores de elite (snipers) estavam a disparar do "lado da oposição" que os maiores benefícios do massacre sangrento na Ucrânia foi para as forças que constituíram a junta fascista, a resposta à pergunta de "Quem beneficia?" é bastante clara. Yanukovich não estava interessado em sangue e não importa quanto fosse dominado por Zakharchenko (n.b. Zakharchenko o ministro da Administração Interna, não Zakharchenko o presidente da República Popular de Donetsk, pelo amor de Deus) e Pshonka, os planos para arranjar um "Tiananmen de Kiev" permaneceram apenas isso – planos (realmente, para a Ucrânia é mais provável que a implementação destes planos acabasse por ser um benefício em comparação com o que aconteceu no fim). Mas este desejo de evitar o derramamento de sangue era unilateral. Os assassinos em Kiev, o disparo dos autocarros com "titushkys" [3] perto de Korsun e os subsequentes acontecimentos sangrentos que levaram a Odessa e Mariupol mostraram bem como o tolstoismo é impotente contra o fascismo, para o qual um massacre é um instrumento para atingir o objectivo a qualquer preço, pelo qual é possível matar tanto amigos como inimigos a fim de atingir o resultado necessário.

Será que os patrões da junta reconheceram a sua responsabilidade pelo banho de sangue no qual mergulharam a Ucrânia? Voluntariamente, nunca. Eles culparão Yanukovich, o Partido das Regiões, os comunistas, os residentes de Sebastopol, a polícia de motins "Berkut", os "titushky", a Rússia, Putin, "o povo urbano", Strelkov, os homens da milícia e muitos outros, mas nunca a eles próprios e aos seus patrões, que ajudaram "a transição de poder".

No aniversário de um golpe, o qual se seguiu ao massacre em Kiev, estas pessoas far-se-ão de desentendidas, cantarão loas às "centenas de anjos", amaldiçoarão "inimigos" que impedem o "futuro europeu", hipocritamente ignorarão naquilo em que transformaram a Ucrânia. A Ucrânia nunca foi um país próspero. Foi dominado por um regime semi-bandido dos "regionais", o qual era absolutamente corrupto e dificilmente compatível com as ideias do desenvolvimento e do progresso. Era um regime de parasitismo sobre os restos mortais do legado soviético e da extracção de receitas no interesse de um estreito grupo de pessoas. Mas quem esperaria que em apenas um ano este regime sórdido (pelo qual a maior parte do povo votou com base no princípio de que "estes bastardos são melhores do que aqueles bastardos"), vissem como "não tão mau", sobre o pano de fundo daqueles sangrentos e desprezíveis indivíduos que chegaram ao poder com slogans de combater o "regime criminoso de Yanukovich". Assassinos substituíram ladrões e responsáveis corruptos e esta diferença tornou-se bastante rapidamente clara para muitos residentes na Ucrânia. Mas, depois de perder o momento em que os assassinos podiam ser impedidos de tomar o poder, agora são forçados a viver no país dos "Euromaidan vitoriosos", o qual está densamente tingido de sangue.

O desejo objectivo de mudança na Ucrânia foi assim cinicamente utilizado pelos EUA e pelos patrões do "Euromaidan". No fim o povo da Ucrânia foi posto num caminho em que não há mais qualquer futuro positivo, assim como a própria Ucrânia não tem tal futuro. As esperanças e expectativas do povo foram transformadas num instrumento da guerra civil na Ucrânia e da guerra contra a Rússia. A divisão ucraniana, a qual existia antes, este tempo decorreu não apenas através de preferências eleitorais, políticas e sócio-culturais. A divisão passou através das famílias, dos laços de sangue e das relações de amizade, quando as mais odiosas características das guerras civis emergiram quando irmãos acabaram por estar em lados opostos. A Ucrânia sofrerá as consequências disto por décadas, mesmo depois de a guerra actual terminar, de um modo ou de outro.

[NR]
[1] Klitschko: Era um ex-campeão de box, o preferido da sra. Merkel na Ucrânia.
[2] Nuland: responsável do Departamento de Estado dos EUA, autora da frase "foda-se a Europa".
[3] Titushkys: bandidos


O original encontra-s em colonelcassad.livejournal.com/2054469.html (em russo) e a versão em inglês em cassad-eng.livejournal.com/122899.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
22/Fev/15