Da diferença entre rebelião e revolução

– "Ninguém se apercebeu da chegada de um movimento tão grandioso"

por Kemal Okuyan

Kemal Okuyan, foto de 2007. O chefe de redacção do diário SoL e membro do comité central do Partido Comunista da Turquia, Kemal Okuyan, respondeu a perguntas relacionadas com a luta do Parque Gezi que deu origem a um grandioso movimento. Okuyan esclareceu as questões actualmente debatidas, como: "Para onde vai a Turquia", "é uma situação revolucionária", "trata-se de uma 'primavera' turca"?

Era de esperar um movimento social desta amplitude?

Historicamente, os grandes movimentos sociais geralmente não se podem prever. Quando é possível prever quando um sistema atinge os seus limites, os actores em questão podem preparar-se em conformidade. Quer os resultados sejam positivos ou não, eles tentam controlar os resultados. Quando isso acontece, a ficção leva a melhor sobre o movimento. Não é possível avançar para alterar o equilíbrio das forças e, por conseguinte, um grande movimento social pode não dar em nada. Ninguém foi capaz de prever a dimensão do que estamos a viver neste momento. O governo não foi. A oposição oficial não pôde e a esquerda também não. Houve alguns sinais antecipados, houve quem percebesse que os acontecimentos iam atingir um ponto crítico, mas ninguém foi capaz de prever o que se passa neste momento. Isto é importante. O clima político e ideológico na Turquia é hoje muito diferente do que existia há 4-5 anos. Não totalmente diferente, mas a uma escala que não pode ser minimizada.

O que é que se esconde por detrás da importância e profundidade do movimento?

Se quer que lhe diga de modo nu e cru, é o culminar da reacção, ou mesmo do ódio, contra o governo AKP e, em especial, contra Erdoğan, que atingiu um nível incrível. Tínhamos plena consciência disso. Mas o que deixámos escapar, foi que este sentimento de ódio para com Erdoğan se foi solidificando, acumulando na mesma proporção em que Erdoğan se tornava cada vez mais arrogante e cristalizava a sua impunidade. Por outro lado, toda a gente encarava este ódio como um dado adquirido, mas que não tinha consequências práticas, ou dava a impressão disso. Mas o ódio é um sentimento que não se pode manter contido. Se encontrar um escape, liberta-se. Tayyip Erdoğan não pode sentir-se orgulhoso. Tornou-se o ponto de convergência de ódios, como raramente se conhece na história.

Por outras palavras, isso é assim tão simples, pode reduzir-se tudo à raiva contra Erdoğan?

Claro que não. Mas é preciso dar-lhe a importância que tem. Por exemplo, se não houvesse um personagem tão dominante como ele, digamos que fosse Abdullah Gül que estivesse à frente do AKP, o nível das reacções ter-se-ia mantido normal. Não leiam isto como se não houvesse aqui uma referência ideológica. Erdoğan é um catalisador com um efeito desmultiplicador. Mas o movimento está a tentar ajustar contas com as características fundamentais da mentalidade que o AKP encarnou… com excepção da base de classe… O reaccionarismo e a colaboração de classe têm sido o pano de fundo ideológico e Erdoğan colocou-se em primeiro plano. O primeiro-ministro disse: "Não se trata de uma questão de árvores"… Não posso acreditar que ele tenha dito isso… Afinal de contas, já não se trata de árvores ou do parque Gezi. Isso foi a última gota! Ele não percebe o nível de raiva e de ódio que suscitou.

O traço dominante do AKP é a sua adopção da economia de mercado… qual é a ligação com os acontecimentos?

Bem, não podemos fugir à questão, dizendo simplesmente que se trata de uma reacção da classe média. Se a reacção da classe média atingiu um nível destes na Turquia, devemos começar a pensar noutras coisas. Ok, existe um carácter de classe média em tudo isto, mas tem havido uma grande mobilização nos bairros da classe trabalhadora, em especial em Istambul e em Ancara. Se esquecermos tudo o que aprendemos e adoptarmos um raciocínio superficial, cometeremos erros. Em primeiro lugar, o impacto político ideológico, tanto em termos da ideologia burguesa como da socialista, tem que ultrapassar o obstáculo da classe média. A luta pela hegemonia tem que ser levada muito a sério. Seria um erro grosseiro pôr etiquetas neste vasto campo segundo a nossa vontade. A esquerda desprezou durante anos as camadas médias, classificando-as de "turcos brancos"… O rigor ideológico é importante, mas também a sensibilidade de classe. Mas também devemos evitar qualquer simplificação excessiva. Em segundo lugar, está a estrutura da classe operária na Turquia. Há obstáculos para organizar no local de trabalho a massa de trabalhadores

Isso é assim tão inocente ou há planos "mais profundos" neste movimento?

Alguns meios de comunicação predominantes pretendem que foram mobilizadas forças mal intencionadas para um levantamento organizado. Se fosse esse o caso, o resultado teria sido muito diferente. Podem estar descansados. Trata-se apenas de uma explosão de raiva. Claro que os actores políticos que partilham desta raiva puderam encaixar-se facilmente nesta raiva geral e avançaram nos sectores onde já tinham ligações ou onde já estavam organizados. Mas isso não pode ser exagerado. Os teóricos da conspiração devem ir procurar noutro sítio. E, mais exactamente, no meio deles mesmos.

É muito claro que, a partir de certa altura, há uma tentativa de dar a volta, de manter a política de Tayyip Erdoğan. Os Estados Unidos, por diversas razões, a seita de Fethullah Gülen por outras razões. Tanto no plano da política interna como externa, estão a tentar tornar Erdoğan controlável novamente.

Erdoğan é uma pessoa que não percebe as coisas facilmente… Tem dificuldade em manter uma linha coerente. Houve o incidente de Reyhanli [NT] , mas isso não bastou. Sobre a questão do parque Gezi, os Estados Unidos, o grande capital e a seita de Gülen, deixaram-no vulnerável e sem defesa, mostrando-lhe as consequências da questão de Reyhanli. Não sei bem se ele entendeu. Na semana passada, foi constantemente referido o nome de Sarýgül como candidato à presidência do município de Istambul (Sarýgül é o prefeito de um bairro de Istambul, um social-democrata com fortes laços com alguns sectores da classe capitalista). A nova relação entre o CHP (principal partido da oposição) e a seita de Gülen é sistematicamente referida nos "meios de comunicação sociais".

Podemos falar de uma "primavera turca"?

A referência a uma "primavera turca" nos meios de comunicação imperialistas é uma mensagem para Erdoğan. Em última análise, estão satisfeitos com Erdoğan e não tencionam substituí-lo mas fazem-lhe lembrar os seus limites. Depois dos últimos acontecimentos, a política de Erdoğan quanto à Síria e ao Iraque tem que mudar. Penso que a sua aventura presidencial também está a chegar ao fim. Uma das possibilidades é que a relação entre Erdoğan e a seita de Gülen comece a melhorar e que, fazendo uma frente ideológica e política contra a reacção social que surgiu, passem a trabalhar juntos… Claro que isso levará o seu tempo. Por outro lado, a cólera de Erdoğan pode durar mais tempo e pode reagir à seita de Gülen. Isso daria resultados interessantes. Mas não podemos esperar que Erdoğan aja como um político racional, já que um Erdoğan derrotado não é útil para ninguém.

É esse o significado histórico dos acontecimentos?

De modo algum… Não se deve denegrir este movimento. É um levantamento popular. As pessoas estão encolerizadas. Os que subestimarem a oposição a Erdoğan e ao AKP devem começar a repensar a sua visão das coisas. Os que pensam que haverá paz e democratização com Erdoğan devem fazer o mesmo. Todos os seus planos fracassaram. Não ligam à análise. É um movimento social. Certas forças políticas tentam utilizar este movimento, não para construir um novo futuro, mas apenas para intimidar o governo. Mas isto não acaba aqui. Estes acontecimentos contribuíram para o movimento popular organizado. Não apoiaram Erdoğan, para evitar que a raiva caia sobre eles. Foram muito cautelosos. Até utilizaram alguns truques. Por exemplo, a brutalidade desenfreada da polícia…

A esquerda turca estava preparada?

É sempre controverso o significado de esquerda na Turquia. Certos grupos esquerdistas não têm preocupações políticas. Outros grupos não estão interessados ou menosprezam os acontecimentos. Não queria falar muito neles. As forças políticas que têm preocupações políticas sérias não estavam preparadas para assumir a direcção dos acontecimentos. Mas este movimento não é estranho à esquerda. Como já disse em inúmeras locais, a esquerda organizada liderou o movimento popular. Há quem não esteja satisfeito com a intervenção da esquerda. As identidades políticas, as bandeiras ou pendões de partidos incomodam-nos…

Não é de surpreender, se considerarmos a espontaneidade do movimento. Por outro lado, na maior parte das cidades, a população exige a coordenação de uma organização… Se tomarmos em consideração a dimensão dos acontecimentos, a contribuição directa da esquerda organizada é limitada mas a determinação da população depende das forças de esquerda. Também há um ego intelectual alérgico à ideia de uma esquerda organizada. Querem monopolizar a cena. Não os levamos a sério. Temos intelectuais honestos que opõem resistência a este governo. A esquerda deve apoiá-los, mas não aos que são hostis às políticas de esquerda e à ideia de uma organização política.

Há dois outros elementos neste movimento: os adeptos do futebol e o álcool…?

A participação dos adeptos do futebol deu energia ao movimento. Mas isso deve ser analisado em conjunto com outros factores… Esta energia causou alguns problemas. A prática dos insultos e dos palavrões em manifestações políticas, que não tem sido habitual na Turquia, pode ser dada como exemplo desses problemas. Observei com os meus próprios olhos: as nossas amigas que criticam alguns dos nossos textos ou artigos de jornal por serem portadores de um "discurso masculino", gritavam injúrias sexistas. Claro que isso pode explicar-se pela amplitude da cólera mas o movimento socialista deve impor a sua cultura própria.

O mesmo quanto à questão do álcool … Como Erdoğan está a tentar proibir as bebidas alcoólicas, o álcool tornou-se um símbolo de liberdade. Mas isso tem que ser politizado. Não podemos lutar contra a opressão com garrafas de cerveja na mão. É por isso que acho que a decisão do PCT de não beber bebidas alcoólicas durante as manifestações é muito importante.

Como definir estes incidentes? Trata-se de uma crise revolucionária?

Não. Claro que é uma explosão de uma enorme energia social. É um movimento poderoso, nas suas dimensões e consequências. Mas há certos critérios marxistas para definir uma crise revolucionária. Estamos longe disso. Pelo menos, de momento…

[NT] Reyhanli, na zona Sul da província de Hatay, na fronteira síria, assistiu a uma enorme tragédia a 11 de Maio de 2013 quando dois carros explodiram na sua área central, provocando mais de 50 mortos.

O original encontra-se em solidarite-internationale-pcf.over-blog.net/... . Tradução de Margarida Ferreira.


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
11/Jun/13