"Os EUA combaterão pelo Donbass até ao último ucraniano"

por Leonid Reshetnikov [*]

Leonid Reshetnikov.

Na periferia a Norte de Moscovo, sob a protecção confiável das tropas do interior, esconde-se o antigamente secreto Instituto do Serviço de Inteligência Estrangeira. Agora, as letras douradas "Instituto Russo de Estudos Estratégicos" estão afixadas à entrada. Mas o nome pacífico não confunde aqueles que estão a par – mais de 200 funcionários forjam aqui o escudo analítico da Mãe Pátria. Haverá uma nova guerra no Sudeste da Ucrânia? Quem está por trás do presidente dos EUA? Por que tantos entre os nossos responsáveis podem ser chamados de agentes ideológicos de influência? Estas e outras perguntas de "AN" foram respondidas pelo director do RISS, o tenente-general na reserva Leonid Reshetnikov.

Rivais do mesmo campo

– Você já teve um "tecto" sério, o SVR . Por que é que eles subitamente o desclassificaram?


– Na verdade, éramos um instituto fechado de inteligência estrangeira, o qual era especializado sobretudo em analisar a informação disponível no exterior próximo e remoto. Ou seja, a informação que não só é necessária ao serviço de inteligência como também às estruturas que determinam a política externa do país. Por incrível que pareça, não havia centros analíticos semelhantes na administração presidencial (AP) russa. Muito embora houvesse grande quantidade de "instituições" nas quais há apenas o director, a secretária e a esposa do director que trabalha como analista. À AP faltava especialistas sérios e assim o serviço de inteligência tinha de ser compartilhado.

Hoje o nosso fundador é o presidente da Rússia e todos os pedidos de investigação do governo são assinados pelo chefe da administração, Sergey Ivanov.

– Quantos pedem as vossas análises? Pois somos um país do papel: toda a gente escreve, escreve um bocado – mas será que isso influencia o resultado final?

– Por vezes vemos acções que reflectem nossos documentos analíticos. Algumas vezes é impressionante quando se avançam certas ideias e elas se transformam numa tendência da opinião pública russa. É claro que nessa altura muitas orientações estão maduras para serem prosseguidas.

– Algo semelhante é feito nos EUA pelo centro analítico Stratfor e pelo centro de investigação estratégica Rand Corporation. Qual deles é o melhor?

– Quando, após a transição para a AP, em Abril de 2009, elaborámos o novo estatuto do Instituto, sugeriram-nos que utilizássemos o seu exemplo. Pensei então: "se nos financiarem como o Stratfor ou a Rand Corporation são financiados, então bateremos todas estas companhias analíticas estrangeiras". Porque os analistas russos são os mais fortes do mundo. Especialmente especialistas regionais, os quais têm cérebros mais "frescos", não contaminados. Posso falar acerca disto confidencialmente, ao cabo de 33 anos de experiência de trabalho analítico. A princípio no Primeiro Directório Principal do KGB da URSS e depois no Serviço de Inteligência Estrangeira (SVR).

ONGs, ONGs, onde nos levam

– É bem sabido que a Rand Corporation desenvolveu para a Ucrânia o plano Anti-Terrorist Operation (ATO) no Sudeste do país. O seu Instituto informou acerca da Ucrânia e, em particular, acerca da Crimeia?

– Naturalmente. A princípio, apenas dois institutos estavam dedicados à Ucrânia: o IRSS e o Instituto dos Países CIS de Konstantin Zatulin. Desde o início do nosso trabalho escrevemos documentos analíticos sobre o crescimento do sentimento anti-russo na Ucrânia e sobre o fortalecimento do sentimento pró-russo na Crimeia. Analisámos as acções das autoridades ucranianas. Mas sem informação alarmista de que tudo estava perdido, ao invés chamámos a atenção para o crescimento do problema.

Propusemos intensificar significativamente o trabalho de organizações não governamentais (ONGs) pró-russas, intensificar, como eles dizem agora, a pressão através da política do "soft power".

– Com um embaixador como Zurabov não precisamos de quaisquer inimigos!

– O trabalho de qualquer embaixada e de qualquer embaixador está sujeito a um certo número de limitações. Um passo para o lado – e há um escândalo. Mais, há um enorme problema com pessoal profissional no país. E não apenas no campo da diplomacia. De certo modo esgotamos os stocks – muito poucas pessoas com um foco forte permanecem ao serviço do governo.

É difícil super-estimar o papel das ONGs. As revoluções coloridas são um exemplo claro e elas são acalentadas primariamente pelas organizações americanas. Isto aconteceu também na Ucrânia. Infelizmente, não foi de facto dada atenção à criação e ao apoio de tais organizações que actuariam conforme os nossos interesses. E se elas funcionassem, então poderiam substituir dez embaixadas e dez embaixadores, mesmo aqueles muito talentosos. Agora a situação começou a mudar, a seguir a uma ordem directa do presidente. Esperemos que os subordinados não enfraqueçam este desenvolvimento.

Se haverá guerra amanhã

– Como pensa que os acontecimentos na Novorússia se desenvolverão na Primavera e Verão próximos? Será que haverá uma nova campanha militar?

– Infelizmente, a probabilidade é muito alta. Apenas há um ano atrás, a ideia de federalizar a Ucrânia podia funcionar. Mas agora Kiev só precisa da guerra. Só um estado unitário. Por várias razões. A principal é que o país é agora dirigido por pessoas ideologicamente anti-russas, as quais não são simplesmente subordinadas a Washington, mas realmente estão compradas e são pagas por aquelas forças que se ocultam por trás do governo dos EUA.

– E o que é que este notório "governo mundial" precisa?

– É mais fácil dizer o que eles não precisam: eles não precisam de uma Ucrânia federal, pois tal território seria difícil de controlar. Será impossível instalar ali suas bases militares, um novo escalão ABM . E tais planos existem. A partir de Lugansk e Kharkov, mísseis tácticos de cruzeiro podem alcançar até atrás dos Urais, onde estão localizadas nossas principais forças de dissuasão nuclear. E eles podem atingir mísseis baseados em silos e em veículos rodoviários durante a trajectória de ascensão com uma probabilidade de 100%. Actualmente esta área não é atingível por eles nem a partir da Polónia nem da Turquia nem do Sudeste da Ásia. Isto é o objectivo principal. Assim, os EUA combaterão pelo Donbass até ao último ucraniano.

– Então o que está em causa não são as reservas de gás de xisto que foram descobertas neste território?

– O seu objectivo estratégico principal é uma Ucrânia unitária sob seu pleno controle para combater a Rússia. E o gás de xisto ou terras aráveis são apenas um bónus agradável. Ganho colateral. Mais um grave ataque ao nosso complexo industrial e militar (CIM) devido ao corte das ligações entre o CIM da Ucrânia e o da Rússia. Isto já foi cumprido.

– Fomos ultrapassados: o "filho da puta" do Yanukovich teve de ser evacuado com a ajuda dos Spetsnaz e Washington instalou os seus próprios "filhos da puta"?

– Do ponto de vista estratégico-militar, fomos certamente ultrapassados. A Rússia obteve uma "compensação" – a Crimeia. Há outra "compensação" – a resistência dos residentes no Sudeste da Ucrânia. Mas o inimigo já obteve um enorme território, o qual era parte da União Soviética e do Império Russo.

– O que é que vamos ver na Ucrânia este ano?

– O processo de semi-desintegração ou mesmo absoluta desintegração. Muitos ainda estão silenciosos face ao genuíno nazismo. Mas as pessoas que entendem que a Ucrânia e a Rússia estão fortemente conectadas ainda não disseram a última palavra. Nem em Odessa, nem em Kharkov, nem em Zaporozhye e nem em Chernigov. Este silêncio não é eterno. E a tampa deste caldeirão inevitavelmente explodirá (blown away).

– E como se desenvolverão as relações entre a Novorússia e o resto da Ucrânia?

– A Transnítria é um cenário de baixa probabilidade. Mas não acredito nisto – o território da República Popular de Donetsk (RPD) e República Popular de Lugansk (RPL) é muito maior, milhões de pessoas já foram sugadas para dentro desta guerra. Por agora a Rússia ainda pode convencer os líderes da milícia a empenharem-se numa pausa e trégua temporária. Mas exactamente isso – temporária. Não há que falar mais acerca do retorno da Novorússia para dentro da Ucrânia. O povo do Sudeste não quer ser ucraniano.

– Então, se o nosso país acabou isolado globalmente devido à reunificação com a Crimeia, porque não avançarmos com tudo para o Sudeste? Quanta hipocrisia pode haver aí?

– Penso que ainda é demasiado cedo para avançarmos com tudo. Subestimámos o grau de consciência do nosso presidente, o qual sabe que há certos processos na Europa que não são claramente visíveis para observadores externos. Estes processos dão esperança de que seremos capazes de proteger nossos interesses utilizando diferentes métodos e meios.

Uma frente sem uma linha de frente

– No fluxo de informação associado à Ucrânia esquecemos o crescimento explosivo do extremismo religioso na Ásia Central...

– Isto é uma tendência extremamente perigosa para o nosso país. A situação no Tajiquistão é muito difícil. A situação no Quirguistão é instável. Mas o Turquemenistão pode-se tornar a direcção do primeiro ataque, tal como escreveu "AN". De certo modo esquecemos um pouco acerca disto, porque Ashkhabad posiciona-se um tanto solitária. Mas esta "mansão" pode entrar em colapso em primeiro lugar. Será que eles têm força suficiente para se defenderem? Ou será que interviremos num pais que está a grande distância de nós? Assim, isto é uma decisão difícil.

E não só devido aos militantes do "Estado Islâmico" a penetrarem na região. De acordo com os últimos dados, os EUA e a NATO não estão a abandonar o Afeganistão e vão manter as suas bases ali. Do ponto de vista militar, cinco ou dez mil soldados que lá permaneçam podem ser desdobrados num grupo de 50 a 100 mil dentro de um mês.

Isto faz parte do plano geral de cercar e pressionar a Rússia, o qual é implementado pelos EUA com o objectivo de depor o presidente Vladimir Putin e dividir o país. Um típico leigo pode, naturalmente, não acreditar nisto. Mas pessoas com acesso a um grande volume de informação sabem disto muito bem.

– Quais os limites que tentarão fracturar?

– Primeiro eles planeiam simplesmente arrancar o que é "fácil". Não lhes importa o que se separará: Calinigrado, o Cáucaso Norte ou o Extremo Oriente. Isto servirá como o detonador de um processo que se pode intensificar. Isto não é um fantasma propagandístico – é uma ideia real. Tal pressão do Ocidente (Ucrânia) e do Sul (Ásia Central) só crescerá. Eles estão a tentar penetrar através dos portões ocidentais, mas também experimentarão os do Sul.

– Qual a direcção estratégica mais perigosa para nós?

– A direcção Sul é muito perigosa. Mas por agora os estados tampão (buffer states), as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, ainda funcionam. E no Ocidente a guerra já está na fronteira. Efectivamente, no nosso território.

O que vem aí não é o banho de sangue de ucranianos e russos, mas antes uma guerra de sistemas globais. Alguns pensam que estão no fim da Europa, outros que estão na Rússia. Porque o nosso país não é apenas um território. É uma enorme civilização separada, a qual tem a sua própria visão da ordem global no mundo todo. Primariamente, naturalmente, há o Império Russo como exemplo da civilização ortodoxa oriental. Os bolcheviques destruíram-na, mas eles avançaram com uma nova ideia civilizacional. Uma terceira está agora muito próxima. E veremos isso dentro de cinco a seis anos.

– O que será?

– Penso que será uma simbiose decente das anteriores. E nossos "colegas jurados" entendem isto perfeitamente. Eis porque começou o ataque de todos os lados.

– Ou seja, o combate conjunto russo-americano contra o terror, em particular contra o ISIS, é uma ficção?

– Naturalmente. A América cria terroristas, alimenta-os, treina-os e então dá uma ordem a toda a matilha: "apanhem". Talvez eles possam abater um "cão raivoso" na matilha, mas os outros cães serão incitados ainda mais activamente.

O diabo dirige o baile

– Leonid Petrovich, você pensa que os EUA e os presidentes americanos são apenas um instrumento. Então quem é que determina a sua política?

– Há comunidades de pessoas que são de facto desconhecidas do público, as quais não só determinam os presidentes americanos como também determinam as regras para a totalidade do "grande jogo". Em particular, são as corporações financeiras transnacionais. Mas não apenas elas.

Actualmente há um processo em andamento de reformatação do sistema financeiro e económico do mundo. Claramente, há uma tentativa de repensar a estrutura total do capitalismo sem rejeitá-lo. A política externa está sujeita a mudança rápida. Os EUA subitamente abandonaram de facto Israel – seu principal aliado no Médio Oriente – a bem das boas relações com o Irão. Será isto porque agora Teerão é mais valiosa e mais importante do que Tel Aviv? É porque está entre os países em torno da Rússia. Estas forças encobertas estabeleceram o objectivo de liquidar nosso país como actor sério na cena global. Porque a Rússia é uma alternativa civilizacional para todo o Ocidente.

Além disso, há um crescimento explosivo de sentimento anti-americano no mundo. A Hungria, onde há forças conservadoras de direita no poder, e a Grécia, onde há as de esquerda, forças opostas, estão de facto unidas e protestam contra os ditames dos EUA na Europa. Há também os que podem protestar na Itália, Áustria, França e assim por diante. Se a Rússia agora mantiver seu terreno, então processos que não são benéficos para as forças que pretendem a dominação global começarão na Europa. E estas forças entendem isto perfeitamente.

– Alguns líderes europeus já lamuriam que os EUA de facto lhes impuseram sanções. A Europa pode escapar ao "amistoso" abraço americano?

– Nunca. A América segura-a firmemente com várias cadeias:  as impressoras do Federal Reserve, a ameaça de revoluções coloridas e a da eliminação física de políticos indesejados.

– Não está a exagerar na menção à eliminação física?

– De modo nenhum. A Central Intelligence Agency dos EUA, nos termos das suas funções, não é sequer um serviço de inteligência. A KGB ou o SVR da Federação Russa são serviços de inteligência clássicos: reúnem informação e relatam-na para a liderança do país. Na CIA, estas características tradicionais de um serviço de inteligência estão no fim da lista das suas tarefas. Os principais objectivos são:   eliminações, as quais incluem eliminação física, de políticos e a organização de golpes. E eles fazem isso em tempo real.

Após a perda do submarino "Kursk" , o director da CIA, George Tenet, visitou-nos. Pediram-me que o fosse receber no aeroporto. Tenet demorou para sair do avião, mas o aparelho estava aberto de modo que pude dar uma olhadela para dentro do seu "Hercules". Aquilo era um posto de comando voador, um centro computacional operativo, estava cheio de equipamentos e sistemas de comunicações que podem rastrear e modelar a situação no mundo todo. A delegação acompanhante era de 20 pessoas. Quanto a nós, voamos em voos regulares, em equipes de 2-5 pessoas. Você pode sentir a diferença, por assim dizer.

– A propósito, acerca de inteligência. Há outra vez conversas acerca da ideia de restaurar o serviço de inteligência russo unindo o SVR e o FSB. O que pensa acerca disto?

– Considero muito negativo. Se combinarmos os dois serviços especiais – o de inteligência externa e o de contra-inteligência – então criaremos um único para a mais alta liderança do país. Então, a pessoa que tem assento nesta "origem da informação" torna-se um monopolista. E pode manipulá-la para alcançar algum objectivo. No KGB da URSS tais manipulações informacionais eram óbvias mesmo para o capitão Reshetnikov. Para um presidente, um czar, um primeiro-ministro – não importa como se chame o mais alto responsável – é vantajoso ter várias fontes de inteligência independentes. Do contrário ele se torna refém de um líder específico da estrutura ou da própria estrutura. Isso é muito perigoso.

Os autores desta ideia pensam que nos tornaremos mais fortes após esta união. Ao invés disso estaremos a criar ameaças para nós próprios.

Onde estão os redis?

– E agora vamos das teorias da conspiração global para os nossos assuntos locais. Como se pode distinguir entre um responsável que não sabe o que faz e um agente de influência que sabe o que está a fazer?

– Não há tantos agentes de influência de nível sério no mundo como se possa pensar. Transmitir ou não transmitir decisões estratégicas sérias contra os interesses do seu próprio país começa tipicamente por, por assim dizer, agentes ideológicos. Estes são aqueles entre os nossos responsáveis que acabam por ocupar uma posição interna de alto escalão mas têm a alma no Ocidente. Para estas pessoas tudo o que é feito "lá" é a mais alta façanha da civilização. E o que é feito aqui é a Rússia deslavada. Eles não associam o futuro dos seus filhos, aos quais enviam para o estrangeiro, ao país. E isto é um indicador mais grave do que contas em bancos estrangeiros. Tais "camaradas" não gostam sinceramente da Rússia, cujo "desenvolvimento" eles supervisionam.

– Acaba de desenhar um retrato de alguns dos nossos ministros muito precisamente. Como vamos atravessar 2015 com eles?

– Este ano, com eles ou sem eles, será difícil. Mais provavelmente, o ano seguinte também não será fácil. Mas depois disso a nova Rússia estará confiantemente em marcha.

08/Abril/2015

[*] Licenciado pela Faculdade de História da Universidade Estatal de Kharkov e pós-graduado da Universidade de Sofia (Bulgária). De 1974 a 1976, trabalhou no Instituto de Economia do Sistema Socialista Mundial, da Academia de Ciências da URSS. De Abril de 1976 a Abril de 2009 nas unidades de análise de inteligência estrangeira. Seu últimos postos foram Chefe do Departamento de Relações Exteriores russo e no Serviço de Inteligência, membro do conselho de administração da SVR, tenente-general. Em abril de 2009 foi transferido para a reserva por limite de idade para o serviço militar. É membro do Conselho Científico do Conselho de Segurança da Rússia.

O original encontra-se em kanchukov-sa.livejournal.com/4660225.html e em argumenti.ru/toptheme/n481/394395 (em russo), A versão em inglês encontra-se em cassad-eng.livejournal.com/153079.html


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
15/Abr/15