Ciência europeia: Sonho e realidade
por Rui Namorado Rosa
A Estratégia de Lisboa (Março de 2000) anunciou que a
União Europeia se tornaria no bloco económico mais competitivo a
nível mundial em 2010 na base do conhecimento e com a promessa da
coesão social. Mas tenhamos presente que a União começou
de facto por ser uma comunidade do carvão e do aço e da energia
nuclear que só a pouco e pouco foi adoptando uma agenda (e
sobretudo discurso) social. O predomínio dos interesses
económicos têm governado todo o projecto Europeu, mesmo nas suas
faces aparentemente mais humanas.
A Declaração da Sorbonne subscrita pelos quatro
grandes, em Maio de 1998, e logo depois reformulada e subscrita por
29 estados em Bolonha, em Junho de 1999, criou o Espaço Europeu do
Ensino Superior. O Conselho de Lisboa (Março de 2000), logo de
seguida, formalmente fundou o Espaço Europeu da
Investigação, que no Conselho de Barcelona, em Março
de 2002, se consolidou e foi dotado de objectivos quantitativos, que se
traduziriam no acréscimo do financiamento em I&D
(investigação científica e desenvolvimento
experimental) em +1,1% PIB e do número de investigadores em +
700.000 e de outros trabalhadores altamente qualificados em + 500.000,
até 2010. Estes dois Espaços Europeus sinergicamente articulados
são os suportes para a estratégia de Lisboa.
A formação de recursos humanos com qualificação
avançada seria pois uma prioridade, o que já reconhecia o
défice de qualificações e denotava uma fragilidade
relativa a outras potências ou blocos político-económicos.
Todavia esse défice não só se tem mantido como até
agravado, e para tal há três razões principais:
investimento insuficiente em Educação (incluindo no Ensino
Superior), precarização das condições de
prestação de trabalho (mesmo para o mais qualificado) e
fuga de cérebros (não só mobilidade
intra-europeia, mas também emigração para fora do
espaço europeu de trabalhadores altamente qualificados).
O financiamento das I&D nacionais têm tido um acréscimo modesto,
em que releva o défice de financiamento empresarial privado, e sem que a
quebra registada no financiamento de I&D para a defesa (aí pesam somente
o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Espanha) tenha sido canalizada
para fins civis. O VI Programa Quadro de I&D é subsidiário, pois
que não excede 5% do orçamento da União e
focaliza-se em algumas poucas prioridades ditadas por interesses industriais.
A exiguidade dos Orçamentos da União Europeia e de muitos Estados
membros nas rubricas Educação e I&D parece paradoxal, em face das
ambiciosas metas globais e da prometida e desejada convergência e
coesão. As instituições Europeias, apoiadas na vontade ou
na cumplicidade de governos nacionais, na opinião de algumas estruturas
representativas das instituições académicas e dos
estudantes, mais raramente profissionais, mas sobretudo das grandes
corporações transnacionais como RTI e UNICE define
políticas gerais que se repercutem como pensamento
único ou força legal nos estados membros. Os falsos
cenários e a incapacidade de alcançar metas parecem ser
necessidade, uma, dificuldade, outra, desta Europa do capital.
A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA NA UNIÃO EUROPEIA
A escassez de recursos humanos qualificados não se deve há falta
de jovens com capacidades e vocações, antes à vantagem
económica que o capitalismo extrai de formar recursos humanos ao mais
baixo custo possível, o que conduz em linha recta à
reprodução de elites a partir das elites, e não ao seu
recrutamento a partir das camadas populares. «Para sermos rigorosos, a
crítica à política de investigação europeia
tem de começar pela qualidade do ensino. A Europa não investe o
suficiente no seu sistema de ensino e formação. Os melhores
são seleccionados, enquanto os fracos, que são quase sempre
desfavorecidos do ponto de vista social e não intelectual, vão
parar a um beco sem saída. Por esse motivo, em muitos países, na
competição por mais formação acabam por ingressar
no ensino superior apenas aqueles que possuem as necessárias
condições financeiras. Em contrapartida, os jovens provenientes
de famílias socialmente desfavorecidas estão
subrepresentados.» [Rolf Linkohr,
Proposta de Resolução do Parlamento Europeu sobre Investir
na investigação: um Plano de Acção para a Europa
Exposição de motivos
http://www.linkohr.de/6portugues/2003_2148.htm
].
A taxa de escolaridade a nível superior subiu acentuadamente nas
últimas décadas mas sem contrapartida proporcional por parte do
financiamento público. Assim, as condições de trabalho
degradaram-se e a afluência de jovens na respectiva camada etária
(17-25) abrandou, por exclusão das camadas sociais com mais baixo
capital económico e cultural.
As instituições de ensino superior adquiriram um papel chave na
estratégia de Lisboa. Elas empregam 34% dos investigadores na Europa (de
26% na Alemanha a 70% na Grécia) e são as principais executoras
da investigação fundamental. Existem 3300 estabelecimentos de
ensino superior na UE, 4000 incluindo os restantes países da Europa
Ocidental e os dez países do alargamento, frequentados por perto de 13
milhões de estudantes. Por comparação, nos EUA existem
4000 também, dos quais 550 conferem doutoramento e, entre estas, 125
qualificadas de research universities, em que o ensino
pós-graduado e a produção científica são
predominantes.
Não obstante a inferioridade do sistema científico europeu face
ao norte-americano, mesmo assim na UE o sistema educativo gradua mais
licenciados em ciências e tecnologias, porém licenciados que
depois não encontram suficientes oportunidades de trabalho em I&D. O
défice de postos de trabalho localiza-se, em termos comparativos, no
sector empresarial privado (na UE, 50% dos investigadores trabalham neste
sector, contra 83% nos EUA) mas também no sector universitário
(na medida em que a oferta de oportunidades de investigação para
pós-doutorados é relativamente menor na UE). Esta
situação tende a agravar-se, pois que as presentes (continuadas)
perspectivas negativas de carreira afastaram jovens destes domínios de
conhecimento e rejeitaram outros do ingresso na carreira de
investigação, de modo que a presente população de
investigadores tende a envelhecer (um terço dela aposentar-se-á
dentro de dez anos). Como será possível, nestas
circunstâncias, alcançar a meta de Barcelona na sua vertente
recursos humanos?
Este evidente constrangimento levou a Comissão Europeia a propor a
Comunicação COM(2003) 436, de 18.7.2003, Os investigadores
no espaço Europeu da Investigação: uma profissão
múltiplas carreiras, que viria a ser adoptada como
Resolução do Conselho Europeu em 10 de Novembro de 2003.
Aí se avança com um estatuto de investigador, um código de
conduta de recrutamento de investigadores, medidas para incremento da
mobilidade de investigadores na Europa, e se enuncia explicitamente a
integração dos estudos de doutoramento (3.º ciclo) no
processo de Bolonha. Finalmente apela ao reforço do investimento em
Ensino Superior e em I&D no seio da União. Outras medidas procuram
atenuar o défice indo reforçar, ainda mais, os mecanismos de
mobilidade intra-europeia, bem como captar os mais produtivos investigadores em
qualquer parte do mundo onde estejam (European Young Investigator Awards -
EuroHORCs)[
http://www.esf.org/esf_genericpage.php?section=8&domain=0&genericpage=1879
].
A meta de incrementar em 1.200.000 os recursos humanos altamente qualificados,
exige evidente esforço no que respeita a financiamento de estudos
(bolsas) de pós-graduação e de meios de trabalho e
enquadramento profissional necessários aos jovens investigadores. Esse
esforço seria uma parcela relativamente importante para o envelope de 3%
do PIB a ser afectado a I&D, a meta fixada pelo Conselho de Barcelona para 2010.
Mas a outra parcela igualmente importante seria o financiamento de projectos de
I&D. A ênfase dada ao financiamento via projectos a concurso,
através do Programa Quadro e dos diversos programas nacionais, é
todavia contra-produtiva; valiosos recursos institucionais são
consumidos a elaborar projectos que, mesmo reconhecidos como muito bons,
não são financiados, pois que as dotações globais
são insuficientes e as taxas de aprovação de projectos
são consequentemente muito baixas; entretanto, as
instituições não recebem financiamento de base que permita
actualizar ou estabelecer as suas infra-estruturas. O financiamento
público tem-se revelado globalmente insuficiente e aplicado de forma
pouco eficaz.
Acresce que um dos principais mecanismos de financiamento da I&D na UE, o
actual VI Programa Quadro de I&D (cerca de 5 mil milhões por
ano), é de acesso complicado, tem taxa de sucesso muito baixa (como
ficou dito) e, favorecendo o financiamento das empresas, é
manifestamente insuficiente para o reforço da investigação
universitária (a básica em particular). Apreciações
veiculadas pela Fundação Europeia da Ciência (ESF) [
http://www.esf.org/
] apontam a necessidade de duplicar esse nível de financiamento e de
constituir um organismo autónomo, Conselho Europeu de Pesquisa (ERC),
com financiamento próprio e suficiente para apoiar todos os projectos de
mérito [
http://www.ercexpertgroup.org/
].
Em evidente pânico perante o deslizamento das metas de Lisboa e Barcelona
para além de qualquer horizonte previsível, a Comissão
Europeia propôs a Comunicação COM(2003) 226, de 4.6.2003,
Investir em Investigação: um Plano de Acção
para a Europa. Aí se sistematiza um elenco de medidas que deveriam
garantir alcançar o objectivo de Barcelona: reforçar a
coerência e coordenação de políticas entre estados
membros, melhorar o apoio público à I&D, melhorar a carreira dos
investigadores, aperfeiçoar o regime de financiamento público,
incrementar o nível de financiamento público e melhorar o
contexto da I&D&I (propriedade intelectual, regulamentações
económicas, financeiras, fiscais, etc.). Passos deste Plano de
Acção compreendem, também, maior cooperação
da Comissão com o Banco Europeu de Investimento, que se comprometeu a
incrementar o financiamento à investigação e
inovação e a contribuir para apoiar os programas Innovation
2010 Initiative e Quick Start.
Nas palavras de Rolf Linkohr,
[Proposta de Resolução do Parlamento Europeu sobre Investir
na investigação: um Plano de Acção para a
Europa
http://www.linkohr.de/6portugues/2003_2148.htm
]: «O catálogo de medidas propostas está praticamente
completo e abrange todos os sectores. O problema reside, pois, não tanto
na apresentação de novas ideias para complementar a proposta, mas
antes na sua rápida aplicação. Desde as
orientações estabelecidas nas Cimeiras de Lisboa em 2000 e de
Barcelona em 2002 não tem havido por parte das políticas da UE e
dos Estados-Membros um empenho à altura das suas
aspirações. Pelo contrário, muitos cientistas formados com
elevados custos esperam actualmente em vão por um posto de trabalho. Um
número crescente de empresas europeias cria capacidades de
investigação fora da UE. Segundo a Comissão, cerca de 40%
dos investimentos privados europeus em investigação saem para o
estrangeiro, sobretudo para os EUA.»
Todavia, a Comissão Europeia nega explicitamente o fracasso da
estratégia de Lisboa, ou mantém demagogicamente este
cenário, forçada, porém, a reconhecer os atrasos ou mesmo
retrocessos no sentido da realização das metas fixadas.
A UE, mantém, face aos EUA, atraso; revela até tendência
para retardamento nas despesas totais afectadas a I&D, como se verificou ao
longo da segunda metade dos anos 1990 quando, pelo contrário, deveria
sustentar um incremento anual superior a 8%, a fim de alcançar a meta de
Barcelona (3% do PIB) devendo também manter o crescimento do BIP
sobre o qual esse incremento é calculado.
A posição da UE degrada-se, ainda, na captação de
investimento internacional. De 1991 para 2001, a parte do investimento
estrangeiro em I&D realizado por corporações norte-americanas na
UE decresceu de 80% para 70%. Pelo contrário, observa-se a
fuga de investimento europeu em I&D para os EUA (como também
para o Japão e outros países asiáticos). Em suma, os
fluxos de investimentos em I&D entre empresas da UE e dos EUA somaram um saldo
30% negativo para a UE (em 2001); e as fugas de investimento em I&D (para os
vários destinos) ascendem a uma perda anual superior a
5 mil milhões. Estas fugas de capitais contrariam obviamente a
meta de Barcelona [Philippe Busquin, Speech/03/572 de 25 de Novembro de 2003].
O grande capital, depois de inspirar as orientações
políticas europeias, não se obriga a contribuir para as
alcançar; esse não é o seu negócio; os recursos
públicos que o façam. Neste transe, a Comissão Europeia
procura que a banca, nomeadamente o BEI, o BERD e a banca privada, se empenhem
em emprestar recursos para esse fim!
A UE perde, ainda, na retenção de recursos humanos qualificados.
A fuga de cérebros ainda não foi revertida. É
um fenómeno migratório que se exerce sobre trabalhadores
intelectuais que procuram realizar-se na investigação
científica, determinado por condições de trabalho,
oportunidades de carreira, acesso a meios tecnicamente avançados. A
Comissão Europeia fixou a meta de atingir 8 investigadores por mil
trabalhadores de população activa (em 2010, comparativamente a 5
por 1000, em 2003), meta que é a vertente humana da meta de Barcelona
(3% do BIP em I&D) [Philippe Busquin, Speech/03/572 de 25 de Novembro de 2003].
Tal evolução acelerada só é realizável no
quadro de acentuado investimento em meios de trabalho e de radical melhoria das
presentes condições laborais; a acontecer, seria uma
contraditória elitização massificada de um estrato
sócio-profissional essencialmente já proletarizado. As
soluções que a Comissão propõe no Plano de
Acção adoptado incluem um portal europeu para a
mobilidade de investigadores, um visto científico e uma rede
europeia de centros de mobilidade; são medidas que nada
têm a ver com o diagnóstico efectuado; trata-se de medidas que
meramente irão canalizar força de trabalho qualificada, das
periferias para os centros, numa Europa crescentemente assimétrica.
Também o predomínio mundial da Europa na produção
científica (na forma de artigos científicos publicados), atingido
a meio da década de 1990, tende a regredir nos últimos dois anos,
tanto em termos relativos como absolutos (embora a produção
Europeia, com 41 % do total mundial face a 31% dos EUA, ainda detenha a
dianteira). Em termos de citações, que é um índice
não menos relevante, a Europa situa-se contudo atrás dos EUA na
maioria das disciplinas (com cerca de um terço de citações
a menos). Será uma consequência inevitável de vários
anos de sub-financiamento, que se reflecte agora na quebra de
produção científica, em investigação
fundamental particularmente.
PORTUGAL EM CRISE
Tanto a situação como a tendência de Portugal no quadro da
União Europeia, do ponto de vista da economia do
conhecimento, são francamente negativas.
Os abundantes dados facultados pelo EUROSTAT mostram a geral debilidade em
formação de recursos humanos e em financiamento de I&D, bem como
o fraco desempenho na criação, transmissão e
aplicação de conhecimentos, assim como na produtividade da I&D e
no impacto da I&D na competitividade e no emprego no nosso país. Acresce
que as tendências não denotam convergência
Ver: Indicadores de Ciência e Tecnologia do Espaço Europeu de
Investigação - 2002
http://www.cordis.lu/indicators/scoreboard.htm
; Números Chave do Espaço Europeu de Investigação
2002
ftp://ftp.cordis.lu/pub/indicators/docs/ind_kf2002.pdf
; Painel Europeu de Inovação - 2003
http://trendchart.cordis.lu/scoreboard2003/index.html
; OECD - Painel de Ciência, Tecnologia e Indústria 2003
http://www.oecd.org/document/21/0,2340,en_2649_33703_16683413_1_1_1_1,00.html
O dispêndio total em I&D ainda estava em 0,8 do PIB em Portugal versus
1,9% do PIB na EU-15 (em 2001) e crescera apenas à taxa anual de 4,4% no
período 1997-2002. O financiamento público assegurava a maioria
desse dispêndio em I&D (61% governamental versus 32% empresarial) ao
contrário da situação geral na EU-15 (34% versus 56%).
Acresce que o PIB português tem decrescido em relação
à média Europeia e mais tem decrescido a parte do BIP que
é afectado ao investimento (dados do EUROSTAT 2004, citados por
Eugénio Rosa). Estes dados explicam as muito baixas produtividades do
trabalho e do capital em Portugal e apontam as pesadas responsabilidades do
empresariado e do governo nestas políticas, para que seja urgentemente
exigível outro modelo económico, que suporte o efectivo
desenvolvimento económico e social do país.
O alheamento do empresariado português face à I&D&I
(investigação, desenvolvimento e
inovação) é manifesto e desastroso. Tal é uma
consequência natural de vinte anos de políticas de
privilégio ao capital e de penalização do trabalho, de
privatização de sectores públicos empresariais e da
alienação das empresas nacionais ao capital internacional.
Também as instituições financeiras estão alheadas
do investimento em capital de risco, que em 2001 ascendeu apenas a
110 milhões, representado 0,07% do PIB, um dos valores mais
baixos na OCDE [
http://www.olis.oecd.org/olis/2003doc.nsf/linkto/dsti-doc(2003)19
]. O governo propôs em Março passado uma
actualização ao estatuto do mecenato
científico, uma iniciativa de valor sobretudo cosmético.
Serão positivos incentivos às empresas, mas mais importantes
serão medidas fiscais que canalizem mais valias para fins de
investimento produtivo, em particular aplicações intensivas em
tecnologia. Uma parte do VAB realizado pelas maiores empresas deveria ser ou
aplicado directamente em projectos de inovação ou dirigido para
um fundo nacional destinado ao co-financiamento de projectos inovadores. Ao
contrário, as fugas aos impostos, os paraísos fiscais, o livre
curso à especulação bolsista, as facilidades ao capital
financeiro, levam a economia do país ao desastre e com ele a larga
maioria da população.
Portugal tem apenas 3,3 investigadores por mil trabalhadores activos (em 2000),
um valor baixo mas a uma taxa de crescimento elevada no contexto da EU-15.
Segundo a anunciada Iniciativa Estratégica (17 de Janeiro de 2004) o
país deveria formar e fixar + 35.000 investigadores e + 18.000
trabalhadores altamente qualificados até 2010, como contrapartida
nacional para os objectivos de Barcelona.
Todavia esse cenário optimista contrasta com o continuado
sub-financiamento do sistema de Ensino Superior e do sistema Científico
e Técnico, bem como com a continuada precariedade do trabalho
científico da larga maioria dos jovens (e já não
tão jovens) investigadores. O estatuto de Bolseiro de
Investigação (D.L. n.º 123/99) carece urgente
reformulação, que confira benefícios dignos de
segurança social (Projecto de Lei n.º 415/IX PCP) e os quadros das
instituições de investigação carecem ser alargados
e preenchidos (após longos anos de congelamento de admissão) de
forma a oferecerem emprego científico com estabilidade.
O actual governo designa Sistema Científico, Tecnológico e de
Inovação (SCTI) ao conjunto de organismos de I&D&I
(investigação, desenvolvimento experimental e
inovação) e de instrumentos para a sua condução.
Um dos componentes fundamentais do sistema científico e
tecnológico nacional é o conjunto dos Laboratórios do
Estado, em que é executado cerca de um quarto do financiamento
público em I&D. Existem actualmente onze Laboratórios, sob
superintendência do Ministério da Ciência e do Ensino
Superior, embora a maioria deles esteja sob a tutela de outros
ministérios. Estes laboratórios têm origens mais ou menos
remotas e cumprem missões nacionais e internacionais de interesse
público da responsabilidade do estado.
Em 1996, os Laboratórios foram sujeitos a avaliação, sob a
supervisão do então Ministério da Ciência e
Tecnologia, cada um por um grupo internacional de avaliação e, no
conjunto, por um Comité Internacional de Aconselhamento. Este IAC
produziu um relatório final em 1997; e veio a produzir um outro em 2001,
de apreciação à evolução das medidas e do
desempenho no período transcorrido. As recomendações
inicialmente feitas incidiram sobre a actualização das
missões e leis orgânicas dos Laboratórios, o reforço
do seu financiamento, o rejuvenescimento dos seus quadros de pessoal, o
aperfeiçoamento do seu governo e a adequação da sua
gestão, etc. O segundo relatório reconheceu alguns progressos
feitos (nomeadamente os D.L. n.ºs 123, 124, 125/99) mas foi crítico
face ao atraso na introdução de várias outras medidas
recomendadas.
Posteriormente, a situação não progrediu, antes se
degradou, como se essa fosse a oculta intenção do governo
português. Os corpos de investigadores e de outros profissionais do
quadro foram-se reduzindo, sendo compensados por crescentes contingentes de
bolseiros, com trabalho precário a longo prazo, formalmente em
formação mas na maioria assegurando já necessidades
permanentes das instituições de acolhimento. O sub-financiamento
público manteve-se e a situação orçamental
agravou-se, com repercussão no incumprimento de obrigações
internacionais e na capacidade de prestação de serviços.
Em 2002 foi-lhes retirada a autonomia financeira de que beneficiavam e que
é necessária à gestão de projectos contratados,
obstacularizando a capacidade de captação e gestão de
financiamentos externos. Em 2003, foram iniciadas fusões de
Laboratórios conjunturalmente sob a mesma tutela, acções
de desmembramento e de fusão descaracterizadoras da identidade de
instituições científicas com história e
missões próprias. Estas reestruturações não
correspondem a recomendações das avaliações feitas
nem a orientações internacionais, são puramente gratuitas
e absurdas; ainda que invocando argumentos de racionalidade e de
economia de meios, traduzem profunda ignorância
científica e desprezo pelas actividades científicas e
técnicas. É o que ocorre com o INIA e o IPIMAR (Ministério
da Agricultura e Pescas) e com o INETI e o IGM (Ministério da Economia).
Dada esta política insensata, os responsáveis dos
Laboratórios do Estado promoveram um Fórum tendo em vista
reforçar a coordenação da sua intervenção na
política do governo neste importante segmento do sistema
científico e tecnológico nacional.
Outro componente fundamental do sistema científico e tecnológico
nacional é o conjunto das unidades de investigação,
formalmente constituídas na sua larga maioria como estruturas internas
ou anexas a universidades públicas, num total superior a quatrocentas.
Em 12 de Abril, o governo português anunciou o lançamento de um
novo modelo de financiamento de Unidades de Investigação
Grupos de Investigação, Centros de Investigação e
Laboratórios Associados o qual, nas suas linhas orientadoras,
ainda toscamente formuladas e logo largamente contestadas, foi colocado a
consulta pública apressada, para aplicação já em
2004. Situação insólita, pois que está em vigor um
modelo de financiamento para o triénio 2003-2005, seguramente merecedor
de aperfeiçoamento, cujo financiamento, porém, aguardava ainda
ser anunciado e contratualizado desde o início de 2003. Perfila-se agora
a hipótese de coexistirem dois modelos em vigor em vez de um
único parado.
Em 17 de Janeiro o Conselho de Ministros anunciara com pompa o
lançamento de um Iniciativa Estratégica Conhecimento
Inovação, mediante dois novos programas operacionais
designados Ciência 2010 e Futuro 2010, que na realidade são os
programas POCTI e POSI, reunidos agora sob a tutela de um mesmo
ministério (Ciência e Ensino Superior), reformulados e
reforçados com reservas do III Quadro Comunitário de Apoio. Os
indicadores anunciados foram 1,0 mil milhões e 12.000 bolsas no
período 2004-2006. Porém, tais programas ainda não foram
detalhados e, do que foi anunciado, se deduz que grande parte do financiamento
será para infra-estruturas técnicas que não são I&D
e grande parte das bolsas serão para renovação das
actualmente existentes.
A comunidade científica é mantida em condições de
trabalho precárias e ao ritmo de reformas insensatas, ao som de um canto
de sereia. É preciso acabar com enredos e enganos. Porque é o
rumo e o destino de todo o país que está em causa.
1 de Junho de 2004.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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