A idade do petróleo
por Rui Namorado Rosa
A energia é agente de transformação e agente de poder ao
longo da história.
A revolução industrial arranca paulatinamente ao longo do
século XVIII e atravessa em crescendo todo o século XIX. Essa
transformação material substancia-se em
transformações técnicas de base científica, em
diversificação e crescimento da produção de
matérias-primas e do seu processamento, e no incremento do consumo de
energia aplicada na extracção e no processamento e no transporte
de produtos. Mas essa transformação material é uma outra
face da mesma transformação social e económica que se
assumiu como uma paralela revolução social, substanciada na
ascensão do sistema capitalista de organização do trabalho
e dos meios de produção. O crescimento económico existiu,
traduzido em aumentos acelerados da população nos países
em industrialização, da exploração de recursos
ultramarinos, dos volumes de extracção, produção e
comercialização, e de acumulação de capital
(produtivo e financeiro) e de força de trabalho disponível
(proletariado). Se quisermos levar mais longe o paralelismo da
evolução ocorrida, poderemos identificar, por um lado, o
carvão mineral como a fonte de energia que suportou o crescimento
económico e a correspondente organização social e, por
outro lado, o liberalismo económico como doutrina ideológica que
serviu a explicação e justificação da
organização social emergente.
Sendo certo que a revolução industrial e social foram conduzidas
pela sociedade humana em transformação, não podemos
abstrair do suporte material necessário a essa evolução.
Ora o suporte material mais básico, porque insubstituível por
outro e porque imprescindível para realizar todas as demais
transformações materiais, é a energia. Na época em
apreço, o carvão mineral foi a fonte de energia disponível
e utilizável à face dos conhecimentos e meios técnicos
existentes. Por isso não foi circunstância fortuita a
Grã-Bretanha possuir importantes recursos carboníferos e ter sido
o foco de irradiação da revolução industrial; como
não o foi essa revolução se ter estendido e ganhado
raízes em países que possuíam eles também
importantes recursos carboníferos (França, Alemanha,
Bélgica, EUA).
O ciclo mundial do carvão não terminou, a sua
extracção continua a crescer, mas a sua importância
relativa como fonte de energia diminuiu, sobretudo em virtude dos acelerados
crescimentos de produção de outras fontes de energia,
designadamente do petróleo e do gás natural, ao longo de todo o
século XX.
O carvão, o petróleo e o gás natural são todos
combustíveis fósseis, mas com composição
química (hidrocarbonetos menos ou mais ricos em hidrogénio),
propriedades mecânicas e térmicas distintas. Esse lento processo
de suplemento e de substituição, de um pelos outros, não
foi devido à escassez mundial do carvão mas antes às
superiores qualidades dos outros.
O século XX assistiu primeiro (na década de 1930) ao apogeu do
carvão e, para o seu final, ao apogeu do petróleo. Com efeito,
embora o petróleo seja ainda a principal fonte de energia mundial
(assegurando cerca de 40% do aprovisionamento total de energia), o volume da
sua extracção tende presentemente a estabilizar, e o seu peso
relativo entrou em declínio enquanto o do gás natural continua em
crescendo. A Idade do Petróleo entra paulatinamente no seu ramo
descendente.
A era do petróleo pode ser tomada como uma segunda
revolução industrial, como a era do carvão correspondeu
à primeira, cada uma delas com as suas grandes realizações
técnicas e a organização de grandes sectores industriais.
À primeira era associamos a força motriz da máquina a
vapor queimando carvão, aplicada a fins fixos nas fábricas, nas
minas e na geração de electricidade ou a fins móveis nas
locomotivas e nos vapores. À segunda era associamos sobretudo as
aplicações dos destilados do petróleo ou como
combustíveis nos transportes rodoviários e aéreos ou como
matérias-primas das indústrias petroquímica e
química. De novo a mesma observação: não foi
fortuita a circunstância de, entre os países já
industrializados, terem sido os EUA o foco desta segunda
revolução industrial, pois que era entre eles o único que
detinha óbvios e abundantes recursos de petróleo.
A indústria petrolífera está no centro do sistema
produtivo contemporâneo, quer porque o petróleo é (ainda) a
principal fonte de energia que move a produção material quer
porque vários e muito poderosos sectores industriais se desenvolveram
sobre ela: automóvel, aeronáutica, química, materiais
sintéticos, adubos, etc.
À semelhança de outros sectores económicos, a
indústria petrolífera atingiu elevado grau de
concentração, em algumas poucas corporações
transnacionais apenas, operando pelo mundo fora. E, semelhantemente aos demais
sectores económicos em regime capitalista, têm íntima
relação com a alta burguesia e as elites dirigentes. E,
não é por a indústria petrolífera ser a base
fundamental da economia produtiva, que deixa de ser alvo apetecido do capital
financeiro especulativo.
Não obstante várias semelhanças, o petróleo
é diferente de outros objectos de interesse económico por uma
razão que as teorias económicas capitalistas não entendem:
é um bem escasso e finito.
As reservas de petróleo são finitas e vão sendo exauridas
e as maiores encontram-se concentradas em poucas zonas geologicamente bem
caracterizadas. E cerca de metade já foi extraído. A capacidade
de produção tende agora a saturar e forçosamente
entrará em breve ou já entrou mesmo em declínio.
Dois terços das reservas sobrantes de petróleo situam-se no
interior de uma elipse cujo eixo maior corre de sul-sudoeste para
norte-noroeste, desde a entrada no mar Vermelho até ao mar de Kara. E o
mesmo acontece com as reservas de gás natural, cuja génese
é afim à do petróleo.
Se enunciarmos a localização dos principais campos
petrolíferos encontramos um roteiro de zonas de conflito, aparentemente
desconexas e incompreensíveis, mas que em conjunto oferecem uma leitura
com sentido de explicação. O golfo Pérsico
Arábico, onde se localizam as maiores reservas do mundo; a bacia do
Cáspio e a Ásia Central; a Sibéria Ocidental; a
África Saariana e o Golfo da Guiné; o Golfo do México.
Para além de reservas significativas na América do Norte,
já em declínio avançado; no Mar do Norte, a entrarem em
declínio agora; e no Sudeste Asiático, relativamente modestas.
O Próximo e Médio Oriente foram objecto de cerco e de tentativas
de submissão ao longo de todo o século XX. Data de 1928 em
Ostende a formação de um primeiro cartel
(Red Line Agreement)
, constituído por companhias exclusivamente Ocidentais, para a
exploração dos territórios do extinto império
Otomano. Após a Segunda Guerra Mundial, a hegemonia assumida pelos EUA
na esfera capitalista criou as condições para esse cartel ser
dissolvido, sob a pressão das empresas norte-americanas
constituídas na Aramco para explorarem o petróleo da
Arábia Saudita. Mas, por outro lado, a acção do movimento
dos não alinhados e dos movimentos de libertação nacional
criaram condições para a vaga de descolonização e
para a afirmação do nacionalismo Árabe (década de
60 e princípio de 70). Os recursos naturais foram nacionalizados nos
países Árabes e também em países da América
Latina. Mas as corporações petrolíferas continuaram a
investir nesses e em novos territórios e a fazer a maior parte do seu
negócio no transporte, refinação e, sobretudo, na
comercialização dos produtos petrolíferos.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(OPEP) constituiu-se em 1960 com vista a restringir a produção
global e a sustentar as receitas de venda dos principais países
exportadores de petróleo, em face da competição agressiva
desencadeada por companhias petrolíferas privadas, que aprovisionavam o
mercado com extracção gananciosa de províncias
petrolíferas que controlavam.
A OPEP foi bem sucedida apenas parcialmente, porque alguns dos seus membros
não respeitaram ou os objectivos ou as regras acordadas (a
elevação artificial das quotas em meados da década de 1980
é um exemplo). Falhou em geral na oportunidade de investir as receitas
geradas na criação de condições de vida e de
trabalho para as suas gerações presentes e futuras.
Entrámos na segunda etapa da Idade do Petróleo, caracterizada
pelo declínio da sua produção, o que significa que a sua
disponibilidade diminuirá. O preço do petróleo e do
gás natural subirão, enquanto a dependência face a estes
combustíveis fósseis não for resolvida mediante mecanismos
económicos, sociais e técnicos de fundo, que põem em
flagrante evidência as fundamentais limitações da economia
de mercado. Os países não produtores e menos poderosos
serão os mais afectados.
A OPEP será incapaz agora de manter o preço do petróleo
suportado no aumento da sua extracção, como foi seu compromisso
ou promessa perante os G8. A dolarização das suas economias foi
um benefício para as suas oligarquias mas será um fardo para os
seus povos, sobretudo nesta etapa descendente da Idade do Petróleo.
Na realidade, a influência real ou potencial da Organização
passou a sua época. Agora é a Natureza, por força das
limitações físicas do acesso aos hidrocarbonetos, que
passará a ditar a taxa de extracção do petróleo
a possível.
Habilitado apenas a explorar, movido apenas pela ganância do lucro, sem
uma doutrina económica que interprete e ofereça uma alternativa
pacífica, o império monta o cerco e faz o saque aos recursos
essenciais lá onde se encontrem. Seduz ou assassina para impor regimes
cooperantes ou então promove a diplomacia da mentira e a
manipulação das massas, para avançar com
acções de intervenção militar apelidadas de
guerra preventiva ou de intervenção
humanitária. Conta para estas com o seu incomparável
poderio aéreo e naval, apoiado numa extensa rede de bases militares que
vai lançando pelo mundo fora.
Só no passado recente as intervenções diplomáticas
ou militares, encobertas ou assumidas, vitimaram e vitimam a Jugoslávia,
o Afeganistão, o Iraque, a Colômbia, a Venezuela, a
Bolívia, a Nigéria, a África Equatorial.
A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO: DO SAQUE À CRISE
O Fundo para o Desenvolvimento do Iraque (DFI) arrecada as receitas da
exportação de petróleo iraquiano, do programa da ONU
Petróleo por Alimentação Comida aplicado durante o embargo
e os activos iraquianos congelados no estrangeiro. Desde a sua
criação, o Fundo sacou US$ 21 mil milhões, metade
proveniente da exportação de petróleo. Ele é
supervisionado por uma Junta Internacional de Aconselhamento e
Monitorização (IAMB), que inclui na sua composição
funcionários da ONU, FMI, BM e o Fundo Árabe para o
Desenvolvimento Sócio-Económico (AFSED).
O relato de uma auditoria promovida ao Fundo pela Junta, divulgado em meados de
Julho de 2004, assinalava: a ausência de dispositivos de controlo da
produção petrolífera (presumindo-se que parte é
contrabandeado); a autoridade ocupante (CPA) que entregara o poder
ao governo interino (a 28 de Junho) não detinha dispositivos de registos
e de contabilidade adequados; e os ministérios iraquianos, cujo
orçamento é financiado por receitas petrolíferas,
funcionavam com meios de registo e contabilidade insuficientes e não
cumpriam os preceitos de abertura competitiva de concursos para efeitos de
contratos. A própria Junta assinalou a possibilidade de receitas
petrolíferas estarem a ser ilegalmente aplicadas a favor de fornecedores
de serviços
(contractors)
privilegiados; e questionou oficialmente o representante da
coligação ocupante, Paul Bremer, sobre todos os contratos
atribuídos administrativamente e em particular a legalidade de contratos
atribuídos à companhia de serviços petrolíferos
Halliburton (que o vice-presidente Richard Cheney dirigiu até assumir
este cargo público). Aqui temos a confirmação oficial da
política de saque conduzida pela coligação desde a
primeira hora da ocupação.
http://english.aljazeera.net/NR/exeres/89F5D7D8-C166-4EA5-B88B-E2C667DBCD73.htm
Entretanto, o actual ministro iraquiano do petróleo, nomeado a 1 de
Junho, enunciou um plano para a assunção da riqueza
petrolífera do seu país, compreendendo a
reconstituição da companhia nacional (INOC) logo após a
passagem de soberania em fim de Junho de 2004, embora agora
depositando as receitas não nos cofres do Estado mas sim no Fundo para o
Desenvolvimento do Iraque, e anunciou também a intenção de
ir estudar os méritos da privatização da
indústria e desde já preparar esse dossier para quando o
país assumir a plena independência. Antes de ser nomeado ministro,
o mesmo Thamir Ghadhban fora já nomeado pelas autoridades
norte-americanas para gerir o Ministério do Petróleo durante a
ocupação, logo após o fim da conquista
territorial do Iraque, em Maio de 2003, tendo então solicitado o apoio
norte-americano para duplicar a produção que prometeu iria
conseguir realizar.
http://www.globalpolicy.org/security/oil/2004/0610controloil.htm
Passado mais de um ano, a produção iraquiana continua abaixo dos
2 milhões barris/dia porque se repetem os ataques a
instalações e sobretudo pipelines. Para corrigir esse fracasso
imperdoável, o agora ministro prometeu que a segurança da
produção e exportação iria ser assegurada, para
tanto anunciando que o seu ministério iria passar a controlar
directamente a força de segurança de 18 mil homens, recrutada e
até agora operada por Erinys Internacional, uma empresa britânica
de prestação de serviços.
http://www.wsjclassroomedition.com/wsjtoday/war/03may05_story1.html
Os planos da coligação EUA-RU, sancionados pela ONU desde Maio de
2003 (resolução 1483), não só para governarem o
Iraque mas sobretudo para controlarem a sua indústria
petrolífera, em particular recuperando a produção para o
nível anterior à invasão (2,5 milhões barris/dia),
têm falhado rotundamente. Tal como falharam o objectivo inicial
vocalizado pela administração norte-americana de duplicar a
produção, a fim de pagar a guerra com as receitas do
petróleo e de garantir aprovisionamento suficiente do seu consumo
doméstico. Os actos de sabotagem e as paralisações de
produção e no transporte repetem-se e fixaram a
produção em não mais do que 1,9 milhão barris/dia.
O administrador chefe da petrolífera BP, uma das potenciais
beneficiárias desta guerra, já expressou o seu desapontamento com
as perspectivas oferecidas ao seu trabalho no Iraque e sugeriu
abandonar os seus empreendimentos aí.
http://www.globalsecurity.org/military/ops/iraqi_oil.htm
http://www.occupationwatch.org/article.php?list=type&type=15
Em Agosto de 2004, o preço do barril de petróleo atingiu
máximos históricos de US$ 45/barril. Uma crise cuja profundidade
já aproxima a do choque petrolífero de 1973, mas com
causas próximas e contexto diversos não comparáveis. Cuja
causa profunda, cada vez mais urgente, é inadiável: a efectiva
saturação da capacidade de produção. A economia de
mercado não tem compreensão nem força para desatar este
nó.
A crise energética que se vem desenvolvendo não é
sucessão de oscilações no mercado de valores nem de
commodities,
é uma crise económica estrutural que atinge os limites da
geosfera em que a econosfera se circunscreve. O crescimento económico,
sustentado há milénios no crescimento da intensidade de uso de
recursos naturais, proporcionando a apropriação progressiva da
natureza na ignorância ou na negligência dos limites dos seus
reservatórios e do seus fluxos naturais, vem questionando a
organização e funcionamento das sociedades e colocando na ordem
do dia a reelaboração da sua doutrina económica em termos
de sustentabilidade do metabolismo social no seio do mais amplo
metabolismo planetário.
Esse crescimento económico, apelidado ou não de
sustentável, não é do interesse do homem nem
tem futuro. Não é do interesse do homem porque subordina a
formação social e a organização dos meios
produtivos ao modelo de crescimento económico, que
não é sequer desenvolvimento económico,
é sim a mera retórica que descreve amável mas cinicamente
a economia de mercado de que se alimenta a apropriação privada de
mais valia, o lucro do capital e a exploração do trabalho.
Não tem futuro, porque se esgota a força de trabalho ou se
esgotam os recursos naturais e, destes, o mais fundamental, a energia abundante
e acessível. Sem esta, o crescimento económico torna-se
impossível e é colocada em questão a
formação económica sobre que se instaurou nos
últimos séculos a industrialização, o crescimento
demográfico e a dispêndio energético da economia.
13 de Agosto de 2004.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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