O complexo agro-industrial e a alienação da relação
do homem com a terra
por Rui Namorado Rosa
DA RELAÇÃO DO HOMEM COM A TERRA
Ao princípio seria a harmonia do homem com a Natureza. Mas hoje é
o capitalismo em guerra contra ela. A intensificação e a
extensão da produção agro-pecuária e florestal
tomaram proporções insensatas, comandadas pela gananciosa
exploração dos recursos naturais e de homem por outros homens,
que os conduziram ao confronto com limites naturais. Esta é uma
evolução histórica da sociedade humana que questiona os
fundamentos da sua presente organização e que já comprovou
que esta não é sustentável.
O inicio da produção agrícola e pecuária
correspondeu a uma fase da evolução da organização
social e económica da humanidade a revolução
neolítica, em que as populações se estabelecem em
territórios, apropriam os solos e transformam a sua
relação com a natureza em geral e com o solo produtivo em
particular. Com a revolução industrial, nos países
industrializados as populações rurais são forçadas
a abandonar o mundo rural e a sua relação tradicional com a
terra, para migrarem para os subúrbios das grandes cidades em
crescimento e se transformarem em proletários para as indústrias
manufactureiras. Deu-se pois uma rotura da relação da maioria
dessa população com a terra e deste modo com a natureza
também. Enquanto isto, no mundo subdesenvolvido e colonizado, as
populações rurais foram forçadas a transformar
também a sua relação com a terra, neste caso no sentido de
a explorarem intensivamente para produções mono-culturais com
fins industriais. Daí decorre uma outra rotura da relação
da população com a terra, que compreende, também, a
expulsão e migração de parte dessa
população, tornada excedentária, para os subúrbios
de grandes cidades do terceiro mundo, mas sem indústria que lhes
dê trabalho.
A revolução industrial, cavalgada pela ascensão do
capitalismo, determina assim a apropriação de grande parte da
terra para fins de produção de matérias-primas e a
expulsão e privação de modo de subsistência certo,
dependente ou autónomo, de grande parte da população
rural. Por uma via e por outra, estavam criadas as condições para
a negação do acesso de grande parte da população
aos produtos agro-pecuários necessários à sua
alimentação. A fome tornou-se numa consequência natural,
necessária e permanente do capitalismo, para além dos riscos de
factores naturais a que a agricultura estava e estaria sujeita. «Ao lado
dos preconceitos morais, os interesses económicos das minorias
dominantes também trabalhavam para escamotear o fenómeno da fome
do panorama espiritual moderno. É que ao imperialismo económico e
ao comércio internacional a serviço do mesmo interessava que a
produção, a distribuição e o consumo dos produtos
alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenómenos
exclusivamente económicos - dirigidos e estimulados dentro de seus
interesses económicos - e não como fatos intimamente ligados aos
interesses da saúde pública» [Josué de Castro,
Geografia da Fome, Rio de Janeiro, 1946, Prefácio da última
edição, incluído no livro
Fome, Um Tema Proibido
, 2003.
http://www.josuedecastro.com.br/port/index.html
].
A fome em grande escala e globalizada é uma das
manifestações, a mais dramática, do beco sem saída
a que o capitalismo que governa o mundo conduziu o desenvolvimento
económico insustentável.
A TERRA E A AGRICULTURA NOS ALICERCES DO SISTEMA CAPITALISTA
O capital original que serviu ao lançamento da
dinâmica inicial de acumulação capitalista, antes da
revolução industrial, proveio da remoção dos
agricultores da terra e da extinção de direitos
comunitários que os excluiu do acesso aos meios de
produção tradicionais que tinham à sua
disposição; nesse processo constituíram-se contingentes de
trabalhadores depauperados que se tornariam trabalhadores assalariados, na sua
maioria expulsos do campo para se tornarem proletários industriais nos
subúrbios de cidades; entretanto, a riqueza foi concentrada a par da
monopolização dos meios de produção, por um
número decrescente de indivíduos.
Assim se alienou a relação do homem com a terra e em geral do
homem com os seus instrumentos, meios e recursos de trabalho; bem como se
criaram as condições e as necessidades para a
industrialização da agricultura e para a
comercialização dos produtos da terra em larga escala e sobre
longas distâncias. No plano das relações coloniais, as
transacções dos frutos de monoculturas agrícolas e de
extracção de produtos florestais e minerais (iniciadas já
no século XVI) expandiram-se enormemente nos séculos XVIII e XIX,
sob o estímulo da procura de matérias-primas que alimentassem a
revolução industrial, e viabilizada pelas inovações
técnicas de meios de transporte e pela extensão imperial das
respectivas infra-estruturas. O processo de intensificação
agrícola verificou-se no coração da
própria potência hegemónica, a Grã-Bretanha, levando
à exaustão de solos, privados de seus nutrientes naturais; na
ausência de uma solução doméstica tais
nutrientes foram substituídos por agentes fertilizantes importados.
O primeiro substituto encontrado foi o guano proveniente do Peru e,
poucos anos mais tarde, o nitrato dos planaltos Andinos do Peru e da
Bolívia. Em 1875, quase 100 mil trabalhadores chineses imigrados
trabalhavam em condições inumanas na extracção de
fertilizantes e no carregamento de centenas de navios para aprovisionamento dos
países industrializados; o que por um lado proporcionou à
burguesia peruana enriquecimento rápido e enorme mas, por outro,
conduziu a elevada dívida pública; enunciava-se um padrão
de crescimento que se repetiria inúmeras vezes até
à actualidade, o qual é característico de sociedades
colonizadas e em que a organização da produção
económica se suporta numa estrutura de classes antagónicas. Para
resolver essa crise, o governo peruano instaurou um monopólio
público sobre a produção de nitratos. Quatro anos passados
o Chile, que era parte interessada na exportação e no
comércio dos nitratos, apoiado por negociantes britânicos,
declarou guerra à Bolívia e ao Peru; em quatro anos fez
conquistas territoriais que abarcaram a quase totalidade dos recursos de
nitrato e de guano (Guerra do Pacífico). Enquanto antes da
guerra o capital britânico controlava 13% da indústria de nitratos
do Peru, após a guerra viria a controlar 70% da indústria de
nitratos do Chile.
Os nitratos do Chile iriam alimentar durante meio século a agricultura
intensiva europeia bem como a indústria química, também em
rápida expansão, incluindo o fabrico de explosivos para a
indústria da guerra. Foi então a vez de o governo chileno vir a
anunciar a nacionalização dos recursos de nitrato, tendo em vista
financiar políticas de interesse público; seguindo um outro
figurino que se repetiria também até à actualidade, o
governo britânico apoiaria a oposição e uma guerra civil
que conduziria à queda do governo. Por essa data (1891) 75% das
exportações chilenas destinavam-se à Grã-Bretanha e
50% das importações chilenas vinham da Grã-Bretanha. Por
1914, dois terços das receitas de Estado chilenas eram asseguradas pelas
exportações de nitratos, sobretudo para a Grã-Bretanha e a
Alemanha. (Ecological Imperialism - The Curse of Capitalism
John Bellamy Foster & Brett Clark
, in The New Imperial Challenge, Socialist Register 2004, Panitch L., Leys C.
(eds.)).
Com o inicio da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha impôs um
bloqueio à Alemanha que esta iria, contudo, ultrapassar, mediante uma
inovação técnica que ofereceu uma solução
alternativa ao aprovisionamento em nitrato do Chile, designadamente a
síntese do amoníaco e do ácido nítrico a partir do
azoto atmosférico. O autor desta descoberta, o químico
alemão Fritz Haber, seria também conhecido como inventor e
proponente dos gases asfixiantes o progenitor das armas químicas (
http://www.nobel.se/chemistry/laureates/1918/haber-bio.html
). Encontrada uma fonte alternativa para o nitrato do Chile, a procura e o
preço deste decaíram progressivamente, vindo a mergulhar esse
país, altamente dependente da exportação dessa
matéria-prima, em grave crise económica.
A síntese dos nitratos e demais fertilizantes sintéticos, desde
então cada vez mais utilizados, requer o consumo de combustíveis
fósseis (sobretudo derivados do petróleo e gás natural). O
problema de conseguir manter o solo produtivo não fica pois resolvido,
foi sim transferido para outras matérias-primas, e a um nível
quantitativo ainda muito mais elevado. Contando apenas os principais adubos
que fornecem ao solo azoto, fósforo e potássio nos
últimos quarenta anos, de 1961/62 para 2001/02 o consumo mundial mais
que quadruplicou e a produção mundial excede já 400
milhões de toneladas anuais. Desse consumo colossal, cerca de dois
terços cabe à Ásia, América Latina e África;
os maiores consumidores mundiais são, por ordem decrescente, a China, os
EUA, a UE e a Índia; a UE atingiu um nível máximo de
consumo ao longo da década de 1980-89, após o que o consumo tem
declinado, em resultado da política agrícola comum (PAC). Da
produção mundial, cerca de um terço é
comercializado no mercado internacional, os EUA sendo destacadamente o primeiro
exportador mundial e a Rússia/FSU tendo também uma
posição importante (sobretudo em virtude de drástica
redução do consumo interno a partir de 1991/92). Os fertilizantes
sintéticos, a par de outros factores de produção
agrícola, continuam a ser um poderoso instrumento de
exploração capitalista no plano global [
European Fertilizer Manufacturers Association
;
International Fertilizer Industry Association
].
A alienação da relação homem-terra e a
intensificação da produção de
matérias-primas e o seu comércio assimétrico entre os
centros e as periferias imperiais gerou uma dívida ecológica dos
exploradores para com os explorados. Cerca de um quarto da
população mundial consome grosso modo três quartos dos
recursos mundiais; mas esta proporção injusta é ainda
assim idílica face às muito maiores desproporções
mais pronunciadas entre diferentes países e no interior de cada
país entre estratos sociais. É também uma
situação de desequilíbrio que se formou e acumulou ao
longo de alguns séculos, abrangendo muitas gerações. E,
para confirmar a relação injusta e o poder imperial instalado, a
dívida, em termos monetária, é dos países
explorados para com os exploradores, e vai-se agravando sob a
manipulação da fixação de preços das
commodities, as taxas de câmbio, as taxas de juros, a
liberalização dos mercados, a privatização de
património e de serviços, o investimento directo estrangeiro, as
reestruturações ou reajustamentos económicos politicamente
impostos, etc.
A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGRO-INDUSTRIAL NO
CORAÇÃO DO IMPÉRIO
O complexo agro-industrial foi e continua a ser um componente essencial do
sistema imperialista agora sob hegemonia norte-americana.
Recorde-se que em 1955 o comércio agrícola fora excluído
das negociações do GATT, porque nessa época a agricultura
norte-americana era altamente subsidiada e deveria permanecer protegida da
competição de produtos importados. Trinta anos volvidos, os EUA
haviam invertido a sua posição e argumentavam contra o
proteccionismo. O Export Enhancement Program que os EUA
instituíram entretanto visou dois fins: por um lado, subsidiar
exportações agrícolas para a competição com
a UE, particularmente direccionadas para a URSS, China e Médio Oriente,
por outro lado, como argumento de negociação nos Uruguay
Rounds que conduziriam à institucionalização da
OMC/WTO. As negociações que ao longo da década de 1980
conduziram do GATT à OMC/WTO em 1995, incidiram já também
na liberalização da actividade agrícola e no
comércio de produtos agrícolas; mas, não obstante a
retórica sobre a eficiência económica e a liberdade de
mercado, quer os EUA quer a UE mantiveram os seus próprios
subsídios indirectos à produção
agro-pecuária doméstica (mediante o desacoplamento entre os
preços de produtos e os subsídios às
explorações agrícolas, bem como apoios em
infra-estruturas) enquanto, por outro lado, impuseram aos agricultores dos
países menos desenvolvidos a pressão necessária para que
alienassem as suas culturas, a favor da produção extensiva e
intensiva procurada pelo negócio agro-industrial. Seguindo uma
orientação política que remonta à
fundação da Comunidade Económica Europeia, a União
Europeia adoptou um modelo de desenvolvimento agrícola subsidiado
paralelo ao dos EUA Common Agricultural Policy (PAC); por um
lado, visou idênticos fins externos, incluindo a competição
com os EUA na partilha do comércio mundial de produtos agrícolas
e agro-industriais; por outro lado, visou a acumulação e
concentração interna de capital, bem ilustradas pelo facto de o
orçamento da UE para o exercício de 2004 destinar à
agricultura 44 mil milhões, ou seja 47% do orçamento geral
da União, com o distintivo sinal de classe de os subsídios serem
essencialmente destinados à posse dos meios de produção e
não à produção efectiva.
Essa transição essencialmente iniciada após o termo da
Segunda Guerra Mundial (1955-1995), apagou os vestígios da era
agro-colonial, baseado na divisão e
especialização internacional do trabalho e de produtos na
produção primária e na transformação, para
culminar a passagem para a era agro-industial, caracterizada pela
integração de actividades agrícolas e industriais nas
anteriores metrópoles, apoiada em inovações
técnicas intensivas em capital e em energia. O novo modelo não
reduziria porém a dependência alimentar, nem nos centros
industrializados nem no mundo pós-colonial, antes a agravaria, pois que
exige contínuos e intensos fluxos comerciais de toda a natureza
maquinaria, inputs como combustíveis, adubos, pesticidas,
sementes, etc. e outputs como milho, oleaginosas, etc. Esta
inter-dependência não é fortuita, é intencionalmente
económica e visa o poder político imperial. Mas o que não
seria evidente há meio século atrás e entretanto se tornou
em realidade omnipresente e todo-poderosa, foi a constituição de
grandes corporações transnacionais agro-industriais, um complexo
agro-industrial que integra vertical e horizontalmente a produção
e o comércio a nível nacional e internacional.
Para esta transformação contribuiu a constituição,
após o termo da Segunda Guerra Mundial, de grandes
corporações monopolistas nos EUA, que captariam a
sobre-produção doméstica protegida e a comercializariam na
exportação subsidiada ao abrigo dos programas de ajuda
alimentar. Por outro lado e de outro modo, outros programas de ajuda
externa e o Plano Marshall foram veículos para a promoção
da modernização do sector agrícola e a
replicação do modelo agro-industrial norte-americano em diversos
países Europeus, Latino-Americanos e Asiáticos. A partir de 1973,
com a nova ordem económica internacional formalmente
associada ao abandono do acordo de Bretton Wood [
http://www.wordiq.com/definition/Bretton_Woods_Conference
] a flutuação das taxas de câmbio, a
liberalização de mercados financeiros offshore e da
especulação bolsista, e a renovada acção
institucional do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional
o controlo nacional sobre os movimentos de capitais foi severamente reduzido,
abrindo a porta à expansão das corporações
transnacionais.
A partir de então, a agricultura familiar entrou em grande crise mais ou
menos por todo o mundo, para ficar dependente da produção
intensiva destinada à exportação, enquanto nos EUA e na UE
a sobre-produção subsidiada se consolidava. Assim, em 1980 mais
de 50% das exportações de trigo destinavam-se aos países
subdesenvolvidos, tornados agravadamente dependentes em virtude da
especialização, da política de preços e
também da importação de hábitos
dietéticos. Induzida e atravessada a crise agrícola da
década de 1980, em 1994, 50% da produção agrícola
norte-americana provinha de 2% das propriedades agrícolas; 80% da carne
de vaca era abatida e embalada por apenas três corporações;
os EUA asseguravam 36% do comércio mundial de trigo, 64% de milho,
cevada, aveia e sorgo, 40% de soja; 50% das exportações
norte-americanas de cereais estavam nas mãos de apenas duas
corporações (Cargill e Continental). A indústria alimentar
tornou-se de facto no primeiro sector industrial norte-americano; 95% dos
alimentos consumidos nos EUA são manufacturados, distribuídos e
vendidos por algumas poucas grandes corporações (ConAgra, Philip
Morris, etc.). Estes números ilustram tanto o poder político de
uma só nação hegemónica como o controlo
económico atingido por algumas poucas corporações
transnacionais.
O PODER GEO-POLÍTICO DAS TRANSNACIONAIS DO AGRO-NEGÓCIO
Sob o imperialismo, a agricultura é cada vez menos uma
instituição fundamental das sociedades organizadas para ser cada
vez mais parte da estratégia de aprovisionamento de recursos para as
corporações, incorporando globalmente regiões em
relações quer de produção quer de consumo, mediante
fluxos sobre distâncias médias da ordem de milhares de
quilómetros desde a produção primária até ao
consumo final, com custos energéticos insensatos. Esta
organização económica é suporte para a
especulação sobre
commodities
que engrossa o capital financeiro. Fragiliza extremamente a estrutura rural e
a produção agrícola das várias
nações. Nos países em desenvolvimento, a controlo sobre a
produção local mantêm-se essencialmente segundo o mesmo
projecto neocolonialista, ainda que sempre reinventado, oferecendo alimentos
importados para exigir a exportação de novas
commodities,
uns e outras a preços depreciados, suportados em
inovações técnicas que o centro controla (sementes
seleccionadas incluindo organismos geneticamente modificados (OGM),
inputs
químicos, entregas calendarizadas). No Brasil, Chile e México,
que se estão tornando em principais fornecedores de produtos
agrícolas frescos ou transformados para os EUA e a Europa, a
dependência alimentar e técnica aprofunda-se. No Brasil, que
é o terceiro exportador mundial de alimentos e parece estar destinado a
ser uma das principais fonte de aprovisionamento de produtos agrícola na
divisão internacional do comércio, menos de 1% da
população detém a propriedade de mais de 50% do solo
agrícola fértil, enquanto 30 milhões de agricultores
desapossados sobrevivem em condições de
destituição. «Continuamos assim como há 500 anos,
plantando o que interessa à metrópole, a velha
economia agroexportadora como é ensinado nas aulas de história.
Mas agora com alguns agravantes: compramos as máquinas das
multinacionais da metrópole a preço de ouro,
compramos seus adubos, compramos seu agrotóxico, compramos suas sementes
e pagamos royalties por sua pesquisa e ainda assim acham que estão
fazendo bons negócios para o Brasil.» [Edivar Lavratti,
Agronegócio: a nova maquiagem para o velho latifúndio,
MST, 23 de Agosto de 2004
http://www.mst.org.br/biblioteca/textos/reformagr/agronegocio_maquiagem.htm
].
O Chile é o maior abastecedor da Europa e dos EUA em hortaliças e
frutas frescas fora de estação; a sua agricultura foi
extensamente reconfigurada para servir esse propósito especializado; em
particular os trabalhadores agrícolas são forçados a
trabalho sazonal incerto e a salário baixo; esta
organização económica foi montada pela acção
de cinco corporações que controlam mais de metade das
exportações. As grandes corporações da
indústria alimentar dos EUA (Kellogg's, Bird's Eye, Pepsico, etc.),
Europa (Unilever, Nestlé, etc.) e Japão (Mitsui, Mitsubishi,
etc.) incrementam a taxa de investimento directo em produção e
processamento alimentar sobretudo no México, tirando partido da maior
liberalização do respectivo mercado. No âmbito da NAFTA, a
progressiva redução de barreiras aduaneiras ao comércio do
milho entre o México e os EUA, estima-se que eliminará dois
terços dessa produção Mexicana nos próximos anos;
por essa via libertando terra e trabalhadores para outras
produções no quadro da especialização e
concentração agro-industrial; não contabilizando as
externalidades sociais e ambientais aí implícitas.
Cargill, Continental, e algumas outras, não só adquiriram o
monopólio do comércio de cereais mediante a
estruturação do seu mercado mundial e a fixação dos
seus preços, como tiveram papel destacada nas negociações
do GATT que conduziram à liberalização dos mercados e
à fixação das regras e dos poderes da OMC/WTO. A proposta
inicialmente levada pelos EUA para o Uruguay Round foi redigida por
um anterior vice-presidente da Cargill, também anterior alto
funcionário do US Department of Agriculture (Ministério da
Agricultura). A Cargill, uma das maiores corporações do mundo,
emprega 70 mil trabalhadores em sessenta países e em cinquenta segmentos
de comércio.
Mas a OMC não é só mero agente da
liberalização do comércio, é também uma
instância judicial com autoridade reconhecida pelos estados
signatários para forçar a aplicação dos
direitos das corporações sobre estados, produtores e
consumidores, por uma e outra via procurando acelerar a
integração económica mundial agenciada pelas grandes
transnacionais. À sua imagem, A NAFTA, a ALCA, a União Europeia
convergem nos mesmos objectivos neoliberais e imperialistas. O domínio
emergente de algumas corporações do complexo agro-industrial
sobre a produção mundial de alimentos geneticamente modificados
(Monsanto, DuPont, Dow, Novartis, etc), não obstante as sérias
reservas colocadas por meios científicos, organizações de
agricultores e associações de consumidores, parece corresponder a
uma etapa superior da apropriação de recursos naturais e na
concentração do poder monopolista do complexo agro-industrial.
Essas corporações promovem a disseminação dos seus
novos factores de produção, que excluem pequenos agricultores,
reduzem a escolha de produtos, trazem ameaças incertas à
biodiversidade e à saúde humana; e, prometendo o incremento da
produtividade e de novo a erradicação da fome, de facto procuram
incrementar ainda mais a concentração do poder económico e
debilitar ainda mais a organização social, por conseguinte
agravando a miséria que daqui advém. O contestado recurso a OGM
tem uma outra face sinistra, que é a dos direitos de propriedade
intelectual que investidores estrangeiros pretendem adquirir sobre
produtos e processos, naturais ou culturais. O Protocolo TRIPS (no quadro da
OMC) permitirá expropriar agricultores das sua sementes, mesmo aquelas
seleccionadas ao longo de gerações e que constituem de facto
património cultural da sociedade, bem como patentear material
genético natural que constitui de facto património natural da
humanidade. A introdução de genes terminator
permitiria anular a capacidade reprodutiva de plantas, colocando os
agricultores à mercê da aquisição anual de sementes
e conferindo às corporações detentoras das patentes de
tais OGM o monopólio do seu cultivo.
[
http://www.globalissues.org/TradeRelated/FreeTrade/WTO.asp
Philip McMichael, Global food politics, Monthly review, July-August 1998
http://www.findarticles.com/p/articles/mi_m1132/is_n3_v50/ai_21031836/print
].
O COMERCIO ALIMENTAR INTERNACIONAL
Segundo a OMC, em 2000 o volume mundial do comércio de alimentos atingiu
US$ 442 mil milhões; mais de 60% desse montante foi transaccionado entre
a União Europeia, a América do Norte e o Japão, grosso
modo no seio dos países da OCDE. É flagrante o contraste entre
esse fluxo medido em termos monetários com o mesmo fluxo medido em
termos físicos; por outro lado, resulta patente que a
liberalização aduaneira imposta aos países menos
desenvolvidos face ao proteccionismo praticado nos países mais
desenvolvidos é objectivamente desnecessária à mera
reprodução do presente sistema uma vez já instaurado,
independentemente da sua profunda desigualdade e injustiça, mas que
assim foi construído e mantém para que proporcione mais elevados
lucros ainda e mais o poder político que assim controla. A
Cargill/Monsanto, Novartis/ADM, Philip Morris, ConAgra, a selecta
família de transnacionais que controlam 80% do comercio mundial de
sementes, 75% dos agro-químicos e os primeiros lugares nas vendas de
alimentos transformados, têm assim espaço para prosseguir a
respectiva acumulação, integração vertical e
horizontal, a caminho de ilimitada concentração.
Assim o mundo fosse infinito e o povo o permitisse [Agribusiness Accountability
Initiative
http://www.agribusinessaccountability.org/page/data/
].
Os preços dos produtos agrícolas e minerais básicos
(commodities)
tem sido depreciados ao longo dos últimos vinte anos, atingindo em 2001
preços inferiores a 60% dos níveis em que se encontravam em 1980;
em particular o preço do café desceu 70%. No que toca à
agro-indústria, esta depreciação foi resultado da
liberalização do sector agrícola dos países
subdesenvolvidos, a aceleração da monocultura, a
intensificação agrícola e a liberalização do
comércio, alterações estas introduzidas pela
acção combinada de programas de ajuste estrutural
impostos pelo BM-FMI aos países em dívida, das
regulamentações e da jurisdição da OMC/WTO e das
organizações económicas regionais (AFTA, ALCA, APEC, etc.)
e, necessariamente das corporações transnacionais operando no
terreno, em conluio com as oligarquias nacionais.
Um dos casos exemplares é o do café. Neste caso, 25
milhões de agricultores vendem o grão mesmo abaixo do custo de
produção, depauperando-se e contribuindo forçadamente para
a perpetuação da dívida, enquanto as
corporações que transaccionam e comercializam o produto de
marca (Nestlé, Procter & Gamble, Sara Lee, Kraft Foods,
etc.) realizam anualmente vendas da ordem das dezenas de milhar de
milhões de euros. Em Janeiro de 2003, em Genebra, foi constituída
por organizações cafeeiras e sociais de vários
países da América Latina e Caribe e da África uma
Aliança Global para a defesa do café; na Declaração
então emitida, essa Aliança reclamava dos poderes
económicos e políticos um plano de resgate que tornasse o mercado
cafeeiro justo e estável e exortava os governos dos países
produtores a garantirem a soberania alimentar nacional. A
situação é agravada pela especulação
bolsista sobre as
commodities
que, ao manipular os preços, gera receitas milionárias a favor
dos especuladores para agravar a depauperação dos agricultores e
explorar os consumidores.
Por seu lado, os factores de produção (solo, maquinaria, sementes
e fertilizantes) são também controlados pela
agro-indústria. Os consumos de fertilizantes por
commodity
são indicadores valiosos para documentar a intensidade e a
extensão de cada cultura em cada país e por aí documentar
a sua posição dentro do sistema mundial
agro-industrial; nos EUA, no Japão e em Israel, a
área cultivada é quase totalmente fertilizada e com uma
intensidade elevada, frequentemente com mais de 500 kg/ha (N, P
2
O
5
e K
2
O); na União Europeia, no Canadá e na China, as intensidades de
fertilização são marcadamente mais moderadas; na
Índia, Indonésia, na Europa Central e de Leste e na larga maioria
dos países subdesenvolvidos são francamente menores.
Países como a Argentina, o Brasil e o México têm
áreas de grande extensão cativas de algumas culturas com
intensidades de fertilização baixa; são produtores
altamente especializados e com elevada rendibilidade (mas até quando?)
[FAO, Fertilizer use by crop, Rome, 2002
http://www.fertilizer.org/ifa/statistics/crops/fubc5ed.pdf
].
O imperialismo impôs um regime de produção que aprofundou e
aprofunda a divisão antagónica entre cidade e campo, e entre
países desenvolvidos e subdesenvolvidos. «O subdesenvolvimento
é o produto da má utilização dos recursos naturais
e humanos realizada de forma a não conduzir à expansão
económica e a impedir as mudanças sociais indispensáveis
ao processo da integração dos grupos humanos subdesenvolvidos
dentro de um sistema económico integrado. Só através de
uma estratégia global do desenvolvimento, capaz de mobilizar todos os
factores de produção no interesse da colectividade,
poderão ser eliminados o subdesenvolvimento e a fome da
superfície da terra» [Josué de Castro, Explosão
demográfica e a fome no mundo, Trabalho publicado na revista
Civillitá delle Machine
, Julho/Agosto 1968, Roma. Incluído no livro
Fome, Um Tema Proibido
, 2003
http://www.josuedecastro.com.br/port/index.html
]. Os sistemas agro-pecuários e ecossistemas naturais são
sistemática e progressivamente transformados e apropriados com vista
à intensificação da produção
agro-pecuária e florestal (sem esquecer a papoila, a cannabis, etc. para
o narcotráfico). As mercadorias geradas no campo servem para o
enriquecimento de burguesias nacionais e do capital monopolista das
transnacionais agro-industriais. Para sustentar e expandir este sistema de
exploração e acumulação, para além da
alienação da relação do homem com a natureza, o
imperialismo lançou mão de invenções
tecnológicas; primeiro os adubos naturais (nitratos, guano, etc); depois
os adubos sintéticos derivados do petróleo e pesticidas
(nitratos, fosfatos, etc); depois os organismos geneticamente modificados.
Neste processo acumulam-se tensões e contradições dentro
da sociedade humana e entre esta e a natureza, um confronto que o homem
não pode vencer mas pode resolver. A presente forma de
produção económica e a correspondente
organização social não são
sustentáveis.
30 de Agosto de 2004.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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