O Serviço Nacional de Saúde é sustentável
RESUMO DESTE ESTUDO
Entre 1970 e 2003, a mortalidade infantil diminuiu, em Portugal 51,4 pontos
percentuais, na Alemanha 18,3 pontos percentuais, na Dinamarca 9,8 pontos
percentuais e, nos Estados Unidos, em 13 pontos percentuais. Por outro lado,
durante o mesmo período, a esperança de vida à
nascença aumentou, em Portugal, em 9,8 anos; na Alemanha em 8 anos; na
Dinamarca em 3,9 anos; e, nos Estados Unidos, em 6,3 anos.
Estes ganhos de saúde foram conseguidos com aumento de despesa por
habitante, em Portugal, de 1.716 dólares; na Alemanha de 2.726
dólares; na Dinamarca de 2.368 dólares; e nos Estados Unidos com
um aumento 5.288 dólares por habitante. Entre 1970 e 2003, em
percentagem do PIB, as despesas com a saúde aumentaram em Portugal 7
pontos percentuais; na Alemanha 4,9 pontos percentuais; na Dinamarca 1 ponto
percentual; e, nos Estados Unidos, o aumento atingiu 8,1 pontos percentuais.
Os valores anteriores de despesas com a saúde incluem as despesas
públicas mais as despesas pagas directamente pelos utentes, ou seja, por
todos os portugueses. Se a análise se circunscrever à parte
pública, conclui-se que, em 2003, em Portugal ela representava apenas
69,7% da despesa total com a saúde, uma das mais baixas da União
Europeia, quando na Alemanha atingia 78,2% e, na Dinamarca, 83%. Para
além disso, verifica-se que, em Portugal, as despesas do Estado com a
função "Saúde", que inclui as despesas
realizadas por todos os ministérios com a saúde, e não
apenas o Ministério da Saúde, estão a diminuir se
calcularmos a percentagem que representam em relação às
despesas totais com a saúde em Portugal. Em 2004, as despesas do Estado
com a saúde representavam 61,1% das despesas totais com a saúde
no nosso País e, em 2006, prevê-se que representem apenas 59,5%;
isto significa que 40,5% das despesas já serão pagas pelos
utentes (portugueses), para além dos impostos e taxas moderadoras que
têm de pagar.
Por outro lado, verifica-se a nível do SNS importantes
ineficiências que é urgente eliminar para garantir a sua
sustentabilidade. Em 2003, a despesa total com saúde por habitante em
Portugal (inclui a despesa pública mais a despesa paga directamente
pelos utentes) representava apenas 65% da dinamarquesa, mas a despesa com
medicamentos por habitante era superior em 62% à verificada na Dinamarca.
Igualmente os níveis de desempenho variam muito de hospital para
hospital em Portugal. Assim, o número de doentes saídos por
médico no melhor hospital (Leiria) era quatro vezes superior ao que
apresenta menor desempenho (Pedro Hispano); a nível de cirurgias por
médico a relação é de 3 vezes superior; a
nível de tempo médio de consulta por médico a
relação é de 1,8 superior; finalmente em
relação ao número de consultas por médico, no
hospital com melhor desempenho (São Sebastião ) o seu
número era 2,1 vezes superior ao com mais baixo desempenho (Braga).
No que se refere aos custos unitários por doentes as disparidades
também são muito grandes. Assim, o custo do internamento por
doente no Hospital Garcia da Horta era 1,8 vezes superior ao de São
Sebastião; o custo de uma consulta externa no Hospital Garcia da Horta
era 3,5 vezes superior ao de Leiria; e o custo de urgência no Hospital de
Évora era 4 vezes superior ao de S. Sebastião da Feira. Esta
diferença de custos é, em muitos casos, consequência de uma
deficiente utilização dos meios humanos e materiais existentes
(por ex., médicos que fazem reduzido número de cirurgias e blocos
operatórios a serem utilizados em menos de metade da sua capacidade) ou
então hospitais sobredimensionados para as populações que
abrangem (ex.: Centro Hospitalar do médio Tejo em várias
áreas).
O Tribunal de Contas fez, em 2003, uma auditoria ao Serviço Nacional de
Saúde tendo concluído que "o desperdício de recursos
financeiros no SNS atinge 25% do montante afectado à saúde "
(Regulação da Saúde, Rui Nunes, pág. 39). 25% da
despesa prevista do SNS para 2006 corresponde a mais de 2000 milhões de
euros.
É possível duplicar a despesa de saúde por habitante sem
aumentar a percentagem do PIB que as despesas com saúde já
representam. Basta que a economia portuguesa cresça, e que o PIB por
habitante em Portugal se aproxime da média comunitária (UE15),
já que ele representava, em 2005, apenas 48,7% do PIB médio por
habitante comunitário.
Eliminar as importantes ineficiências que existem a nível do SNS
que segundo o Tribunal de Contas determinam desperdícios em meios
financeiros que correspondem a 25% das despesas; e uma politica de crescimento
económico, portanto não centrada no défice como é a
actual: eis a forma de garantir a sustentabilidade do SNS sem aumentar as
despesas de saúde já pagas pelos portugueses. E isto não
se consegue privatizando o SNS, como provaremos num próximo estudo.
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Tal como sucedeu, primeiro, com a segurança social dos trabalhadores da
Administração Pública mais conhecida pela Caixa Geral de
Aposentações e, depois, com a segurança social dos
trabalhadores das empresas privadas, começa-se a assistir neste momento
também a uma campanha articulada com o objectivo de levantar duvidas
sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O
objectivo é preparar a opinião pública para por em causa o
direito constitucional à saúde e para medidas que visam aumentar
a despesa de saúde paga pelos portugueses, de que são exemplos
já os aumentos das taxas das urgências em 23% e a
redução da comparticipação do Estado nos
preços dos medicamentos ou mesmo a descomparticipação
total em muitos outros. Para além disso, visa também justificar
a destruição das carreiras dos profissionais de saúde com
o objectivo de aumentar a precariedade e a exploração. A
multiplicação dos contratos a prazo, nomeadamente entre os jovens
profissionais, prova isso.
Analisar com objectividade e com um mínimo de profundidade esta
questão que é fundamental para milhões de portugueses
torna-se necessário, até para desmontar muito daquilo que
acriticamente os media têm divulgado. É isso o que se vai procurar
fazer neste estudo.
A DIFERENÇA ENTRE SUSTENTABILIDADE A NÍVEL DE UMA EMPRESA E DO SNS
Muitas vezes por ignorância ou intencionalmente fala-se da
sustentabilidade do SNS como fosse uma empresa, embora os objectivos de um e
outro sejam radicalmente diferentes. E esta diferença de objectivos
determina necessariamente que a sustentabilidade numa empresa seja diferente da
sustentabilidade do SNS.
Assim, quando se fala da sustentabilidade numa empresa, cujo objectivo
principal é o lucro por mais que se pretenda disfarçar isso (os
"espíritos mais sensíveis" preferem utilizar a palavra
"rentabilidade"), está-se a pensar em duas formas de
sustentabilidade: a económica e a financeira.
Assim, uma empresa é sustentável sob o ponto de vista
económico quando o valor dos seus proveitos é superior ao dos
seus custos, o que é necessário para assegurar lucros. Uma
empresa é sustentável sob o ponto de vista financeiro, quando os
recebimentos são superiores aos seus pagamentos, o que é
indispensável para garantir a continuidade da empresa e o pagamento dos
lucros aos seus proprietários.
Em relação ao Serviço Nacional de Saúde, cujo
objectivo não é o lucro, a sua sustentabilidade deve ser
analisada em três dimensões, a saber: (1) EFICÁCIA: que
visa assegurar a universalidade do direito à saúde e melhorias
continuas na saúde da população; (2) EFICIÊNCIA: que
significa uma boa utilização dos recursos disponíveis,
para assegurar o equilíbrio das suas contas; (3)
RESPONSABILIZAÇÃO: pelo incumprimento dos objectivos e pelas
ineficiências.
A EVOLUÇÃO DA RELAÇÃO CUSTOS/BENEFICIOS NA
SAÚDE EM PORTUGAL E EM OUTROS PAÍSES ENTRE 1970-2003
Em relação ao Serviço Nacional de Saúde, atendendo
aos seus objectivos garantir o acesso a todos os portugueses a um bem
fundamental que é o serviço de saúde e melhorias continuas
na saúde da população o quadro I, construído
com dados divulgados pela OCDE, permite fazer uma primeira análise de
custos-benefícios no período 1970-2003, e estabelecer
comparações com outros países.
Entre 1970 e 2003, em Portugal, a taxa de mortalidade infantil passou de 55,5%
para apenas 4,1%, portanto diminuiu 51,4 pontos percentuais, e a
esperança de vida aumentou de 67,5 anos para 77,3 anos, portanto subiu
em 9,8 anos.
Comparemos estas melhorias verificadas na saúde em Portugal com a
registada em outros países, durante o mesmo período.
Assim, e como mostram também os dados do quadro I, entre 1970 e 2003, a
mortalidade infantil diminuiu em 18,3 pontos percentuais na Alemanha (a taxa
passou de 22,5% para 4,2%); em 9,8 pontos percentuais na Dinamarca (passou de
14,2% para 4,4%); e em 13 pontos percentuais nos Estados Unidos (a taxa de
mortalidade infantil passou de 20% para 7%), portanto diminuições
muito menos significativas que a registada em Portugal durante o mesmo
período que, como vimos, diminuiu 51,4 pontos percentuais (de 55,5% para
4,1%).
Em relação à esperança de vida à
nascença, entre 1970 e 2003, ela aumentou 9,8 anos em Portugal (passou
de 67,5 anos para 77,3 anos), 8 anos na Alemanha (passou de 70,4 anos para 78,4
anos), 3,9 anos na Dinamarca (passou de 73,3 anos para 77,2 anos), e 6,3 anos
nos Estados Unidos (passou de 70,9 anos para 77,2 anos), quando em Portugal o
aumento da esperança de vida durante o mesmo período atingiu,
como já se referiu, 9,8 anos.
Em resumo, entre 1970 e 2003, as melhorias verificadas de saúde na
população em Portugal foram superiores ao de muitos
países. E isso deveu-se, sem dúvida, ao SNS.
Analisamos agora a relação custos, para vermos se as melhorias
verificadas na saúde em Portugal foram conseguidas com custos mais
elevados do que os registados em outros países.
Assim, de acordo com os dados também constantes do quadro I, entre 1970
e 2003, em Portugal a despesa com saúde por habitante aumentou em 1.716
dólares (passou de 51 dólares para 1.797 dólares),
enquanto na Alemanha cresceu em 2.726 dólares por habitante (passou de
270 dólares para 2.996 dólares); na Dinamarca subiu 2.368
dólares por habitante (passou de 395 dólares para 2.763
dólares); e nos Estados Unidos aumentou 5.288 dólares, portanto
valores muito superiores ao verificado em Portugal que foi, como já se
referiu, de 1.716 dólares por habitante. Se a análise for feita
em percentagem do PIB, conclui-se que, entre 1970 e 2003, as despesas com a
saúde aumentaram em Portugal 7 pontos percentuais (passou de 2,6% do PIB
para 9,6%); na Alemanha cresceu em 4,9 pontos percentuais (passou de 6,2% para
11,1% do PIB); na Dinamarca 1 ponto percentual (passou de 8% para 9% do PIB); e
nos Estados Unidos o aumento foi de 8,1 pontos percentuais (passou de 6,9% para
15% do PIB).
O aumento verificado em Portugal superior ao registado em países como a
Dinamarca e a Alemanha deve-se fundamentalmente ao fraco crescimento
económico do nosso País o que determina um PIB por habitante de
valor extremamente baixo quando o comparamos com o daqueles países.
É esclarecedor que é precisamente num país onde domina a
gestão e exploração privada da saúde Estados
Unidos - que a despesa da saúde por habitante seja a mais elevada do
mundo, e essa mesma despesa, medida em percentagem do PIB, tenha crescido mais.
EM PORTUGAL, A COMPARTICIPAÇÃO DO ESTADO NAS DESPESAS TOTAIS DE
SAÚDE DA POPULAÇÃO É DAS MAIS BAIXAS DA
UNIÃO EUROPEIA E ESTÁ A DIMINUIR
Os valores de despesas de saúde apresentados anteriormente, incluem a
paga pelos utentes mais a paga pelo Estado. Interessa agora analisar a
evolução da parcela paga pelo Estado, até porque o governo
de Sócrates, através do ministro Correia Campos, e forças
da direita, e até o prof. Manuel Antunes de Coimbra (veja-se a
entrevista que deu ao Diário de Noticias em 19.3.2006), têm
defendido o aumento da parcela das despesas a serem suportadas pelos utentes,
ou seja, por todos os portugueses, para além dos impostos e das taxas
moderadoras que já pagam.
O quadro II, construído com dados divulgados pela OCDE, permite analisar
para diversos países, incluindo Portugal, o peso das despesas de
saúde já pagas directamente pelos portugueses.
Como mostram os dados do quadro II, exceptuando o caso dos Estados Unidos,
país onde domina a medicina privada dos seguros de saúde, em
2003, Portugal era o país onde a percentagem das despesas totais de
saúde por habitante comparticipadas pelo Estado era mais baixa, pois
representava apenas 69,7% do total. Assim, neste ano, cada português
já tinha de pagar, em média, mais de 30% das despesas com a sua
saúde, quando na Alemanha era menos de 22% e, na Dinamarca, apenas 17%.
E como mostram os dados do quadro III esta comparticipação de
cada português tem aumentado muito nos últimos anos.
O quadro III, inclui os valores da despesa total do Estado com a
função "Saúde", o que significa que ela inclui
as despesas do Ministério da Saúde mais as despesas de
saúde pagas por qualquer outro ministério com os seus
trabalhadores.
Fazendo os cálculos necessários com base nos dados dessa despesa
conclui-se o seguinte: (1) A despesa pública por habitante, em 2004, foi
de 804 euros, em 2005 de 843 euros e, em 2006, de apenas 833 euros, portanto
verifica-se uma diminuição mesmo em valores nominais; (2) Em
percentagem do PIB , a despesa do Estado com a função
saúde representou, em 2004, apenas 5,9% do PIB, em 2005 somente 6% e, em
2006, diminuirá para apenas 5,8%; (3) Se se comparar com a despesa total
da saúde em Portugal medida também em percentagem do PIB,
estimada com base nos valores divulgados pela OCDE para anos anteriores,
conclui-se o seguinte: em 2004 a despesa do Estado com a saúde
representou apenas 61,1% da despesa total com a saúde em Portugal, em
2005 61,9% e, em 2006, prevê-se que represente apenas 59,5% da despesa
total. Isto significa que, em 2006, 40,5% da despesa da saúde em
Portugal tenha de ser paga pelos utentes, ou seja, pelos portugueses.
Face a esta evolução, que significa que Portugal é um dos
países da União Europeia onde a população tem de
pagar do seu bolso directamente uma percentagem maior das despesas com a
saúde, no entanto há ainda quem defenda, incluindo o
próprio ministro da Saúde do governo de Sócrates, que
é necessário aumentar ainda mais a parcela da despesa com
saúde paga pelos portugueses.
EXISTEM AINDA IMPORTANTES INEFICIÊNCIAS NO SNS QUE URGE ELIMINAR
Apesar das importantes melhorias que se conseguiu a nível da
saúde da população em Portugal com o Serviço
Nacional de Saúde já referidas, ainda se verificam a nível
do SNS importantes ineficiências que urge eliminar para que os recursos
disponibilizados sejam utilizados da melhor forma.
Os dados constantes dos quadros seguintes tornam visíveis
ineficiências que parecem existir a nível de
utilização de medicamentos, de recursos humanos e no desempenho e
custos dos diversos hospitais.
Em 2003, de acordo com dados da OCDE, a despesa total com saúde por
habitante em Portugal (inclui a despesa pública mais a despesa paga
directamente pelos utentes) representava apenas 65% da dinamarquesa, mas a
despesa com medicamentos por habitante era superior em 62% à verificada
na Dinamarca.
Por outro lado, os dados do quadro mostram que, apesar do numero de enfermeiros
por 1000 habitantes ser inferior ao dos outros países ( parece este ser
um ponto critico do SNS), em relação ao número de
médicos por 1000 habitantes isso já não se verifica. O que
parece existir é uma deficiente repartição dos
médicos pelas diferentes áreas o que agrava as deficiências
existentes. O quadro seguinte mostra que se continua a investir
fundamentalmente na medicina curativa, hospitalar, muito cara, e pouco na
promoção da saúde, ou seja, nos centros de saúde.
Embora as despesas com os Hospitais, em percentagem das despesas totais do SNS
tenha diminuído ainda que seja de uma forma diminuta, em 2006 ainda
representarão 51% das despesas totais do Serviço Nacional, o que
prova que se continua a apostar essencialmente na medicina curativa muito mais
cara (prefere-se curar a doença, no lugar de evitar a doença).
É evidente que a construção dos 10 hospitais em regime de
Parcerias Público Privado previstos pelo governo, o que
significará a entrega da cobertura de 26% da população do
país a hospitais geridos e explorados por grandes grupos
económicos privados, determinará inevitavelmente que a
percentagem para os hospitais aumente ainda mais à custa da
redução do financiamento dos centros de saúde, agravando
as graves ineficiências que já existem a nível do sector da
saúde em Portugal.
Mas não é só pela razão anterior que as
ineficiências existentes no sector da saúde em Portugal são
grandes. Os dois quadros seguintes evidenciam deficiências significativas
que se verificam a nível do desempenho hospitalar e dos custos por
doente entre os diferentes hospitais.
Os níveis de desempenho variam muito de hospital para hospital em
Portugal. A nível de doentes saídos por médico o do melhor
hospital (Leiria) é quatro vezes superior ao que apresenta menor
desempenho (Pedro Hispano); a nível de cirurgias por médico a
relação é de 3 vezes superior; a nível de tempo
médio de consulta por médico a relação é de
1,8 superior; finalmente em relação ao número de consultas
por médico o hospital com melhor desempenho (São
Sebastião) é superior em 2,1 vezes ao com mais baixo desempenho
(Braga).
Em relação aos custos unitários por doentes as
diferenças também são muito grandes como mostram os dados
do quadro seguinte.
Como mostram os dados do quadro anterior, o custo do internamento por doente no
Hospital Garcia da Horta era 1,8 vezes superior ao de São
Sebastião; o custo de uma consulta externa no Hospital Garcia da Horta
era 3,5 vezes superior ao de Leiria; e o custo de urgência no Hospital de
Évora era 4 vezes superior ao de S. Sebastião da Feira.
Esta diferença de custos é, em muitos casos, consequência
de uma ineficiente utilização dos meios humanos e materiais
existentes (por ex., médicos que fazem reduzido número de
cirurgias e blocos operatórios a serem utilizados em menos de metade da
sua capacidade) ou então hospitais sobredimensionados para as
populações que abrangem (ex.: Centro Hospitalar do médio
Tejo em várias áreas).
O Tribunal de Contas numa auditoria que fez, em 2003, aos Serviço
Nacional de Saúde concluiu que "o desperdício de recursos
financeiros no SNS atinge 25% do montante afectado à saúde "
(Regulação da Saúde, Rui Nunes, pág. 39). 25% da
despesa prevista do SNS para 2006 corresponde a mais de 2000 milhões de
euros.
Os dados apresentados provam que as ineficiências a nível do
Serviço Nacional de Saúde são grandes, e que é
possível prestar à população mais e melhores
serviços de saúde, baixando até a percentagem de despesas
já suportadas pelos utentes, ou seja, por todos os portugueses. Mas o
aumento da eficiência nunca será alcançada entregando a
gestão e a exploração de unidades ou de serviços de
saúde a privados, de que é exemplo o Hospital Amadora Sintra, em
que o Estado teve já de pagar ao grupo Mellos muito mais do que
inicialmente previsto, assim com os Hospitais Parcerias Público
Privadas. Mas essa é uma questão que deixaremos para um
próximo estudo, até porque teremos de fazer uma
intervenção sobre essa matéria num "workshop"
sobre "Gestão Hospitalar", organizada pelo Sindicato dos
Médicos da Zona Centro, que terá lugar em Coimbra no dia 1 de
Abril de 2006.
É POSSIVEL AUMENTAR A DESPESA DE SAÚDE POR HABITANTE EM EUROS SEM
AUMENTAR A DESPESA DE SAÚDE EM PERCENTAGEM DO PIB
Um dos argumentos mais utilizados tanto pelo governo com pelas forças da
direita para afirmar que o Serviço Nacional de Saúde, com as
características estabelecidas na Constituição da
República (universal e tendencialmente gratuito) não é
sustentável é que as despesas com a saúde em Portugal,
medidas em percentagem do PIB, já atingiram a média
comunitária, e que não é possível aumentar mais.
Esse argumento é falacioso. E para provar isso basta ter presente o
seguinte.
Em primeiro lugar existem vários países da União Europeia
em que essa percentagem é superior à média
comunitária. Por ex,. em 2003, o valor de Portugal correspondia a 9,6%
do PIB e o da Alemanha a 11% do PIB, como já se viu.
Em segundo lugar, e como já se mostrou, é possível prestar
mais e melhores serviços de saúde à
população, utilizando de uma forma mais eficiente os meios
disponibilizados. Esta é uma forma importante de assegurar a
sustentabilidade do SNS sem aumentar de uma forma rápida as despesas.
Em terceiro lugar, é possível duplicar as despesas em euros por
habitantes sem aumentar a percentagem que as despesas da Saúde em
Portugal representam em relação ao PIB. Para que isso
aconteça basta que exista crescimento económico e que Portugal se
aproxime da média comunitária como provam os dados do quadro VI.
Em 2005, o PIB por habitante em Portugal, em euros e a preços
correntes, representava apenas 54,8% da média comunitária
considerando os 25 países que constituem a União Europeia, e
apenas 48,7% se considerarmos o PIB médio da União Europeia
constituída pelos 15 países mais desenvolvidos. Estas
percentagens traduzidas em euros, determinava que a despesa média por
habitante tenha sido em 2005, na UE25 em média superior à
portuguesa em 1.143 euros, e a média dos países que constituem a
UE15 em 1.460 euros. Portanto é fácil de concluir que se o PIB
por habitante português aumentasse para a média dos 15
países mais desenvolvidos da União Europeia, ou seja, que
passasse dos actuais 13.985 euros por habitante para 28.744 euros, seria
possível passar a despesa média de saúde em Portugal dos
actuais 1.357 euros por habitante para 2.817 euros, que é a média
dos países que constituem a UE15, sem ter de aumentar a percentagem que
as despesas com a saúde em Portugal representam actualmente em
relação ao PIB. Para que isso pudesse acontecer, era
indispensável que o País crescesse economicamente com taxas
elevadas, e que não continuasse mergulhado na estagnação
económica, o que acontece desde 2001 fruto de uma politica
económica centrada na obsessão no défice.
Em resumo, é possível garantir a sustentabilidade do
Serviço Nacional de Saúde, por um lado, eliminando as elevadas
ineficiências que existem nele e, por outro lado, levando a cabo uma
verdadeira politica de desenvolvimento económico, e não uma
politica centrada na obsessão do défice que tem determinado a
estagnação económica do nosso País.
26/03/2006
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
. Este estudo constitui, no essencial, a intervenção que
fizemos
no XII Congresso de Medicina, realizado na cidade do Porto de 23-25 de
Março de 2006, em que participamos a convite da Ordem dos Médicos.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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