Social-chauvinismo e euro-esquerda, ou tão amigos que eles são

Da revolução (mundial e permanente)
à reestruturação (honrada e responsável)

por João Vilela [*]

. Setenta figurões decidiram sentar-se a uma mesa para, em verdadeiro concílio de sábios, se debruçarem sobre os assuntos da pátria e chegarem a uma conclusão quanto ao caminho que devemos trilhar se queremos recuperar a independência. Foram longos os debates, morosas as discussões, com murros na mesa, altercações, zangas feias, insultos à mãe e ao pai, ofensas à dignidade pessoal, lares desfeitos no fim, amizades que jamais se recuperarão. Mas estes setenta Senhores (que até mesmo as senhoras de entre eles são uns Senhores, assim mesmo, com S maiúsculo e tudo), sem cederem às soluções fáceis e amando apenas a verdade, não se acobardaram enquanto ela não se revelou, inteira, perante os seus olhos. E quando a viram, descreveram-na. Fixaram-na num manifesto , e deram-no a conhecer aos ignaros. A luz do conhecimento entrou-nos pela cabeça dentro, como o sol entra pela vidraça. E ficámos, como com o sol, iluminados e quentes, perante tamanha eloquência e tão irrebatível conclusão. Uma conclusão que irmana gente tão díspar como um ex-ministro das Colónias, um ex-secretário-geral da CGTP, um ex-coordenador do BE, uma ex-ministra das Finanças do PSD, ou é a verdade, ou devemos para todo o sempre descrer que a verdade existe.

E que é a verdade, perguntamos nós, como Pilatos? A verdade é que a dívida pública portuguesa tem de ser reestruturada. Assim mesmo. Cumpre ser "caloteiro", como diria Nuno Melo – eis a verdade. Cumpre ceder às "pantominices" de quem o defende há anos, como lhes chamou Gaspar – rendemo-nos à verdade. Não pode continuar a defender-se que a este ritmo, com estes juros, com este montante, a dívida pública portuguesa é pagável e quem o faz, bem o vemos, falta à verdade. Como perante uma árvore caída no meio da estrada, que nos impede de prosseguir viagem, Louçã e Adriano Moreira, Ferreira Leite e Carvalho da Silva, vibram um sério aviso de que "a árvore tem de sair do caminho, ou não passaremos adiante". Provam mais lucidez que a de Gaspar e Passos Coelho, que a de Portas ou a de Nuno Melo. O que é fraco consolo: ser mais lúcido que um doido varrido não é exactamente um certificado de genialidade. Nem sequer nos assegura que não estamos loucos: apenas que somos menos loucos um bocadinho. Talvez loucos o suficiente para… pedir a quem cortou a árvore, a deitou na estrada, a pregou ao chão, e a defende dos nossos esforços para a remover com cães e homens armados, que nos ajude a retirá-la da frente.

Porque é disso que se fala quando se quer uma "reestruturação honrada e responsável da dívida" (o que já de si é mau começo de conversa), feita no "âmbito de funcionamento da União Económica e Monetária" (o que consegue ser pior ainda). O que causou o aumento prodigiosa da dívida pública? Determinações orçamentais e financeiras da União Europeia. O que tem agravado a dívida pública? Determinações financeiras e orçamentais da União Europeia. Por via de que instrumentos está a banca alemã a saquear as classes populares portuguesas? De determinações financeiras e orçamentais da União Europeia. Quem produz, dita, e impõe, essas determinações orçamentais e financeiras da União Europeia? O pessoal político dos partidos da política de direita cá dentro (PS, PSD, e CDS) e a eurocracia de Bruxelas. A quem decidem estes setenta figurões pedir auxílio para reestruturar a dívida? Já adivinham – aos partidos da política de direita, que a criaram e de onde muitos deles provêm, e às instituições europeias, que a criaram, para onde alguns deles irão mais cedo ou mais tarde, mas cuja fiabilidade para auxiliar num processo desta natureza é absolutamente nula, como a sensatez mais minúscula demonstra até às mentes mais deslustradas – quanto mais à de ilustríssimos figurões, e logo setenta!

Como um alcoólico com o fígado dilacerado por anos e anos de bebida que "conclui", do fundo da sua embriaguez, que a cura para a sua doença é mais uma cerveja, os setenta figurões, sentados à volta de uma mesa, chegam à conclusão brilhante de que a solução para a dívida que contraímos por força da nossa presença na UE é aprofundarmos mais ainda a União Europeia. E aprofundá-la apresentando-nos perante ela para negociar como quem o faz de chapéu na mão, temeroso, com vergonha, como quem faz uma asneira indevida, como quem comete um crime por querer negociar. Perante os homens armados, com pastores alemães pela trela, que guardam a árvore pregada no meio do nosso caminho, os setenta figurões pedem ajuda de voz embargada e joelhinho bambo. Que outra coisa podem eles esperar se não que lhes soltem os cães, que disparem sobre eles, que os feridos e mortos saídos dessa estratégia sejamos todos nós, sejam também eles próprios?

A admitir-se a reestruturação da dívida, ou ela é feita nos termos determinados pelos interesses dos trabalhadores e do povo português, se necessário com a determinação unilateral dos juros, dos prazos, e dos montantes para o pagamento, em franca e indiscutível ruptura e hostilidade para com as instituições europeias que criaram esta dívida, ou essa reestruturação não serve para nada. Aliás, serve: para afinar o método através do qual os rendeiros da dívida portuguesa a extorquem, de modo que a galinha dos ovos de ouro não morra de fadiga antes de os ter fartado suficientemente. Serve para tornar o mecanismo da dívida, que é um instrumento de exploração do homem pelo homem, um instrumento mais preciso e mais eficaz na consecução da sua tarefa. Para semelhante tarefa, o concurso da esquerda não se dá. A simples proposta é de rejeitar de forma liminar. A sua concretização é para denunciar, sem reserva.

Termino este texto com uma nota de ironia: é sempre com curiosidade que assisto a antigos defensores do anti-capitalismo, da construção do socialismo, até mesmo da tomada do poder pelos trabalhadores, da revolução mundial e permanente, sentados à mesa dos setenta sábios a definir, ombro a ombro com eles e por amor à Europa fundamentalmente boa e indiscutivelmente reformável e refundável, as condições mais adequadas para a continuação da exploração de quem trabalha. É com curiosidade, mas sem deixar de achar sintomático, que assisto a quem chama cobardolas a uns ir, com "cobardolice" igual, pedir ao patrão, se faz favor, se nos arranja umas batatinhas porque nós somos boa gente, séria honrada e responsável (só faltou "limpinha"), que vai pagar o que ele quer, tudo o que ele quer, pelo tempo que ele quiser, desde que seja devagarinho e, nos termos de João Cravinho "com o BCE por trás" (supõe-se a fazer o quê). A revolução é um belo artifício retórico, o socialismo uma aspiração magnífica, os trabalhadores uma gente adorável. Mas isso fica para depois. Para já, e como todos sabemos, discute-se à mesa dos setenta, de cartola e conhaque na mão, para se anunciar aos trabalhadores que o patrão deu uma côdea.

12/Março/2014
[*] Professor de História da Arte.

O original encontra-se em conscienciavisceral.wordpress.com/...


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13/Mar/14