A tese, velha de um século, segundo a qual «só seria
desejável a luta que é possível, e possível aquela
que se trava nesse momento», é expressão de uma
concepção de oportunismo político e ideológico
presente há muito no movimento operário.
Hoje, quando a luta, aquela que objectivamente questiona os interesses de
classe instalados, se revela mais complexa que nunca e com resultados que se
não antevêem fáceis, convém trazê-la à
memória. Não para dar asas a sentimentos de desistência,
resignação ou desalento, mas justamente pelo contrário,
para com plena consciência da situação e
condição concretas em que a luta se desenvolve, melhor os
enfrentar e rejeitar.
A fronteira entre os que se movem pelos critérios do
«possível» prescindindo de se baterem pelo que se apresenta
imperativamente como necessário; a fronteira entre os que agem na base
do cálculo do êxito e não em função da
justeza de o fazer independentemente da avaliação do resultado; a
fronteira entre os que navegam no estrito horizonte da ocasião e os que
tendo-o em conta não prescindem do objectivo da sua luta; a fronteira
entre os que em nome da rejeição de alegadas certezas absolutas
perderam há muito a convicção e os que recusando as
primeiras não abandonam esta última, é justamente a
fronteira que delimita e diferencia as forças consequentes,
necessárias e imprescindíveis na luta contra o capitalismo
daquelas outras que, retirado o verniz retórico que as envolve,
são não apenas toleradas mas até convenientes, porque
inofensivas, aos interesses de classe dominantes.
A presença do oportunismo, nas suas várias
manifestações de direita ou de esquerda, é um
fenómeno social natural, expressão ideológica do
posicionamento e inserção social de determinadas classes,
alimentado pela contradição de interesses nelas presente face ao
modo de produção dominante. Tê-lo em conta é
condição para o enfrentar com serenidade e para lhe dar o combate
indispensável que a luta de transformação social requer.
O oportunismo tem, designadamente nos países capitalistas desenvolvidos
ou em vias de desenvolvimento, objectiva e subjectivamente uma base
«natural» de influência, favorável à sua
afirmação e a um, ainda que com limites, crescimento. Uma base
social, objectiva, que resulta da proletarização das camadas
médias, da insatisfação crescente da pequena-burguesia,
das correntes ideológicas dominantes presente na área da
formação superior e universitária, de
transformações estruturais que contribuem para uma
fragmentação social favorável ao individualismo, e da
emergência de uma classe operária recente, sem experiência
de luta, e parte dela com raízes e ligações à
pequena propriedade agrícola. E uma base política
construída, num quadro de preconceito anticomunista e de crescente
desencanto com as consequências do neoliberalismo e do capitalismo, por
uma deliberada atitude de favorecimento por parte do capital, bem patente na
simpatia dedicada pela comunicação social a essas correntes, no
sentido de desviar da força política mais consequente e decidida
a pôr em causa os seus interesses no nosso país, o PCP
e de assim redireccionar para outros, com conteúdo de classe
inócuo, o descontentamento social e político.
Um instrumento de quem teme as forças de classe
No oportunismo de esquerda, mais complexo e menos simplificado que o termo
esquerdismo, tende a resumir, e nas suas formas de manifestação,
a coexistência de uma orientação próxima da
social-democracia de nítido pendor reformista matizada por atitudes
anarquizantes e um certo radicalismo verbal não só não
é contraditório como é expressão política e
ideológica de um espaço constituído por camadas e sectores
sociais da pequena burguesia e de outras camadas intermédias. Mas que,
á margem destas aparentes contradições, se revela com uma
nítida e inalterável orientação na vida
política, na intervenção social e no combate das ideias,
caracterizada por três aspectos:
O primeiro, a subordinação completa do «objectivo»,
entendido enquanto aquilo que proclamam querer atingir mas que desde logo
abandonam, à ideia do chamado «movimento». Uma atitude
consciente e assumida como indispensável para um crescimento e uma
atracção oportunista tanto mais conseguida quanto difuso se
apresentar o seu projecto e objectivos políticos;
O segundo, a desvalorização do papel da
organização enquanto instrumento de luta e de
transformação, traduzida na deliberada postura de seguir a
reboque do movimento e do espontaneísmo com o único objectivo de
neles buscar apoios independentemente do rumo que prossigam;
O terceiro, a completa ausência de um sentido e conteúdo de
classe nos objectivos, nas propostas e na acção,
substituídos por um ziguezaguear de orientação e por um
posicionamento em função do que as ondas de opinião
prevalecente recomendam no momento e por uma agregação de
«causas» e temas socialmente mais transversais ou
identificáveis com grupos sociais específicos, considerados
susceptíveis de render novos apoios e não perder a simpatia do
poder e classes dominantes.
E sempre, em Portugal como no mundo, um anestesiante precioso da
consciência social e política dos que não podem deixar de
inscrever a luta contra o capitalismo como objectivo essencial para a sua
emancipação e um instrumento ao serviço dos que temem a
influência das forças e partidos de classe que lutam por uma nova
sociedade.
[*]
Membro da Comissão Política do PCP.
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=5918&area=23&edicao=1597
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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