Destruição da cultura na sociedade de mercado
por Urbano Tavares Rodrigues
[*]
A categoria marxista do fetichismo da mercadoria pode explicar os excessos
consumistas (produção desenfreada e consequente
coisificação do homem) que o neo-liberalismo tem espalhado por
todo o mundo, desde os Estados Unidos, criadores desse novo modelo de
exploração e de acumulação de riqueza em poucas
mãos, às grandes áreas de miséria, como a
África, de onde as populações fogem para procurar trabalho
noutros espaços menos desafortunados.
O mesmo sistema aflige a Europa considerada rica e as suas periferias de
economia já muito dependente, como é o caso de Portugal e, com
maior ou menor perversão, os países da América Latina, tal
como os estados em crescimento da Ásia onde a mão-de-obra
é particularmente barata.
A sociedade de mercado vai pouco a pouco aniquilando a tradição
humanística e cultural do século XX, que terá tido o seu
apogeu no mundo bipolar em que o «socialismo real» do Leste europeu
pesava de certo modo no rumo da chamada civilização ocidental,
especialmente nos anos sessenta, os da revolução cubana e alma
generosa, que teve em Guevara um dos seus símbolos mais exaltantes.
A «cultura» neoliberal
lato sensu
, assente em valores puramente economicistas, opõe-se, nem sempre no
discurso oficial mas sem dúvida na prática, ao respeito pelos
direitos humanos que presidiu, no século XX, à
criação da Sociedade das Nações e posteriormente da
ONU e da UNESCO, instituições abaladas crescentemente pelo
poderio agressivo do império americano e pela ditadura efectiva de
organizações como o Fundo Monetário Internacional, a
Organização Mundial do Comércio e o Grupo dos Sete.
Em Portugal, após a democracia avançada criada pela
Revolução de Abril e que a Constituição de 1975
instituiu, temos vivido períodos de tensão e luta entre as
forças do progresso e as da reacção, com perdas culturais
importantes, no mais amplo sentido palavra, ou seja, o da extensão da
autêntica cultura à fruição de todas as camadas
sociais da população.
Houve, no entanto, momentos de certo brilho na produção cultural
portuguesa dos anos oitenta e noventa, na literatura, nas artes
plásticas, no teatro e mesmo na música, sendo o cinema, pela
necessidade de grandes apoios financeiros, o domínio que menos
avançou, embora com picos de alta qualidade e até com certa
expressão no estrangeiro.
Se um José Saramago foi prémio Nobel, isso resultou primeiramente
da sua originalidade e força criadora e até do seu perfil
ético, mas também em certa medida da ascensão da nossa
literatura a uma alta plataforma de escrita e invenção.
O que nos últimos anos se tem vindo a observar, e com particular
incidência sob o actual governo CDS-PP, apostado na
destruição real dos direitos dos trabalhadores, remanescentes das
conquistas de Abril, e na política externa, inteiramente submetido
às normas e às imposições do império
americano, é, no território da cultura, o triunfo da
mediocridade, a redução do espaço, já escasso,
concedido nos grandes meios de informação, à
produção literária e artística, a par de um
nítido ascenso de subprodutos de grande venda.
A sociedade de mercado, que se está implantando em toda a Europa
é isso mesmo, o domínio cego do mercantilismo acéfalo.
Pergunta-se a um escritor ou a um artista de outro qualquer domínio
cultural: «O que é que você vende?, o que tem para
vender?»
Ocultam-se, desprezam-se ou pouca atenção se dá a obras de
grande valor formal e de pensamento e expressão humanista, por vezes
até adiantadas em relação ao seu tempo, enquanto se
promovem livros de mera oportunidade comercial.
A música pimba triunfa, o mau teatro tende a ressurgir, a TV alberna a
indigência da produção cultural, desde telenovelas imbecis
a espectáculos e programas medíocres, por vezes mesmo degradantes.
A veneração do mau gosto dos auditórios é a face
mais clara do mercantilismo anticultural, que está a destruir os valores
do espírito, a saudável expressão da novidade
estética, da aventura dos que se arriscam, como aos verdadeiros artistas
compete, em experiências inéditas.
O populismo de mercado do governo de Durão-Portas, que ignora ou ataca
os intelectuais de esquerda e lisongeia a mediocridade de gostos, mascarando
com intenções pietistas a sua política de aniquilamento da
assistência social e de quase todos os direitos dos trabalhadores,
está de facto ao serviço dos grandes interesses
económicos. Imita o discurso popular hipócrita dos
neo-conservadores norte-americanos, sem atingir todavia os registos bacocos do
presidente George Bush.
Idêntico discurso populista é o de outro manipulador da palavra
política, o presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes,
tão hábil a falar às massas como ligado ao poder das
grandes empresas e até à direita cavernícola. O seu
desamor à autêntica cultura é tão manifesta como o
seu engodo pelo fácil e pelo medíocre.
Como agir perante tudo isto, em Portugal e no mundo, num mundo que tanto se
estreita? Antes de mais, temos de o fazer e de o fazer coordenadamente, em
sintonia com as forças comunistas e progressistas dos outros
países da Europa, onde, ainda que noutros graus, a mesma
degradação da vida e da cultura se verifica.
Estamos na União Europeia, é um facto insofismável. E
temos que transformar por dentro, o que significa dela banir este capitalismo
brutal, sufocante, que até chega a gerir situações de
escravatura no caso dos trabalhadores imigrantes e onde está emergindo
por todo o lado a repugnante cultura do dinheiro.
A luta trava-se e há-de travar-se em toda a parte: nos parlamentos, nas
empresas, nas ruas, nas famílias.
Estamos perante um monstro, que cresce desenfreadamente com efeitos cada vez
mais nocivos de década para década. Há que
derrubá-lo ou em breve a vida não será digna de ser vivida
na nossa terra e no nosso planeta.
[*]
Escritor
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