A primeira baixa real da guerra

por John Pilger [*]

A censura no jornalismo é virulenta tanto na Grã-Bretanha como nos EUA – e isto significa a diferença entre a vida e a morte para povos de países remotos.

Cartoon de Latuff. Durante a década de 1970 filmei secretamente na Checoslováquia, então [considerada] uma ditadura estalinista. O escritor dissidente Zdenek Urbánek disse-me: "Em certo aspecto, somos mais afortunados do que vocês no ocidente. Não acreditamos em nada do que lemos nos jornais e vemos na televisão, em nada da verdade oficial. Ao contrário de vocês, aprendemos a ler entre as linhas, porque a verdade real é sempre subversiva".

Este cepticismo agudo, esta habilidade de ler entre as linhas, é urgentemente necessário nas sociedades supostamente livres de hoje. Tome as reportagens da guerra promovida pelo estado. O mais velho cliché é de que a primeira baixa da guerra é a verdade. Discordo. O jornalismo é a primeira baixa. E não é só isso: ele torna-se uma arma de guerra, uma censura virulenta que continua não reconhecida nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em outras democracias, censura por omissão, cujo poder é tamanho que, na guerra, ela pode representar a diferença entre a vida e a morte para povos em países remotos, tal como o Iraque.

Como jornalista ao longo de mais de 40 anos, tenho tentado entender como isto funciona. No rescaldo na guerra americana no Vietnam, que eu cobri, a política em Washington era a vingança, uma palavra utilizada muitas vezes em privada mas nunca publicamente. Foi imposto um embargo ao Vietnam e ao Camboja; o governo Thatcher cortou o fornecimento de leite às crianças do Vietnam. Este assalto à própria essência da vida em duas das mais golpeadas sociedades do mundo foi raramente relatado; a consequência foi o sofrimento em massa.

Foi nessa época que fiz uma série de documentários acerca do Camboja. O primeiro, em 1979, Year Zero: the silent death of Cambodia, descrevia o bombardeamento americano que serviu de catalisador para o ascenso de Pol Pot, e mostrava os chocantes efeitos humanos do embargo. Year Zero foi difundido em uns 60 países, mas nunca nos Estados Unidos. Quando fui a Washington e ofereci-o à cadeia pública nacional, PBS, deparei-me com uma reacção curiosa. Os executivos da PBS ficaram chocados com o filme, e falaram admirativamente dele, mesmo quando colectivamente sacudiam as suas cabeças. Um deles disse-me; "John, perturba-nos que o seu filme diga que os Estados Unidos desempenharam um papel tão destrutivo, assim decidimos designar um árbitro jornalístico (journalistic adjudicator) ".

A expressão "árbitro jornalístico" é digna de Orwell. A PBS designou um Richard Dudman, repórter do St. Louis Post-Dispatch, e um dos poucos ocidentais que haviam sido convidados por Pol Pot a visitar o Camboja. Os seus despachos nada reflectiam da selvajaria que envolvia aquele país, ele chegou mesmo a louvar seus hospedeiros. Não surpreendentemente, ele vetou o meu filme. Um dos executivos da PBS confidenciou-me: "São dias difíceis estes sob Ronald Reagan. O seu filme teria dado problemas para nós".

A ausência de verdade acerca do que realmente aconteceu no sudeste da Ásia – o mito promovido pelos media de um "erro estúpido" e a supressão da verdadeira escala das baixas civis e de uma rotina de assassínio em massa, até da palavra "invasão" – permitiu a Reagan lançar uma segunda "nobre causa" na América Central. O alvo era uma outra nação empobrecida e sem recursos: a Nicarágua, cuja "ameaça", como a do Vietnam, era tentar estabelecer um modelo de desenvolvimento diferente daquele das ditaduras coloniais apoiadas por Washington. A Nicarágua foi esmagada, graças em não pequena parte à actuação de jornalistas americanos, conservadores e liberais, que suprimiram os êxitos dos sandinistas e encorajaram um debate especioso acerca de uma "ameaça".

A tragédia no Iraque é diferente, mas, para jornalistas, há semelhanças pungentes. Em 24 de Agosto do ano passado, um editorial do New York Times declarava: "Se todos nós tivéssemos sabido o que sabemos agora, a invasão [do Iraque] teria sido travada por um clamor popular". Esta admirável admissão estava a dizer, com efeito, que a invasão nunca teria acontecido se jornalistas não houvessem traído o público ao aceitar e amplificar e repetir as mentiras de Bush e Blair, ao invés de desafiá-las e expô-las.

Agora sabemos que a BBC e outros media britânicos foram utilizados pelo MI6, o serviço secreto de inteligência. Naquilo que foi chamado "Operation Mass Appeal", agentes do MI6 plantaram estórias acerca de armas de destruição em massa de Saddam Hussein – tais como armas escondidas nos seus palácios e em bunkers subterrâneos secretos. Todas estas estórias eram falsas. Mas isto não é o principal. O principal é que as façanhas escuras do MI6 eram absolutamente desnecessárias. Recentemente, pediram à directora de noticiários da BBC, Helen Broaden, que explicasse como um dos seus repórteres "embutidos" ("embedded") no Iraque, tendo aceite desmentidos americanos quando à utilização de armas químicas contra civis, podia descrever o objectivo da invasão anglo-americana como "trazer a democracia e os direitos humanos" para o Iraque. Ela respondeu com citações de Blair de que este era na verdade o objectivo, como se as declarações de Balir e a verdade estivessem de alguma forma relacionadas. No terceiro aniversário da invasão, um noticiário da BBC descreveu este acto ilegal, não provocado, baseado em mentiras, como um "erro de cálculo" ("milcalculation"). Assim, para usar a memorável frase de Edward Herman, o impensável foi normalizado.

Tal servilismo ao poder do estado é ardentemente negado, mas é rotina. Quase todos os media britânicos omitiram o número verdadeiro das baixas de civis iraquianos, ignorando deliberadamente ou tentando desacreditar estudos respeitáveis. "Adoptando hipóteses conservadoras", escreveram os investigadores da eminente Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, trabalhando com académicos iraquianos, "pensamos que cerca de 100 mil mortes, ou mais, verificaram-se desde a invasão do Iraque em 2003 ... as quais foram primariamente o resultado de acções militares das forças da coligação. A maior parte dos mortos pela coligação eram mulheres e crianças ..." Isto foi em 29 de Outubro de 2004. Hoje, o número duplicou.

A linguagem talvez seja o mais crucial dos campos de batalha. Nobres palavras tais como "democracia", "libertação", "liberdade" e "reforma" foram esvaziadas do seu verdadeiro significado e re-enchidas pelos inimigos daqueles conceitos. A contrafacção domina os noticiários, juntamente com etiquetas políticas desonestas, tais como "esquerda do centro", uma predilecta atribuída a chefes de guerra como Blair e Bill Clinton; ela significa o oposto. "Guerra ao terror" é uma metáfora falsa que insulta a nossa inteligência. Não estamos em guerra. Ao invés disso, nossas tropas estão a combater insurreições em países em que as nossas invasões provocaram mutilações criminosas e sofrimento, cujas provas e imagens são suprimidas. Quantas pessoas sabem que, em vingança das 3000 vidas inocentes ceifadas no 11 de Setembro de 2001, mais de 20 mil pessoas inocentes morreram no Afeganistão.

Para recuperar a honra da nossa profissão, sem falar na verdade, nós jornalistas precisamos pelo menos entender a tarefa histórica que nos é assinalada – isto é, relatar o resto da humanidade em termos da sua utilidade, ao invés de resistir a resistência do público a ataques predatórios a países que não constituem ameaça para nós. Nós reduzimos a resistência ao desumanizá-los, ao escrevermos acerca da "mudança de regime" no Irão como se aquele país fosse uma abstracção e não uma sociedade humana. A Venezuela de Hugo Chávez está agora a ser amaciada em ambos os lados do Atlântico. Umas poucas semanas atrás, a Channel 4 News transmitiu uma grande peça que poderia ter sido difundida pelo Departamento de Estado americano. O repórter, Jonathan Rugman, correspondente em Washington, apresentou Chávez como um carácter caricatural, um sinistro bufão cujos modos latinos coloquiais disfarçavam um homem "em risco de se juntar à vil galeria de ditadores e déspotas – o mais recente pesadelo de Washington". Em contraste, a Condoleezza Rice foi dada compostura e a Donald Rumsfeld foi permitido comparar Chávez com Hitler.

Na verdade, quase tudo nesta paródia de jornalismo foi encarado a partir de Washington, e apenas fragmentos disto nos barrios da Venezuela, onde Chávez desfruta uma popularidade de 80 por cento. Que ele tenha vencido nove eleições e referendos democráticos – um récorde mundial – era omitido. Num estilo soviético bruto, ele era apresentado ladeado por Saddam Hussein e Muammar Gaddafi, embora estes breves encontros tenham a ver com a OPEP e apenas com petróleo. Segundo Rugman, a Venezuela sob Chávez está a ajudar o Irão a desenvolver armas nucleares. Nenhuma prova foi dada para este absurdo. As pessoas que assistiam não tinham qualquer ideia de que a Venezuela foi o único país produtor de petróleo do mundo a utilizar o rendimento do seu óleo em benefício dos pobres. Elas não ficavam com qualquer ideia dos espectaculares desenvolvimentos em saúde, educação, literacia, nem tão pouco com a ideia de que a Venezuela não tem prisões políticas – ao contrário dos Estados Unidos.

Assim, se a administração Bush resolver executar a "Operação Bilbao", um plano de contingência para derrubar o governo democrático da Venezuela, quem se importará, pois quem saberá? Portanto teremos apenas a versão dos media; um outro demónio merecerá o que está a acontecer-lhe. Os pobres da Venezuela, tal como os pobres da Nicarágua, os pobres do Vietnam e os incontáveis outros pobres de lugares remotos, cujos sonhos e vidas não são de interesse, serão invisíveis na sua dor: um triunfo da censura através do jornalismo.

Diz-se que a Internet proporciona uma alternativa, e o que é maravilhoso acerca dos espíritos rebeldes na worldwide web é que eles muitas vezes relatam como muitos jornalistas deveriam fazer. Eles são pessoas independentes na tradição de investigadores que denunciam escândalos (muckrakers) como Claud Cockburn, que afirmou: "Nunca acredite em qualquer coisa até que ela tenha sido negada oficialmente". Mas a Internet ainda é uma espécie de samizdat, algo subterrâneo, e a maior parte da humanidade não se conecta a ela, assim como a maior parte da humanidade não possui sequer um telemóvel. E o direito a saber deve ser universal. Outro grande investigador, Tom Paine, advertiu que se à maioria do povo estiver a ser negada a verdade e ideias de verdade, é chegado o tempo de atacar o que denominou a "Bastilha das palavras". Este tempo é já.

24/Abril/2006

[*] Versão abreviada do discurso "Reporting War and Empire", pronunciado na Universidade de Columbia, Nova York, em companhia de Seymour Hersh, Robert Fisk e Charles Glass.

O original encontra-se em http://www.newstatesman.com/200604240013


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
02/Mai/06