'Freedom Next Time', novo livro de John Pilger

por Stephen Lendman

Encomende-o através deste link. John Pilger é um jornalista galardoado, realizador de documentários e um dos realmente grandes da nossa época. Durante quase 50 anos tem feito, corajosa e brilhantemente, o que muitos poucos da sua profissão fazem de facto — o seu trabalho. John também foi correspondente de guerra, escreveu 10 livros e é mais conhecido no seu país de adopção, a Inglaterra, pelos seus documentários de investigação em que denuncia os crimes do imperialismo americano e ocidental.

'Freedom Next Time' Encomende-o através deste link é o último livro de John e o quinto dele que já li. Os anteriores são magníficos. Assim, quando soube que estava para sair um novo livro, fiquei ansioso por o ler pois sabia que seria de óptima qualidade e que não o podia perder. Não fiquei desiludido e agrada-me partilhar com os leitores o seu conteúdo. Como diz o próprio John no parágrafo de abertura: "Este livro é sobre o império, as suas fachadas e a luta prolongada dos povos pela sua liberdade. Ele proporciona um antídoto às versões autorizadas da história contemporânea que censuram por omissão e impõem padrões duplos". De facto consegue e nele John denuncia os crimes do império em cinco países. Vou tratar de cada um deles em secções separadas.

Introdução – Uma explicação do desígnio imperialista

Na introdução, John explica como a noção imperialista de "pressupostos colonialistas não se alterou", e como, para mante-la, a grande maioria dos povos por toda o mundo "permanece invisível e supérflua". Relata dramaticamente que, enquanto no 11 de Setembro de 2001 morreram tragicamente em Nova Iorque e Washington alguns milhares de pessoas, a Organização Alimentar e Agrícola das Nações Unidas reportou a taxa de mortalidade diária de 36 615 crianças apenas por efeitos da extrema pobreza. Mas não apareceu nos noticiários nenhuma palavra sobre isso, nem nesse dia nem nos dias seguintes. Nem houve qualquer explicação da razão porque essas pessoas não tiveram direito ao mínimo essencial para sobreviver num mundo que tem capacidade para proporcioná-lo. A estes e aos outros mortos diariamente no Iraque, e não só, John chama as "vítimas sem valor" a fim de as distinguir daquelas "com valor" nos EUA do 11/Setembro e na Londres de 7 de Julho de 2005, mortas num atentado "bombista". Os únicos crimes que reconhecemos são os praticados pelos outros – a que chamamos "terroristas" ou etiquetamos de inimigos, e nunca os praticados por nós. Harold Pinter, prémio Nobel, refere-se a isto como "uma grande teia de mentiras, de que nos alimentamos". Sabemos apenas o que os nossos dirigentes e os media seus cúmplices (BBC, NPR e PBS incluídos) resolvem contar-nos, e nunca temos direito à verdade ou à informação completa. O que eles escondem é muito mais importante do que o que eles noticiam.

Até à queda da União Soviética, a noção de imperialismo nos EUA era de que se tratava de uma tradição europeia, não americana. Não era verdade, claro, mas uma educação apropriada nos EUA, como a que recebi, nunca deixava que isso transparecesse. Ela escondia a verdadeira história do meu país que desde a sua origem praticou uma política de expansão imperialista para oeste e para sul e, para a tornar possível, se embrenhou no saque e no genocídio contra os habitantes originais que ali viviam. George Washington foi o primeiro a praticá-la, referindo-se à nova nação como um "império nascente". Ajudou a construí-lo, afastando e exterminando os seus índios nativos, para que a expansão pudesse continuar conforme os desejos dos Pais Fundadores e daqueles que os seguiram. Washington achava que os povos índios eram sub-humanos (não muito diferente da forma como encaramos hoje os iraquianos) e comparava-os a lobos e "predadores" que tinham de ser destruídos. E a nossa sagrada Declaração de Independência continha a linguagem de "cruéis índios selvagens" que não deixava margem para a sua independência nem para qualquer justiça.

A tradição iniciada no nascimento da república nunca se alterou mas até ao fim da "guerra fria" foi bem escondida por trás de uma respeitável fachada democrática e ainda assim continua na sua maior parte. Nunca se ensinou qualquer noção de imperialismo na escola qualquer que fosse o nível, nunca foi discutida na sociedade polida ou reconhecida publicamente. Mas tudo isto mudou nos anos 90 depois da queda da União Soviética. O que anteriormente nunca poderia ser admitido começou agora a ser encarado como algo respeitável e até mesmo uma questão de orgulho nacional. E com a chegada da administração Bush, o domínio e a expansão imperialista começaram a ser retratados como uma coisa positiva e que contribui para o avanço da civilização. Até que ponto descemos para chegar tão longe.

John explica como as prioridades fraudulentas e perigosas de Bush se baseiam nos seus documentos políticos e em especial num concebido alguns anos antes de ele chegar ao poder. Começou com uma "teoria de conspiração messiânica" de 1997, chamada Projecto para o Novo Século Americano (Project for the New American Century, PNAC) , escrito por muitos dos ideólogos neo-conservadores de extrema direita que estão hoje no poder. Este documento é um plano imperialista para o domínio global dos EUA que se estende bem para o futuro e deve ser imposto com poder militar incontestável. Foi um programa para a actual "guerra contra o terrorismo" (a que John chama uma "guerra de terrorismo") e para a "guerra preventiva" que começou a seguir ao 11/Set e está hoje em curso no Iraque e no Afeganistão com outros prováveis conflitos em preparação. O Pentágono vai ainda mais longe na sua Visão 2020 que traça um objectivo a que chama o "domínio de espectro total". Com isto, quer significar o controlo total, incontestado, de todo o território, mar, ar e espaço e o direito auto-assumido de o impor através do uso de armas nucleares ou de qualquer outro tipo.

O governo britânico de Tony Blair faz parte do mesmo esquema como parceiro cúmplice júnior. Considera ser do seu interesse estar aliado aos EUA e à administração Bush e apoia a sua política imperialista. Em consequência, explica John, não é de admirar que o sr. Blair tenha levado o seu país à guerra mais vezes do que qualquer primeiro-ministro britânico nos tempos modernos. Para ele e para George Bush, o direito internacional, as normas e qualquer sentido de moral são irrelevantes e não podem interpor-se no caminho da sua violência política sem limites apresentada como tendo um rosto e um objectivo democráticos. 'Freedom Next Time' denuncia esta hipocrisia mostrando que o "imperialismo, qualquer que seja o seu disfarce, é a antítese da "bondade e da moral". Examina a história e os acontecimentos em cinco países que John conhece bem como jornalista e realizador de filmes.

Antes de começar, na introdução, John trata do presente. Cita os que vêem as sementes do fascismo e as semelhanças perturbantes entre os EUA (e Inglaterra) de hoje e a Alemanha nazi e o apelo demoníaco de Hitler para a sua missão divina como o salvador daquele país, apelo que impingiu ao seu povo em termos religiosos cristãos. Fê-lo num país que era o orgulho da civilização ocidental e um verdadeiro modelo de democracia. Se isso pôde acontecer ali, pode acontecer noutro sítio qualquer e assim acontecerá a menos que haja gente suficiente empenhada em impedi-lo. Mas John sublinha que não escreveu um livro pessimista. Cita as sementes alternativas de esperança, de renascimento da democracia e da igualdade social na América Latina – em especial na Venezuela de Hugo Chavez e na nação mais pobre de todo o continente, na Bolívia de Evo Morales. Considera essas forças como fazendo parte de um "movimento à escala mundial contra a pobreza, a guerra e a desinformação que se ergueu em menos de uma década, e é mais diferente, empreendedor, internacionalista e tolerante das diferenças do que qualquer outra coisa em toda a minha vida". John conclui a sua mensagem de esperança dizendo que os "mais sábios... sabem que, tal como a conquista do Iraque não tem futuro, também todo um sistema de domínio e de empobrecimento pode não o ter".

O livro de John está dividido em cinco capítulos, um para cada nação que trata. Quatro delas são bem conhecidas, mas talvez poucos leitores conheçam a primeira analisada discutida, no arquipélago de Chagos, ou nem sequer saibam onde fica.

Capítulo Um: A expoliação de uma nação chamada Diego Garcia

Diego Garcia. Diego Garcia é uma pequena ilha de 217 km quadrados controlada pelos britânicos no arquipélago de Chagos no Oceano Índico (oficialmente conhecido como Território Britânico do Oceano Índico) que está situada estrategicamente a meio caminho entre a Ásia e a África. Foi outrora o lar de 2 000 pessoas, "simpáticas crioulas". São cidadãos britânicos mas, entre 1967 e 1973, foram enganadas e expulsas pelo governo inglês para que a sua ilha natal passasse a ser uma base militar dos EUA. Foram enviadas para o exílio para um novo lar inóspito nas Ilhas Maurícias onde sete governos britânicos observaram os seus cidadãos deslocados a sofrer e a perecer nas palhotas em que foram forçados a viver e a pobreza desesperada que foram forçados a suportar.

Este "acto de deportação em massa" foi tão perturbante e desonesto que foi executado em segredo, e durante quase uma década foi escondido do Parlamento e do Congresso americano. Os chagossianos foram tratados com desprezo pois não só perderam a sua terra natal, como foram tratados "como se não existissem". Foram os EUA que fizeram as exigências e estabeleceram as condições do acordo. Washington queria que toda a população fosse expulsa e todo o negócio sujo ficasse encoberto. Então, tal como agora, a Inglaterra alinhou no horrível esquema. As pessoas não tiveram direito a falar, e aos que se recusaram, mentiram-lhes e disseram-lhes que não tinham outra opção porque "a sua deslocação era 'legal' de acordo com as regras da colónia".

No seu novo lar, a vida tornou-se um inferno vivo. Os chagossianos encontraram-se numa sociedade estranha à sua forma de vida simples, e não foram capazes de se adaptar. Em Diego Garcia tinham a sua casa, cultivavam a sua comida, pescavam e trabalhavam numa plantação. Nas Ilhas Maurícias tiveram que procurar trabalho para sobreviver e a maior parte deles não teve qualquer hipótese. O resultado foi que, em meados dos anos 70, a maior parte dos exilados estava desempregada, empobrecida e começou a morrer. O Foreign Office britânico e a Alta Comissão ignoraram desdenhosamente a sua aflição dizendo que os chagossianos deviam resolver o seu problema com o governo de Maurício. Não contou para nada o facto de aquelas pessoas serem cidadãos britânicos e terem os mesmos direitos de todos os outros britânicos. Tudo o que obtiveram em compensação foi 1 000 libras (cerca de 1500 euros) em troca de concordarem em renunciar ao seu direito de voltarem para a sua terra natal, fazendo-o num documento que não sabiam ler.

A história deste desgraçado episódio ficou bem escondida até aos anos 90 quando foi encontrado nos Arquivos Nacionais de Kew, em Londres um "conjunto precioso de documentos que deixaram de ser confidenciais". Comprovou-se que havia uma conspiração entre dois governos a que o Artigo 7 do estatuto do Tribunal Criminal Internacional se refere como uma "deportação ou transferência forçada duma população (e) um crime contra a humanidade". Também violou o Artigo 73 da Carta da ONU que obriga um governo colonialista como a Inglaterra a respeitar a sua "confiança sagrada" de proteger os direitos humanos do seu povo. Vergonhosamente, a Inglaterra não fez nada disso e pelo contrário curvou-se obedientemente aos desejos de Washington e obedeceu às suas ordens tal como ainda o faz hoje. Os dois países também se comprometeram num encobrimento enorme durante uma década que chegou ao mais alto nível de ambos os governos, esperando evitar que a verdade alguma vez viesse a ser conhecida. Os envolvidos incluíram o primeiro-ministro Harold Wilson, a Rainha Isabel e os presidentes Johnson e Nixon, entre outros. Ocultaram tudo, inclusive um suborno financeiro secreto que Washington fez, que foi também escondido do Congresso dos EUA e do Parlamento britânico.

Mas logo que a verdade começou a aparecer, as coisas mudaram. Em 3 de Novembro de 2000, o Supremo Tribunal britânico abalou o governo, citando a Magna Carta e anulou a ordem de deportação inicial. Ou seja, que as pessoas tinham direito a passaportes britânicos e tinham o direito de voltar para casa. Mas foi uma vitória de Pirro de vida breve porque um ano depois os chagossianos voltaram ao Supremo Tribunal à procura duma compensação para a sua desgraça. Desta vez enfrentaram um juiz hostil que considerou o caso deles como "não merecedor" e recusou as suas reclamações. Três meses depois, o ministro do Foreign Office responsável por Chagos enviou à rainha uma "ordem do conselho" para que ela aprovasse "de cruz", a qual inverteu a vitória do Supremo Tribunal de 2000 e impediu os ilhéus de regressarem a casa. Quando John se encontrava a escrever este livro, registou que os chagossianos tinham voltado a Londres para um último recurso judicial perante o Supremo Tribunal para anulação da recusa do governo do seu direito de voltar à terra natal. Mesmo após estes anos todos, este povo corajoso estava e está ainda firmemente determinado a alcançar a justiça que merece de pleno direito.

Esta chegou por fim a 11 de Maio de 2006 (depois de o livro de John estar finalizado), num veredito condenatório do Supremo Tribunal que considerou "repugnante" a decisão de afastar os chagossianos por insistência dos EUA. A "ordem do conselho" do governo de Blair referida anteriormente foi anulada. O Foreign Office tem agora que decidir se vai apelar do veredito e pode ser pressionado a fazê-lo pelos EUA. Mas, mesmo que o litígio acabe favoravelmente para os chagossianos, não é líquido que alguma vez sejam autorizados a regressar enquanto Diego Garcia se mantiver como importante base militar americana. A administração Bush não respeita a lei, vai provavelmente ignorá-la e a nova administração americana que vier a ser eleita em 2008 pode vir a fazer o mesmo. Fica assim para se ver se alguma vez será feita justiça nesta tragédia tão antiga. No entanto, é provável que os chagossianos nunca deixem de a procurar.

Capítulo Dois: O último tabu – Cinco décadas e meia de encobrimento da opressão de Israel sobre os palestinos

John foi buscar o título deste capítulo a um ensaio com o mesmo título escrito pelo eminente e corajoso escritor, académico e activista palestino, Edward Said pouco antes da sua morte em Setembro de 2003. Said foi um homem brilhante e um lutador apaixonado pela justiça para o seu povo. No seu ensaio escreveu: "Pode ser reconhecido o extermínio dos americanos nativos, atacada a moralidade de Hiroshima, publicamente queimada a bandeira nacional (dos Estados Unidos). Mas a continuação sistemática da opressão de 52 anos de Israel e os actos de crueldade contra os palestinos são praticamente silenciados, uma narrativa que não tem autorização para aparecer".

Mas ela aparece, ousada e corajosamente, no capítulo de John quando ele relata o ódio inexplicável e irracional que a maior parte dos israelenses tem pelos palestinos, um povo cujo país roubaram e que têm cruelmente oprimido durante várias décadas. Explica como é a vida para este povo indefeso sob um cruel poder de ocupação nos campos de refugiados das duas maiores prisões mundiais ao ar livre: Gaza e a Margem Ocidental. Conta como pessoas vulgares, que apenas querem viver em paz e terem uma vida normal, são privadas das suas liberdades pessoais, económicas e políticas mais elementares, da dignidade e de qualquer forma de justiça. Mostra como os israelenses, com total apoio financeiro e político dos EUA e do ocidente, têm aterrorizado o povo palestino com impunidade, e quando as vítimas ousam defender-se ou resistir lhes chamam "terroristas".

Também eu já escrevi sobre os crimes israelenses contra o povo palestino num artigo recente a que chamei 'A Vida na Palestina Ocupada'. O que John documentou no local sobre as pessoas que sofrem este brutal ataque diário, resumi eu em poucos parágrafos que gostaria de apresentar aqui. Escrevi o seguinte:

Tentem imaginar a vida diária nas seguintes condições:

Vivemos numa prisão num país ocupado por um exército estrangeiro opressor e num sistema de racismo institucionalizado e codificado. Não temos uma nação reconhecida, nem direito de cidadania, nem poder sobre a nossa vida diária. Vivemos num permanente estado de medo. O ocupante impõem um estrangulamento económico e uma punição colectiva restringindo a liberdade de movimentos; cercando centros populacionais; fechando as fronteiras; impedindo a maior parte do nosso povo de trabalhar dentro das suas fronteiras; impondo recolheres obrigatórios regulares, barreiras nas estradas, pontos de controlo, vedações eléctricas e muros de separação e continua a construir novos colonatos nos nossos Territórios Ocupados (na nossa terra, no nosso país) violando as Convenções de Genebra que proÍbem um ocupante de instalar a sua população em terra conquistada.

O ocupante nega ao nosso povo os seus direitos humanos básicos incluindo os referidos na Quarta Convenção de Genebra que regula o tratamento de civis durante a guerra e sob ocupação. Há 149 artigos nesta Convenção. O governo do ocupante viola quase todos eles e ao fazê-lo está a cometer crimes de guerra segundo a lei internacional. A Comissão dos Direitos Humanos da ONU determinou que também está a cometer "crimes contra a humanidade" contra o nosso povo. Este conceito tem origem na Carta de Nuremberga de 1945 redigida pelos EUA para julgar os criminosos de guerra nazis. A noção internacional de um "crime contra a humanidade" foi instituído para definir o que Hitler fez aos judeus. A CDHNU estabeleceu que é isto o que o ocupante está a fazer ao nosso povo, e que este acto é o precursor histórico e legal do crime internacional de genocídio tal como definido na Convenção sobre Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948.

O ocupante também envia tropas, tanques e armamento pesado para as vizinhanças conforme quer, para pilhar e destruir. Ataca quando lhe apetece, pelo ar, com sofisticados helicópteros de ataque que lançam mísseis e com F-16s e provoca deliberadamente ruídos sónicos que rebentam os tímpamos e aterrorizam. E dá aos seus militares o direito de molestar, prender ou matar livremente, sem julgamento, qualquer um do nosso povo – homem, mulher ou criança, sob qualquer pretexto, com total impunidade. Arrasa casas com as pessoas lá dentro se elas não conseguirem fugir a tempo (normalmente a meio da noite e sem aviso ou anúncio) como castigo ou por não terem autorização de construir no seu próprio território, no seu próprio país ou por qualquer outra razão. Rouba terras cruelmente na esperança de um dia ficar com todas ou pelo menos com a parte que lhe interessa. Detém, aprisiona e tortura milhares de pessoas pelo crime real ou suspeito de lutar pela nossa própria liberdade contra um ocupante opressor.

Por vingança e para dar segurança aos seus colonos ilegais nos Territórios Ocupados, restringe ou proíbe o acesso a cuidados de saúde essenciais e de emergência, à instrução, ao emprego, ao direito de movimentar bens e serviços do produtor/fornecedores para o utilizador final, e até comida e água suficientes. Criou um estado de cerco económico colocando quase dois terços do nosso povo (segundo a ONU) abaixo do limiar da pobreza de 1,74 euros por dia (e metade desses dois terços com 1,27 euros ou menos) e mais de metade da população activa no desemprego (este número varia conforme a intensidade do cerco israelense). Destrói as searas e os pomares da população incluindo mais de um milhão de oliveiras. Lança impostos punitivos e fornece raros serviços ou suspende-os como castigo colectivo. Não temos poder para impedir qualquer destes abusos ou de receber qualquer reparação nos tribunais dos ocupantes. Como é que se pode ser muçulmano num estado racista judeu.

John explica que a Inglaterra foi o arquitecto deste desastre e esta injustiça históricos. Em 1917, queria um estado cliente no Médio Oriente para cuidar dos seus interesses económicos e arranjou um com a Declaração Balfour que prometia uma "casa nacional para o povo judeu" na Palestina. A Declaração também fazia uma promessa sagrada aos palestinos que ali viviam há séculos de que "nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades existentes não judaicas". Isso não aconteceu. O estado judaico apareceu em 1948 e nasceu com o pecado original do massacre e expulsão forçada das pessoas que ali viviam, e as coisas nunca mais foram como anteriormente. Israel desafia sistematicamente todas as leis e normas internacionais, tem a cobertura total e o apoio financeiro dos EUA e do ocidente, e os palestinos são forçados a sofrer infindavelmente os abusos mais ultrajantes sem ajuda do exterior que os faça parar.

A maioria dos ocidentais pouco sabe disto tudo porque a maioria dos media se recusa a noticiá-lo e apenas descreve Israel como um bastião da democracia numa região em que há muito pouco disso. É um mito, mas um mito que está muito espalhado. Os que se atrevem a denunciá-lo ou aos crimes israelenses são apodados de anti-semitas ou de odiarem os judeus. Também incorrem numa condenação extrema e até em ostracismo. Há uma regra imperiosa tácita que ninguém se atreve a violar, especialmente nos EUA: Israel não faz nada de mal e tem que ser apoiado totalmente faça o que fizer. Em consequência disso, o mito do chamado "processo de paz", que nunca existiu nem nunca existirá, persiste tal como a falsa esperança de que os palestinos alguma vez terão um estado mesmo seu para além dos bantustões que os israelenses lhes destinam depois de terem sido totalmente limpos etnicamente ou assassinados nas áreas que os israelenses querem para eles próprios.

John também denuncia a fraude dos Acordos de Oslo e posteriores encontros de Camp Davis promovidos por Bill Clinton onde o primeiro-ministro israelense Ehud Barak nada ofereceu a Yasar Arafat. O público foi informado fraudulentamente do contrário e Arafat foi censurado injustamente por ter recusado uma proposta que nenhum dirigente mentalmente são e responsável poderia alguma vez aceitar. Ouvimos falar dos muitos massacres de centenas de palestinos mortos em Deir Yassin em 1948, os 18 000 chacinados quando Israel invadiu ilegalmente o Líbano em 1982, incluindo o massacre ordenado por Ariel Sharon de mais de 3 000 homens, mulheres e crianças indefesos nos acampamentos de Sabra e Shatila, na violação de Jenin em Abril de 2002 quando as Forças de Defesa Israelenses (FDI) invadiram esta cidade de 35 mil habitantes (incluindo o seu acampamento de refugiados), a isolou de qualquer ajuda do exterior, destruiu centenas de edifícios (muitos deles com pessoas enterradas vivas debaixo dos escombros), cortou a energia eléctrica e o fornecimento de comida e água do exterior, impediu ajuda exterior de entrar na cidade e assassinou um número indeterminado de palestinos.

John abarca muito mais incluindo a matança diária de gente indefesa, o desemprego maciço provocado pelos israelenses, a pobreza e a provação, e a vida de desespero infindável que este povo é obrigado a sofrer. E no entanto aguentam e continuam a agarrar-se à esperança de que um dia o seu território roubado lhes será devolvido e os seus direitos totalmente recuperados. Uma das muitas histórias não contadas é que muitos israelenses judeus horrorizados têm a mesma esperança e estão a desafiar corajosamente o seu governo e a apoiar os palestinos para o conseguir.

Capítulo Três: A Índia brilhante – A falsa fachada de uma nação onde um terço da população vive numa pobreza desesperada

John explica como a Índia é uma nação de profundos contrastes, e a cidade mais rica do país, Bombaim, é a melhor amostra disso. Num extremo há uma próspera comunidade de negócios de comércio marítimo, bancos comerciais e duas bolsas de valores. No outro há uma cidade de 2,5 milhões de pessoas por km 2 e tipificadas pelo distrito de "caminhos de ferro" que os estrangeiros e pessoas de fora não conhecem de todo. Transborda de gente desesperada que vive em condições "indescritíveis – um caixote de papelão como casa com o esgoto a encher e a vazar conforme a monção". John pergunta como é possível que uma nação com tradições de "grande luta popular" e democracia permita isto. A resposta é que os seus dirigentes optaram por vender a sua soberania ao modelo neoliberal de uma economia global dominada pelas gigantescas corporações transnacionais, principalmente as dos EUA.

A subida ao poder do governo liderado pelo BJP nacionalista hindu (proto-fascista) nos anos 60 acelerou o processo. Aboliu as barreiras existentes que protegiam a indústria indiana e abriu o país à invasão das corporações predatórias estrangeiras que tiraram daí todas as vantagens. O resultado é uma nação que pode ser um exemplo de como um modelo económico adoptado deu para o torto e provocou a miséria humana em massa. Tem-se assistido ao aumento da "pobreza extrema" para mais de um terço da população ou seja cerca de 364 milhões de pessoas. John explica que embora a taxa de crescimento da Índia seja alta, "isso diz respeito ao capital, não à força de trabalho, diz respeito aos lucros produzidos, não às pessoas". Também denuncia o mito de a Índia ser uma força avassaladora da alta tecnologia. Embora a nação tenha atingido uma "superioridade" em computadores e outras tecnologias, a nova "classe tecnocrata" é minúscula. E também que a chamada explosão do consumo beneficiou quando muito cerca de 15% da população.

Mais de dois terços da população vivem em aldeias rurais e dependem da agricultura de pequena escala para o seu sustento e sobrevivência. Estas pessoas foram destruídas pela adesão da nação ao modelo económico ocidental. Provocou uma epidemia oculta de suicídios entre eles porque não conseguem competir com a indústria agrícola. Os que optaram por uma solução menos drástica são forçados a abandonar as suas terras numa tentativa vã de procurar refúgio entre as massas pululantes nas cidades. O resultado é uma pobreza crescente, privações e extrema miséria humana a uma escala maciça. Dada a sua enorme população de mais de mil milhões, a Índia aparece como um alerta sobre o tipo de futuro que as pessoas em toda a parte enfrentarão se não se encontrar forma de inverter um modelo económico falhado que enriquece uns poucos, destrói a maioria e estrangula a capacidade do planeta para continuar a aguentar os abusos que lhe infligem.

Capítulo Quatro: O apartheid não morreu – O capitalismo predatório tornou-o pior

O odiado apartheid pode ter acabado na África do Sul há cerca de 16 anos, mas o novo Consenso de Washington neoliberal foi ainda pior. A obsessão da raça numa sociedade de supremacia branca foi substituída pelo domínio e pela procura da riqueza permitidas apenas a uma minoria privilegiada à custa da grande maioria quase toda negra. O resultado é que enquanto o rendimento familiar médio subiu para cerca de 15% da população (incluindo alguns negros), o rendimento familiar da maioria negra caiu cerca de 20% tornando as condições de vida hoje muito piores do que no tempo do apartheid.

A nova África do Sul com o seu heróico novo presidente Nelson Mandela optou por aderir ao modelo económico ocidental. Mandela aceitou um "acordo tácito" que permitia que a elite branca mantivesse o controlo económico em troca de um governo de maioria negra que iria ser subserviente para com o anterior governo branco. O actual presidente Thabo Mbeki reforçou o acordo quando encabeçou um grupo de funcionários da ANC em reuniões secretas em Londres entre 1987 e 1990. Concordaram essencialmente em trair o seu povo e a sua luta de 40 anos pela liberdade agora perdida. O Banco Mundial e o FMI ditaram privatizações em massa e ajustamentos estruturais para cortar serviços sociais essenciais em troca de ajuda financeira. Isto provocou um nível de endividamento opressivo, desemprego de cerca de 38%, uma taxa de infecção de SIDA de cerca de 20%, 40% de escolas sem electricidade, 25% de pessoas sem acesso a água potável e a maioria das que têm acesso sem possibilidade de a pagar, 60% com saneamento deficiente e 40% sem telefone. O resultado é um apartheid económico que substitui o legal estando hoje a maioria da população negra pior do que sob a opressão política do passado. É uma história perturbante do que tem ocorrido em todos os países que concordaram com o Consenso de Washington pelo qual venderam a sua soberania aos interesses do capital. A diferença na África do Sul é que o homem que os negros oprimidos julgavam que lhes iria conquistar a liberdade, na realidade vendeu-os.

John voltou à África do Sul após uma ausência de 30 anos, desde a sua expulsão pelo governo do apartheid que ele abominava. Entrevistou Mandela já retirado e é praticamente o único a explicar a "ambiguidade" do primeiro presidente da ANC. Colocou questões difíceis perguntando como era possível que a ANC, que lutou durante tanto tempo pela liberdade, tivesse abraçado o "Thatcherismo". Porque é que ele permitira que o seu povo, que sofrera durante tanto tempo, viesse a sofrer um mal pior ainda com um sistema em que praticamente tudo, incluindo os serviços essenciais, está privatizado e a falta de regulamentação permite aos grandes negócios reinarem livremente para obter lucros à custa do interesse público. Mandela respondeu que "Pode pôr a etiqueta que quiser; pode chamar-lhe thatcherite mas, para este país, a privatização é a política fundamental". Uma resposta lamentável de um homem que sabe mais do que isto. John também confrontou Mandela sobre porque é que ele apoiou e mostrou deferência por governos opressores na Indonésia, Burma, Argélia, Colômbia e Peru e ordenou mesmo uma invasão sangrenta do pequeno vizinho Lesotho. De novo a resposta que recebeu foi pouco impressiva vinda de um homem que foi outrora, e ainda é em aspectos importantes, um gigante na luta pela igualdade social e pela justiça.

Mais uma vez John mostra como descobriu nesta sua nova visita que o espírito de resistência sobrevive. Encontrou-o entre os numerosos "movimentos sociais" e organizações aliadas a que chamou as mais "sofisticadas e dinâmicas do mundo". Forjaram elos com movimentos internacionais de direitos humanos e anti-capitalistas assim como com sindicalistas independentes. Disse que o que a África do Sul tem em abundância é uma força chamada "ubuntu" – "um humanismo que nunca está quieto... um conceito subtil... que diz que a humanidade duma pessoa se exprime através da empatia e da solidariedade com o próximo; através da comunidade e da reunião". Aquilo a que Steve Biko chamava "autêntica comunidade negra". É nesse espírito que John tem esperança que resida o futuro da África do Sul.

Capítulo Cinco: A libertação do Afeganistão – os EUA infligiram um pesadelo a outro povo sofredor

John começa por descrever o Afeganistão como se fosse mais uma paisagem lunar e não um país em funcionamento – as ruas de Cabul com "contornos de escombros em vez de ruas, onde as pessoas vivem em edifícios em ruínas, como vítimas de um tremor de terra à espera de salvamento... sem luz nem aquecimento". É uma história velha para este povo cercado de tropas que tiveram uma longa história de conflitos e de sofrimento sempre com pouco alívio. Durante quase um século o país foi vítima do "Grande Jogo" de competição entre o império britânico frente à Rússia czarista pelo controlo desta parte do mundo. Na história mais recente, pagou caro de novo nos anos 80 quando um exército de guerrilha mujahedin recrutado pelos EUA lutou contra a ocupação soviética. Forçou os ocupantes a sair mas à custa de um país devastado que não se recuperou durante os anos 90 visto que um conflito brutal sucedeu à retirada dos soviéticos. Depois aconteceu o 11/Setembro e os EUA infligiram um pesadelo que continua até hoje sem final à vista.

John explica que o Afeganistao hoje é o que a CIA chamava durante a guerra do Vietname "a grande ilusão da causa americana". Embora Cabul tenha algumas liberdades que os Talibans recusavam, o resto do país não tem praticamente nenhumas. No lugar dos Talibans, que iniciaram um renascimento, estão os brutais "comandantes militares" regionais que os grupos dos direitos humanos dizem ter "essencialmente posto o país como refém". A nação é uma zona de guerra e um narco-estado falhado com "comandantes militares" regionais e chefes de drogas a controlar tudo para além da capital. Hamid Karrzai (um antigo activo da CIA), o presidente nominal do país, seleccionado pelos EUA, é uma caricatura de um homem e um fantoche subserviente que pouco mais é do que o mayor de Cabul. Não tem mandato nem apoio e não duraria um dia por si próprio sem a pesada protecção que lhe é dispensada 24 horas por dia pelos militares americanos.

A vida não era um mar de rosas com os Talibans. Mas apesar das suas maneiras ultra-puritanas e do tratamento severo para com os desobedientes, pelo menos mantinham a ordem e não toleravam o banditismo, a violação ou o assassínio. Também acabaram praticamente com a produção do ópio. Agora tudo isso mudou. A invasão EUA-Inglaterra em 2001 acabou com a proibição da produção do ópio, permitiu que os "comandantes militares" refizessem as plantações e o resultado é que 87% do comércio mundial desta droga provém destes campos. Além disso, o desemprego descolou para cerca de 45%; tem havido pouca reconstrução; a pobreza é avassaladora; há pouca electricidade, água potável ou a maioria de serviços essenciais; voltou a ilegalidade; foi reinstalada a lei de Sharia; o conflito interno reacendeu-se; e ninguém está em segurança nem os das facções guerreiras do país nem os da força hostil de ocupação. Além disso, os Talibans reclamaram partes do Afeganistão do sul e estão a conquistar apoiantes entre o povo farto da miséria que lhe foi infligida pelos EUA e pelos invasores das forças multinacionais. Pode ser mesmo uma questão de tempo antes que a violência volte a explodir noutra guerrilha catastrófica tal como no Iraque. Parece que já está a começar.

Então porque é que foi a invasão e a ocupação? Sabemos agora que estava planeada antes do 11/Setembro e não teve nada a ver com um governo muçulmano fundamentalista que tratava o seu povo cruelmente. Teve tudo a ver com um dirigente afegão que não quis submeter a sua autoridade às exigências americanas e à sua procura imperialista de dominar esta região estrategicamente importante. Isto já havia sido explicado pelo antigo conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, sob o presidente Carter no seu livro de 1997 'The Grand Chessboard'. Referiu-se à Eurásia como o "centro do poder mundial que se estende da Alemanha e da Polónia para leste através da Rússia e da China até ao Pacífico e incluindo o Médio Oriente e o subcontinente indiano. Ao dominar esta região, os EUA assegurariam o controlo duma grande fonte de energia e de outros recursos essenciais. O Afeganistão era uma parte importante do plano porque era através deste país que os EUA queriam construir os pipelines de petróleo necessários para transportar o petróleo da bacia do Cáspio até aos portos de águas profundas onde podia ser facilmente embarcado para todas as partes do mundo que os EUA autorizassem a seguir.

A princípio os EUA ficaram contentes com o trabalho dos Talibans quando estes chegaram ao poder. Enquanto se pensou que era possível um acordo com eles, o seu extremismo religioso e as violações dos direitos humanos não constituíram preocupação. Só quando não se conseguiu chegar a um acordo é que foi tomada a decisão de os afastar. E isso traz-nos de volta ao presente. O país está em ruínas, o conflito continua sem fim à vista, e o povo sofre mais do que nunca sem que no horizonte haja qualquer esperança visível de alívio.

John escreveu o seu livro para documentar a história do abuso imperialista testemunhada em primeira mão em cinco países. Mas também quer que o mesmo seja uma mensagem da esperança de que um dia possa vir o mesmo renascimento de democracia e justiça social que agora emerge em locais da América Latina como a Venezuela. Encontrou gente corajosa e dedicada em toda a parte, até no Afeganistão onde as condições são tão más que é difícil encontrar alguém. Disse que "Através de todas as crises humanitárias de memória recente, nenhum país tem sido tão violentado e tem sofrido mais, e nenhum foi menos ajudado, do que o Afeganistão". Ainda assim se mantém e segundo parece está ainda pior. A não ser que mude, está ainda muito longe uma época de paz e o fim da violência e do sofrimento do povo afegão. E no entanto, mantém-se a esperança. John encontra-a por todo o lado nos corações das pessoas que nunca desistirão da luta pelo mundo justo que desejam e pelo qual lutam.

Conclusão

John mais uma vez escreveu um livro brilhante e magnífico. Todos deviam lê-lo para aprender com este grande homem o que aconteceu e está a acontecer nestes cinco países que ele escolheu entre os muitos que conhece bem por ter assistido a acontecimentos de todo o mundo em primeira mão ao longo da sua carreira. Ele explica o que muito poucos se atrevem a fazer para nos ajudar a entender como as vidas dos povos em toda a parte têm sido afectadas pelo modelo económico americano que se baseia no militarismo e na expansão imperialista para controlar os mercados mundiais, os recursos essenciais e a mão-de-obra barata sem rivais que desafiem o seu domínio. Esta é a mensagem que o livro transmite. Mas também exala a esperança especial de que o espírito humano é invencível e encontrará uma forma de ultrapassar a adversidade e a opressão e será capaz de resistir. John acredita que virá uma época de libertação porque pessoas empenhadas em toda a parte do mundo nunca desistirão de trabalhar por isso.

16/Junho/2006

O original encontra-se em http://www.uruknet.info/?p=m24020&hd=0&size=1&l=e
Tradução de Margarida Ferreira.


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27/Jun/06