Colômbia, laboratório de bruxarias:
Democracia e terrorismo de Estado
por James Petras
O livro recente de Hernando Calvo Ospina,
Colombia, Laboratorio de Embrujos: Democracia y Terrorismo del Estado
[1]
é o mais importante estudo da política colombiana nas
últimas décadas e leitura essencial à luz da
celebração dos media e políticos ocidentais do presidente
colombiano Álvaro Uribe. O estudo de Calvo Ospina fornece uma grande
riqueza de dados históricos e empíricos que ilumina a peculiar
combinação colombiana da característica política
eleitoral de uma democracia capitalista ocidental e o expurgo permanente da
sociedade civil e política das ditadura totalitárias.
Ao contrário da maior parte dos países latino-americanos, a
Colômbia nunca passou pela modernização do seu sistema
político. Desde o século XIX os partidos Liberal e Conservador
dirigidos pelas oligarquias urbanas e rurais controlaram o processo
político através da violência e do clientelismo.
Na Colômbia, os partidos da classe média e trabalhadora,
'radicais' e de centro-esquerda foram violentamente reprimidos e
marginalizados, em contraste com a diferenciação política,
a qual verificou-se no Chile e na Argentina no princípio do
século XX. Nenhum partido trabalhista ou social-democrata ou marxista
foi permitido a fim de assegurar representação e legitimidade, ao
contrário da experiência no Brasil, Venezuela, Peru,
Bolívia ou alhures na América do Sul. O "sistema de dois
partidos" baseado nas famílias da elite oligárquica estava
mal preparado para acomodar e aceitar os desafios da florescente classe
trabalhadora urbana e movimentos do campesinato rural do período
pós Segunda Guerra Mundial. A resistência à
representação social plural e a um sistema
multi-partidário na Colômbia que reflectisse os interesses das
classes mais baixas assumiu a forma de guerra civil a violência
quando os partidos Liberal e Conservador recorreram a um maciço
derramamento de sangue na década de 1950 para resolver qual das duas
facções da classe dominante governaria. O resultado foi um pacto
bi-partidário para alternar a presidência entre os dois partidos.
O ponto chave teórico é que a unidade da elite colombiana era
baseada na dominação através da violência de massa,
da exclusão social e do monopólio do poder político.
O fracasso da Colômbia na "transição para a
modernidade" foi baseado exclusivamente na introdução
selectiva das instituições ocidentais da contra-insurgência
por uma oligarquia tradicional dedicada à política da
exclusão de massa. O legado histórico da continuidade do partido
oligárquico e da violência em massa proporcionou a estrutura para
a prática contemporânea de eleições e
esquadrões da morte.
O estudo de Calvo Ospina proporciona relatos pormenorizados que explicam a
influência difusa do governo dos EUA na política colombiana. Todo
o corpo de oficiais superiores com comando de tropas e o controle das
agências de inteligência estratégica passou por programas
militares e de doutrinação dos EUA. De facto, o comparecimento e
certificação por programas militares dos EUA constituem um degrau
necessário para ascender na carreira. O ponto central nestes programas
de treinamento é a "contra-insurgência" de oficiais
colombianos para a repressão de quaisquer movimentos de massa que
desafiem a oligarquia aliada a Washington. As estratégias ensinadas
pelos instrutores militares estado-unidenses incluem o recrutamento e armamento
de esquadrões da morte paramilitares; ambiciosos oficiais júnior
são pré-seleccionados pelos militares estado-unidenses de acordo
com a sua lealdade política aos EUA e a sua aptidão a
empenharem-se em guerra contra a esquerda e os movimentos de massa conduzidos
pelos seus próprios compatriotas. Calvo Ospina fornece numerosos
"case studies" de generais colombianos que seguem este
"padrão de carreira"
("career path"):
Desde a selecção e treino nas escolas militares
"avançadas" dos EUA, ao comando de tropas, a protectores e
promotores de esquadrões da morte, a autores de massacres
múltiplos contra civis, a receptores de numerosas
condecorações de presidentes da Colômbia e a visitas da
dignitários políticos e militares dos EUA (página 213).
Este estudo sintetiza uma grande quantidade de testemunhos, documentos,
notícias, testemunhos oculares e investigações de direitos
humanos que pormenorizam a ligação orgânica entre o governo
colombiano (incluindo o gabinete de Uribe), mais de 60 membros do congresso da
Colômbia (aliados de Uribe), governadores da extrema-direita e
presidentes de municipalidades com os 30 mil homens dos esquadrões da
morte, o principal dos quais era a Autodefensas Unidas de Colombia. De facto,
a ascensão de Uribe de governador de Antioquia à
Presidência deveu-se às suas ligações com os
esquadrões da morte (página 235). O estudo de Calvo Ospina
demole as afirmações de que os "esquadrões da
morte" operam independentemente do Estado. Não só os
esquadrões da morte são um braço do Estado como
também eles desempenham um papel maior na ligação da
oligarquia e da elite política ao comércio
multi-bilionário de narcóticos. O estudo proporciona-nos um
relato claro da rede complexa de elites fechadas que compõem a classe
dominante colombiana, o aparelho imperial dos EUA e os militares colombianos.
Enquanto os esquadrões da morte desempenhavam o papel principal na
matança de milhares de líderes populares e na
desapropriação de três milhões de camponeses, eles
recebiam o apoio da oligarquia colombiana. Uma vez que os militares e o
regime, com US$5 mil milhões de ajuda militar estado-unidense, tomaram
posse de regiões disputadas das guerrilhas, os esquadrões da
morte foram em parte desmobilizados. O crescimento e declínio dos
esquadrões da morte foram claramente um resultado da política
estado-unidense e colombiana. Eles foram instrumentos
"tácticos" destinados da executar as tarefas sangrentas de
expurgar a sociedade civil da oposição popular com base de
massas. O inquérito pormenorizado de Calvo Ospina aos horríficos
registos de direitos humanos dos primeiros cinco anos de governo Uribe ergue-se
em contraste absoluto com a barragem de propaganda favorável despejada
sobre esta figura macabra após a libertação da
refém franco-colombiana Ingrid Betancourt por Bush, Sarkozy, Zapatero,
Chavez e Castro entre outros. Durante os primeiros três anos da
presidência Uribe (Agosto 2002 31 de Dezembro de 2005) mais de um
milhão de colombianos foram deslocados à força, a grande
maioria deles camponeses desenraizados violentamente e desapropriados das suas
terras e lares por esquadrões da morte/militares, os quais a seguir
tomaram a sua terra sob o pretexto de eliminar apoiantes potenciais das FARC e
outros movimentos sociais.
Os camponeses que foram transformados em sem abrigo urbanos, e que se tornaram
líderes locais, a seguir foram assassinados pela polícia
política secreta do regime (DAS) ou pelos esquadrões da morte. O
regime de Uribe assassinou mais de 500 activistas e líderes sindicais
desde que chegou ao poder em 2003. Um líder sindical resumiu
sucintamente as funestas escolhas políticas dos activistas colombianos:
"Na Colômbia é mais fácil organizar uma guerrilha
(movimento) do que um sindicato. Alguém que duvide disso deveria tentar
organizar um no seu lugar de trabalho" (página 348). Segundo a
União Europeia, mais de 300 activistas de direitos humanos foram
assassinados pelo regime Uribe no seu primeiro mandato (página 349).
Nos primeiros dois anos do seu regime, Uribe foi responsável pelo
assassinato ou "desaparecimento" de 6.148 civis desarmados em
circunstâncias de não-combate.
A utilização de esquadrões da morte paramilitares
promovida/financiada e protegida pelo regime Uribe para assassinar e
"desaparecer" líderes populares serve vários objectivos
políticos estratégicos. Permite ao regime reduzir o
número de abusos de direitos humanos atribuídos às
Forças Armadas colombianas; facilita a utilização
generalizada de tácticas de terror extremo
amputação pública e exibição de
cadáveres desmembrados para intimidar comunidades inteiras
(guerra psicológica); cria o mito de que o regime é
"centrista" oposto à "extrema esquerda"
(FARC) e à "extrema direita" (esquadrões da morte,
especialmente a AUC). Esta afirmação é particularmente
efectiva para favorecer as relações diplomáticos do regime
nos EUA e na Europa, proporcionando um álibi conveniente para liberais e
social democratas que fornecem ajuda militar e económica à
Colômbia.
O estudo de Calvo Ospina das relações EUA-Colômbia
proporciona uma percepção útil dos benefícios
mútuos para a classe dominante colombiana e para o império. Os
esquadrões da morte
(sicários)
foram originalmente organizados pelas elites colombianas para destruir
movimentos camponeses que aspiravam à Reforma Agrária. Com a
entrada maciça de US$6 mil milhões de ajuda militar dos EUA e de
vários milhares de US Special Forces, os esquadrões da morte
expandiram-se de assassinos locais dispersos e descentralizados para
forças centralizadas com 30 mil homens. Eles foram
orientados exclusivamente para o extermínio de aldeias e
organizações sociais em regiões influenciadas pela
guerrilha. O estudo de Calvo Ospina destaca o papel central da classe
dominante colombiana bem como dos militares dos EUA no crescimento do Estado
terrorista totalitário. O seu estudo rejeita claramente a visão
simplista de muitos na esquerda que vêem a opressão,
exploração e o terror simplesmente como imposições
de "forças externas" (imperialismo). O ponto teórico
é que a entrada, expansão e papel influente dos militares
estado-unidenses foi possível porque isto coincidiu com os interesses e
necessidades a longo prazo e em grande escala da classe dominante colombiana.
A contribuição mais importante do estudo de Calvo Ospina da
política colombiana é o seu relato da construção e
elaboração de um regime terrorista totalitário, com a
colaboração aberta e o apoio das democracias capitalistas dos
EUA, da Europa e da América Latina.
A infraestrutura do terror totalitário define as fronteiras,
conteúdo e participantes da política eleitoral. Ela inclui:
Dominação por decretos presidenciais suspendendo todas as
garantias constitucionais (página 295); Uma rede de política
secreta à escala nacional com 1,6 milhão de espiões
(página 296); Camponeses recrutados à força e
forçados a actuar como colaboradores locais dos militares
("Soldados do meu povo") em 500 das 1.096 municipalidades da
Colômbia; 30 mil homens militarmente treinados e armados das
forças paramilitares dos esquadrões da morte; 300 mil
forças militares activas; o DAS (Departamento Administrativo de
Seguridad) a polícia secreta com dezenas de milhares de
efectivos. As milícias privadas de latifundiários, banqueiros e
líderes de negócios que envolvem agências privadas de
segurança ascendem a mais de 150 mil pistoleiros.
A Colômbia é o país mais militarizado da América
Latina. O Congresso, o eleitorados, o judiciário e o serviço
civil não exercem controle efectivo. As protecções
constitucionais são totalmente inexistentes. O âmbito e
profundidade das violações de direitos humanos excederam aquelas
de qualquer ditadura na história recente da América Latina,
incluindo aquelas na Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Bolívia.
A infraestrutura terrorista totalitária do Estado define o
carácter do sistema político. O processo eleitoral serve
exclusivamente como uma fachada que facilita "relações
normais" com regimes liberais, conservadores e social democratas na Europa
e na América do Norte e do Sul. Com efeito, a sua
glorificação e apoio a Uribe na sequência do caso
Betancourt serviu para legitimar o regime terrorista. A sua
condenação das FARC foi também uma rejeição
da esquerda anti-totalitária e anti-terrorista.
Se bem que o estudo de Calvo Ospina tenha aprofundado o nosso entendimento da
estrutura e da prática dos regimes contemporâneos de terrorismo
totalitário, há a necessidade de prosseguir com mais a fim de
examinar a emergência da base de massa de apoio ao regime. Uribe
mobilizou mais de um milhão de colombianos contra as FARC na Primavera
de 2008 em apoio ao seu regime totalitário, num momento em que os mass
media, o judiciário colombiano e antigos líderes dos
esquadrões da morte revelavam que grande número de deputados,
membros do gabinete de ministros e generais pró Uribe estavam ligados
às AUC. Por outras palavras, centenas de milhares de colombianos da
classe média abraçaram conscientemente um líder
totalitário.
A emergência do totalitarismo com base de massa, substituindo a
tradicional oligarquia autoritária, é parte da emergência
de novas e virulentas políticas de extrema direita na América
Latina. Na Bolívia, a extrema direita da classe dominante de Santa Cruz
combinou uma base de massa da classe média com as suas próprias
forças de choque "paramilitares" na busca de uma
"autonomia" (secessão) e controle dos maciços
rendimentos do petróleo e do gás que decorrem de parcerias com
multinacionais estrangeiras. Na Argentina, a direita dura nas
províncias construiu uma base de massa de várias centenas de
milhares para a defesa dos enorme lucros da exportação de
commodities.
Na Venezuela, a direita dura pôde colocar várias centenas de
milhares na rua e organizar as suas próprias tropas de choque
paramilitares.
A emergência da direita totalitária coincide com a incapacidade da
"centro-esquerda" e da esquerda para capitalizar com o boom das
commodities
a fim de financiar mudanças estruturais e organizar os trabalhadores e
pobres rurais em "forças combatentes".
Na Colômbia, o centro-esquerdo (Polo Democrático) geralmente tem
tomado o lado de Uribe contra as FARC e neste processo dado um incentivo
poderoso para atrair a massa da classe média urbano para o regime.
A aceitação dos regimes de "centro
esquerda" das estratégicas de exportação agro-mineral
no resto da América Latina imobilizou as massas e aumentou amplamente o
poder da nova direita totalitária e encorajou a utilização
pela mesma de tácticas de "acção directa".
Longe de a Colômbia de Uribe ser a "excepção"
numa "onda progressista" na América Latina, é mais
realista encará-la como emblemática dos novos líderes
totalitários que combinam eleições e terrorismo
político.
A Colômbia, como descreve Calvo Ospina, é na verdade o
"Laboratório da extrema direita". O êxito de Uribe
significa perigo para os trabalhadores, camponeses e movimentos populares da
América Latina.
13/Agosto/2008
[1]
Índice
Prólogo de Ignacio Ramonet
Introducción
I. Los inicios de un mal camino
II. Los "nuevos tiempos"
III Las sombras de la violencia
IV. La "paz" de las armas
V. Guerra, guerrillas y "seguridad nacional"
VI. La "guerra sucia"
VII. "Narcos", "Paras" Y Uniformados
VIII. Muerte y tierra arrasada
IX. En cumplimiento del "servicio" militar
X. Las alianzas de lucifer
XI. Las nuevas vías y el mismo fin
XII. Letra con sangre
XIII. Tras el telón, la muerte
XIV. Las fauces del engendro: el Plan Colombia
XV. Vida y rejuegos del Plan Colombia
XVI. Retrato del presidente
XVII. Asesinos, terroristas y traficantes
XVIII. Heridas profundas
O original encontra-se em
www.abpnoticias.com/index.php?option=com_content&task=view&id=693&Itemid=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|