Para além da era do petróleo

por Michael T. Klare [*]

Viciado em petróleo. Em Maio último, num movimento pouco noticiado e que passou quase desapercebido, o Departamento da Energia [dos EUA] efectuou uma viragem fundamental que quase significa uma mudança de época nos EUA e até na história mundial: aproximamo-nos do fim da Era do Petróleo e entrámos na Era da Insuficiência. O departamento deixou de falar em "petróleo" nas suas projecções das disponibilidades futuras e passou a falar em "líquidos". A produção global de "líquidos", indicou o departamento, ascenderá dos 84 milhões de barris de equivalentes do petróleo (mbep) por dia em 2005 para uns projectados 117,7 mbep em 2030 — o que mal chega para satisfazer a procura mundial prevista de 117,6 mbep. Para além de sugerir até que grau as companhias petrolíferas cessaram de ser meras fornecedoras de petróleo e passaram a ser fornecedoras de uma grande variedade de produtos líquidos – incluindo combustíveis sintéticos derivados do gás natural, milho, carvão e outras substâncias – esta mudança dá uma pista para algo mais fundamental: entrámos numa nova era de competição energética intensificada e de dependência crescente da utilização da força para proteger fontes de petróleo.

Para apreciar a natureza desta mudança, é útil sondar um pouco mais profundamente a curiosa terminologia do Departamento da Energia. "Líquidos", explica o departamento no seu International Energy Outlook for 2007, abrange o petróleo "convencional" bem como líquidos "não convencionais" – nomeadamente areias betuminosas, xistos oleosos, biocombustíveis, carvão-para-líquidos e gás-para-líquidos. Outrora um componente relativamente insignificante do negócio da energia, estes combustíveis assumem muito maior importância quando a produção do petróleo convencional fraqueja. Na verdade, o Departamento da Energia prevê que a produção de líquidos não convencionais saltará de uns meros 2,4 mbpe por dia em 2005 para 10,5 em 2030, ou seja, o quádruplo. Mas a verdadeira notícia não é o crescimento impressionante nos combustíveis não convencionais e sim a estagnação na produção do petróleo convencional. Visto desta perspectiva, é difícil fugir à conclusão de que a substituição de "petróleo" para "líquidos" na terminologia do departamento é uma tentativa não muito subtil de disfarçar o facto de que a produção mundial de petróleo está na sua capacidade pico ou próxima dele e que dentro em breve podemos esperar uma retracção na disponibilidade global de petróleo convencional.

Obviamente, o petróleo é uma substância finita e os geólogos alertaram há muito para o seu desaparecimento final. A extracção do petróleo, tal como a de outros recursos não renováveis, seguirá uma curva parabólica ao longo do tempo. A princípio, a produção sobe rapidamente e depois desacelera até estar praticamente esgotada metade da oferta original; é nesta altura que se atinge o pico da extracção sustentável e a produção começa um declínio irreversível até se tornar demasiado caro extrair o pouco que resta. A maior parte dos geólogos acredita que já alcançámos o ponto médio no esgotamento da herança de petróleo mundial e estamos portanto perto do pico na produção global. Agora só falta saber até que ponto estamos próximos dele; há peritos que clamam que já lá chegámos e outros que afirmam que ainda faltam alguns anos ou talvez mesmo uma década.

Até há bem pouco tempo, os analistas do Departamento da Energia estavam firmemente no campo dos optimistas desvairados que afirmavam que o Pico Petrolífero estava tão longe no futuro que realmente não era preciso pensar muito nisso. Pondo de lado a ciência da questão, a declaração oficial de uma visão tão cor-de-rosa afastava qualquer necessidade de defender melhorias no rendimento do combustível automóvel ou de acelerar o progresso no desenvolvimento de combustíveis alternativos. Dadas as prioridades da Casa Branca, não é de surpreender que esta visão tenha prevalecido em Washington.

Contudo, de há seis meses a esta parte, os sinais de um pico iminente na produção de petróleo convencional tornaram impossível ignorá-lo – mesmo para os analistas conservadores da indústria. Estes últimos provêm de um mundo que não faz prisioneiros de guerra, o mundo dos negócios e da fixação do preço do petróleo, por um lado, e das análises de peritos internacionais de energia, por outro.

Mas o mais dramático, talvez, tem sido a espectacular subida nos preços do petróleo. Em Setembro, o preço do crude leve, doce, ultrapassou pela primeira vez a barreira psicológica, há muito definida, de 80 dólares por barril na Bolsa de Mercadorias de Nova Iorque e desde então tem vindo a subir até aos 90 dólares. Têm sido invocadas muitas razões para o aumento dos preços do crude, incluindo as perturbações na região Delta, produtora de petróleo da Nigéria, a sabotagem dos oleodutos no México, o aumento da actividade dos tufões no Golfo do México e os receios de ataques turcos aos santuários da guerrilha curda no Iraque. Mas a razão de fundo é que a maioria dos países produtores de petróleo está a extrair na sua capacidade máxima e a sentir cada vez maior dificuldade em aumentar a produção face à crescente procura internacional.

Até mesmo a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) de aumentar a produção em 500 mil barris por dia não conseguiu impedir o ímpeto na subida dos preços. Preocupados com a possibilidade de que um aumento excessivo nos custos do petróleo possa provocar uma recessão mundial e uma diminuição na procura dos seus produtos, os países da OPEP acordaram em reforçar a sua produção estipulada numa reunião em Viena em 11 de Setembro. "Achamos que o mercado está um pouco alto", explicou o ministro do petróleo do Kuwait, Mohammad al-Olaim. Mas esta atitude pouco contribuiu para abrandar a subida dos preços. Obviamente, a OPEP teria que desencadear um aumento de produção muito maior para alterar o ambiente do mercado, e não se sabe muito bem se os seus membros têm capacidade para o fazer – neste momento ou futuramente.

Um alerta de outro género foi fornecido pela decisão do Casaquistão em Agosto de suspender a exploração da gigantesca região petrolífera Kashagan no sector do Mar Cáspio, começada inicialmente por um consórcio de empresas ocidentais nos finais dos anos 90. Dizia-se que Kashagan era o projecto petrolífero mais promissor desde a descoberta de petróleo na Baía Prudhoe do Alasca nos finais dos anos 60. Mas a empresa deparou com enormes problemas técnicos e ainda não produziu um único barril de petróleo. Frustrado pela incapacidade de obter quaisquer benefícios económicos deste projecto, o governo do Casaquistão alegou riscos ambientais e derrapagem de custos para justificar as operações de suspensão e a necessidade de avaliar melhor o projecto.

Tal como a dramática subida nos preços do petróleo, o episódio de Kashagan é um indício das crescentes dificuldades da indústria do petróleo nos seus esforços para aumentar a produção face ao aumento da procura. "Todas as companhias petrolíferas estão a esforçar-se para aumentar a produção", disse em Julho, ao Wall Street Journal, Peter Hitchens da companhia de corretagem Teather & Greenwood. "É cada vez mais difícil cumprir os projectos a tempo e dentro do orçamento".

Que a debilidade da indústria não é um problema temporário, mas sintomático de uma tendência a longo prazo, foi agora confirmado em dois importantes estudos publicados este verão por conservadoras organizações da indústria.

O primeiro foi publicado a 9 de Julho pela International Energy Agency (IEA), uma afiliada da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, o maior clube das principais potências industriais. Intitulado Medium-Term Oil Market Report (Relatório do mercado do petróleo a médio prazo), é uma previsão impiedosa da equação global oferta-e-eprocura para o período de 2007-2012. As notícias não são boas.

Prevendo que a actividade económica mundial cresça a uma média de 4,5 por cento ao ano durante este período – impulsionada em grande medida pelo crescimento desenfreado da China, da Índia e do Médio Oriente – o relatório conclui que a procura mundial de petróleo aumentará 2,2 por cento ano por ano, fazendo subir o consumo mundial de petróleo de cerca de 86 milhões de barris por dia em 1007 para 96 milhões em 2012. Com sorte e com novos investimentos maciços, a indústria petrolífera será capaz de aumentar suficientemente a sua produção para satisfazer o maior nível da procura previsto para 2012 – à tangente. Mas, para além disso, parece pouco provável que a indústria consiga enfrentar qualquer aumento na procura. "Prevê-se que o petróleo não seja suficiente daqui a cinco anos", declarou a agência.

A sublinhar a conclusão geral do relatório há uma série de preocupações específicas. Em especial, aponta para um declínio preocupante na área dos campos mais antigos nos países fora da OPEP e para a correspondente necessidade de aumentar a produção nos países da OPEP, muitos deles situados em áreas propícias a conflitos no Médio Oriente e em Africa. Os números apontados são incríveis. À primeira vista, pareceria que a necessidade de 10 milhões de barris extra por dia entre o momento actual e 2012 se traduziria num aumento de 2 milhões de barris por dia em cada um dos próximos cinco anos – uma meta aparentemente atingível. Mas isso não tem em consideração o declínio dos campos mais antigos. Segundo o relatório, o mundo precisa actualmente de 5 milhões extra: 3 milhões para compensar o declínio dos campos mais antigos, mais os 2 milhões para a procura acrescentada. Isto é um desafio dantesco e possivelmente inultrapassável, principalmente quando se chega à conclusão de que todo o petróleo adicional terá que vir do Irão, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia, Angola, Líbia, Nigéria, Sudão, Casaquistão e Venezuela – países que não inspiram a confiança do investidor, confiança essa necessária para injectar centenas de milhares de milhões de dólares em novos equipamentos de perfuração, oleodutos e outras infra-estruturas essenciais.

No segundo importante estudo, Facing the Hard Truths About Energy, preparado pelo National Petroleum Council, uma importante organização industrial, que foi publicado no Verão passado, podemos encontrar causas de preocupação semelhantes. Dado que apresentava uma visão "equilibrada" do dilema energético do país, o relatório do NPC foi muito elogiado no Capitólio e nos meios de comunicação, tanto mais que, a reforçar o seu brilhantismo, havia a identidade do seu principal autor, um antigo director da Exxon Móbil, Lee Raymond.

Tal como o relatório do IEA, o estudo do NPC começa com a afirmação de que, com o grau certo de combinação de políticas e de investimentos maiores, a indústria será capaz de satisfazer a procura de petróleo e de gás natural dos EUA e internacional. "Felizmente, o mundo não vai ficar sem recursos energéticos", afirma ousadamente o relatório. Mas abundam os obstáculos ao desenvolvimento e fornecimento desses recursos, por isso são necessárias urgentemente políticas e práticas cautelosas. Embora "não haja uma solução única e fácil para os múltiplos desafios que enfrentamos", os autores concluem que estão "confiantes em que uma rápida adopção dessas estratégias" permitirá que os Estados Unidos satisfaçam as suas necessidades energéticas a longo prazo.

Mas leia-se esse relatório com mais atenção, e surgem grandes dúvidas. Mais uma vez, aparecem as preocupações decorrentes das crescentes dificuldades em extrair petróleo e gás em locais menos favoráveis e dos riscos geopolíticos associados à crescente situação de insegurança relativa a fornecedores não amigáveis e instáveis. Segundo o NPC (que utiliza dados extraídos da IEA), serão necessários cerca de 20 milhões de milhões de dólares extra para novas infra-estruturas nos próximos vinte e cinco anos para garantir que haja energia bastante para satisfazer a procura mundial previsível.

E então o relatório afirma o óbvio: "Será necessário um clima estável e atractivo de investimento para atrair o capital adequado para a evolução e expansão da infra-estrutura energética". É aqui que qualquer observador astuto deve começar a sentir-se realmente alarmado porque, conforme o estudo assinala, não é previsível um clima desses. Como o centro de gravidade da produção mundial do petróleo se inclina decisivamente para os produtores da OPEP e para produtores de energia centralizados no Estado, como a Rússia, serão os factores geopolíticos a dominar o mercado, em vez dos factores de mercado.

"Estas mudanças apresentam profundas implicações para os interesses, estratégias e políticas dos EUA", afirma o relatório do NPC. "Muitas das esperadas mudanças podem agravar os riscos para a segurança energética dos EUA num mundo em que a influência dos EUA tende a diminuir enquanto potência económica em favor de outros países. Nos próximos anos, podem agravar-se as ameaças de segurança em relação às principais fontes mundiais de petróleo e de gás natural".

As implicações são óbvias: não é provável que haja importantes investimentos que atinjam os milhões de milhões de dólares necessários para reforçar substancialmente a produção nos próximos anos, o que sugere que a produção global do petróleo convencional não atingirá os elevados níveis previstos pelo Departamento de Energia e, pelo contrário, em breve começará um declínio irreversível.

Esta conclusão leva a duas reacções estratégicas óbvias: em primeiro lugar, o governo vai procurar colmatar os escrúpulos dos principais investidores energéticos, prometendo-lhes proteger os seus investimentos além-mar através do posicionamento de forças militares americanas; e em segundo lugar, a indústria vai procurar escorar as suas apostas desviando uma quota cada vez maior dos seus investimentos para o desenvolvimento de líquidos não petrolíferos.

O novo "Consenso de Washington"

A necessidade de um vigoroso papel militar dos EUA para proteger os valores energéticos no estrangeiro tem sido um dos principais temas da política externa americana desde 1945, altura em que o presidente Roosevelt se encontrou com o rei Abdul Aziz da Arábia Saudita e lhe prometeu proteger o seu reino em troca do acesso privilegiado ao petróleo saudita.

Na expressão mais conhecida desta aliança, o presidente Carter afirmou em Janeiro de 1980 que o fluxo desimpedido do petróleo do Golfo Pérsico constituía um dos interesses vitais do país e que, para proteger esse interesse, os Estados Unidos empregariam "quaisquer meios necessários, incluindo a força militar". Este princípio foi posteriormente citado pelo presidente Reagan como argumento para voltar a pôr os tanques de petróleo do Kuwait sob protecção da bandeira americana durante a guerra do Irão-Iraque de 1980-1988 e protegê-los com navios de guerra americanos – uma atitude que levou a confrontos esporádicos com o Irão. O mesmo princípio foi seguidamente invocado por George H.W. Bush como justificação para a Guerra do Golfo de 1991.

A corrida para os líquidos alternativos

Embora apostados em manter o aumento do abastecimento do petróleo convencional por tanto tempo quanto possível, os funcionários do governo e da indústria estão conscientes de que chegará a altura em que esses esforços se venham a revelar ineficazes. Sabem também que vai certamente aumentar nos próximos anos a pressão pública para reduzir as emissões do dióxido de carbono – a fim de reduzir a acumulação do efeito dos gases de estufa que provocam a alteração do clima – e para fugir aos perigos do conflito no Médio Oriente. Por isso, estão a dar maior realce ao desenvolvimento de alternativas ao petróleo que possam ser obtidas internamente ou no vizinho Canadá.

Este realce foi pela primeira vez alvo de atenção na última comunicação de Bush sobre o Estado da União. Sublinhando a independência energética e a necessidade de modernizar os padrões económicos dos combustíveis, Bush anunciou um ambicioso plano para aumentar a produção interna de etanol e de outros biocombustíveis. Parece que a administração favorece diversos tipos de alternativas do petróleo: o etanol derivado da palha do milho, de caules de ervas e de outras culturas não alimentares (etanol celulósico); o diesel derivado principalmente de rebentos de soja (biodiesel); e líquidos derivados do carvão (carvão-para-líquidos), gás natural (gás-para-líquidos) e de petróleo de xisto. Todos estes métodos têm vindo a ser testados em laboratórios universitários e em instalações de pequena dimensão, e serão aplicados em empresas maiores, de dimensões comerciais nos próximos anos com o apoio de diversas organizações governamentais.

Por exemplo, em Fevereiro, o Departamento de Energia anunciou apoios num total de 385 milhões de dólares para a construção de seis instalações piloto para fabrico de etanol celulósico; quando estiverem prontas em 2012, estas "biorefinarias" produzirão mais de 490 milhões de litros de etanol celulósico por ano. (Os Estados Unidos já produzem grandes quantidades de etanol, cozendo e fermentando sementes de milho, um procedimento que consome grande quantidade de energia e desvia colheitas alimentares valiosas, embora substituam apenas uma pequena parte da nossa utilização de petróleo; as plantas celulósicas agora propostas utilizarão biomassa não alimentar e consumirão muito menos energia).

As grandes companhias de energia estão igualmente ansiosas por desenvolver alternativas ao petróleo; todas elas instalaram laboratórios ou divisões para explorar futuras opções energéticas. A BP tem sido especialmente agressiva; em 2005 fundou a BP Alternative Energy e reservou 8 mil milhões de dólares para esse fim. Em Fevereiro passado, esta nova subsidiária anunciou uma doação de 500 mil milhões de dólares – possivelmente a maior da história nesta área – à Universidade da Califórnia, Berkeley, à Universidade de Illinois e ao Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, para fundação de um Instituto de Biociências Energéticas com o objectivo de desenvolver biocombustíveis. A BP afirmou que se espera que o instituto "venha a explorar a aplicação da biociência para a produção de uma energia nova e mais limpa, em especial combustíveis para o transporte rodoviário".

Praticamente todas as grandes companhias petrolíferas estão a apostar fortemente nas areias betuminosas do Canadá – uma substância espessa descoberta na província Alberta do Canadá que pode ser transformada em petróleo sintético – mas à custa de um esforço e custos enormes. Segundo o Departamento de Energia, a produção canadiana de betumes subirá de 1,1 mbep em 2005 para 3,6 mbep em 2030, um aumento que previsivelmente será canalizado sobretudo para os Estados Unidos. Na esperança de realizar lucros com esta mina de ouro, empresas gigantes dos EUA, como a Chevron, estão na corrida para adquirir concessões nos campos betuminosos no norte de Alberta.

Mas embora atractiva numa perspectiva geopolítica, a extracção das areias betuminosas canadianas é destrutiva do ponto de vista ambiental. Consome grandes quantidades de energia para recuperar o betume e transformá-lo em líquido utilizável, libertando três vezes mais gases com efeito de estufa do que a produção convencional de petróleo; o seu processamento deixa abundantes águas tóxicas e paisagens lunares desérticas. Embora raramente lhe seja dada cobertura na imprensa americana, a oposição canadiana contra os prejuízos ambientais provocados por estas operações gigantescas tem vindo a aumentar.

Os factores ambientais avolumam-se numa outra possível fonte de líquidos que as empresas energéticas americanas estão a considerar, com forte apoio governamental: o petróleo de xisto, ou líquidos de petróleo extraídos de rochas novas encontrado na bacia Green River a ocidente do Colorado, a este do Utah e a sul do Wyoming. Os geólogos governamentais afirmam que o xisto nos Estados Unidos contém o equivalente a 2,1 milhões de milhões de barris de petróleo – a mesma quantidade do abastecimento mundial inicial de petróleo convencional. Mas a única forma de extrair este suposto tesouro é escavar toda uma enorme área descampada e aquecer a rocha a 500º Celsius, criando montanhas de desperdícios durante o processo. Também aqui tem vindo a aumentar a oposição a este maciço assalto destrutivo ao ambiente. Apesar disso, a Shell Oil já implantou uma instalação piloto em Rio Blanco, no Colorado ocidental, com forte apoio da administração Bush.

A vida depois do pico

E temos assim um retrato da situação energética global após o pico do petróleo convencional, com as tropas a correrem de um local de produção de petróleo para outro e com uma crescente parte dos nossos combustíveis de transportes a ser fornecida por líquidos não petrolíferos de um ou de outro tipo. O que não pode ser previsto com rigor é qual será exactamente a forma desta futura equação energética, mas é óbvio que o seu processo árduo vai estar presente nos debates políticos da América, internos e externos, durante muito tempo.

Como sugere este breve artigo, a passagem do pico do petróleo terá profundas e duradouras consequências para este país, sem soluções fáceis. Para enfrentar este futuro, temos, acima de tudo, de repudiar qualquer resposta simplista, tal como a "independência" energética baseada na pilhagem das últimas áreas inexploradas da América ou a falsa promessa do etanol de milho (que apenas pode abastecer uma pequena fracção das nossas necessidades em transportes). Além do mais, torna-se claro que muitas das alternativas de combustíveis propostas pela administração Bush levantam perigos significativos por si mesmas e devem portanto ser analisadas cuidadosamente antes de serem gastas consideráveis somas públicas no seu desenvolvimento. A posição mais segura e moralmente mais defensável é repudiar qualquer "consenso" que invoque o uso da força para proteger o abastecimento de petróleo no além-mar e lutar para conservar o que resta do petróleo mundial, utilizando-o menos.

Outros artigos do autor:
  • As guerras que lubrificam a máquina do Pentágono
  • O ocaso da era do petróleo

    [*] Autor de Blood and Oil: The Dangers and Consequences of America's Growing Dependence on Imported Petroleum

    O original encontra-se em http://www.thenation.com/doc/20071112/klare . Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 01/Nov/07