A economia pós-petrolífera: Depois da tecno-reparação

por Peter Goodchild [*]

 
Mesmo quando lutam com a ideia da desintegração económica, os americanos tentam ultrapassá-la em termos de progresso tecnológico ou económico: eco-aldeias, desenvolvimento sustentável, eficiência energética e assim por diante. Sob as presentes circunstâncias, tal tecno-optimismo compulsivo parece inadequado".
— Dmitry Orlov, "Our Village"

O caminho para além do petróleo começa pela consideração de cinco princípios: de que as fontes alternativas de energia são insuficientes; de que os hidrocarbonetos, metais e electricidade são inseparáveis; de que a tecnologia avançadas é parte do problema e não parte da solução; de que agricultura pós-petrolífera significa uma população mais pequena; e de que a base do problema é psicológica e não tecnológica.

Tudo na moderna sociedade industrial está dependente do petróleo e de outros hidrocarbonetos. Deles obtemos gasolina, combustível para aquecimento, fertilizantes, pesticidas, lubrificantes, plásticos, tintas, tecidos sintéticos, asfalto, produtos farmacêuticos e muitas outras coisas. Falando em termos mais gerais, podemos dizer que estamos dependentes de hidrocarbonetos para a manufactura, o transporte, a agricultura, a mineração e a electricidade. O pico da produção mundial de petróleo é (ou foi) de cerca de 30 mil milhões de barris por ano, sustentando uma população humana de aproximadamente 7 mil milhões. Em todo o mundo, talvez haja 10 12 barris de petróleo por extrair — o que pode soar como uma grande quantidade, mas não é. Por volta de 2030, a produção anual de petróleo será menos da metade do que era no seu momento de pico.

1. As fontes alternativas de energia são insuficientes

As fontes alternativas de energia nunca serão muito utilizadas, principalmente devido ao problema da "energia líquida": a quantidade do output de energia das fontes alternativas não é suficientemente maior do que a quantidade de input de energia (a qual são hidrocarbonetos). As fontes alternativas não são suficientes para abastecer as necessidades anuais da "sociedade industrial" tal como é geralmente entendida tal expressão.

A utilização de petróleo não convencional (areias betuminosas, depósitos de xisto, petróleo pesado) coloca vários problemas. O primeiro é aquele da insuficiente energia líquida. O segundo é o da poluição extrema. O terceiro é que mesmo se assumirmos com optimismo que cerca de 700 mil milhões de barris não convencionais pudessem ser produzidos, tal quantidade equivaleria apenas a cerca de 15 anos da procura global de petróleo.

As pilhas de combustível (fuel cells) não podem ser tornadas práticas porque tais dispositivos exigem hidrogénio derivado dos hidrocarbonetos. Os biocombustíveis (exemplo: do milho) exigem enormes quantidades de terra e resultam em quantidades insuficientes de energia líquida. As barragens hidroeléctricas estão a atingir os seus limites práticos. A energia nuclear dentro em breve estará a padecer da falta de combustível e já cria sérios perigos ambientais.

A energia solar, eólica e geotérmica apenas são efectivas em certas áreas e para certas finalidades. Tais tipos de energia, seja como for, são de valor significativo apenas quando convertidos em energia eléctrica, o que exige a utilização de baterias descartáveis e mesmo de alguns metais raros. Em termos de ecologia (i.e. o relacionamento entre população e recursos), estes tipos de fontes portanto não são melhores do que a energia baseada nos hidrocarbonetos que eles pretendem substituir.

O gasto mundial de energia primária foi de 11 x 10 9 toneladas equivalentes de petróleo (tep) em 2006. É difícil imaginar um número de tal grandeza – é muitíssimo. Por volta de 2030 o abastecimento mundial de petróleo estará tão esgotado que a Era Industrial estará ultrapassada, para todos os propósitos práticos. Mas os proponentes da "energia alternativa" esperam transformar todo o planeta num espaço de tempo que seria implausível mesmo num trabalho de ficção científica.

A busca de fontes alternativas de energia não é simplesmente ilusória, é realmente danosa. Ao sonharmos acordados com uma utopia de centrais eólicas e painéis solares sem ruído e sem odor nós estamos a reduzir a efectividade de qualquer informação séria que esteja agora a ser publicada. Quando artigos de imprensa afirmam que há soluções simples e indolores para a crise do petróleo, a resposta do leitor não é a consciência e sim o entorpecimento. Estamos a caminhar rapidamente rumo ao que foi descrito como o maior desastre da história, mas entregamo-nos a fantasias escapistas.

2. Os hidrocarbonetos, os metais e a electricidade são inseparáveis

O minério de ferro daquela espécie que pode ser processada com equipamento primitivo está a tornar-se escasso, e apenas as formas menos tratáveis estarão disponíveis quando a maquinaria movida a petróleo já não estiver disponível — um problema do tipo do ovo e da galinha. O cobre, o alumínio e outros metais também estão a desaparecer rapidamente. Os metais foram úteis à espécie humana apenas porque outrora podiam ser descobertos em bolsões concentrados na crosta da Terra, agora eles estão irremediavelmente dispersos entre as montanhas de lixo do mundo.

A electricidade não é uma fonte de energia, é apenas um vector (carrier) da energia. Ela provém principalmente do carvão, gás natural, centrais nucleares ou barragens hidroeléctricas. O carvão é terrivelmente ineficiente: apenas um terço da sua energia é transferida quando convertida em electricidade. Ao mesmo tempo, as redes eléctricas operam perpetuamente à carga máxima, cronicamente na necessidade de melhor manutenção e melhorias caras. O primeiro sinal claramente marcado do "fim" pode ser a falha da electricidade.

Os hidrocarbonetos, os metais e a electricidade estão todos intrincadamente conectados. Cada um deles é acessível — à escala moderna — só quando os outros dois estão presentes. Qualquer dos dois desaparecerá sem o terceiro. Se imaginarmos um mundo sem hidrocarbonetos, devemos imaginar um mundo sem metais ou electricidade. Não há meio de romper este "triângulo".

3. A tecnologia avançada é parte do problema e não parte da solução

Sejam quais forem as opções disponíveis no futuro, elas não serão encontradas na tecnologia avançada, em soluções "high-tech". Há três razões porque isto é assim. Em primeiro lugar, quaisquer dispositivos de "energia alternativa" teriam de ser criados de plásticos e metais. Em segundo lugar, eles teriam de ser controlados pela electricidade. Finalmente, teriam de ser criados por máquinas grandes e refinadas e transportados a longas distâncias. Mas toda a questão ao especular acerca da "energia alternativa" é em primeiro lugar encontrar uma resposta para aquela crise particular — o facto de que nenhum destes três factores existirá em anos futuros.

Além disso, tudo o que pensamos como "moderna sociedade industrial" tem os seus componentes "sociológicos": intrincada divisão do trabalho, governo em grande escala e educação de alto nível. Sem hidrocarbonetos, metais e electricidade descobrir-nos-emos num mundo pré-industrial no qual não há infraestrutura material que permitam a existência destes componentes sociológicos.

A tecnologia avançada é parte do problema a ser resolvido, não a própria solução. Pode haver alguma forma de tecnologia que possa salvar-nos do esgotamento de hidrocarbonetos, mas não certamente não é "high". Falar em "métodos high-tech" como se eles fossem em grande medida sinónimos de "métodos empregando fontes alternativas de energia" é em última análise contraditório e auto-derrotante.

Não podemos entrar num mundo "pós-carbono". A vida sobre a Terra tem sido "carbono" durante pelo menos 500 milhões de anos. Isto não mudará na próxima década ou pouco mais ou menos.

4. Agricultura pós-petróleo significa uma população mais reduzida

A agricultura moderna está dependente dos hidrocarbonetos para os fertilizantes (o processo Haber-Bosch combina gás natural com nitrogénio atmosférico para produzir fertilizante azotado), pesticidas e a operação de máquinas para colheita, processamento e transporte. A Revolução Verde foi a invenção de um meio de converter petróleo e gás natural em alimento. Sem hidrocarbonetos, os métodos modernos de produção alimentar desaparecerão. A produção alimentar será grandemente reduzida, e não haverá meios práticos de transportar comida a longas distâncias.

O ponto de partida é pensar em termos de um raio de actividade mais pequeno. A economia globalizada tem de ser substituída pela economia localizada. No mundo pós petróleo, a maior parte da comida será produzida a um nível local. O problema, contudo, é que a maior parte da superfície do mundo é permanentemente inadequada para a plantação de alimentos: o clima é demasiado severo, ou a terra é demasiado estéril.

No entanto, uma pequena população humana pode sobrevier com a agricultura, pelo menos se ela reverter a alguns métodos primitivos. Algumas culturas asiáticas trazem material de plantas silvestres das montanhas e usam-no como fertilizante, assim utilizando o N-P-K (etc) das mesmas. Muitas outras culturas utilizam cinzas de madeira. A "fonte" nutriente das plantas silvestres alimenta o "sumidouro" ("sink") de nutrientes da terra cultivada. (Isto é um dos princípios básico por trás de toda a "jardinagem orgânica", embora poucos praticantes o admitam ou mesmo saibam disto).

Ao utilizar tecnologia primitiva não será possível alimentar uma população mundial que tenha algo a ver com a dimensão actual. Mesmo as frases clichê com a palavra "alternativo" abrigam um certo número de concepções erradas. "Jardinagem intensiva", por exemplo, é possível apenas com uma mangueira de jardim e um abastecimento ilimitado de água. A "agricultura orgânica" confia em fontes de potássio, fósforo e outros elementos que não estarão disponíveis sem técnicas modernas de mineração e transporte. A população máxima que pode ser sustentada, portanto, é cerca de quatro pessoas por hectare de terra arável.

5. A base do problema é psicológica, não tecnológica

Quando a crise petrolífera piorar haverá várias formas de comportamento aberrante: negação, raiva, paralisia mental. Haverá um aumento do crime, haverá estranhos cultos religiosos ou movimentos políticos extremistas. A razão para tal comportamento é que no fundamental o problema do pico petrolífero não é acerca tecnologia, não é acerca da ciência económica, e não é acerca da política. Ele é em parte acerca da tentativa da humanidade de desafiar a geologia. Mas é principalmente acerca da psicologia: a maior parte das pessoas não pode apreender aquilo que William Catton denomina "ultrapassar os limites" ("overshoot").

Nós não podemos encarar o facto de que como espécie ultrapassámos a capacidade do planeta para nos acomodar. Nós nos multiplicámos para além dos limites. Consumimos, poluímos e expandimo-nos para além dos nossos meios, e após vários milhares de anos de soluções tecnológicas superficiais estamos agora a esgotar as respostas. Biólogos explicam tal expansão em termos de "capacidade biótica máxima" ("carrying capacity"): roedores e lebres da neve — e um grande número de outros espécies — têm o mesmo problema; a super-população e o super-consumo conduzem à extinção (die-off). Mas os humanos não podem encarar tal conceito. Ele vai contra o cerne de todas as nossas crenças religiosa e filosóficas.

22/Dezembro/2007

Outras leituras:
  • BP Global Statistical Review of World Energy. Annual. http://www.bp.com/statisticalreview
  • Campbell, Colin J. The Coming Oil Crisis . Brentwood, Essex: Multi-Science, 1997.
  • Catton, William R., Jr. Overshoot: The Ecological Basis of Revolutionary Change . Champaign, Illinois: U. of Illinois P, 1980.
  • Deffeyes, Kenneth S. Hubbert's Peak: The Impending World Oil Shortage . Princeton: Princeton UP, 2001.
  • Gever, John, et al. Beyond Oil: The Threat to Food and Fuel in the Coming Decades . Cambridge, Massachusetts: Ballinger, 1986.
  • Meadows, Donella H. et al. Limits to Growth: A Report for the Club of Rome's Project on the Predicament of Mankind . 2nd ed. New York: Universe, 1982.

    Do mesmo autor:
  • Pico petrolífero: A energia alternativa e o Princípio Poliana

    [*] Autor de Survival Skills of the North American Indians . Contacto: petergoodchild@interhop.net

    O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/goodchild221207.htm


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 25/Dez/07