Petróleo: Riscos globais no início do século XXI
por Dean Fantazzini; Mikael Höök; André Angelantoni
[*]
Sumário
1. Introdução
2. A perspectiva da produção
2.1 Produção actual de petróleo
3. A perspectiva económica
3.1 Economia - oferta de petróleo
3.2 Economia - procura de petróleo
4. Mudança atempada de sistema de energia não assegurada
4.1 Riscos da transição de energia
4.2 As exportações de petróleo diminuem mais depressa do que a produção total
4.3 Programa de emergência poderá substituir diminuição de petróleo
5. Riscos para os governos
6. Riscos empresariais
7. Conclusão
Referências
Sumário:
O incidente do Deepwater Horizon revelou que a maior parte do petróleo
que resta está a grande profundidade ao largo da costa ou em outros
locais de difícil acesso. Além disso, a obtenção do
petróleo ainda existente nos actuais reservatórios em
produção exige equipamento e tecnologia adicionais que
representam um enorme custo tanto em capital como em energia. Este facto
realça as limitações físicas para a
produção de quantidades cada vez maiores de petróleo,
assim como a possibilidade de que o pico da produção ocorra esta
década. Também se analisa aqui sumariamente a economia da oferta
e da procura de petróleo, demonstrando porque é que a oferta
disponível está basicamente fixada a curto ou médio prazo.
Também se faz soar uma campainha de alarme visto que a recessão
económica espreita quando a energia consome uma porção
desproporcionada das despesas totais dos consumidores. Neste contexto,
são indispensáveis práticas de mitigação por
parte do governo e dos negócios. Quanto ao primeiro, uma
educação precoce dos cidadãos quanto ao risco de
contracção económica será uma política
prudente para minimizar futura discórdia social. Quanto aos
últimos, todas as operações de negócios devem ser
examinadas com o objectivo de construir uma elasticidade e preparar um
cenário em que o capital e a energia são muito mais caros do que
no dos actuais negócios ordinários.
1. Introdução
Qualquer economia precisa de energia para produzir bens e prestar
serviços e a dimensão duma economia está profundamente
correlacionada com a quantidade de energia que utiliza (Brown et al., 2010a,
Warr and Ayers, 2010). O petróleo tem sido um elemento chave do
crescimento da economia. A partir de 1845, a produção de
petróleo aumentou praticamente de zero para cerca dos actuais 86
milhões de barris por dia (Mb/d) (AIE, 2010), o que tem permitido que o
nível de vida tenha aumentado em todo o mundo. Em 2004 o crescimento da
produção de petróleo parou enquanto a necessidade de
energia e os países em desenvolvimento como a China e a Índia
continuaram a aumentar a sua procura. O resultado foi uma forte subida do
preço global, que foi seguida de perto por um esmagamento de
preços. A partir de 2004 a produção mundial de
petróleo manteve-se no âmbito dos 5% do seu pico apesar dos
preços historicamente altos (ver Figura 1).
A extracção do petróleo convencional cada vez mais
difícil aliada ao esgotamento dos campos de petróleo gigantes e
super-gigantes, alguns dos quais têm estado a produzir há setenta
anos, levou a Agência Internacional de Energia (AIE) a declarar em fins
de 2010 que o pico da produção do petróleo convencional
ocorreu em 2006 (AIE, 2010). As ramas de petróleo convencional
detêm o maior quinhão de todos os líquidos normalmente
considerados como "petróleo" e referem-se a
reservatórios que permitem basicamente a extracção de
petróleo como um líquido escuro a levemente colorido que flui
livremente (Speight, 2007).
O pico da produção do petróleo convencional é um
importante ponto de viragem para o sistema mundial de energia porque há
muitas questões difíceis que se mantêm sem resposta. Por
exemplo: durante quanto tempo se manterá a produção de
óleo convencional no seu actual nível de produção?
Poderá a produção de petróleo não
convencional compensar a diminuição do petróleo
convencional? Quais são as consequências para a economia mundial
quando a produção total de petróleo diminuir, como
é inevitável que acabe por acontecer? Quais são os passos
que o mundo dos negócios e os governos podem dar já para se
prepararem?
Neste documento damos especial atenção ao petróleo por
várias razões. Primeiro, a maior parte das fontes de energia
alternativa não são substitutas para o petróleo. Muitas
dessas alternativas (eólica, solar, geotérmica, etc.) produzem
electricidade, mas não combustível líquido. Por
consequência, a frota mundial de transportes corre o grave risco de
sofrer com os choques de preços do petróleo e com a sua escassez
quando a produção do petróleo convencional diminuir.
Embora a produção de combustíveis líquidos
substitutos, como o processo carvão-para-líquidos, possa aumentar
nas
próximas duas ou três décadas, não é claro
que possa conseguir compensar totalmente a diminuição da
produção do petróleo.
Segundo, o petróleo contribui com a maior parcela para o abastecimento
total de energia primária, aproximadamente 34%. As
alterações de preço e da sua disponibilidade terão
um impacto a nível mundial principalmente porque as fontes alternativas
actualmente contribuem muito pouco para o sistema mundial de energia (AIE,
2010).
Por fim, o petróleo é especialmente importante por causa do seu
papel único no sistema global de energia e na economia global. O
petróleo fornece mais de 90% da energia para os transportes mundiais
(Sorrell et al., 2009). A sua densidade energética e portabilidade
permitiram que muitos outros sistemas, desde a extracção mineral
à pesca em águas profundas (dois sectores especialmente
dependentes do gasóleo embora não sejam de modo algum os
únicos quanto à sua dependência do petróleo)
funcionem a uma escala global. O petróleo é também
nevrálgico para todo o resto do sistema energético. Sem ele, a
extracção do carvão e do urânio, a
perfuração para obtenção do gás natural, e
até mesmo a manufactura e distribuição dos sistemas de
energia alternativa, como os painéis solares seriam significativamente
mais difíceis e mais dispendiosas. Portanto, o petróleo pode ser
considerado como um recurso "capacitante". Ou seja, permite-nos obter
todos os outros recursos exigidos para manter em funcionamento a nossa
civilização moderna.
2. A perspectiva da produção
Afirma-se habitualmente que o pico do petróleo, i.e., o conceito de que
a produção do petróleo atingirá um nível
máximo e depois diminuirá, só se refere à geologia.
Em certa medida, isso é o resultado do aceso debate polarizado que se
travou entre geólogos, como Hubbert (1949; 1956) ou Campbell (1997;
2002), e economistas, incluindo Adelman (1990) e Lynch (2002; 2003). De facto,
o pico do petróleo é o resultado de um complexo conjunto de
forças que incluem a geologia, a física dos reservatórios,
a economia, as políticas do governo e a política. No entanto, uma
sólida compreensão do pico e do subsequente declínio da
produção do petróleo começa com o reconhecimento
das leis naturais que criam um enquadramento para todas as coisas. As
limitações intrínsecas destas leis acabam por afectar
todas as actividades humanas porque nem os incentivos económicos nem os
políticos podem dobrar ou violar essas leis da natureza.
Há uma série de mecanismos de esgotamento físico que
afectam a produção do petróleo (Satter et al., 2008). O
declínio provocado pelo esgotamento ocorre durante a primeira fase de
extracção quando a diminuição da pressão do
reservatório provoca ritmos mais reduzidos de fluxo. O investimento em
injecções de água, a segunda fase de
extracção, pode manter ou aumentar a pressão mas acaba por
fazer com que se obtenha cada vez mais água e menos petróleo ao
longo do tempo (i.e. aumentando a percentagem da água). Pode usar-se
equipamento e tecnologia adicionais para reforçar a
recuperação de petróleo na terceira fase de
extracção, mas isso tem um preço alto, tanto em capital
investido como em energia gasta para manter a produção. A
situação é semelhante a espremer água duma esponja
ensopada. A princípio é fácil, mas depois é preciso
um esforço cada vez maior para um resultado cada vez mais fraco. A certa
altura, já não vale a pena espremer a esponja ou a bacia de
petróleo e abandona-se a produção.
Outra forma de explicar o pico da produção do petróleo
é em termos de comportamento predador-presa, conforme fizeram Bardi e
Lavacchi (2009). A teoria deles é que, inicialmente, a
extracção de "petróleo fácil" leva ao
aumento de lucros e de investimentos para uma maior capacidade de
extracção. A pouco e pouco ficam esgotadas as fontes mais
fáceis (normalmente as maiores). Os custos de extracção,
tanto em termos de energia como monetário, aumentam à medida que
a produção muda para depósitos de qualidade inferior. Por
fim, os investimentos deixam de poder acompanhar esses custos crescentes, a
diminuição de produção de campos maduros não
pode ser ultrapassada e a produção total começa a cair.
Há um factor adicional que desempenha um papel importante. Em ambos os
modelos, independentemente da abundância de capital ou dos preços
altos, a certa altura um poço de petróleo deixa de produzir
energia que compense. Hubbert (1982) escreveu: "Há um custo
diferente e mais importante que é independente do custo
monetário. É o custo com a energia da exploração e
da produção. Enquanto o petróleo for usado como fonte de
energia, quando o custo da energia necessária para extrair um barril de
petróleo seja maior do que o conteúdo energético do
petróleo, a produção tem que parar qualquer que seja o seu
custo monetário".
Estas tendências físicas conspiram para tornar a
produção de petróleo sempre mais difícil e
dispendiosa em termos monetários e energéticos. Os incentivos
económicos e o avanço tecnológico podem atrasar essas
tendências mas não podem fazê-las parar.
2.1 Produção actual de petróleo
Os picos de produção ocorrem em muitas fontes de energia, desde a
madeira para lenha e as baleias até aos combustíveis
fósseis (Höök et al., 2010). Actualmente, cerca de 60
países já passaram o "pico do petróleo" (Sorrell
et al., 2009) o ponto de máxima produção. Na maior
parte dos casos isso deve-se ao esgotamento físico dos recursos
disponíveis (por ex., os EUA, o Reino Unido, a Noruega, etc), enquanto
que nalguns casos são factores socioeconómicos que limitam a
produção (por ex. o Iraque).
As tentativas para refutar o pico do petróleo, que se concentram apenas
na quantidade de petróleo disponível em todas as suas formas,
demonstram uma confusão fundamental e infelizmente muito vulgar entre
que quantidade de petróleo resta versus com que rapidez ele pode ser
produzido. Embora até há pouco tempo, parecesse que o
petróleo estava mais economicamente disponível do que nunca
(Watkins, 2006), houve quem demonstrasse que isso era uma artimanha de
relatórios estatísticos (Bentley et al., 2007). Mais ainda,
é muito menos importante saber quanto petróleo resta se, por
exemplo, a procura for de 90 Mb/d mas só se puderem produzir 80 Mb/d. De
qualquer modo, as estimativas de reservas mais realistas indicam um pico de
produção de recursos limitados a curto prazo (Meng and Bentley,
2008; Owen et al., 2010).
A produção total de petróleo engloba o petróleo
convencional, que é o petróleo líquido, fácil e
relativamente barato de bombar, e o petróleo não convencional,
dispendioso e frequentemente difícil de produzir. É vital
compreender que o novo petróleo provém cada vez mais de fontes
não convencionais, como o petróleo polar, o petróleo de
grande profundidade e o petróleo a partir de areias betuminosas. Quase
todo o petróleo que nos resta situa-se em regiões politicamente
perigosas ou muito distantes, está encerrado numa geologia desafiante ou
nem sequer se apresenta na forma líquida.
Actualmente, mais de 60% da produção mundial tem origem numas
poucas centenas de campos gigantescos. O número de descobertas de campos
de petróleo gigantescos teve o seu pico no início dos anos 60 e
desde então tem vindo a diminuir (Höök et al., 2009). Isto
é semelhante a apanhar morangos num campo. Apanhamos primeiro os maiores
e os melhores morangos (tal como os grandes campos de petróleo,
são os mais fáceis de encontrar) e deixamos os pequenos para
depois. Apenas 25 campos são os responsáveis por um quarto da
produção global e 100 campos por metade da
produção. Apenas 500 campos são responsáveis por
dois terços de toda a produção (Sorrell et al., 2009a).
Como assinala a AIE (2008), nada é menos certo do que a indústria
petrolífera conseguir reunir o capital para explorar os campos
restantes, de baixo retorno, suficientemente depressa para compensar a queda da
produção dos actuais campos.
Nem todas as fontes petrolíferas são igualmente fáceis de
explorar. É necessária muito menos energia para extrair
petróleo de um reservatório ainda sob pressão natural do
que extrair o betume de areias betuminosas e transformá-lo em crude
sintético. A energia obtida por um processo de extracção
dividida pela energia gasta durante esse processo é a Taxa de Retorno
Energético (TRE). É o retorno sobre o cálculo do
investimento aplicado a um processo físico. Conforme Hubbert fez notar,
independentemente do preço que o mercado estiver disposto a pagar pelo
petróleo, tal como não vamos gastar um dólar para receber
apenas um dólar em troca, quando gastarmos tanto petróleo quanto
aquilo que obtivermos de um determinado depósito de petróleo, a
produção pára.
A TRE da produção interna de petróleo dos EUA (proveniente
principalmente de campos gigantescos de petróleo) tem vindo a declinar
de 100:1 em 1930 para menos de 20:1 na década de 2000, por ex., no Golfo
do México (Gately, 2007; Hall et al., 2008; Murphy and Hall, 2010). Como
os campos de petróleo, gigantes e super-gigantes, dominam a actual
produção, são bons indicadores para o ponto do pico da
produção (Robelius, 2007; Höök et al., 2009). Há
hoje grande consenso entre analistas que o declínio na
produção existente se situa entre 4-8% por ano (Höök et
al., 2009). Em termos de capacidade, isso significa que nem que aparecesse um
novo Mar do Norte (~5 Mb/d) todos os anos se conseguiria manter constante a
actual produção.
Em 2010, a AIE (2010) anunciou bruscamente que o pico da produção
do petróleo convencional tinha sido atingido em 2006. A AIE
também voltou a baixar a sua estimativa de produção total
mundial de petróleo para menos de 100 MB/d em 2035. No entanto, foi
demonstrado que o modelo de produção de petróleo da AIE
é defeituoso. Para atingir o nível de produção no
seu modelo, consideram taxas de esgotamento dos campos de petróleo
tão altas como nunca se viram em qualquer outra região
petrolífera (Aleklett et al., 2010). O petróleo restante nunca
poderá ser produzido tão depressa como seria necessário
para empurrar o pico da produção para um futuro tão
distante como projectam, e portanto o pico tem que ocorrer mais cedo do que a
AIE afirma. Miller (2011) acha que a AIE não considerou nenhuma das
recentes críticas e chegou à conclusão de que os
resultados da AIE permanecem assim demasiado optimistas.
A maior parte das discussões concentra-se na dimensão dos
recursos que restam. Mas, a curto prazo, é muito mais importante dar
atenção aos fluxos de produção e aos
constrangimentos que actuam sobre eles. O pico do petróleo é o
ponto temporal em que os fluxos da produção já não
conseguem aumentar. Não é apenas o sub-investimento, as jogadas
políticas ou os locais remotos que tornam a produção de
petróleo cada vez mais difícil. Os mecanismos de esgotamento
físico (aumento da percentagem de água, redução da
pressão do reservatório, etc.) vão inevitavelmente afectar
a produção impondo restrições e até mesmo
limitações à produção futura do
petróleo líquido bruto. Nenhuma tecnologia nova ou aumento de
capital pode ultrapassar este facto.
3. A perspectiva económica
3.1 Economia oferta de petróleo
Uma característica importante da oferta de petróleo é o
seu ciclo de explosão e de queda nos preços e na
produção. Maugeri (2010, p. 12-13) descreve este fenómeno:
"se o petróleo se torna escasso e não há capacidade
de poupança
o preço do petróleo sobe. Esta subida
nos preços favorece um novo ciclo de investimentos a partir do qual
surgirá uma nova produção. Também desencadeia
ganhos em eficácia energética, frugalidade dos consumidores e o
aumento de recursos energéticos alternativos. Quando a nova
produção chega ao mercado, a procura de petróleo pode ter
diminuído. Este círculo vicioso tem sido uma
característica de todas as crises do petróleo no passado".
Mas a produção de petróleo ultimamente tornou-se menos
sensível aos tradicionais estímulos económicos. A primeira
década deste século assistiu a um enorme aumento na
exploração e produção petrolífera quando
aumentou o preço do petróleo (Sorrell et al., 2009; 2009a).
Infelizmente, conforme já assinalámos, a produção
total mundial de petróleo parece ter chegado de vez a uma plataforma. Em
grande medida isso deve-se a que o petróleo que resta é sobretudo
petróleo não convencional, que é dispendioso e leva mais
tempo a chegar ao mercado. Algumas das consequências de já se ter
extraído grande parte do petróleo fácil são as
seguintes:
a) O início da produção demora muito mais tempo, a partir
da descoberta de um novo campo. Maugeri (2010) calcula que actualmente decorrem
entre 8 a 12 anos antes de os novos projectos produzirem o primeiro
petróleo. As condições difíceis de
exploração podem atrasar consideravelmente o início da
produção. No caso de Kashagan, a maior descoberta mundial de
petróleo nos últimos 30 anos, a produção demorou
quase 10 anos devido às difíceis condições
ambientais.
b) Em regiões já exploradas, um esforço acrescido de
perfuração resulta normalmente num pequeno aumento na
produção de petróleo porque se encontraram e exploraram
primeiro os campos maiores (Höök and Aleklett, 2008; Höök
et al., 2009).
c) Como o custo de extrair o petróleo que resta é muito mais alto
do que o da OPEP, fácil de extrair, ou outro petróleo
convencional, se o preço de mercado se mantiver durante bastante tempo
mais baixo do que o custo marginal, os produtores suspenderão a
produção para evitar prejuízos financeiros. Ver Figura 3.
d) A incerteza quanto ao crescimento económico reforça as
preocupações para execução destes projectos mais
arriscados. Isso atrasa ou muitas vezes cancela projectos (Figura 4).
e) A maior parte das reservas de petróleo restante está nas
mãos de governos. Estes têm a tendência de investir menos em
comparação com empresas privadas (Deutsche Bank, 2009).
f) É preciso ter em consideração possíveis lucros
de escassez. Hotelling (1931) demonstrou que, no caso de um recurso em vias de
esgotamento, o preço tem que exceder o custo marginal, mesmo que o
mercado do petróleo seja perfeitamente competitivo (a diferença
resultante chama-se lucro de escassez). Se isso não acontecer,
será mais lucrativo deixar o petróleo debaixo do chão,
à espera de produzi-lo quando o preço subir. Hamilton (2009a,
2009b) assinalou que, embora nos anos 90 o lucro de escassez tenha sido
negligenciável em relação aos custos de
extracção, o forte crescimento da procura por parte dos
países em desenvolvimento na década passada, juntamente com
limites à expansão da produção "pode, em
princípio, ter sido responsável por uma súbita viragem
para um regime em que o lucro de escassez é positivo e muito
importante". Quanto a este aspecto, o serviço noticioso da Reuters
anunciou em 13 de Abril de 2008 que "o rei Abdullah da Arábia
Saudita disse que tinha ordenado que algumas das novas descobertas de
petróleo se mantivessem fechadas a fim de preservar a riqueza do
petróleo no principal exportador mundial para futuras
gerações, afirmou o funcionário da Agência de
Imprensa Saudita". Portanto, um possível cálculo
inter-temporal considerando lucros de escassez pode já ter influenciado
(i.e. limitado) a produção actual. Embora a súbita queda
de preços no final de 2008 seja difícil de compatibilizar com os
lucros de escassez, a subsequente rápida recuperação de
preços para a gama 70 a 120 dólares durante a duradoura crise
financeira global indica que este aspecto não pode ser desprezado. Isto,
apesar da afirmação de Reynolds and Baek (2011) de que o
princípio Hotelling "
não é um determinante
poderoso dos preços de recursos não renováveis" e de
que "
a curva de Hubbert e a teoria em torno da curva de Hubbert
é um determinante importante dos preços do petróleo".
Concordamos que a curva de Hubbert, que define a curva de esgotamento dum
recurso não renovável, pode ser o principal determinante do
preço do petróleo, mas não é o único.
A consequência destas questões é que, a curto-médio
prazo, o abastecimento disponível é essencialmente fixado e
portanto relativamente fácil de calcular. Conforme mostra a Figura 4, a
capacidade de produção líquida vai decair devido à
dificuldade de encontrar novas reservas a um custo acessível enquanto
que a capacidade existente se vai esgotando constantemente. Tal como aconteceu
em 2004, em 2011 volta a não haver nova capacidade líquida embora
a economia mundial, e portanto a procura de petróleo, tenha voltado a
crescer. Depois de 2014, segundo parece, a produção global de
petróleo vai começar a decair (ver o segundo relatório da
UK Industry Taskforce on Peak Oil and Energy Security (UK ITPOES, 2010),
Lloyd's (2010), Deutsche Bank (2009, 2010), o relatório da UK Energy
Research Centre (Sorrell et al., 2009a) e o 2010 World Energy Outlook da AIE
(2010).)
3.2 Economia procura de petróleo
Ora bem, uma importante pergunta é quais são as
consequências dos preços altos do petróleo no crescimento
económico mundial? Na literatura económica, Hamilton (2009b) e
Kilian (2008; 2009) arriscam uma resposta, enquanto na literatura financeira
profissional, o relatório do Deutsche Bank (2009) é um dos mais
abrangentes.
Hamilton (2009b) em especial destacou a importância da quota de despesas
com energia em percentagem das despesas totais dos consumidores. Quando esta
relação é demasiado alta, tende a ocorrer uma
recessão económica. Do mesmo modo, o Deutsche Bank (2009)
demonstrou como cada país parece ter uma "percentagem limiar de
receita nacional em que o preço do crude encontra resistência e a
procura se quebra". O Deutsche Bank (2009) afirma que, para os
consumidores americanos, este ponto é quando a energia representa 7,5%
do produto interno bruto. Este valor está perto do calculado por
Hamilton (2009b) mas baseia-se em dados mensais e usa uma metodologia
diferente. Num relatório mais recente, o Deutsche Bank (2010) baixou o
seu limiar para 6,5% porque "
o último choque pôs em
acção importantes mudanças comportamentais e
políticas que vão facilitar mudanças comportamentais
rápidas quando ocorrer o seguinte, e o desemprego e o fraco crescimento
de salários aumentar a sensibilidade aos preços da gasolina. Da
última vez eram precisos 4,50 dólares/galão [1,19
dólar/litro] de gasolina para suspender a procura, desta vez podem ser
precisos apenas 3,75 a 4 dólar/galão [0,99 a 1,06
dólares/litro] para isso acontecer". Mas também sublinharam
que "os americanos conformaram-se em pagar mais pela gasolina, e podem ser
necessários preços mais altos para forçar uma
mudança de comportamento".
Kopits (2009) sugeriu que, quando as despesas com o petróleo bruto
excedem 4% do PIB, os preços do petróleo aumentam mais de 50%
cada ano, e as subidas do preço do petróleo são tão
grandes que um possível ajustamento da procura devia atingir 0,8% do PIB
numa base anual, e portanto seria muito provável uma recessão nos
EU. Hall et al. (2009) chegaram a um resultado semelhante e mostraram que
é muito provável uma recessão nos EU quando o
petróleo atingir mais de 5,5% do PIB. Fazemos notar que a
diferença entre os 4% (Kopits, 2009) e os 5,5% (Hall et al., 2009)
é simplesmente uma venda por grosso versus uma diferença a
retalho, e o resultado acaba por ser o mesmo
[1]
.
Finalmente, Hamilton (2011) sublinhou que 11 em 12 recessões americanas
desde a II Guerra Mundial foram precedidas por um aumento dos preços do
petróleo. Infelizmente, não há uma fonte de energia
nitidamente alternativa que seja capaz de substituir cabalmente o
petróleo (ver, por exemplo, Maugeri (2010) para uma análise
não técnica recente dos limites de fontes alternativas de energia
no que se refere ao petróleo). O petróleo possui uma
combinação de densidade energética, de portabilidade e de
EROEI historicamente muito alta que dificilmente as alternativas atingem.
4. Não está assegurada uma transformação atempada
do sistema de energia
À medida que a produção do petróleo diminui,
serão provavelmente necessárias a médio prazo
mudanças significativas na actual economia dependente do
petróleo. Mas não é certo que haja meios financeiros para
implementar essas mudanças. Por exemplo, o Deutsche Bank (2009, 2010)
sugeriu que o uso generalizado de carros eléctricos na segunda parte
desta década será a tecnologia de ruptura que acabará por
destruir a procura do petróleo. Para além dos constrangimentos da
tecnologia e dos recursos (o lítio necessário para baterias
eléctricas é muito abundante na natureza mas actualmente a
produção é muito limitada), há dúvidas
quanto à disponibilidade de recursos financeiros suficientes para a
transição de toda a frota de veículos. Conforme Hamilton
(2009b) demonstra, as restrições ao crédito acompanham os
preços altos do petróleo e a maior parte dos veículos
são comprados a crédito. Outros há que sugerem que o
gás natural é o próximo paradigma de energia. Mais uma
vez, haverá recursos financeiros suficientes para mudar para o
gás natural quando a produção de petróleo diminuir?
Reinhart e Rogoff (2009, 2010) concluíram que, historicamente,
após uma crise da banca, a dívida governamental em média
quase duplica (aumento de 86%) para salvar os bancos e estimular a economia.
Também demonstraram que normalmente se segue uma crise da dívida
soberana: não é de surpreender que tenhamos visto a
Islândia, a Grécia, a Irlanda, a Hungria e Portugal a virar-se
para a UE/BCE e/ou para o FMI pedindo ajuda financeira para refinanciar as suas
dívidas públicas e evitar a bancarrota. A necessidade de mudar
para fontes alternativas de energia com os enormes investimentos financeiros
que essa tarefa exigirá e a presença simultânea de
grandes dívidas públicas e privadas pode desencadear uma
perfeita tempestade.
Há também o papel desempenhado por forças adicionais. Os
novos regulamentos que vão ser introduzidos pelo Basel III vão
igualmente ter impacto nas expectativas de investimento, orçamento e
planeamento. O Basel III é um novo padrão global regulador sobre
a adequabilidade e liquidez do capital bancário proposto pela
Comissão Basel para a Supervisão Bancária na
sequência da recente crise financeira global e cujo objectivo é
"
melhorar a capacidade do sector bancário em absorver
choques decorrentes de tensão financeira e económica, qualquer
que seja a sua origem, reduzindo assim o risco de contágio do sector
financeiro para a economia real", BCBS (2009). A demografia também
será extremamente importante na próxima década. A Europa e
os Estados Unidos têm populações envelhecidas e a
geração de muitos filhos está a entrar na idade da
reforma. A China também enfrenta um problema demográfico
semelhante devido à sua política de um único filho.
A combinação do declínio da produção do
petróleo (e portanto de preços suficientemente altos para
provocar recessões), com impostos altos, medidas de austeridade,
condições de crédito mais restritas e mudanças
demográficas tem o potencial de restringir fortemente os recursos
financeiros necessários para afastar a economia do petróleo e
aproximá-la das fontes de energia alternativa. Outra consequência
desta combinação de forças é a provável
contracção da economia mundial (Hamilton, 2009b; Dargay and
Gately, 2010).
4.1 Riscos da transição energética
Com o petróleo a um preço mais alto, será fatal ocorrer
uma substituição tecnológica (tal como carros
eléctricos a substituir gradualmente os carros de motor de
combustão interna) e a substituição do combustível
(tal como o gás natural a substituir o petróleo). A
história está cheia de muitos exemplos destes que são
frequentemente apresentados nos debates. Mas é preciso lê-los com
cuidado e não exagerar a simplicidade duma transição de
energia.
Por exemplo, o óleo de baleia foi tecnicamente uma fonte
de energia no século XIX, mas nessa época a economia baseava-se
no carvão. O óleo de baleia era usado apenas para fins muito
específicos (sobretudo a iluminação), e a
transição para o petróleo foi fácil e ocorreu muito
rapidamente. Bardi (2007) explorou isto com mais pormenor e fez algumas
observações importantes que assinalam como pode ser
difícil substituir fontes de energia. Em especial, mostrou que
frequentemente a escassez de recursos aumenta fortemente a amplitude das
oscilações de preços, que muitas vezes abrandam uma
transição de fonte de energia. O mundo dos negócios e os
governos lutam com circunstâncias alternativas de fundos insuficientes
para gerir a escalada de preços que não cobrem a sua estrutura de
custos. O planeamento a longo prazo neste ambiente sempre em mudança
torna-se extremamente difícil e o investimento mesmo o
investimento desesperadamente necessário pode cair
precipitadamente.
Friedrichs (2010) também chama a atenção para que,
após o pico do petróleo, os países têm várias
trajectórias sociológicas disponíveis, podem seguir o
militarismo predatório como o Japão antes da II Guerra Mundial,
um retraimento totalitário como a Coreia do Norte, ou, de
preferência, a adaptação socioeconómica de Cuba
após a queda da União Soviética. Dado o recente
século de conflitos e os enormes stocks de armas e de forças
militares das nações modernas (em especial os Estados Unidos, que
gasta com os seus militares quase tanto como todos os restantes países
do mundo em conjunto (SIPRI, 2011), não há nenhuma garantia de
que o período relativamente pacífico que hoje se vive nas
nações desenvolvidas, favorável a transições
rápidas de fontes de energia, prossiga por muito mais tempo.
Koetse et al. (2008) mostraram que tanto para a América do Norte como
para a Europa, é grande a capacidade de substituição
capital-energia a longo prazo. Por outras palavras, se houver capital
abundante, a economia pode reagir a preços do petróleo mais altos
com a sua substituição. Mas, se a diminuição do
petróleo provocar uma contracção de crédito
semelhante ao colapso de 2008, pode não haver capital suficiente para
substituir rapidamente os equipamentos existentes.
Mesmo que haja capital suficiente, a substituição tem sido feita
até agora com fontes de combustíveis de EROEI alto e mesmo maior.
Desde a transição do óleo de baleia, cada
transição subsequente tem sido para uma fonte de energia com
maior ganho líquido em energia. Foram os densos combustíveis
energéticos que estamos a usar actualmente que nos permitiram construir
a nossa civilização. Desta vez a dificuldade é que temos
que mudar de fontes altamente lucrativas, em termos de energia, para
alternativas de ganho mais baixo, como a energia solar e a eólica. Os
investigadores já começaram a fazer as seguintes perguntas
importantes: qual é o mínimo de ganho de energia que tem que ser
sustentado para nos permitir continuar com a nossa civilização?
E, partindo do princípio que as alternativas estão à
altura da tarefa (o que ainda não foi provado), podemos completar o
abandono do petróleo antes que o EROEI geral fique demasiado baixo?
(Murphy and Hall, 2010)
Um outro desafio é que, estritamente falando, durante os últimos
150 anos não mudámos de fontes de combustível anteriores
para novas temos vindo a adicioná-las ao abastecimento total.
Actualmente estamos a usar todas as fontes significativas (carvão,
petróleo, gás e urânio) em alta escala. Assim, é
vulgar, mas incorrecto, dizer que mudámos do carvão para o
petróleo. Na verdade, estamos a usar mais carvão actualmente do
que jamais fizemos (AIE, 2010). Nunca saímos da idade do carvão.
O desafio de mudar para fontes de energia alternativas enquanto está em
declínio uma fonte especialmente importante, neste caso o
petróleo, não deve ser subestimado.
4.2 As exportações de petróleo diminuem mais depressa do
que a produção total
O desafio pode ser ainda maior já que as exportações de
petróleo descem mais rapidamente do que a produção geral
do petróleo. Rubin (2007) assinala que, antes da crise financeira,
muitos países produtores estavam a atravessar explosões de
desenvolvimento económico. Esses países exportam apenas o
petróleo que não utilizam. O Médio Oriente assistiu a
aumentos do consumo anual de 5%. A Rússia estava a aumentar a uma taxa
anual de 4%. Foi só por causa do aumento da produção da
Rússia durante o mesmo período (que foi responsável por
70% do aumento que veio da produção da OPEP, da Rússia e
do México durante a primeira parte da última década) que
os preços do petróleo não bateram o recorde mais cedo do
que aconteceu. Embora a AIE tenha projectado que o uso do petróleo em
países da OCDE já pudesse estar em declínio (AIE 2010),
pensa que o apetite por petróleo de países não OCDE, que
incluem os países produtores, ainda está longe de ser satisfeito.
Brown et al. (2010b) mostram como é significativo o espremer da
produção bruta em declínio e como pode estar a aumentar o
consumo dos países produtores, a que chamaram o Modelo da Terra
Exportadora. O crescente consumo dos países produtores devido ao
crescimento da população actua como um forte
"factor de majoração"
que retira muito rapidamente o petróleo do
mercado de exportação. Usando os cinco principais países
exportadores a partir de 2005 (Arábia Saudita, Rússia, Noruega,
Irão e Emirados Árabe Unidos), constroem um cenário em que
a produção conjunta declina a uns leves 0,5% ao ano durante um
período de dez anos num total de 5%. O consumo interno de
petróleo para estes exportadores continua a crescer à sua taxa
actual (2010). Neste cenário as exportações
líquidas de petróleo diminuem em 9,6%, quase o dobro da taxa de
declínio da produção de petróleo.
Podemos ver esta perda acelerada de petróleo destinado à
exportação em muitos países produtores que já
passaram o pico. A Figura 6 mostra as causas típicas da Indonésia
e do Egipto. A Indonésia saiu da OPEP porque já não tem
mais petróleo para exportação a oferecer ao mercado
mundial. O Egipto está já a incorrer em dívida
pública e está em vias de se tornar num importador de
petróleo, o que vai exacerbar as finanças públicas
já esticadas. Enquanto os países produtores continuam a aumentar
o seu uso de petróleo mesmo que modestamente e a produção
diminui (também, mesmo que modestamente), há um risco
extremamente alto de que o petróleo para exportação
diminua muito mais rapidamente do que a maior parte dos observadores
estão actualmente a considerar.
4.3 Programa de emergência poderá substituir
diminuição de petróleo
Hirsch (2010) assinala que um programa de emergência para criar
poupanças de combustíveis líquidos e combustíveis
líquidos adicionais pode ser capaz, em certa medida, de compensar a
produção de petróleo em queda (Figura 7). Enquanto as
alternativas estam a aumentar e à medida que a produção do
petróleo está a diminuir, Hirsch (2008) calcula que a economia
mundial se contrairá a uma razão de aproximadamente um para um.
No seu melhor cenário, usando uma taxa de redução de 4% ao
ano, um programa de choque idealizado para produzir combustíveis
líquidos não fará parar a contracção
senão dez anos depois de começar o declínio.
Outras tentativas de mitigação, como o reforço da
produção solar, eólica e geotérmica, podem
não ser consideradas prioritárias já que não ajudam
a situação produzem electricidade e os 800 milhões
mundiais de veículos de transporte, de produção alimentar
(i.e. tractores e ceifadoras) e de distribuição exigem
combustível líquido.
Se o pico de produção de petróleo ocorrer esta
década, já não há tempo suficiente para impedir a
contracção devido ao tempo necessário para a
substituição da frota de veículos. Mesmo num
cenário moderadamente agressivo, Belzowski and McManus (2010) calculam
que, numa economia saudável, em crescimento, em 2050 apenas 80% da frota
de veículos na Europa e nos EUA funcionarão com energias
alternativas.
5. Riscos para o governo
Uma economia em contracção apresenta aos governos uma
série enorme de problemas que não são fáceis de
resolver. As promessas feitas aos cidadãos, algumas delas sob a forma de
programas de bem-estar social, de pensões e de contratos de trabalho
públicos, serão impossíveis de manter à medida que
a base energética da economia diminuir. A pressão para baixar
salários e uma actividade comercial reduzida baixarão as receitas
dos impostos. Com receitas mais baixas e maiores exigências sob a forma
de apoio ao bem-estar social por uma sociedade cada vez mais pobre, é
difícil ver como a dívida acumulada (e crescente) do governo pode
ser paga sem uma inflação galopante. Embora ainda não seja
claro se a resposta do governo vai ser a hiper-inflação (para
minimizar as dívidas) ou incumprimentos extensivos e maciços das
dívidas ou ambas as coisas não é
provável que os negócios continuem como habitualmente quando a
produção de petróleo diminuir.
Nos sectores de negócios que são fortemente dependentes do
petróleo, como o sector automóvel (Cameron e Schnusenberg, 2009),
as empresas mal preparadas que não perceberam como a volatilidade dos
preços pode ter impacto na sua firma, provavelmente irão à
falência. No caso das companhias de carros, algumas delas podem falir uma
segunda vez porque os seus produtos ainda não estão prontos para
um ambiente de petróleo de preço alto (Wei et al., 2010). Os
governos podem não estar dispostos a gastar dinheiro para salvar esses
negócios (como os resgates de companhias de automóveis nos EU) e
devem estar preparados para o aumento do desemprego quando esses sectores
vulneráveis se contraírem. Para minimizar uma possível
discórdia social futura, os governos deviam começar a planear de
imediato medidas para a contracção e educar os cidadãos
para o risco da contracção.
Como a redução da pobreza está profundamente
correlacionada com a disponibilidade do capital (Banco Mundial 2001), quando
ocorrer a contracção devida ao declínio da
produção do petróleo, alguns países podem ver
regredir os ganhos da redução da pobreza feitos nas
últimas décadas. Alguns governos também podem ter que
enfrentar motins por alimentos e combustível tal como aconteceu em 2007
e 2008. Outras formas de comportamento de multidões, nomeadamente o
açambarcamento de combustível e de alimentos, pode exacerbar a
situação e os governos devem preparar-se para isso.
6. Riscos empresariais
Num comunicado conjunto, a Lloyd's de Londres e a Chatham House aconselharam
todas as empresas a iniciar exercícios de planeamento de cenários
para o pico do preço do petróleo que, estão convencidos,
surgirá a médio prazo (Lloyd's, 2010). Esses exercícios de
planeamento deverão vigiar as operações e o balanço
das companhias em aspectos fundamentais.
Tal como os governos, as actividades empresariais de todos os tipos podem
experimentar uma dificuldade semelhante para pagar as suas dívidas
à medida que as vendas diminuem. Os bancos poderão ver os valores
dos activos a cair ainda mais. Os fabricantes em especial terão que
lutar com dificuldades acrescidas para fabricar e entregar produtos à
medida que a produção de petróleo for diminuindo (Hirsch
et al., 2005). Será imperativo que o negócio enfrente este choque
schumpetariano (uma mudança estrutural na indústria que consegue
alterar o que é estrategicamente relevante) atempadamente (Barney,
1991). Um benefício significativo do petróleo barato foi tornar
as distâncias relativamente pouco dispendiosas. Actualmente é
possível manufacturar bens usando operações a grande
distância. Mas, à medida que o petróleo diminuir, a
distância vai voltar a ficar cada vez mais cara, e o preço do
petróleo pode começar a agir como uma barreira comercial para
muitos produtos.
Outro risco decorrente da diminuição da produção do
petróleo é a possibilidade de roturas no abastecimento do
petróleo. Se isso ocorrer, grande parte da manufactura moderna
sofrerá grande impacto. Os sistemas de fabrico
just-in-time,
em que as peças em armazém são mínimas, dada a
reposição frequente de peças pelos fornecedores de
peças por vezes com múltiplas entregas por dia
têm pouca tolerância aos atrasos nas entregas.
Preparar-se para este risco exige mais do que um esforço para a
eficácia do fabrico que tem caracterizado as actividades empresariais de
modo geral. As cadeias de abastecimento têm que ser avaliadas com um
objectivo de elasticidade e maior agilidade (Bunce and Gould, 1996;
Krishnamurthy and Yauch, 2007), o que implica maior folga em alianças
estreitas e muitas vezes frágeis entre fornecedores e fabricantes
(Christopher and Towill, 2000; Towill and Christopher, 2001). Com pouca ou
nenhuma elasticidade no sistema (menos peças em armazém, etc.),
basta um único fornecedor falhar a entrega duma peça ou praticar
açambarcamento para pôr em perigo o processo de
produção.
7. Conclusão
O incidente do Deeptwater Horizon demonstrou que a maior parte do
petróleo que resta está a grande profundidade ao largo da costa
ou noutros locais difíceis de alcançar. Além disso, obter
o petróleo nos reservatórios que estão actualmente em
produção exige equipamento e tecnologia adicionais que têm
um alto custo tanto em capital como em energia. Assim, passámos em
revista a perspectiva física do pico do petróleo e foram
realçadas algumas das limitações à
produção de quantidades sempre crescentes de petróleo
assim como a possibilidade de o pico de produção ocorrer nesta
década.
Depois analisámos resumidamente a economia da oferta e da procura do
petróleo, mostrando porque é que o abastecimento
disponível está basicamente fixado a curto-médio prazo, e
realçando a importância duma alta quota de despesas com a energia
em percentagem do total de despesas do consumidor que soa como uma campainha de
alarme para recessões económicas. Além disso, fizemos
notar que o potencial de recursos financeiros disponíveis no futuro para
a mudança para fontes de energia alternativas será limitado
devido a vários factores que vão desde os altos níveis de
dívida (privada e pública) até ao envelhecimento da
população nos países ocidentais e na China. Também
fizemos notar que, mesmo com uma pequena diminuição da
produção, as exportações de petróleo
diminuem muitíssimo mais depressa do que a produção total
de petróleo à medida que as economias dos países
produtores crescem.
Neste contexto, são indispensáveis as práticas de
mitigação do risco, tanto a nível do governo como a
nível das actividades empresariais para se prepararem para preços
de petróleo altos e muito provavelmente voláteis. Os governos
devem começar a educar os seus cidadãos para o risco da
contracção a fim de minimizar uma possível
discórdia social futura. Os empresários devem examinar as suas
operações e balanço com o objectivo de aumentar a sua
elasticidade. Também implica a preparação de um
cenário em que o capital e a energia sejam muito mais caras do que nos
negócios normais hoje em dia.
Agradecimentos
Agradecemos aos revisores e colegas que forneceram comentários valiosos
aos rascunhos deste artigo. Agradecimentos em especial a Simon Snowden pela sua
ajuda inestimável.
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[1] Agradecemos a Gail Tverberg ter assinalado esta diferença.
Ver também:
A centralidade ignorada do Pico Petrolífero
Este artigo foi publicado inicialmente em
Energy Policy,
Volume 39, número 12, Dezembro de 2011, pág. 7865-7873 e
transcrito em
http://www.theoildrum.com/node/9015#more
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
.
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