A inversão da razão
Na era do capital financeiro, a habitual distorção da realidade
consiste em pensar que a sociedade está a florescer quando os mercados
financeiros estão em ascensão. Mas isto tem a sua lógica
inversa no pensamento igualmente habitual de que o mal-estar económico
na sociedade decorre exclusivamente de algum mau funcionamento do mundo das
finanças. E, por sua vez, tal mau funcionamento é
atribuído não a quaisquer problemas intrínsecos associados
ao próprio mundo das finanças mas à interferência
insensata da parte de alguma entidade externa, nomeadamente o Estado, devido ao
seu abandono dos princípios das "finanças sãs".
Uma tal visão causa uma incrível inversão da razão
em que as questões aparecem de um modo que é
exactamente o oposto do que elas são.
Darei três exemplos para ilustrar este ponto ao chamar
atenção para três proposições que hoje
estão amplamente aceites e disseminadas.
A primeira destas, muito em voga actualmente em países capitalistas
avançados, declara que os meios para ultrapassar uma depressão
consistem na redução da despesa do Estado. Se o Estado reduz a
sua despesa através do corte do défice orçamental,
então isto, assim diz o argumento, melhoraria o "estado de
confiança" dos "investidores" e portanto produziria
maiores investimentos os quais ultrapassariam a depressão. Isto é
uma inversão da razão uma vez que não só equivale a
dizer que dois pássaros na mão valem um pássaro no bosque
como também enxerga um pássaro no bosque quando ali não
existe nenhum.
O ILUSIONISMO DA FINANÇA
É bem sabido que os capitalistas aumentam a capacidade [de
produção] quando esperam que a procura aumente e um indicador
óbvio sobre a probabilidade do aumento é se já está
a aumentar, o que pode ser julgado, por exemplo, verificando se o nível
da capacidade de utilização do equipamento já instalado
está a crescer. Além disso, isto é só uma
condição necessária. Mesmo quando a
utilização da capacidade está a melhorar, os capitalistas
podem ainda não investir podem preferir esperar um pouco para se
assegurarem de que a melhoria na utilização da capacidade
não é apenas um fenómeno transitório e sim que
representa uma genuína tendência altista da procura. Nos EUA de
hoje, por exemplo muito embora haja uma melhoria na
utilização da capacidade no sector de bens de consumo
graças principalmente à queda nos preços do
petróleo, a qual pôs mais poder de compra nas mãos dos
consumidores americanos verifica-se muito pouco investimento adicional.
Isto acontece porque os capitalistas não estão seguros de que
isto não seja apenas uma fase passageira.
Numa tal situação, se o governo reduz a sua despesa cortando o
défice orçamental, então haveria uma redução
no nível da procura agregada o qual reduziria a utilização
da capacidade e provocaria uma redução no investimento de
capitalistas, ao invés de um aumento. A depressão, por outras
palavras, seria agravada ao invés de aliviada com o corte da despesa
governamental. Mas o ilusionismo da finança impede a
percepção disto.
Meu segundo exemplo relaciona-se com a proposição frequentemente
avançada pelos advogados neoliberais na economia indiana. Estes dizem
que para reduzir a fome devemos reduzir gradualmente o sistema de
distribuição público. Mais uma vez, o argumento segue algo
como isto: um grande sistema de distribuição público
implica um grande subsídio alimentar e portanto um grande défice
orçamental. Uma vez que um défice tende a causa
inflação, as vítimas desta inflação sofrem,
incluindo o facto de serem incapazes de terem acesso a cereais suficientes fora
do sistema de distribuição público. Portanto qualquer
ampliação do sistema de distribuição público
para além de um pequeno segmento estritamente definido da
"população abaixo da linha de pobreza" (BPL na sigla em
inglês) tem o efeito de piorar o destino do povo como um todo, inclusive
através de maior fome.
É com base neste argumento que o
PDS
tem sido reduzido gradualmente na Índia pois traça uma
distinção entre populações abaixo e acima de linha
de pobreza e confina o aprovisionamento de alimento barato só à
população BPL. E muito embora o parlamento tenha aprovado
legislação sob o anterior governo
UPA
no sentido de ampliar o âmbito do PDS (contra os pareceres dos mandarins
do Ministério das Finanças e de outros neoliberais empedernidos
daquele tempo), nada tem sido feito pelo governo Modi para
implementá-la. Àquela legislação foi dado de facto
um enterro silencioso.
Certamente nem todos que advogaram este "objectivo" avançariam
necessariamente este argumento. Alguns argumentariam que um sistema de
distribuição alimentar universal e generalizado ampliaria o
défice orçamental e introduziria inflação ao
providenciar subsídios alimentares aos que "não
merecem"
("undeserving").
Mas implícita na sua posição, quer reconheçam ou
não, está a visão de que uma extensão do PDS agrava
a fome.
Para ver isto, vamos simplesmente perguntar: é bem sabido hoje que a
magnitude da absorção total
per capita
de cereais (considerando em conjunto tanto a absorção directa
como a indirecta, a última via produtos animais e alimentos processados)
é mais baixa na Índia do que na África sub-Saarina, a qual
por longo tempo foi considerada o caso clássico de
privação alimentar. Mas o governo da Índia tem estado a
exportar vastas quantidades de cereais ao invés de alimentar a
população local. Se as necessidades alimentares do
"merecedores" (isto é, aqueles que possuem cartões BPL,
por definição) forem plenamente cumpridas, enquanto os
"não merecedores" satisfazem suas necessidades alimentares de
qualquer modo (razão pela qual se tornam oficialmente "não
merecedores"), então por que deveria a absorção
per capita
de cereais na Índia cair abaixo até da região do mundo
mais devastada pela fome? E uma vez que caiu abaixo, por que o governo
não faz alguma coisa para melhorar a situação?
A resposta típica seria que qualquer tentativa de melhorar a
situação aumentaria o défice orçamental e portanto
atiçaria inflação. E por que deveria ser considerada
má a inflação? Porque, seria a resposta, afecta os pobres
negativamente, isto é, acentua a pobreza. Uma vez que a pobreza ainda
é definida oficialmente na Índia em relação
à magnitude da fome, esta lógica implica necessariamente afirmar
que uma expansão do PDS agravaria a fome e a sua recíproca de que
para aliviar a fome deve haver uma redução do PDS, a qual
é a posição que atribuo aos devotos das
"finanças sãs".
ABSURDO ÓBVIO
O absurdo deste argumento é óbvio. Quando cereais são
adquiridos, é injectado poder de compra na economia. Quando são
vendidos, não importa a que preço, este poder de compra é,
no mínimo, parcialmente retirado da economia e
portanto não pode possivelmente ter quaisquer consequências
inflacionárias.
Assim, descartar stocks alimentares através do PDS não pode ser
inflacionário
não importando qual o seu efeito sobre a dimensão do
défice orçamental.
Naturalmente, pode-se sugerir que mesmo que isto seja verdadeiro num
período particular, quando a aquisição já ocorreu e
o poder de compra já foi injectado na economia, uma
repetição disto ao longo de uma sequência de
períodos manter-se-ia a acrescentar poder de compra à economia ao
longo do tempo através de uma sequência de maiores
subsídios alimentares e portanto seria inflacionário e
este efeito inflacionário seria reforçado na medida em que a
obrigação do governo com juros, por causa da maior dívida
provocada pelo maior défice orçamental, também continua a
aumentar.
Mas se o pagamento de juros fosse a preocupação, o governo podia
facilmente tomar emprestada a quantia requerida para o subsídio
alimentar junto ao Reserve Bank of India a taxas de juro ínfimas, ao
contrário das comerciais. E quanto ao efeito dos défices
orçamentais
per se,
de qualquer forma há pouco receio de inflação numa
economia constrangida pela procura. E se o governo ainda não está
persuadido por estes argumentos, ele podia levantar a quantia necessária
para o subsídio alimentar através de tributação
adicional, caso em que mesmo os mais endurecidos neoliberais não
poderiam ter qualquer receio de consequências inflacionárias.
A terceira proposição diz que para aumentar o emprego na economia
deve-se reduzir os esquemas de geração de emprego do governo. O
argumento mais uma vez decorre como se segue: os esquemas de
geração de emprego do governo ampliam o défice
orçamental o qual mantém baixo o "estado de
confiança" dos "investidores". Se estes esquemas fossem
reduzidos, e o défice orçamental reduzido, então haveria
maior investimento por parte dos capitalistas os quais criariam mais empregos
na economia. Portanto os esquemas de geração de emprego do
governo mantêm baixa a criação de postos de trabalho e
deveriam ser repelidos, razão pela qual o governo Modi, sempre
subserviente aos ditames do capital financeiro internacional, ultimamente tem
estado a cuidar do Mahatma Gandhi National Rural Employment Guarantee Scheme.
O absurdo deste argumento já foi discutido no contexto da primeira
proposição acima e não precisa ser elaborado: capitalistas
investem em função do aumento expectável da procura e uma
redução da despesa governamental, mesmo na geração
de emprego, não pode levar a um maior investimento e com base nisso a
maior criação de postos de trabalho.
John Maynard Keynes, embora uma vítima do "fetichismo da
mercadoria" no sentido descrito por Marx, isto é, utilizando a
linguagem dos "factores de produção" ao invés
das relações sociais subjacentes, esteve livre do obscurecimento
adicional que o ilusionismo da finança introduz numa economia
capitalista. As posições acima não surpreendentemente
teriam despertado a ira mesmo de Keynes.
O que é notável no mundo contemporâneo, incluindo a
Índia, é a prevalência de noções absurdas que
implicam uma inversão da razão, de que as três
proposições acima mencionadas são
ilustrações. Isto natural é indicativo dos esforços
assíduos do capital financeiro, através da propaganda nos media e
da mercantilização e destruição da
educação, para hegemonizar o pensamento. A luta contra a sua
hegemonia social requer acima de tudo uma luta contra esta hegemonia
intelectual.
22/Novembro/2015
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2015/1122_pd/inversion-reason
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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