por Miguel Urbano Rodrigues
O choque caraquenho!
Tinha lido e ouvido muita coisa sobre ele. Senti agora, em Março, a sua
martelada.
Desde as Revoluções Russas do Ano 17 país algum foi como a
Venezuela palco de uma tão intensa luta de classes.
Acompanhei nas ultimas décadas muitos processos revolucionários.
A vida proporcionou-me a oportunidade de conhecer o Chile da Unidade Popular e
de participar na Revolução Portuguesa.
Na Venezuela a luta de classes apresenta hoje características que fazem
do pais um laboratório social não apenas para a América
Latina, mas para toda a humanidade.
A opção de Hugo Chavez não é inédita. A
tentativa de transformar radicalmente a sociedade utilizando as
instituições criadas pela burguesia para servir os seus
objectivos tem sido ensaiada sem êxito em diferentes países. No
Chile desembocou num golpe militar e num banho de sangue. No Brasil o
projecto, desviado do rumo desde o inicio, está assumindo facetas
caricaturais.
A Revolução Bolivariana apresenta entretanto peculiaridades que
a diferenciam de outras experiências reformadoras que optaram pela via
institucional, dita pacifica. Entre elas chamam a atenção:
1. O controle quase hegemónico dos meios de comunicação
social pela direita.
2. A inexistência de um forte partido político
revolucionário na condução do processo.
3. Forças Armadas identificadas a todos os níveis com o projecto
bolivariano.
4. A combatividade da classe operaria, dos camponeses e dos excluídos
aumentou muito ao longo do processo. Por duas vezes a
participação torrencial das massas populares em defesa da
Revolução funcionou como elemento fundamental na derrota da
direita golpista.
5. A importância decisiva do factor subjectivo a liderança
do Presidente Hugo Chavez no processo.
UMA CIDADE DE PESADELO
Não sei como os venezuelanos vêem Caracas. Eu identifico nela a
capital mais feia e desumanizada da América Latina.
No centro, se assim se lhe pode chamar, os arranha céus alternam com
prédios baixos, numa desordem que deixa transparecer a ausência de
qualquer plano urbanístico. Avenidas onde se circula a grande
velocidade afundam-se junto a gigantescos blocos residenciais em cujo ventre
correm galerias semeadas de lojas de todo o tipo. Os desníveis, os
viadutos, as escadarias, as faixas laterais que acompanham as vias
rápidas formam um emaranhado alucinatório, cinzento, triste. Os
ambulantes, nas grandes avenidas comerciais, nas praças, nos jardins,
à porta de bancos e ministérios são milhares, numa
corrente sinuosa. Sentados em frente das suas bancas, quietos, mudos,
não incomodam. Mas a presença desde formigueiro humano de
vendedores misérrimos sufoca pela densidade.
A violência atinge níveis comparáveis aos de Bogotá
e São Paulo. Nos fins de semana, a media de assassínios supera
com frequência as duas dezenas.
Centros Comerciais sumptuários, como o Sanbil, são uma afronta a
milhões de párias.
Do antigo casco histórico restam a chamada Casa de Bolívar e
alguns edifícios térreos, inexpressivos. Um vendaval de
selvajaria destruiu ali a arquitectura colonial. Enquanto Havana, o
México, Lima, Quito, Bogotá preservaram a herança do
passado, os governos oligárquicos da Venezuela arrasaram aquilo que em
Caracas havia sobrado dos terremotos.
Mais de um milhão de carros corre hoje pelas ruas da cidade. A gasolina
é tão barata que com o equivalente a dois dólares
enche-se o tanque.
Dos cinco milhões de caraquenhos mais de três vivem em pequenos
ranchos encastelados em morros que rodeiam a cidade. A rede viária
não penetra nesses lugares. Para chegarem a suas casas, os moradores
têm de galgar longas escadarias abertas na terra das encostas. As
favelas do Rio, as Villas Miséria de Buenos Aires, as Callampas de
Santiago fazem figura de bairros de luxo ao lado daqueles repulsivos amontoados
de casebres degradados. O salário mínimo, correspondente a menos
de 120 dólares, apenas permite a sobrevivência. E a taxa de
desemprego é elevadíssima.
Dizem-me que Caracas foi ha muitos anos uma cidade limpa. Hoje é uma
das capitais mais sujas do Continente. Mas não nos bairros da
burguesia. Ali, como em Nova York, a riqueza marca a fronteira da higiene.
Em Altamira, o bastião da classe dominante celebrizado pelas
manifestações da Plaza de Francia, grandes mansões e
belos edifícios exibem o outro rosto da Venezuela. Passei rapidamente
pelas áreas onde se concentra o
beautiful people.
Tentei imaginar aquela gente na atmosfera requintada em que vive, porque em
dias comuns não se mostra.
Aprendi no Chile a entender as metamorfoses da burguesia quando se sente
ameaçada. Em Portugal, durante a Revolução de Abril,
aprofundei a compreensão desse processo. O medo de uma sociedade
diferente e humanizada incompatível com os privilégios de que
goza, desenvolve nela mecanismos que de defensivos logo se tornam ofensivos.
Um ódio feroz, quase irracional, cresce na classe dominante e em
sectores sociais médios por ela arrastados, contra aqueles a
maioria do povo que exigem a mudança. O discurso paternalista
sobre a justiça social cede o lugar a um discurso farisaico de defesa da
ordem e da propriedade, apresentados como expressão de valores eternos.
Deus, com o aval da hierarquia católica, é também
invocado. E obviamente toda essa gente proclama lutar pela democracia e a
liberdade.
Na Venezuela ocorreram situações inesperadas. A burguesia
não pode usar como desejaria a Constituição vigente como
instrumento de travagem da revolução porque ela, plebiscitada
pelo povo, é democrática, embora marcada por ingenuidades.
Não pode também utilizar o Exército como instrumento
repressivo, porque ele, sobretudo após a derrota do golpe de Abril de
2002, está com o povo. A Revolução Bolivariana constitui
uma excepção na América do Sul: não é uma
Revolução desarmada, o que desespera os detentores do poder
económico e o imperialismo.
UMA COMUNICAÇÃO SOCIAL FANÁTICA
Em mais de meio século correndo pelo mundo não encontrei uma
comunicação social que me inspirasse um sentimento de
repugnância tão forte como a da Venezuela. Nem no Chile de
Pinochet, no Portugal de Salazar, na Espanha de Franco, no Brasil da ditadura
dos generais o nível de perversidade, de agressividade, de fanatismo,
de descontrole emocional atingiram os índices identificareis na
Venezuela actual. Uma direita que cultiva o fascismo quimicamente puro sem
sequer disso se aperceber ultrapassou todos os limites na sua campanha de
guerra total à Revolução bolivariana.
Com excepção de um canal de televisão, o 8, de alguns
jornais de pequena tiragem, e uma ou outra radio a imprensa escrita e
os audiovisuais formam um poder contra revolucionário praticamente sem
precedentes.
Após a derrota do golpe de Abril de 2002, o poder mediático
recuou por algumas semanas. Temia as consequências da sua adesão
à intentona fascista. Mas como o governo não tomou medidas para
o responsabilizar logo retomou o estilo e a linguagem fundamentalistas. A
cumplicidade e a simpatia de parte do Poder Judicial trazem-lhe a certeza da
impunidade.
As manchetes são o espelho de uma situação
inimaginável em qualquer pais europeu.
Recordo um titulo a toda a largura da primeira pagina de um diário:
«Chavez ficou louco!».
Qualificar o Executivo de governo de «bandoleiros, delinquentes e
assassinos» é atitude de rotina.
A inversão da realidade faz parte do quotidiano. A
oposição acusa o governo de acções criminosas
que são por ela concebidas e executadas.
Pela sua prolongada duração, essa ofensiva mediática
permanente, criou, pelo menos em Caracas, uma atmosfera que produz no
forasteiro a impressão de se encontrar noutro planeta. A calunia, a
injúria pessoal, a acusação gratuita, a
invenção do inexistente, o apelo à desordem, a
deturpação do pensamento dos heróis do passado surgem
como temperos do caldo contra-revolucionário. A direita nem sequer
aceita que Chavez se dirija ao País. Identifica no Programa semanal
«Alô Presidente» um abuso chocante da liberdade de
expressão...
As tácticas são reformuladas de acordo com as exigências
do momento. O objectivo estratégico permanece: derrubar Hugo Chavez,
custe o que custar. Com a ajuda de Washington, obviamente.
O REFERENDO CAIU NUM PÂNTANO
O folhetim do referendo revogatório parecia ter chegado ao fim quando
uma manobra da chamada Coordenadora Democrática permitiu o seu
recomeço. O Conselho Nacional eleitoral (CNE) havia declarado a 2 de
Março que as listas ditas
planas,
por conterem 816 mil nomes escritos com a mesma caligrafia, eram irregulares.
Conclusão: faltavam portanto 619 000 para o quorum mínimo de 2
452 000 exigido pela lei para viabilização da consulta em que o
povo se pronunciaria sobre a eventual revogação do mandato de
Chavez exigida pela oposição. Segundo a lei, esses 619 000
eleitores teriam de confirmar em mesas distribuídas por todo o pais que
tinham efectivamente assinado.
Inesperadamente, a Sala Eleitoral do Supremo Tribunal de Justiça
(convocada em condições anormais) lavrou sentença,
atendendo recurso da oposição, considerando validas todas as
listas
planas.
Ficava assim aberta a porta ao referendo.
O governo reagiu apresentando recurso para a Sala Constitucional e esta
considerou da sua exclusiva competência a decisão sobre as listas
contestadas, acusando a Sala Eleitoral de invadir área fora da sua
jurisdição. A sentença que favorecia a
oposição foi anulada.
Caberá agora ao plenário do Supremo Tribunal de Justiça
emitir acórdão sobre o conflito de competências.
A questão caiu num terreno pantanoso, porque dos 20 conselheiros 10
são considerados afectos à oposição e não
existe voto de Minerva, na previsão de empate.
Entretanto, gerada a barrela, a Coordenadora desencadeou uma ofensiva
desestabilizadora global, recorrendo ao sistema mediático.
O conflito ilumina uma vez mais a efervescente luta de classes.
A oposição, muito dividida após a derrota do
lock out
petrolífero de Dezembro de 2002, que quase paralisou o país
durante semanas, tenta refazer a sua unidade
[1]
.
A nova táctica visa a promover a desestabilização
generalizada da sociedade venezuelana de modo a abrir portas à
intervenção de organismos internacionais nos assuntos internos
do país, desde a OEA à ONU, passando pelo Centro Carter.
O berreiro levantado em torno da questão do contencioso sobre as listas
pro-referendo coincide com um novo discurso político. A
oposição acusa o governo de violar as normas democráticas
e as liberdades constitucionais. Os incidentes de Fevereiro, quando
manifestações violentas e ilegais forçaram a Guarda
Nacional a intervir, são utilizados numa campanha difamatória.
Procura-se como afirmou a Comissão Política do Partido
Comunista da Venezuela em 8 de Março «criar e manter um
clima de tensão e situações virtuais de crise que,
simultaneamente se combinem com mortes provocadas em choques de ruas e
acções directas (assassínios selectivos por meio de
sicários, tanto de revolucionários como de pessoas das suas
próprias filas) que propiciem um 'clima mediático' de
desestabilização que favoreça a política agressiva
e de ingerência do imperialismo contra a nação
venezuelana».
A Sociedade Interamericana de Imprensa (na realidade a
associação dos proprietários de grandes jornais, conhecida
pelas suas ligações com a CIA) aproveitou a oportunidade para
acusar, em comunicado especial, o Governo de Hugo Chavez de desrespeitar a
liberdade de imprensa e agredir e perseguir os jornalistas democráticos,
violando os direitos humanos.
A inversão da realidade assume facetas próprias de uma
peça de teatro de absurdo. A imprensa golpista é apresentada
como modelo de virtudes democráticas e vitima do seu amor pelas
liberdades.
Neste quadro de agressividade e confusão a Coordenadora repudiada
pelas grandes maiorias desenvolve um grande esforço para unificar
a oposição debilitada pelas sucessivas derrotas sofridas.
Três blocos disputam actualmente a direcção política
do movimento golpista: o dos radicais, o dos moderados e o dos oportunistas.
Neste panorama de lutas intestinas, com o sindicalista amarelo Carlos Ortega, e
o Carmona (o «presidente de um dia» do golpe de Abril)
desprestigiados pela fuga para o estrangeiro ,como foragidos da Justiça
a apodrecida Accion Democratica de Carlos Andres Perez tenta surgir
com o polo da Coordenadora. Mas num cenário pouco claro emerge
também como candidato a líder da direita Pompeyo Marquez, um
renegado da esquerda, que se apresenta como porta voz das classes
médias. O núcleo duro, que preconiza a
confrontação violenta, representa empresários da ultra
direita e militares reformados que participaram no golpe de Abril. O
bilionário Salas Romer e o neopopulista Enrique Mendoza afirmam aspirar
à Presidência, mas nem os amigos levam muito a serio as suas
ambições.
A QUESTÃO DO ESTADO
Nos breves dias que passei em Caracas tive a oportunidade ler um livro
Dialectica de una Victoria
[2]
que me impressionou muito. Entre os trabalhos que conhecia sobre o processo
venezuelano foi aquele que, pela qualidade e lucidez da análise, me
permitiu contemplar e sentir melhor o quadro contraditório,
patético, da Revolução bolivariana.
Falei com o autor, Rodolfo Sanz, um jovem dirigente do partido Pátria
para Todos.
Intelectual marxista e militante, o seu livro é um relato
histórico das duas conspirações
contra-revolucionárias e, simultaneamente, uma reflexão, com
estrutura de ensaio, sobre o grande desafio assumido pela
Revolução Bolivariana.
Diferentemente de outros compatriotas seus, Sanz não evita a abordagem
das debilidades do processo. Não é um epígono de Chavez.
Admira-o e respeita-o; tem consciência do peso decisivo da
intervenção pessoal do presidente no rumo da
Revolução. Mas, participante ele também, aprendeu no
transcorrer destes anos de batalha que para se defender o projecto com
êxito é indispensável identificar e debater erros e
fragilidades na sua condução. Como esquecer que 150 generais e
almirantes participaram no fracassado golpe de Estado?
A derrota da segunda tentativa golpista a petroleira empurrou-o
para uma reflexão profunda sobre a natureza do Estado venezuelano,
marcada por um feixe de contradições.
Sanz desce ao cerne do problema ao formular perguntas necessárias cuja
respostas condicionam o futuro próximo:
«É possível consolidar a longo prazo o processo
revolucionário com a actual estrutura do Estado? Este é um
verdadeiro Estado Revolucionário?
Se o não é Estamos construindo o outro Estado e
são os núcleos sociais criados nestes anos de
Revolução os embriões de um novo Estado?»
Essas perguntas candentes iluminam bem o cenário. Porque o problema
crucial de todas as Revoluções é o problema do Estado,
«da máquina estatal, dos seus órgãos de
justiça, dos seus órgãos económicos, do seu
aparelho de educação».
Sanz apercebe-se de que o projecto bolivariano, a médio prazo,
não poderá avançar se não desmontar totalmente a
velha estrutura do Estado herdada dos governo da burguesia.
Sendo importantíssimas, as mudanças introduzidas são
nitidamente insuficientes para destruir as estruturas do velho Estado,
incluindo as do Poder Judicial, entre outras as engrenagens viciadas dos
Ministérios da Saúde e da Educação.
O Poder Económico da burguesia está praticamente intacto. As
leis Habilitantes sobre o petróleo, a terra e as pescas
apenas o arranharam, embora privando a direita do controle de mecanismos de
poder fundamentais. Mas na Venezuela não houve empresas estatizadas.
A propriedade privada permaneceu intocável.
O rescaldo das conspirações golpistas demonstrou com clareza que
os seus promotores podiam utilizar os Tribunais, o Ministério publico e,
em certa medida, uma Constituição progressista mas insuficiente
contra a Revolução, paralisando ou detendo o seu avanço.
Ficou transparente que, na caminhada áspera da via institucional,
semeada de alçapões invisíveis, uma nova Assembleia
Nacional Constituinte se tornou imprescindível à
superação de montanhas de desafios.
O facto de o governo contar hoje no Parlamento somente com uma maioria de
quatro deputados é, por si só, esclarecedor do efeito que a luta
de classes produziu sobre personalidades que se distanciaram do projecto
bolivariano depois de o terem apoiado, alguns com aparente entusiasmo.
Toda a revolução contem desde o inicio sementes da
contra-revolução que nela germinam com o tempo. A Venezuelana
não constitui excepção.
Pelo caminho ficou muita gente militares e civis cuja
posição actual é não apenas diferente, mas
antagónica da assumida anos atrás. Na oposição
vemos hoje homens que foram antigos companheiros de Chavez, desde comandantes
da rebelião de 4 de Fevereiro de 92, como Francisco Árias e
Jesus Urdaneta, a políticos como Miquilena, o veterano dirigente que
durante décadas foi de algum modo o símbolo da esquerda
democrática e progressista, a aventureiros ambiciosos como o alcaide
Peña, de Caracas, e Pablo Medina, o ex-dirigente de Pátria para
Todos. Partidos como a CausaR que desfraldaram bandeiras da esquerda
situam-se hoje nos quadrantes da direita. O MAS, ex-marxista, alimenta a
conspiração.
Seria também uma ilusão identificar nas Forças Armadas
um todo homogéneo. O apoio da grande maioria do Exército ao
Presidente, aos ideais bolivarianos e ao projecto de
transformação social, não impede que persistam em
sectores do corpo de oficiais arraigados preconceitos anticomunistas. Eles se
manifestam, por exemplo, numa atitude muito critica perante a insurgência
colombiana. O Presidente está consciente da complexidade desses
sentimentos e do perigo potencial que eles representam. Mas em algumas
áreas da fronteira destacamentos do Exército venezuelano
têm desenvolvido acções hostis contra combatentes das FARC
que entraram no pais apenas para adquirir alimentos, roupas e outros
produtos.
Uma certeza: a Revolução, no seu caminhar difícil,
acossada permanentemente, tem sido uma forja de quadros. Eram muito escassos
no inicio. A ausência de um partido revolucionário com forte
implantação entre as massas e a traição de antigos
companheiros de Chavez está na origem de muitos dos erros cometidos.
Ocorreu então algo que tem acontecido em situações
similares. Na dialéctica do processo, surgiu uma geração
de jovens identificada com o sonho bolivariano. Emergiu da própria luta
de classes; a Revolução, para sobreviver, era obrigada a
defender-se no dia a dia em choques decisivos contra inimigos experientes.
Os novos dirigentes formaram-se nos movimentos, em pequenos partidos, nos
sindicatos, nas escolas, nos combates de rua contra a reacção.
Conheci alguns que há quatro anos no inicio do processo deixavam
transparecer ainda muita ingenuidade. Ao reve-los agora verifiquei que se
transformaram. Despojaram-se do romantismo humanista; a história fez
deles dirigentes revolucionários.
Regresso optimista da Venezuela. Os desafios que o projecto bolivariano
enfrenta são enormes, e as insuficiências das forças que
o defendem transparentes e de difícil superação. O
imperialismo fará tudo o que estiver ao seu alcance para incentivar
novas conspirações golpistas. Inviabilizar o avanço da
Revolução é para ele um objectivo estratégico
prioritário na América Latina.
As incógnitas são muitas. E, contudo, confio. O meu optimismo
prudente nasce sobretudo da confiança que me inspira a disponibilidade
estimulante da grande massa dos trabalhadores explorados para defender o
processo. A vontade e a firmeza de Hugo Chavez e a lealdade da maioria do
corpo de oficiais ao compromisso com o líder não teriam podido
deter a ofensiva da direita fascista e do imperialismo se o povo da Venezuela
não tivesse assumido o seu papel como sujeito da Revolução.
Prever o desenvolvimento imediato da história na pátria de
Bolívar seria, entretanto, uma atitude pouco responsável,
tão complexos e contraditórios são os factores que o
vão condicionar.
________
Notas
1- Noutro artigo tentarei iluminar os mecanismos sombrios da engrenagem
conspirativa da segunda intentona golpista cujo eixo foi a
paralisação da industria petrolífera. Para que os
leitores portugueses e brasileiros possam dispor de mais elementos para a
compreensão do que está a passar-se nestas semanas na Venezuela
afigura-se-me útil aprofundar a informação sobre a
perversidade incomum que caracterizou a estratégia contra
revolucionaria concebida para derrubar Chavez, após a derrota do golpe
de Abril. O entendimento do presente, neste caso como noutros, torna
indispensável o conhecimento do passado recente.
2- Rodolfo Sanz,
Dialéctica de una Victória,
376 pgs, Editorial «Nuevo Pensamiento Critico», Caracas, 2ª
edição, Outubro de 2003.
Havana, 28 de Março de 2004
O original encontra-se no semanário
Avante!
, edição de 01/Abr/04.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.