Apesar de decorridos anos desde que esta intervenção foi apresentada no I
Congresso de Jornalistas Portugueses, resistir.info considera que as ideias
expostas mantêm-se actuais. Assim, tem interesse a sua
republicação agora, pois no dia 20 de Agosto às 9 horas o autor fará a palestra
inaugural do
"Núcleo de Estudos de Jornalismo Perseu Abramo"
, do Departamento de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo
(PUC-SP).
Por outro lado, está prevista para 19 de Agosto às 14 horas palestra do
autor sobre temas internacionais no
Sindicato dos Professores do Estado de S. Paulo (SINPRO-SP)
.
Sobre o editorial
por Miguel Urbano Rodrigues
[*]
Estamos aqui para falar do jornalismo de opinião.
O tema aparece-me intimamente ligado a uma questão fundamental: a que
diz respeito aos fins do jornalismo.
Por ser a mais jovem das ciências sociais, o jornalismo conhece-se mal a
si mesmo. As leis resultantes de uma Teoria Geral do Jornalismo estão
ainda por formular.
Tornou-se já um lugar comum a afirmação de que o
jornalismo não pode ser isolado do meio social em que se desenvolve.
Assim, obviamente, ele terá de ser diferente em Portugal do que é
no Chile ou na Tailândia. Mas não é apenas a realidade
envolvente que marca os vários tipos de jornalismo existentes. O
jornalismo, nas suas muitas formas concretas, apresenta-se estreitamente
vinculado a concepções políticas e sociais. Seja ele
informativo ou opinativo, o jornalismo não pode ser uma actividade
abstracta. Numa sociedade de classes está sempre, de maneira mais ou
menos perceptível, ligado a uma determinada classe social, cujos
interesses procura exprimir e defender. Parece-me útil, portanto,
recordar que Portugal é hoje na Europa, a sociedade onde a luta de
classes assume maior intensidade.
A objectividade absoluta, tão enaltecida como virtude em determinados
manuais de jornalismo, é um mito. Sendo o jornalismo um espelho da vida,
não há neutralidade possível perante os factos da vida, o
seu fluir, a sua essência.
A resposta às questões inerentes aos objectivos e técnicas
do jornalismo de opinião implica, pois, para mim, uma
definição prévia clara. Não há jornalismo
neutro. A própria opção profissional gera o
comprometimento perante a sociedade. Sem compromisso o que não
significa escolha partidária o objectivo e a essência do
jornalismo não existiriam.
***
Um colóquio como o que nos reúne aqui coloca uma tal
multiplicidade de questões que a simples escolha dos sub-temas traduz
critérios valorativos complexos.
Que aspectos privilegiar num debate breve sobre o assunto Editorial?
Costuma-se dizer que o editorial deve exprimir a opinião do jornal. A
definição parece-me frouxa e imprecisa.
Um jornal deve ser um corpo vivo. Não funciona como computador. Se
cumpre a sua função social, os leitores identificam-se com ele
como se fora um ser humano. Tal como o concebo, o jornal sente, pensa, actua,
analisa, sorri e sofre como ser colectivo.
Uma das coisas belas no trabalho dos profissionais da imprensa é a
consciência permanente de que, num jornal comprometido com o povo,
aqueles que o produzem têm da ponte invisível que os liga à
massa dos leitores.
Daí uma opção primeira quanto ao editorial. Esse texto
deve ser a palavra, o pensamento, o sentir do jornal e não a
opinião pessoal de fulano ou beltrano. É mau que um homem ou uma
mulher pretendam confundir-se com um jornal e possam fazer da sua
opinião a opinião do órgão de
informação em causa. O ideal, a meu ver, é um estilo
editorial com tais características que o leitor ligue o texto à
personalidade do jornal, que sinta nele o pulsar do sangue e das ideias do seu
jornal.
Sendo de execução individual, o editorial aparece-me como
resultante de uma ideia colectiva, de uma atmosfera, de uma síntese
harmoniosa de estilos e pessoas diferenciadas sem os quais não existiria
aquele corpo vivo autónomo, vocacionado para falar com o leitor e
inspirar-lhe confiança.
O óptimo, numa redacção, é que haja pelo menos meia
dúzia de jornalistas que escrevam, quando necessário, o
editorial, assumindo a sua personalidade própria de tal maneira que o
leitor não se aperceba de que muitas mãos diferentes o podem
redigir na mesma semana.
Do que acabo de dizer conclui-se que rejeito como aberração
jornalística o editorial assinado pelo director do jornal. Tal
prática ofende a ética profissional e as redacções
que do abuso são vítimas. É natural, e até
útil, que o director, se não for um burocrata, escreva, que
assine os seus artigos. Mas tais textos são dele, comprometem-no
pessoalmente, não devem confundir-se com a opinião do jornal que
dirige, não devem substitui-la.
A aberração, todos dela temos conhecimento, existe em Portugal.
Tornou-se mesmo rotina em jornais estatizados. Num deles, o director, que foi
deputado e dirigente de um partido do Governo, exerce o monopólio da
opinião. O editorial é a sua pessoa, com ela se fundindo.
Situações como essa prostituem o jornalismo de opinião.
***
À partida, uma escolha marca logo a imagem editorial. Há jornais
refiro-me evidentemente à imprensa diária que
publicam matéria editorial em todas as edições e outros
que somente o fazem excepcionalmente. Há jornais que publicam
vários editoriais numa página consagrada à opinião
e outros que publicam apenas um editorial, mas inserem noutras páginas
textos de opinião que são também pequenos editoriais.
A opção que determina as diferentes fisionomias editoriais
está ligada ao espírito do jornal ou, mais exactamente,
àquilo que ele pretende ser e ao tipo de relação que
ambiciona manter com os leitores.
Há jornais que se querem distanciados editorialmente do seu
próprio público; outros que desejam que público assuma uma
postura de participação, mais profunda do que a de simples
identificação.
Pessoalmente, penso que a personalidade editorial resulta de uma soma de
componentes unidas por fios de interdependência: as opções
temáticas, a unidade de estilo e linguagem, a coerência
ideológica, a mundividência da história e da aventura
cultural, a firmeza na sustentação das posições
defendidas, a capacidade autocrítica, o rigor informativo, a
sensibilidade para a captação do essencial, e sobretudo a solidez
da ponte que liga o editorial ao jornal de que é parte.
O editorial deve, creio, exprimir, na medida do possível, o sentido mais
profundos das tensões e fenómenos que assinalam no quotidiano ou
no fluir não transparente da História, aquilo que é
determinante para a transformação da vida.
Tal escolha não obriga a que o editorial seja um texto pesado. O
jornalismo de opinião, particularmente quando é o jornal quem
opina, somente cumpre a sua função quando consegue revelar ao
leitor o lado menos visível dos factos sociais, quando lhe oferece, sem
arrogância, a chave para o entendimento de situações, de
atitudes, de palavras, de mudanças, de perigos, de crises, de rupturas,
enfim de tudo o que é ou pode ser fundamental na montanha de
notícias que diariamente nasce da marcha de cada País e do Mundo.
Dois aspectos devem, creio, merecer atenção especial na
selecção dos temas: em primeiro lugar, uma correcta
avaliação da importância do assunto. Nunca entendi a
política editorial de jornais que durante o mês percorrem,
saltitantes trinta temas editoriais.
Se o acontecimento tratado é socialmente significante raramente se
esgota num só comentário jornalístico. A insistência
editorial, quando forçada e sensacionalista, fatiga o leitor e
desprestigia o jornal. Mas sempre que os factos a justificam, prende o leitor,
confere ao jornal aquela imagem de ser vivo e coerente de que falei há
pouco. Abre-se, então, a ponte que liga o editorial ao corpo do seu
jornal. Penso que é indispensável uma interacção, a
enfeixar num todo a manchete, o editorial, a reportagem, a notícia, o
artigo assinado, a pequena nota.
Um facto que irrompe numa notícia pode percorrer em poucos dias todo o
sistema circulatório do jornal. Os órgãos de
informação que esquecem ou subestimam as suas manchetes e os
temas que comentam, desvalorizam perante o leitor a sua própria,
reduzem-lhe a credibilidade.
Concebido como totalidade, um jornal diário é um complexo sistema
de vasos comunicantes no qual o editorial desempenha uma função
insubstituível.
Outro aspecto que me parece útil aflorar é o que se refere
à diversidade na unidade. Mesmo num jornal muito voltado para as
questões consideradas no domínio da política, o editorial
tornar-se-ia enfadonho se incidisse exclusivamente sobre os temas da
actualidade política. É verdade que em Portugal, hoje quase tudo,
no movimento da vida, apresenta um significado político, uma marca
ideológica. Mas, apesar disso, julgo ser vantajosa a abertura do leque
editorial. Tudo aquilo que preocupa o corpo social e se torna para ele assunto
de reflexão e debate, constitui, em princípio, tema para
tratamento editorial. Um filme, um livro, uma aldeia como personagem, um
acontecimento local, uma efeméride pouco lembrada, uma palavra
pronunciada nas antípodas podem ser bons temas editoriais.
A diversificação e o salto das fronteiras facilitam a passagem do
particular ao geral, a compreensão do que é nosso e do que
é universal. Integram mais o leitor no seu jornal.
Acredito também que é positivo alternar os textos editoriais mais
densos e menos atractivos com os textos em que a crítica social nasce do
humor.
É de todo esse caldeirão que deve resultar a personalidade
humanizada de um jornal e a clareza da sua linha.
Uma questão muito discutida é a da personalização
da crítica. Como os homens são sujeito da História,
tornam-se também objecto da crítica. Mas o que interessa a um
jornalismo responsável são os actos, tudo o que envolva a
participação social e não a pessoa, a sua vida privada.
Quando o indivíduo, como tal, e o seu quotidiano mais íntimo
aparecem transformados em pólo de matérias editoriais, o
jornalismo degrada-se, desce ao nível do colunismo mundano que se
alimenta de fofocas.
A fome de actualidade, de coisas sempre novas que suscitem tensões e
debates, leva alguns editorialistas a erigir o que na política é
acessório em motor da política. Aquilo que é determinante
- o comportamento das forças e classes sociais e a sua
relação dialéctica com a estratégia do Poder e a
evolução da conjuntura económica - é então
relegado a plano secundário. As intrigas da pequena política e as
declarações dos pequenos políticos são impostos ao
público nas matérias de opinião como se dessa
buliçosa e leviana movimentação e desse palavreado
espumejante viesse a depender o rumo da situação geral.
O chamado jornalismo especulativo é inseparável dessas
tendências. O editorial (e não só) com base em
hipóteses e cenários fantasistas passou a ser coisa rotineira em
Portugal.
Pessoalmente, sempre recusei esse tipo de jornalismo. Nele, a
especulação futurológica toma o lugar da notícia
alicerçada em factos. Todo o processo de análise é
conscientemente viciado. A fixação do interesse é muitas
vezes obtida. O público reage, discute o assunto. Mas a análise
especulativa tem vida curta. E faz perder a credibilidade.
Editoriais que, pelo seu conteúdo sensacionalista, provocaram
tempestades políticas e foram transformados em temas nacionais pela
televisão e pela rádio, perdem todo o fascínio lidos um
mês depois, quando se percebe que tudo neles carecia de pontes com a
realidade social, configurando um processo de intervenção
artificial e não ético na conjuntura e na modelagem da
opinião pública.
Sempre fui profissionalmente um defensor do editorial com base em
situações, atitudes e factos comprovados. Rejeito a moda dos
cenários.
***
Julgo apropriada uma referência ao peso, esmagador, que a opinião
importada tem hoje em Portugal nas colunas editoriais. Seria um bom tema para
outro colóquio.
A rapidez da transmissão produz efeitos imediatos. Muitos editoriais
são o desdobramento, relativamente aos mais diferentes temas, e por
vezes em péssimos cozinhados, de artigos publicados nos grandes
órgãos da imprensa americana, britânica, francesa ou
alemã ocidental.
Alguns assuntos ganham uma presença obsidiante e o tratamento que lhes
é dado deixa transparecer uma notória falta de originalidade e
mesmo de técnica.
E já que falo de técnica, uma referência final para a
linguagem. A clareza é condição indispensável para
que o editorial atinja o seu objectivo. Cada editorialista tem, evidentemente,
um estilo próprio, no tocante à forma.
A minha experiência pessoal como jornalista, em Portugal, no Brasil e em
países de idioma castelhano, leva-me, contudo, a concluir que existe uma
relação directa entre a eficácia do editorial e a
utilização do período curto, que confere mais força
ao conteúdo e reduz distâncias, facilitando a
comunicação entre o jornal, ser vivo (quando o é) e o
leitor.
Uma última palavra. O jornalismo de opinião, como o de
reportagem, implica, pela sua função social, uma exigência
de autenticidade, um sentido permanente de responsabilidade.
Sempre acreditei e continuo a acreditar que jornalistas de
formação ideológica muito diferente podem e devem
dialogar, com muito proveito, estabelecer laços de boa camaradagem e
arte de amizade. Mas existe um tipo de jornalismo subterrâneo, ancorado
no escândalo, na calúnia, na mentira, consciente, que constitui
insulto à profissão. Em Portugal está muito na moda.
Floresce. Penso que em colóquios como este podemos e devemos chegar a um
consenso para repudiar essa perigosa caricatura do jornalismo.
[*]
Intervenção apresentada na Conferência preparatória
do I Congresso de Jornalistas Portugueses. Publicada em "O
Diário" de 12/Dez/1982.
Este artigo encontra-se em
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