Imperialismo nu:
A busca norte-americana da hegemonia global

por John Bellamy Foster [*]

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Imperialismo nu: A busca norte-americana da hegemonia global , de John Bellamy Foster, foi publicado pela Monthly Review Press em Maio de 2006. Este trabalho consiste num conjunto de ensaios escritos entre Setembro de 2001 e Setembro de 2005, e aborda as origens do actual imperialismo indisfarçado, conduzido pelos Estados Unidos. Além de um comentário corrente acerca dos desenvolvimentos verificados durante este período, o livro apresenta uma crítica a esta nova fase do imperialismo, e a algumas das suas interpretações mais comuns. A MRZine conversou recentemente com John Bellamy Foster, editor de Monthly Review, acerca do seu livro.

P: O que quer dizer com Imperialismo nu, o título escolhido para o seu livro?

R: Houve muita discussão acerca do que é chamado de "novo imperialismo" – uma frase usada para se referir à fase do imperialismo verificado desde o 11 de Setembro. O termo Imperialismo nu, usado no título do meu livro, teve a intenção de captar o que é obviamente novo na actual agressão global. O imperialismo é inerente ao capitalismo e só varia na forma e na intensidade. O que é novo no período após o 11 de Setembro é o facto do império norte-americano e do imperialismo dos Estados Unidos serem promovidos de forma tão despida e exposta, do que alguma vez aconteceu desde guerra hispano-americana no final do século XIX. Em 2001, só uma década depois da queda da União Soviética, os Estados Unidos, a única superpotência restante, respondia aos ataques terroristas na sua pátria, com o lançamento de uma expansão imperial mundial. A vasta máquina de guerra norte-americana foi posta em movimento incessante, ostensivamente justificado pela denominada "guerra ao terrorismo", mas na realidade uma guerra sem limites territoriais. O império global norte-americano foi apresentado como a solução para os problemas de todo o mundo. As despesas militares norte-americanas depressa atingiram metade de todos os gastos militares mundiais. O "desenvolvimento em frente" de bases militares norte-americanas estava a dar-se em pontos estratégicos (áreas de vital interesse geopolítico para os Estados Unidos) por todo o lado. Os Estados Unidos tiveram as suas principais guerras no Afeganistão e no Iraque. Este empreendimento expansionista mundial foi fortemente justificado pelos media político, económico e militar -– que C. Wright Mills chamava a elite do poder -– em termos de império norte-americano. Esta foi uma grande mudança que precisa de ser explicada.

Os quatro factores mais importantes que estão por detrás deste ponto de viragem na história mundial foram a queda da União Soviética, a estagnação da economia norte-americana e mundial, um declínio percebido da hegemonia norte-americana, e as preocupações acerca do controlo dos recursos globais, particularmente do petróleo. Todos estes factores estabeleceram o surgimento de um imperialismo nu – apontou-se na direcção do domínio global.

P: O slogan mais famoso do movimento pacifista durante a guerra foi "No Blood for Oil" (Sangue por petróleo não), e esta visão da invasão norte-americana do Iraque foi amplamente aceite por todo mundo. Os media norte-americanos comprometidos neste empreendimento tiveram muita dificuldade em contrariar este ponto de vista, e mesmo alguns comentaristas norte-americanos progressistas chegaram ao ponto de ridicularizar esta visão como "simplista" ou pior ainda. Esta é uma questão que aborda em "Imperialismo nu" . A "guerra por petróleo" parece realmente ter tocado num nervo, mas será realmente tão central esta explicação? Porque acha que foi tão amplamente aceite e tão fortemente atacado?

R: É claro que as geopolíticas do petróleo mudaram, e este é um ponto abordado em Imperialismo nu. No capítulo "Ambições imperiais norte-americanas e Iraque" há um gráfico de barras sobreposto a um mapa mundial mostrando até que ponto as reservas de petróleo mundiais estão concentradas no Médio Oriente . Hoje existe muita discussão acerca de o mundo ter atingido ou mesmo ultrapassado o pico da produção de petróleo (peak oil). Na realidade, ninguém tem a resposta; ainda há muita coisa desconhecida, sendo no entanto muito plausível a hipótese do pico da produção de petróleo. O que sabemos com segurança é aquilo a que a indústria petrolífera chama de rácios reserva/produção (ou simplesmente rácios r/p), que nos dá o número de anos prováveis antes das reservas estarem esgotadas nos diferentes países produtores de petróleo, tendo em conta os actuais níveis de produção. Isto diz-nos que, por cada ano transcorrido, uma maior percentagem das reservas mundiais estará localizada no Médio Oriente, já que a relação entre as reservas e a produção é ali mais elevada. É então óbvio que o controlo das reservas do Médio Oriente se tornará mais crítico por cada ano que passa, se se pretender garantir o fornecimento de petróleo mundial.

Os Estados Unidos há muito que definiram como de interesse vital estratégico, a segurança das reservas mundiais de petróleo, o que se traduz no final das contas na influência norte-americana sobre a produção e a venda destas reservas, para não mencionar os lucros que derivam deste negócio. Toda uma série de doutrinas de política externa -– a doutrina Eisenhower de há 50 anos atrás, a doutrina Carter, a doutrina Bush -– foi implementada principalmente no Médio Oriente, e culmina com a extensão da doutrina Monroe (que reivindicou a hegemonia norte-americana nas Américas) para o Médio Oriente. Uma das razões dadas pela administração para iniciar a guerra no Iraque, foi impedir Saddam Hussein de ter um "poder de estrangulamento" sobre o petróleo mundial. Este teria sido talvez o argumento por eles apresentado que mais se aproximou de uma razão honesta.

Para além do grande tema geopolítico de assegurar o Médio Oriente e o seu petróleo para o império do capital, existe a questão de saber quem realmente explora o petróleo e quem tira proveito disso. As corporações norte-americanas e britânicas estão agora posicionadas para conseguir o controlo da produção e obter lucros enormes das reservas de petróleo iraquianas através dos chamados "acordos de partilha de produção" que lhes conferirão direitos para a exploração e venda da maior parte das reservas de petróleo do Iraque durante as próximas décadas -– permitindo até que esse petróleo seja considerado nas suas contabilidades como "activos". Dito de outra forma, eles terão o equivalente ao antigo sistema imperial de concessões para o petróleo. Esta é aparentemente a principal consequência da proposta para a nova lei do petróleo escrita por Washington e Londres com ajuda das principais corporações petrolíferas, e que, de acordo com o prazo estabelecido pelo FMI , é suposto que seja aprovada pelo governo iraquiano no final deste ano.

Os defensores do imperialismo norte-americano no Iraque sustentam naturalmente que "nem tudo é petróleo" e tentam apresentar o slogan "SANGUE POR PETRÓLEO NÃO" do movimento pacifista, como antipatriótico e a voz do irracionalismo. Eles agem justamente indignados sempre que se sugere que os Estados Unidos estão a planear pilhar a riqueza petrolífera do Iraque. Mas é impossível negar que muito deste conflito está directamente relacionado com petróleo. A verdade é que no final, e de uma forma indirecta, todas as questões relativas ao Iraque vão dar ao petróleo, o qual de um ponto de vista geostratégico, é aquilo que faz do Iraque um objectivo tão importante. Num recente inquérito feito aos iraquianos, menos de dois por cento pensam que a invasão norte-americana do Iraque se deu para promover democracia no Iraque. Mais de três quartos de iraquianos acredita que a razão mais importante para a invasão foi o controlo do petróleo iraquiano.

P: O primeiro capítulo de Imperialismo nu foi escrito logo após o 11 de Setembro quando Washington se preparava para invadir o Afeganistão. Nesse capítulo sugeria que esta guerra seria para alargamento do império e que não terminaria no Afeganistão, mas que conduziria a uma "projecção global-imperial do poder norte-americano". O que o levou a chegar a essa conclusão tão rapidamente? Agora, passados cinco anos, como avaliaria o equilíbrio entre a visão de um único imperialismo "centrado nos EUA" e a que se focaliza nas tensões e rivalidades inter-imperialistas?

R: O 11 de Setembro foi inesperado. Mas a resposta de Washington não foi nenhuma surpresa. Visto num contexto histórico, era evidente que o fim da União Soviética, que tornou os Estados Unidos na única superpotência militar, juntamente com o declínio que já se detectava da hegemonia económica norte-americana, criaram uma forte pressão entre os interesses governantes para lutar por uma expansão do império norte-americano. O intervencionismo militar foi posto em marcha durante todos os anos noventa. O primeiro capítulo de Imperialismo nu lista quinze intervenções militares que os Estados Unidos levaram a cabo no Médio Oriente/Mundo Islâmico, isto só nos vinte anos anteriores ao 9 de Setembro. A guerra dos EUA conduzida pela NATO na Jugoslávia no final dos anos noventa, era já uma indicação desta tendência expansionista -– neste caso, uma intervenção na própria Europa. Foi no contexto da luta nos Balcãs que a ideia de um "novo imperialismo" começou a ser louvado por várias figuras estabelecidas. Baseado na lógica destes desenvolvimentos, István Mészáros argumentou no seu livro "Socialismo ou Barbárie" (publicado pela Monthly Review Press no início de 2001) que o objectivo de atingir um imperialismo hegemónico global norte-americano estava a levar o mundo para o que seria "potencialmente a fase mais perigosa de imperialismo" -– um aspecto analisado no capítulo 2 de Imperialismo nu. Portanto não existiam dúvidas sobre a projecção imperial global do poder dos Estados Unidos mesmo antes do 9 de Setembro. E para levar a nação a aceitar esta ideia, a equipa Bush proferiu numerosas declarações nos dias seguintes aos ataques terroristas deixando claro que se encarava aquela situação como uma nova guerra mundial -– uma guerra sem limites geográficos e por sua própria natureza, perpétua.

Passados cinco anos nada realmente mudou a não ser que a invasão e a ocupação do Iraque provaram ser tudo menos uma simples conquista. Os democratas criticaram a administração Bush pelo seu unilateralismo, enquanto argumentavam ao mesmo tempo que deveria ser criada uma coligação mais forte entre os estados imperiais de forma que os Estados Unidos não suportassem todos os custos e responsabilidades. Os democratas têm preferido sempre o que o analista republicano de segurança nacional Richard Haass, que foi director de planeamento político do Departamento de Estado de Colin Powell sob a administração de George W. Bush, chamou abordagem de "o xerife e o destacamento", considerando os Estados Unidos como sendo o xerife suportado por um destacamento que consiste no conjunto de outras potências imperiais, principalmente estados europeus. Em vez disso foi adoptada a abordagem do solitário "soldado individualista". Isto tem a ver em parte com a rivalidade inter-imperialista que, sob muitos aspectos, persiste no meio imperialista. O percebido declínio da hegemonia norte-americana deve-se ao facto de o seu poder económico, relativamente ao resto do mundo, ter diminuído um pouco, mas apesar disso, esta capacidade económica atingiu tal amplitude que nenhum outro estado ou grupo de estados deu sinais de já ser capaz de confrontar economicamente os Estados Unidos, e muito menos no domínio militar. Ao mesmo tempo a queda do União Soviética criou na vertente militar, um mundo unipolar. Isto significa que Washington estava disposta a usar os seus meios aparentemente ilimitados de destruição, para garantir maior poder económico e político no mundo, e também para fortalecer sua posição geoestratégica. Todo este movimento tem como objectivo a promoção do capitalismo, mas também a defesa dos interesses norte-americanos, com o capital norte-americano a beneficiar desproporcionadamente com este posicionamento.

Pode-se chegar à conclusão que tudo isto é produto da rivalidade inter-imperialista, mas temos de considerar esta diferença: é que tudo isto se deve em grande parte à procura do poder hegemónico, e que esse poder é dirigido contra futuros potenciais rivais. Os Estados Unidos estão a reagir ao enfraquecimento do seu poder económico com o uso do seu enorme poder militar para estabelecer uma vantagem permanente sobre todos os estados que queiram prevenir ou desafiar as suas regras. Os principais estrategos estão a tentar criar uma "Pax Americana" para um novo século – um "novo século novo americano". As ambições imperiais globais dos Estados Unidos e a absoluta magnitude do poder norte-americano, podem levar a concluir que a realidade se deve simplesmente ao mundo estar centrado nos EUA, tanto no presente como no futuro, no entanto em Washington estão muito atentos (como atestam as declarações de numerosos analistas de segurança nacionais) à possibilidade de uma mudança súbita das configurações de poder, particularmente como resultado de um crescimento económico desigual. Estão à espreita da oportunidade ideal para conseguir activos estratégicos e com isso obter vantagens adicionais para as utilizar contra todos os que considerarem como seus potenciais rivais geopolíticos (individualmente e em associação) a nível global e regional -– a Comunidade Europeia, a Rússia, a China, o Japão, e o mundo islâmico. Se considerarmos os ensinamentos da História, é provável que tal possessão pelo poder leve a uma reacção das forças que se opõem a esta situação e a gerar maiores conflitos. Se este é um mundo unipolar, então é um mundo que já tem fracturas sérias.

P: O último capítulo de Imperialismo nu, originalmente publicado em Junho de 2005, é intitulado "O Fracasso de Império". Você escreveu isto quando Washington estava numa acção de propaganda por ter concedido a soberania a um governo de transição iraquiano, declarando na mesma altura que a insurreição tinha sido derrotada. Conclui que: "Seria precipitado estar a especular exageradamente nesta altura. Mas não existem dúvidas de que invadindo o Iraque, os Estados Unidos estavam a abrir as portas do inferno, não apenas para os iraquianos e para todo o Médio Oriente, mas também para sua própria ordem imperialista global. Todas as repercussões devidas ao fracasso do império norte-americano no Iraque estão ainda por conhecer e só se tornarão evidentes nos próximos anos". Passado ano e meio acha que a sua predição se cumpriu? O que o levou naquela altura a ter uma percepção que naquele momento era pouco habitual?

R: A ideia de que as portas do inferno estavam a ser abertas no Iraque, e que havia a probabilidade de se dar uma de guerra civil, era exactamente o oposto do que a administração e a imprensa afirmavam na ocasião. Não obstante, o argumento em Imperialismo nu não era tanto o de uma predição, mas sim a consideração realista das forças no Iraque e das tendências históricas que se estavam a desenvolver. Por detrás da manipulada face pública da guerra, existiram sempre os analistas de segurança nacional que estavam a tentar ver os acontecimentos de uma forma mais realista, e foi nestas avaliações que se baseou o meu argumento. Particularmente, tive em consideração a pesquisa efectuada por Anthony Cordesman, o principal analista de segurança nacional da administração de Ford e perito em assuntos do Médio Oriente, que já destacava que a ocupação estava a falhar, e que a questão a pôr era como os Estados Unidos poderiam retirar as suas tropas antes de a situação degenerar numa guerra civil total.

Quando você acrescenta a esta analise uma crítica minuciosa do imperialismo que sugere que "manter o rumo" é mais do que um mero slogan e que os altos custos para os soldados e militares americanos, até mesmo a probabilidade de serem envolvidos numa guerra civil de longa duração, pode ser considerado "valer a pena" para a elite dirigente envolver-se num jogo de alto risco pelo controlo do petróleo mundial e da hegemonia global – então, subitamente, todo o abismo que os Estados Unidos abriram no Iraque torna-se evidente. A verdade é que não havia no Iraque qualquer base política aceitável para os Estados Unidos, com a qual se pudesse construir um novo estado no Iraque. Não existiam forças colaboracionistas fortemente organizadas, das quais depende o êxito de ocupação (como a de Vichy por um ou dois anos): desta forma não restava na realidade nenhuma solução para além de uma ocupação continuada, e talvez de um desmembramento do país. Os xiitas, não menos do que os sunitas, seriam impedidos de controlar efectivamente o seu próprio país, pelo que a chamada "democracia" poderia ser apenas uma fraude. O objectivo de Washington era finalmente tornar a ocupação menos óbvia, reduzindo gradualmente as tropas norte-americanas, retirando-se para bases permanentes no Iraque. Nem sequer isso foi possível. Por acaso, o que eu não soube quando escrevi este capítulo de Imperialismo nu era que os Estados Unidos estavam já a dar apoio a paramilitares/milícias no Iraque, e a implementar a "Opção Salvador" dos esquadrões da morte para lutar contra a insurreição. Porém, isto só levou a uma luta sectária extrema, criando assim as condições para a guerra civil. Os Estados Unidos não foram capazes de controlar nada disto.

Consequentemente, o título "O Fracasso do Império" pretendia significar quão profundo podia ser o fracasso norte-americano, e que se estava a tornar inevitável nos meses e anos subsequentes, na medida em que ia ficando claro que não havia nenhum estado iraquiano, que a resistência/insurgência não podia já ser derrotada, e que a ocupação norte-americana ia empurrando o país para a guerra civil. Por outro lado, num certo sentido, a invasão de Iraque não terá (ou não terá ainda) sido um completo fracasso para o império norte-americano. É certo que o país tem sido eficazmente destruído, que a população está envolvida em acções da resistência ou ocupadas nas matanças sectárias, que os esquadrões da morte estão por todo o lado, que o governo iraquiano é uma fraude, que os soldados norte-americanos estão a morrer, e que os civis iraquianos estão a ser mortos em grande quantidade. Mas ainda do ponto de vista do império baseado em Washington, não representa uma perda total. Os Estados Unidos podem acabar por controlar o petróleo do Iraque, e o Iraque pode provar possuir as maiores reservas (incluídos as reservas não descobertas) de petróleo do mundo. Os Estados Unidos têm agora as suas principais bases militares localizadas no Iraque, fazendo fronteira com o Irão e dominando o Golfo Pérsico. Mas, para poder ganhar alguma coisa com este espólio, o império precisará de permanecer no Iraque e terá de pagar um preço muito elevado. E este será o testemunho constante da natureza brutal do imperialismo norte-americano. Poder-se-ia provar que no final o custo para o império seria muito elevado e que então o império se retiraria, mas eu não espero que ele renuncie à sua posição no Iraque nos tempos mais próximos. Ele permanecerá, ostensivamente por razões "humanitárias", para conter a barbárie que é agora o Iraque.

P: Há um argumento económico que sustenta a sua análise em Imperialismo nu e que está explícito no capítulo 3: "Monopólio do capital e a nova era do imperialismo". Sem que tenha de recapitular todo o argumento, o que se entende por ligações chave e cadeias causais entre o económico e o político/militar, na fase actual do imperialismo.

R: Esta resposta poderia ser bastante longa, e por isso vou tentar ser breve. Desde os anos setenta que a realidade dominante da economia norte-americana e mundial tem sido a estagnação e a explosão financeira. Apesar de se continuar a verificar o sobe e desce dos ciclos económico, e apesar de existirem excepções (nomeadamente a da China), a condição geral da economia norte-americana e da economia mundial, como um todo, foi de um lento crescimento, de um crescente desemprego/subemprego, e de excesso de capacidade de produção. Então, embora a economia esteja a gerar um enorme excedente no topo (devido provavelmente à estagnação dos salários e à redistribuição do rendimento e da riqueza para as classes altas), verificamos que as oportunidades de investimento rentável no domínio da produção têm estado limitadas devido à sobre-capacidade das indústrias chaves por todo o mundo. Face a estas circunstâncias, o interesse dos investidores mudou, focalizando-se agora na especulação financeira e na financeirização da economia global, facto este que ajudou a manter o andamento económico, mas não foi capaz de repor o funcionamento da máquina de acumulação de capital. Em última instancia, a análise que melhor explica estes desenvolvimentos, em minha opinião, é a teoria do capital monopolista exposta nos trabalhos de Michal Kalecki, Josef Steindl, Paul Baran, Paul Sweezy e Harry Magdoff. Estes teóricos foram capazes de, antecipadamente, caracterizar este jogo de contradições que pode ser identificado numa fase inicial, pela natureza da acumulação na fase do capitalismo monopolista, isto é, um sistema capitalista dominado por um número relativamente pequeno de corporações gigantescas.

Hoje penso que esta análise precisa de ser mais desenvolvida, o que tento fazer no livro, e levar em linha de conta a nova globalização – ou aquilo a que agora chamo de fase do capital monopolista-financeiro global. Para entender as forças que fomentam o imperialismo económico de hoje (geralmente conhecido como globalização neoliberal), assim como o seu imperialismo militar, temos de os ver neste largo contexto de estagnação, de explosão financeira, de instabilidade financeira mundial, e de declínio da hegemonia norte-americana. De certo modo a actual fase imperialista é um produto da crescente instabilidade da base económica do sistema.

P: Um dos capítulos do livro é intitulado "Bases militares norte-americanas e império" e aborda a história do império norte-americano em termos da expansão e redução das suas bases militares espalhadas pelo mundo. Uma das explicações referenciadas por mais de uma vez como sendo o objectivo principal da guerra do Iraque, foi o do estabelecimento de bases militares permanentes norte-americanas. Como abordaria este aspecto?

Clique para ampliar. R: Com o começo da guerra no Afeganistão e com a expansão do imperialismo norte-americano na forma de uma guerra explícita nesta região, que anteriormente fazia parte da União Soviética, toda a questão relacionada com a expansão da esfera das bases militares norte-americanas, já evidente nos Balcãs, passou a ser tema de análise. Conhecer o âmbito geográfico das suas bases era claramente a chave para compreender a extensão do império norte-americano. Entretanto empreendi um estudo da história dase bases militares norte-americanas instaladas noutros países desde a Segunda Guerra Mundial. O resultado deste trabalho foi a elaboração de um mapa, reproduzido no livro, que mostrava os 60 países e distintos territórios nos quais as bases militares norte-americanas estavam instaladas, até Janeiro de 2002.

O mapa foi muito influente e frequentemente reproduzido na internet. Chalmers Johnson aproveitou parte desta pesquisa como suporte para o seu útil livro The Sorrows of Empire. O mapa das bases militares que desenvolvi juntamente com meus colegas na Monthly Review, era conservador, pois incluía apenas países com bases registadas no Relatório da Construção de Bases Militares do Departamento de Defesa (que inclui apenas aquelas com estruturas permanentes), e as bases recentemente criadas e referenciadas na imprensa. O actual estabelecimento das bases/tropas é mais extenso e fluido do que esta análise conservadora sugere. Os Estados Unidos têm, a todo o momento, tropas em mais de 100 países, com os quais, frequentemente, desenvolvem exercícios conjuntos. Desde que o mapa foi elaborado, os Estados Unidos ampliaram as suas bases em todos os continentes do Sul global. Isto dá pelo menos a indicação de que, para além da dimensão do império norte-americano e da sua forma de actuação estratégica, as forças norte-americanas encontram-se bastante dispersas -– pelo que relativamente poucas estão disponíveis para levar a cabo uma guerra/ocupação da dimensão da que se desenvolve no Iraque.

As bases são, claro está, a preparação do terreno para o imperialismo norte-americano, mas não a realidade desse imperialismo. Elas permitem aquilo a que se dá o nome de "projecção avançada" ("forward projection") do poder norte-americano. Visto deste modo, é uma designação incorrecta se pensarmos nas bases no Iraque ou noutro qualquer lugar, como um objectivo primeiro dessa guerra. As bases no Iraque são importantes porque permitem aos Estados Unidos estabelecerem o controlo sobre o Iraque e o Golfo Pérsico como um todo. Esta região é considerada de enorme valor estratégico e não é segredo porquê: petróleo. O que está em questão é o controlo do petróleo e impedir o surgimento de estados produtores de petróleo poderosos que possam ameaçar os interesses do capital norte-americano – e não as próprias bases, que são meras ferramentas do império.

P: Em Imperialismo nu existem referências frequentes à "barbárie" como um resultado possível dos acontecimentos verificados nestes primeiros anos do século XXI, contudo você não especifica o que quer dizer. Não é uma linha de pensamento agradável, mas que possibilidade é esta e como a vê?

R: Você tem razão ao dizer que o assunto barbárie é frequentemente referido no livro. Um dos capítulos do Imperialismo nu é intitulado "O império da barbárie". Isto reflecte a visão de que o capitalismo, particularmente como testemunhado no estrangeiro com o seu imperialismo nu, está a degenerar cada vez mais numa espécie de barbárie onde a guerra, a brutalidade, a tortura, a miséria, a super-exploração, todos os tipos de medidas draconianas contra os pobres, sobre a segurança fronteiriça, a anti-imigração, as casas emparedadas, o racismo, a devastação ambiental extrema ameaçando populações inteiras e até mesmo o globo, a proliferação nuclear (e portanto o perigo de guerras ainda mais terríveis), etc estão em ascensão. No marxismo sempre se viu isto como uma possibilidade: em vez de revoluções que fariam o mundo avançar, haveria, o que Marx chamou de "a ruína comum das classes litigantes", um declínio na barbárie. Rosa Luxemburgo levantou a questão do "socialismo ou barbárie", a qual tem sido reiterada no nosso tempo por pensadores como o Daniel Singer e István Mészáros.

Claro que, dada a história de capitalismo ocidental, a noção de barbárie nos tempos modernos leva à insinuação do fascismo. Mas há aqui mais a considerar na história do capitalismo: a brutalidade da colonização imperialista sobre a periferia nos primeiros séculos do capitalismo, a guerra mundial, a ciência da tortura, o racismo, a devastação do mundo natural e de todos os seres que dele dependem. Nos dias de hoje estamos a ser testemunhas de um perigoso ressurgimento de todas estas tendências. Tal como referido em Imperialismo nu, isto é mais um produto da fase actual do capitalismo, o fim de qualquer possibilidade de um "capitalismo racional". A única resposta é a luta pelo socialismo, por uma sociedade controlada pelos produtores associados e pelos conjuntos mais vastos de necessidades e valores que eles representam, ao invés da mão invisível (agora um punho de ferro) do capitalismo/imperialismo.

P: No seu livro argumenta frequentemente que a noção de uma "conspiração Bush" ou uma "junta militar Bush", como uma explicação para a guerra no Iraque, está errada. Agora os democratas têm maioria em ambas as casas do Congresso e estão a exigir uma "fase de reorganização das tropas". Será que podemos esperar a qualquer momento por uma mudança fundamental na postura militar de Washington no Iraque e no seu caminho para o império mundial?

R: Sempre estranhei a facilidade como os sábios da esquerda, tanto neste país como por esse mundo afora, assumiram a noção de uma "conspiração Bush", ou de uma "junta militar Bush-Cheney", tal como exposto por Gore Vidal, como uma explicação para a Guerra no Iraque e para a guerra contra o terrorismo. Na verdade os republicanos levaram efectivamente a cabo um golpe de mão nas eleições de 2000 que pôs os neoconservadores no poder, e são esses neoconservadores que são agora culpados do imperialismo nu que se regista hoje. Não só Bush, Cheney, Rumsfeld e Rice, mas também são culpados Paul Wolfowitz, Lewis Libby, Richard Pearle, e outros. Neste contexto, os oponentes da conspiração Bush dentro do partido republicano, são os "homens avisados" como James Baker, Robert Gates, e Brent Scowcroft, que fizeram parte da administração do pai Bush, Bush I. Os democratas são vistos entretanto como uma oposição forte à conspiração neoconservadora Bush II.

Obviamente que é verdadeiro e importante, até certo ponto, o facto de os neoconservadores dominarem a actual administração. Mas, tal como argumento detalhadamente em Imperialismo nu, se se concluir que uma conspiração é de alguma maneira a causa das dificuldades do império, e que sendo assim, para resolver o problema, o que se tem de fazer é correr com eles, então estamos a ignorar todas as lições de história. A estratégia deste império esteve na execução dos trabalhos de longo prazo – desde a queda da União Soviética no início dos anos noventa, ou até mesmo antes disso – a partir do momento em que se começou a verificar um ressurgimento de estagnação económica, e dos primeiros sinais mais importantes do declínio da hegemonia norte-americana no início e meados dos anos setenta. A guerra na Jugoslávia deu-se durante o mandato de Clinton, que também bombardeou diariamente o Iraque, e iniciou a instalação de bases militares norte-americanas na Ásia Central. Os democratas foram um apoio importante nas guerras no Afeganistão e no Iraque e as suas críticas foram mais de carácter táctico do que de natureza estratégica. Assim, eles acusam a administração Bush de unilateralismo, como oposição ao multilateralismo da força invasora, acusam-na também da dissolução dos exércitos Baathistas, dos muitos recursos militares utilizados no Iraque, em oposição aos utilizados no Afeganistão, das poucas tropas norte-americanas utilizadas inicialmente na invasão e na ocupação, na corrupção e manipulação dos contratos militares, da pouca protecção das tropas, etc. Estes não são ataques fundamentais ao imperialismo nu de hoje. O que isto reflecte é o facto de que a classe dirigente norte-americana como um todo (na qual tanto os democratas como os republicanos estão envolvidos) tem sido uma forte apoiante de uma guerra alargada.

O que está agora a acontecer desde as eleições, com os democratas a controlarem ambas as casas no Congresso, com a saída de Rumsfeld, e com a estratégia no Iraque a descambar claramente numa matança, tem a ver com a movimentação de James Baker, Robert Gates, e outros "homens avisados" de Bush I, que se puseram em campo para salvar Bush II. No entanto não deveremos ter ilusões acerca do resultado dessas movimentações no sentido de um volte face para a paz. Robert Gates, o novo secretário da Defesa, foi um antigo director da CIA e esteve envolvido no escândalo Irão-Contras. Por outro lado os democratas reclamam uma "fase de reorganização" que permita simplesmente uma forma de reorganização das tropas no contexto da guerra global – principalmente no Afeganistão, e nas bases no Iraque – em lugar de uma posição sem hesitações em favor de uma retirada do Iraque ou de um retrocesso na guerra imperial contra o terrorismo. Dadas as mudanças verificadas em Washington, teremos em breve um bom teste à tese da conspiração, que demonstrará indubitavelmente que a principal estratégia imperial continuará a ser seguida, enquanto muitas coisas vão poder mudar ao nível táctico. Onde os democratas irão muito provavelmente resistir não será no que diz respeito à estratégia imperialista, mas sim nas medidas de segurança adoptadas internamente, medidas essas que representam a contraparte interna desta estratégia global. E será pouco provável que os democratas adoptem, por exemplo, uma posição forte contra o Patriot Act. Sobre este aspecto, será também provável que eles entrem num jogo de cedências e conquistas daquilo que se localiza somente nas margens dos assuntos, enquanto ao mesmo tempo vão aceitando uma erosão significativa da democracia e dos direitos humanos.

Na realidade o valor do livro Imperialismo nu, em comparação com as tais teorias da cabala, reside no facto de se basear numa crítica inflexível do capitalismo e do imperialismo. A ênfase está pois dirigida para as verdadeiras forças associadas ao carro de guerra imperial. Isto não significa que tudo está inevitavelmente determinado por tais forças estruturais poderosas, que não é possível evitar estas relações imperiais, que não existe qualquer hipótese para a esperança. Mas significa sim que se existir alguma mudança fundamental no curso da História, ela não acontecerá no seio das elites. Muita coisa terá de acontecer de uma forma radical a partir de baixo, e não simplesmente através de uma conspiração, ou pela eleição do outro partido do sistema bi-partidário dominante. O que precisamos é de uma mudança numa escala muito mais revolucionária, o que significa que o povo terá, uma vez mais, de tomar nas suas mãos o destino da História.

[*] Professor de sociologia na Universidade de Oregon, autor de Marx's Ecology e Ecology Against Capitalism, editor da Monthly Review.

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/foster171106.html . Tradução de MJS.


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
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