As firmas militares privadas

pelos Editores da Monthly Review

Embora as corporações privadas sob o capitalismo sempre tenham estado pesadamente envolvidas na promoção da guerra, o papel directo desempenhado pelo sector privado na sua prossecução tem sido tradicionalmente bastante limitado, ficando bem aquém da oferta de tropas de combate. Há sinais de que isto pode agora estar a mudar. A década e meia desde o fim da Guerra Fria assistiu à rápida proliferação de firmas privadas militares, centenas das quais estão agora engajadas no combate e nas operações de apoio ao combate no Iraque e por todo o globo. Algumas destas firmas são subsidiárias de corporações multinacionais muito maiores. Os soldados privados utilizados nesta indústria são mercenários, mas não da espécie tradicional. Eles são empregados de corporações que têm conselhos de administração, são comercializadas publicamente, participam no mercado aberto, executam fusões, contratam ou despedem de acordo com o critério do mercado — e, acima de tudo, não são directamente responsáveis perante qualquer autoridade pública. Por outras palavras, estas corporações e os seus empregados estão plenamente integrados no empreendimento capitalista como um todo. Este fenómeno foi recentemente denominado por Peter Singer, um analista da Brooking Institution e autor de Corporate Warriors (2003), como "a corporatização da instituição militar",

Durante a Guerra do Golfo de 1991 havia um soldado privado (ou "contratado") por cada 100 soldados regulares. Em contraste, no Iraque ocupado de hoje há pelo menos um soldado privado por cada dez soldados regulares — com 10.000 a 15.000 soldados privados postos só naquele país. Os Estados Unidos actualmente estão a gastar a gargantuesca quantia de US$ 400 mil milhões por ano com a instituição militar. Mas o rendimento de mercado da indústria militar privada já tenha ascendido para cerca de um quarto daquele total e está a subir em flecha.

O assassínio pela resistência iraquiana, em 31 de Março, de quatro contratados militares privados que trabalhavam para a Blackwater USA (a maior parte dos quais era constituída por pessoal que anteriormente era das operações especiais americanas), e a subsequente mutilação dos seus cadáveres por uma população irada, despertou a atenção internacional para o crescimento das firmas militares privadas. As operações da Blackwater no Iraque incluem um contrato para proporcionar os guardas de segurança que protegem o procônsul americano, L. Paul Bremer III. Ela também utilizou um subcontratador para alugar os serviços de antigos membros da instituição militar chilena a fim de ajudar a guardar campos petrolíferos iraquianos — o que incluiu alguns que serviram sob o ditador Augusto Pinochet. O principal contratista militar privado a operar no Iraque é a Kellogg, Brown & Root Services, uma subsidiária da Halliburton Corporation. Em 1991, o secretário da Defesa Dick Cheney pagou à Brown & Root (como era então chamada) US$ 9 milhões para estudar como companhias privadas poderiam apoiar operações de combate americanas. Posteriormente Cheney tornou-se director-geral da Halliburton e durante o seu mandato a Brown & Root emergiu como uma das primeiras firmas militares privadas nos Estados Unidos. Ela fortaleceu esta posição, com lucrativos contratos a aparecerem no seu caminho depois de Cheney se ter tornado vice-presidente ( USA Today , 01/Abril/2004). Uma outra importante firma militar privada, a ArmorGroup, que tem 800 soldados privados no Iraque, foi listada como uma das 100 companhias com crescimento mais rápido pela revista Fortune em 1999 e em 2000. Uma das mais importantes aquisições do ArmorGroup foi a firma Alpha, com sede em Moscovo, uma unidade privatizada do Alpha, a antiga organização soviética da elite das forças especiais, em linhas gerais equivalente à U.S. Delta Force. O ArmorGroup actualmente opera em mais de 50 países. A Military Professional Resources Incorporated (mais conhecida como MIPRI), uma das maiores e mais prestigiosas firmas militares privadas devido ao seu papel destacado nos Balcãs, foi comprada em 2000 pela L-3 Communications, uma entidade saída em 1997 dos fabricantes militares Loral e Lockheed Martin. A Vinnell Corporation, uma subsidiária da Northrop Grumman, o segundo maior contratista da defesa nos Estados Unidos, treina a Guarda Nacional Saudita e foi-lhe dado o contrato para treinar o Novo Exército Iraquiano. A Custer Battles, com 1300 empregados no Iraque, tem um contrato para guardar o aeroporto de Bagdad. A Dyncorp está a receber dezenas de milhões de dólares para treinar a força de polícia iraquiana.

Por trás do crescimento dramático destas firmas militares privadas está subjacente uma vasta mudança no poder mundial que principiou com o fim da Guerra Fria. A desmobilização que se seguiu à queda do Muro de Berlim significou que os Estados no princípio deste século empregavam menos soldados do que em 1989. Ao longo do mesmo período, marcado pelo triunfo do capitalismo em escala mundial, a incidência de guerras civis duplicou, enquanto o número total de zonas de combate por todo o mundo aumentou amplamente (Singer, Corporate Warriors , pg. 50). De uma perspectiva de mercado isto significa que a oferta e procura de forças são favoráveis ao crescimento da indústria privada neste sector. Impulsionando esta tendência está ainda a "revolução privatizadora". Assim, em 2002 o secretário da Defesa Donald Rumsfeld declarou que o Pentágono "procuraria oportunidades adicionais para externalizar (outsource) e privatizar" (citado em The Guardian , 10/Dez/2003).

Com conflitos a estalarem em grande parte da África, Ásia e América Latina e mesmo partes da Europa, a firmas militares privadas nada viam senão oportunidades de mercado em expansão. De um ponto de vista puramente económico, há relativamente poucas barreiras para a entrada neste sector. Firmas militares privadas empregam um vasto conjunto de especialistas militares, retirando-os de um enorme e crescente exército militar de reserva e atraindo especialistas chave para fora das tropas regulares com ofertas de salários lucrativas. Cada empregado é encarado como um ex-alguma coisa — um ex-general, um ex-Navy Seal, um ex-piloto de helicóptero de combate, etc, e é contratado na base desta perícia anterior. Uma vez que os especialistas contratado por estas firmas foram todos treinados pelas instituições militares de vários Estados a expensas públicas, os custos de treinamento para as corporações são mínimos. A minimizar custos está também o facto de que uma inundação de armas no mercado tornou o assassínio em grande escala mais barato do que nunca. Praticamente todo o stock de armas da antiga República Democrática Alemã, por exemplo, foi leiloado na década de 1990 a preços de saldo.

Exactamente agora o número de firmas militares privadas está a multiplicar-se rapidamente. Mas de acordo com o padrão normal de acumulação de capital haverá finalmente um ajustamento de firmas que conduzirá à concentração e centralização, com um número relativamente pequeno de firmas, tais como a Kellogg, Brown & Root (Halliburton), a emergirem como as entidades corporativas dominantes. Tais firmas militares privadas gigantes não terão dúvidas em engajar-se na sua própria versão única daquilo a que Schumpter chamou "a destruição criadora". Não temos meio de saber qual será o resultado real de tudo isto. Mas é difícil evitar a conclusão de que a privatização da guerra, se esta continua a ganhar força, contribuirá maciçamente para a expansão do barbarismo no mundo como um todo. Isto, depois de tudo, é a tendência básica do capitalismo no nosso tempo.

O original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/nfte0504.htm . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

06/Mai/04