Charles Darwin, o revolucionário relutante

por Ian Angus [*]

^Charles Darwin, 1874. Em 1846, Karl Marx e Friedrich Engels escreveram A Ideologia Alemã , a primeira demonstração amadurecida do que se tornou conhecido como materialismo histórico. O seguinte excerto é retirado da segunda página:

Conhecemos apenas uma única ciência, a ciência da história. Podemos olhar para a história por dois lados, e dividi-lo em a história da natureza e a história dos homens. Os dois lados são, porém, inseparáveis, a história da natureza e da história dos homens são dependentes uma da outra, enquanto os homens existam. A história da natureza, a chamada ciência natural, não nos preocupa aqui…

No final, Marx e Engels apagaram este excerto dos seus rascunhos, decidindo nem sequer mencionar um assunto que não tinham tempo para investigar e discutir adequadamente.

O que os fundadores do socialismo científico não podiam saber era que uma irrefutável explicação materialista da história da natureza já havia sido escrita por um senhor inglês que não tinha simpatia pelo socialismo. E não o sabiam pois o autor, Charles Darwin , ficou tão chocado com as implicações das suas ideias que as manteve secretas durante vinte anos.

As opiniões de Darwin sobre a evolução estavam totalmente desenvolvidas em 1838, tendo ele escrito e depois escondido um ensaio de 50 mil palavras sobre o assunto em 1844. Mas só em 1859 publicou uma obra que Marx chamaria "marco de uma época".

A percepção de Darwin

Outros haviam especulado sobre a evolução antes de Charles Darwin, mas a opinião dominante nos meios científicos e da sociedade em geral era de que todos os diferentes tipos de plantas e animais foram criados por Deus, e que as várias espécies sempre foram imutáveis. Os poucos a acreditarem que a espécie havia mudado ao longo do tempo não podiam explicar essas mudanças sem recorrer ao sobrenatural – essa evolução era plano de Deus, ou que alguma força (Deus por outro nome) fazia a natureza se encaminhar no sentido da perfeição.

O que tornou único o trabalho de Darwin não foi sua afirmação de que a evolução era um facto, mas a sua explicação inteiramente materialista de como todas as fantásticas variações e desígnios da vida se conceberam. Darwin defendia que o principal factor de evolução é a "selecção natural", um processo que pode ser resumido da seguinte forma:

  • Todos os organismos produzem mais descendentes do que os que podem sobreviver.
  • Existem muitas diferenças entre os membros individuais de qualquer espécie.
  • As variações que aumentam as probabilidades de os indivíduos sobreviverem, ao se reproduzirem, são susceptíveis de serem transferidas para as próximas gerações.
  • Como resultado, ao longo de grandes períodos de tempo, essas características favoráveis difundir-se-ão pela população, enquanto as características nocivas irão declinar e, por isso, a população como um todo será cada vez melhor adaptada ao seu ambiente.
  • Se uma parte da população se encontra num ambiente diferente, ela irá mudar de maneiras diferentes, podendo estas mudanças eventualmente ser divergentes e levar ao desenvolvimento de espécies distintas.

Esta simples e elegante ideia destruiu a prova mais comummente utilizada para defender o criacionismo – a aparentemente perfeita concepção das plantas e animais – e substituiu-a por uma explicação baseada em processos naturais. Nas palavras do evolucionista do século XX, Ernst Mayr, Darwin "substituiu a ciências teológicas, ou sobrenaturais, pela ciência secular… a explicação de Darwin de que todas as coisas têm uma causa natural, fez da crença numa mente superior criadora algo desnecessário".

O adiamento de Darwin

A teoria de Darwin era inteiramente materialista, numa altura em que materialismo não era apenas impopular nos círculos respeitáveis, mas considerado subversivo e politicamente perigoso. Entre 1838 e 1848, enquanto Darwin trabalhava nas suas ideias, a Inglaterra foi varrida por uma onda sem precedentes de acções de massas, protestos políticos, e greves. Ideias radicais – ideias materialistas, ateístas - foram infectando a classe trabalhadora, levando muitos a esperar (ou temer) a mudança revolucionária.

Darwin nunca se envolvera activamente na política, mas era um membro privilegiado da classe média abastada, classe que estava sob ataque. Como escreve John Bellamy Foster, "Darwin acreditava fortemente na ordem burguesa. Sua ciência era revolucionária, mas Darwin não o era".

Para não correr o risco de ser identificado com os radicais, Darwin colocou a evolução de parte e dedicou os anos seguintes a escrever um trabalho popular acerca da sua viagem à volta do mundo, dois livros científicos sobre corais e ilhas vulcânicas, e um exaustivo estudo de quatro volumes sobre cracas. Apenas em meados da década de 1850, com a sua reputação científica assegurada, e tendo as turbulências sociais de 1840 claramente terminado, voltou Darwin ao assunto pelo qual é hoje famoso.

Mesmo então, ele teria provavelmente adiado para a década seguinte se em Junho de 1858 um jovem naturalista, Alfred Russel Wallace, não lhe tivesse enviado um ensaio contendo ideias praticamente idênticas às suas. Pressionado pelos amigos a ser o primeiro a publicar, Darwin pôs de lado "o grande livro sobre espécies" que tinha apenas começado, e rapidamente escreveu um muito mais curto – " Sobre a origem das espécies através da selecção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida ". Foi publicado em Novembro de 1859.

Brilhantemente defendida, e escrita para ser entendido por não-cientistas, a origem foi um bestseller imediato. O editor publicou 1250 exemplares, mas recebeu pedidos para 1500 exemplares no primeiro dia. A segunda edição de 3000 exemplares seguiu-se poucas semanas depois, e mais quatro edições nos próximos dez anos: cerca de 110.000 exemplares foram vendidos só na Inglaterra até ao final do século.

Conquanto as ideias de Darwin tenham sido rapidamente aceites por muitos cientistas, especialmente os mais jovens, elas foram severamente condenadas pela instituição científica e por líderes religiosos. Os críticos apontaram repetidamente dois argumentos relacionados: que a selecção natural excluía qualquer papel de Deus; e que, embora Darwin tenha cautelosamente evitado o assunto, os seres humanos devem ser também os produtos da selecção natural. Ambas as ideias eram blasfemas; ambas poderiam minar a ordem social existente.

Mesmo entre os cientistas que rejeitavam uma leitura literal da Bíblia e concordavam com a maior parte da exposição de Darwin, havia muitos que insistiam que Deus tinha de ser parte da explicação, como força orientadora da evolução, ou como a fonte divina da alma humana e inteligência. Alguns usaram esses pontos de vista para defender os seus próprios preconceitos reaccionários e racistas: por exemplo, que Deus havia criado negros e brancos como espécies distintas.

Apoio da classe trabalhadora

A discussão do livro de Darwin não se limitava aos cientistas e clérigos. Custando quinze xelins, o salário de vários dias trabalho de um artesão qualificado, A Origem das Espécies era demasiado cara para ser encontrado em muitos dos lares dos trabalhadores, mas grupos radicais de trabalhadores em várias cidades fizeram colectas para comprar um exemplar que poderia ser partilhado.

Um dos colaboradores mais próximos do Darwin, Thomas Huxley , organizou uma série de palestras públicas muito concorridas sobre a evolução para os trabalhadores em Londres. Nestas palestras, que foram posteriormente publicadas num panfleto popular, Huxley não hesitou em defender um ponto-chave que Darwin só insinuava na Origem , a que os seres humanos também são um produto da selecção natural e partilham características com seus antepassados comuns:

não há qualquer evidência para dizer que a humanidade nasceu originalmente de algo mais do que um único par; devo dizer, que não vejo nenhum bom motivo, ou até mesmo qualquer tipo de prova convincente, para acreditar que há mais do que uma espécie humana.

Karl Marx assistiu a várias palestras de Huxley e encorajou os seus camaradas a fazerem o mesmo. O seu amigo e camarada Wilhelm Liebknecht

mais tarde recordou que "quando Darwin chegou à conclusão do seu trabalho e trouxe-as ao conhecimento do público, que não se falou de mais nada durante meses, além do enorme significado das suas descobertas científicas."

Friedrich Engels obteve um dos primeiros 1250 exemplares de A Origem das Espécies e escreveu a Marx que o livro era " absolutamente magnífico ". Marx concordou, o que não significa que não lhe tivessem críticas a apontar. Não lhes agradou o " estilo inglês desajeitado de argumentar " e ridicularizaram as suas referências positivas a Malthus . Uma vez que não eram biólogos, eles não tomaram partido nos polémicos debates sobre se a selecção natural ou algum outro processo natural era o principal motor da evolução: saindo em defesa convicta de Darwin, Engels escreveu no Anti-Dühring (1877) – e Darwin teria certamente concordado:

A teoria da evolução está ainda, contudo, numa fase muito precoce, e, por isso, não se pode duvidar que a prossecução da investigação irá alterar significativamente as nossas concepções actuais do processo da evolução das espécies, incluindo aquelas estritamente darwinistas.

O que ele e Marx mais admiravam em Darwin era a sua demonstração de que a natureza tem uma história. Novamente em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico :

A natureza funciona dialecticamente e não metafisicamente… não se move na eterna unidade de um ciclo perpetuamente repetido, mas percorre uma verdadeira evolução histórica. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar. Com sua prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais e, entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, Darwin desferiu o maior dos golpes na concepção metafísica da Natureza.

A passagem que Marx e Engels haviam escrito e, em seguida, eliminado em 1846 – que a história da natureza e da história dos homens são inseparáveis e dependentes de uma outra – foi confirmada por A Origem das Espécies . Nela, eles encontraram uma explicação materialista da história da natureza em complemento à sua explicação materialista da história humana. O trabalho de Darwin foi, como Marx escreveu em 1861, " a base na história natural para a nossa própria visão ".

Um triunfo para a humanidade

É um testemunho do compromisso de Darwin para com a verdade científica que, uma vez tendo ultrapassado a sua relutância em publicar suas ideias, ele tenha dedicado o resto de sua vida a defendê-las contra alguns dos mais influentes líderes de opinião de então. Por alturas da sua morte, em 1882, a evolução era quase universalmente aceite na comunidade científica.

As investigações posteriores aprofundaram a nossa compreensão da evolução – também confirmaram a convicção de Darwin de que a selecção natural desempenha um papel fundamental. Acima de tudo, o compromisso de Darwin para a explicação materialista dos fenómenos naturais triunfou. Nenhum cientista moderno – nem mesmo um com profundas convicções religiosas – poderá sugerir que "então um milagre aconteceu" seja uma explicação aceitável para qualquer fenómeno natural, incluindo as origens, a imensa variedade e a constante mutação da vida no nosso planeta.

Esta vitória materialista na ciência é uma das maiores conquistas da humanidade. Por essa razão por si só, não importa quais fossem as suas hesitações, atrasos, ou preconceitos de classe média, Charles Darwin merece ser lembrado e homenageado por todos que procuram o fim da superstição e ignorância em todos os aspectos da vida.

A ideia de que a " a natureza não existe simplesmente, mas se encontra num processo de devir e desaparecerá " (Engels) é tão revolucionária e tão importante para o pensamento socialista como a ideia de que o capitalismo não existe apenas, mas que surgiu em determinado momento e também virá a desaparecer um dia.

[*] Editor associado de Socialist Voice .

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/angus120209.html . Traduzido pelo Colectivo Leitura Capital .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
25/Fev/09