Turquia reivindica a liderança muçulmana
A Declaração de Istambul da Organização da
Conferência Islâmica (OCI)
afirmando Jerusalém Leste como a capital do estado da Palestina
é um evento histórico. A iniciativa turca de reunir uma cimeira
extraordinária em Istambul alcançou o seu objectivo. A cimeira
foi bem participada, embora convocada com pouca antecedência.
Uma ausência notável foi a do rei Salman da Arábia Saudita.
O ministro saudita para assuntos religiosos aparentemente representou o seu
país. Na terça-feira, a Turquia provocou abertamente a
Arábia Saudita. O ministro dos Negócios Estrangeiros Mevlut
Cavusoglu disse: "Alguns países árabes mostraram respostas
muito fracas (sobre Jerusalém). Parece que alguns países
são muito tímidos em relação aos Estados
Unidos". Ele acrescentou que a Arábia Saudita ainda tinha de dizer
como participaria.
A Declaração de Istambul diz que "rejeita e condena nos mais
fortes termos a decisão unilateral do presidente dos Estados Unidos da
América reconhecendo Jerusalém como a assim chamada capital de
Israel, o poder ocupante". Ela insta o mundo a reconhecer Jerusalém
Leste como a capital ocupada do estado palestino e convida "todos os
países a reconhecerem o estado da Palestina e Jerusalém Leste
como a sua capital ocupada".
A OCI colocou a fasquia num nível elevado. Mas a OCI é em grande
medida ineficaz e suas declarações permanecem só no papel.
Haverá agora qualquer coisa diferente? Sim, poderia ser diferente. Uma
é que a Declaração de Istambul numa penada desmascara a
pretensão dos Estados Unidos de ser o condutor do processo de paz do
Médio Oriente. O direito de acção
(locus standi)
de Washington como mediador acabou por ser questionado nada menos que o
presidente palestino Mahmoud Abbas, o qual geralmente tem sido encarado como um
serviçal
(cats-paw)
da inteligência dos EUA (e israelense) e da Arábia Saudita.
O facto de Abbas ter endurecido só reflecte o facto de que o terreno
debaixo dos seus pés mudou. A opinião popular no Médio
Oriente muçulmano tornou-se assim esmagadoramente anti-americana. Isto
tem implicações geopolíticas. De modo interessante,
Moscovo enviou um representante para assistir como observador a cimeira da OCI
em Istambul.
Israel ultimamente estava a ganhar a confiança de que podia romper o
isolamento e formar uma quase-aliança com a Arábia Saudita.
Não era uma esperança realista e baseava-se na personalidade
política do jovem Príncipe Coroado saudita. Mas tais
esperanças devem agora ser desactivadas. Israel também pode ter
de viver com a realidade de uma forte presença iraniana na Síria
nos próximos anos. Claramente, Israel excedeu-se. É duvidoso que
Israel ganhe alguma coisa com a decisão de Trump sobre Jerusalém.
Mesmo uma relocalização da Embaixada do EUA em Tel Aviv pode
levar ano e, por tudo o que se sabe, mantida indefinidamente em
suspensão por Washington por uma questão de conveniência.
O que se sabe ser ainda desconhecido é quanto ao manto da
liderança no mundo
islâmico. A cimeira de Istambul foi uma iniciativa pessoal do presidente
Recep Erdogan. Um inquérito de opinião efectuado pela Pew
descobriu que Erdogan é hoje a figura mais popular no Médio
Oriente muçulmano.
Certamente Erdogan está a fazer uma determinada inflexão para
reivindicar a liderança do mundo muçulmano, como costumava
acontecer sob os sultões otomanos. Com a Arábia Saudita enredada
numa transição difícil e com o seu futura cada vez mais
incerto (mais ainda com a guerra brutal no Iémen em que está
atolada), a hora da Turquia pode ter chegado. A plataforma principal de Erdogan
é a sua ênfase na unidade da "Ummah". O seu toque de
clarim para deixar as políticas sectárias para trás obteve
grande ressonância. E aqui a Turquia e o Irão estão,
também, totalmente de acordo.
Um papel de liderança será conveniente para Erdogan, pois
dá-lhe "profundidade estratégica" em
relação ao Ocidente, além de consolidar a sua base de
poder dentro da Turquia. Por outro lado, ele pode tomar sua autoridade califal
seriamente para relançar a OCI como uma ferramenta intervencionista para
enfrentar questões muçulmanas por todo o mundo. Países
como Myanmar ou Índia sentem a pressão.
De modo geral, um período muito transformativo está pela frente
no mundo muçulmano. Trump não teria antecipado tudo isto a
jusante quando abriu a caixa de Pandora. Ele não é conhecido por
ser um grande estratega. A agência de notícias Anadolu apresentou
um comentário incisivo sobre como o sentido de obrigação
de Trump para com o lobby judeu levou-o quase totalmente para esta
fatídica decisão sobre Jerusalém. Ler aqui:
Trump's decision: Inside story, expected consequences
.
13/Dezembro/2017
[*]
Analista político, antigo diplomata indiano.
Ver também:
A short commentary on Trumps latest SNAFU
Final Communiqué of the Extraordinary Islamic Summit Conference
United States: Trade with the Muslim World
O original encontra-se em
blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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