por
La Jornada,
editorial
Afirma o mito popular que os presidentes estadunidenses que conseguem
reeleger-se costumam moderar e suavizar, no seu segundo período na Casa
Branca, as tendências e atitudes que ostentaram no primeiro. Isso foi
muito certo no caso de Bill Clinton, o qual exerceu uma segunda
presidência muito menos liberal que a primeira, mas não o foi no
segundo período de Ronald Reagan, o qual entre 1984 e 1988 acentuou seu
anticomunismo de historieta e empreendeu, nesse lapso de tempo, seu delirante
programa de militarização do espaço exterior cujo nome
oficial era Iniciativa de Defesa Estratégica; mas que foi popular e
ironicamente conhecido como guerra das galáxias.
Quanto ao presidente actual dos Estados Unidos, alguns analistas do país
vizinho indicaram, antes das eleições de Novembro do ano passado,
que se George W. Bush conseguisse impor-se outros quatro anos na Casa Branca
haveria de formular uma estratégia internacional menos belicista,
unilateral e depredadora, uma política interna menos repressiva e mais
tolerante para com as liberdades civis, e um manejo económico
nuançado no seu desígnio de enriquecer os ricos e empobrecer os
estadunidenses pobres. Equivocaram-se totalmente.
Reeleito no cargo, Bush intensificou de imediato a sua ofensiva contra os
países que se permitem qualquer classe de discordância perante
Washington, acentuou a participação do governo estadunidense na
"guerra contra o terrorismo", tornou mais grosseiro o unilateralismo
da sua administração e o seu desprezo pela legalidade
internacional, multiplicou a partir do poder público os ataques contra
os direitos humanos de estadunidenses e estrangeiros e reforçou o
integrismo religioso e cavernícola nas fileiras da sua equipe. Sem
controles nem contrapesos de espécie nenhuma na institucionalidade
política de Washington, Bush nomeou para secretário de
Justiça Alberto Gonzales, um indivíduo conhecido pelos seus
pareceres em favor da tortura; despediu o moderado Colin Powell e
substituiu-o, no Departamento de Estado, pela ideóloga favorita do
círculo presidencial, Condoleezza Rice, impulsionadora da doutrina da
guerra preventiva; encarregou John Dimitri Negroponte da
coordenação das agências de espionagem estadunidense,
tristemente célebre pelo seu papel protagónico na guerra suja
empreendida pela administração Reagan contra a Nicarágua e
pelas suas ligações aos genocidas centro-americanos; candidatou
o subsecretário da Defesa, o conhecido falcão Paul Wolfowitz,
para a direcção do Banco Mundial; finalmente, propôs John
Bolton como embaixador dos Estados Unidos perante a ONU, indivíduo de
luzes escassas e palavras violentas que em diversas ocasiões acusou as
Nações Unidas de serem um organismo irrelevante, o qual pretende
colocar disse-o explicitamente sob a hegemonia estadunidense.
Várias dessas nomeações, cabe recordar, foram questionadas
e criticadas por organismos como o Human Rights Watch.
No âmbito da política interna, o segundo governo Bush acossou
jornalistas judicialmente num esforço para obrigá-los a revelar
suas fontes, prosseguiu sua estratégia de desmantelamento dos programas
sociais e de redução de impostos para os multimilionários
e, nos últimos dias, chegou ao extremo de imiscuir-se no drama familiar
e judicial de Terry Schiavo, a mulher que se encontra em estado vegetativo
há 15 anos e que foi tomada como bandeira propagandística pelos
sectores mais inescrupulosos e conservadorismo estadunidense. Bush não
teve dúvida em violentar a ordem federal do seu país e a
autonomia de poderes para fazer demagogia "em favor da vida" e tentar
uma manobra legal que mantenha viva a paciente, apesar das diversas
sentenças de juizes estatais que autorizaram o seu marido, Michael, a
retirar a sonda que alimenta o organismo de Terry.
O deslizamento da direita para a ultra-direita no segundo governo Bush é
perceptível, pois, em todos os âmbitos, e mais valer assumir que o
país mais poderoso do mundo será, pelo menos nos próximos
quatro anos, um factor central de violência, autoritarismo,
escuridão, intolerância, ilegalidade e instabilidade. Qualquer
iniciativa política ou social que seja empreendida no âmbito
nacional ou no internacional deverá ter em conta essa realidade adversa.
23/Mar/05
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2005/mar05/050323/edito.php
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