Declaração de intelectuais mexicanos às vésperas da
Cimeira de Guadalajara
Em defesa de Cuba
por intelectuais mexicanos
[*]
Ao repertório de agressões dos Estados contra Cuba soma-se agora,
com todo o cinismo e em violação de todas as normas
estabelecidas do direito internacional, o propósito de derrubar o
governo constituído: numa mudança de linguagem, George W. Bush
apela à mudança acelerada de regime. Esta seria a suposta
culminação do conjunto de medidas que George W. Bush aprovou como
recomendações da chamada Comissão para a Assistência
a uma Cuba Livre. Com essa decisão o presidente dos Estados Unidos
decreta disposições cruéis que dificultam ao extremo, ou
impedem em muitos casos, o contacto dos cubanos-estadunidenses com suas
famílias na ilha, acrescentado além disso novas
privações ao povo cubano ao impor ainda mais obstáculos ao
fluxo de remessas enviadas por aquelas. Ao mesmo tempo, reduz quase a zero o
direito dos estadunidenses de viajarem a Cuba e o já muito limitado
intercâmbio entre académicos, artistas e cidadãos dos dois
países.
O documento da referida Comissão enfatiza a atitude mantida pela actual
administração estadunidense para com Cuba numa réplica da
retórica utilizada antes da invasão do Iraque. Propõe-se
derrubar o regime legítimo emanado da revolução cubana,
fundado em instituições sustentadas na consulta popular, para
substituí-lo por um governo títere destinado a implantar
à maneira do Iraque a democracia estadunidense e o livre mercado.
Bush anunciou com uma penada que quebrará a vontade esmagadora dos
cubanos destruindo um projecto político e social nascido das
raízes mais profundas da sua história. Ignora que a
revolução cubana de 1959 é a continuação do
programa anti-imperialista, democrático e de libertação
nacional de José Martí, gestado nas lutas emancipadoras e o
trabalho intelectual do povo de Cuba desde princípios do século
XIX.
Os Estados Unidos prepararam o clima político para a
adopção destas medidas com a imposição de uma
resolução anti-cubana na Comissão de Direitos Humanos da
ONU, que conseguiu graças à cumplicidade dos seus aliados
europeus e do servilismo de governos da América Latina como os do Peru,
Chile e México. Unido a isto, as calúnias de funcionários
estadunidenses dentre outras, a de que Havana patrocina o terrorismo ou
possui programas de armas biológicas indicam claramente que
Washington está a montar o clima propagandístico adequado para
uma eventual intervenção militar directa contra Cuba.
A ameaça de agressão contra qualquer povo da Terra merece o mais
enérgico repúdio. Mas no caso de Cuba há agravantes. O
seu sistema social e político constitui a alternativa mais completa
conseguida até hoje por uma nação à ordem
imperialista de exploração, depredação
ecológica e saque imposto ao mundo pelo punhado de Estados que hoje
compõem o chamado G-7. Cuba cometeu a heresia de rebelar-se contra essa
ordem e contra a sua liderança em Washington, demonstrando quanto se
pode fazer pela dignidade e pela realização plena dos seres
humanos mesmo frente à hostilidade, ao bloqueio económico e
à prática sistemática do terrorismo de Estado durante
quase meio século por parte dos Estados Unidos. Estas políticas
custaram a vida de 3748 cubanos, custaram a incapacidade permanente a 2099 e
provocaram danos à sua economia no montante de 54 mil milhões de
dólares, mas não puderam impedir o êxito do seu projecto
libertador.
Como afirmámos em outras ocasiões, Cuba constitui, na
história universal, o expoente mais avançado na prática da
democracia, na prática da libertação e na prática
do socialismo. Seus êxitos estão sustentados em dados
sólidos que podem ser comprovados por qualquer pessoa honesta,
independentemente da sua ideologia, crenças ou valores. Esta é a
razão que dela faz, ressalvando as diferenças culturais e
nacionais, o referente universal do outro mundo possível e
necessário que tantas vozes reclamam. Isto explica por si só a
intenção de Bush de impedir o seu exemplo.
Contra este desígnio deve afirmar-se a solidariedade internacional mais
resoluta, especialmente a do povo e dos intelectuais dos Estados Unidos e a
não menos importante dos seus pares europeus. A partir do México
conclamamos a exercê-la com a generosidade de que se fez credor o povo
cubano pelo seu heroísmo e esforço.
México, D.F., 28 de Maio de 2004
Pelo grupo Paz con Democracia e pela Red Internacional En Defensa de la
Humanidad (Capítulo México)
[*]
Miguel Álvarez, Juan Bañuelos, Guillermo Briseño, Alicia
Castellanos, Miguel Concha, Carlos Fazio, Víctor Flores Olea, Magdalena
Gómez, Pablo González Casanova, Oscar González, Dolores
González, Luis Hernández Navarro, Héctor
Díaz-Polanco, Horacio Labastida, Nayar López Castellanos,
Gilberto López y Rivas, Manuel Pérez Rocha, John
Saxe-Fernández
A "Declaração do Governo Revolucionário de Cuba"
na III Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e
Caribe e da União Europeia, realizada em Guadalajara, encontra-se em
http://www.granma.cubaweb.cu/2004/05/29/interna/articulo05.html
Esta declaração encontra-se em
http://resistir.info
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