Em meio a críticas crescentes, tanto internas como internacionais,
contra a sua política no Iraque, o presidente Bush tornou
pública, no passado 20 de Junho de 2005, uma declaração
para dissipar a impressão de que os EUA estavam a ceder no Iraque:
Estamos a fazer progressos em direcção ao objectivo no
Iraque, que é, por um lado, um processo político que está
a avançar e, por outro, que os iraquianos sejam capazes de se defender a
si próprios. Também desta vez não deu qualquer
indicação sobre o calendário da retirada das tropas
estadunidenses do Iraque, tendo apenas afirmado que o Iraque o preocupava.
Penso no Iraque todos os dias, todos e cada um dos dias.
Um estudo minucioso das declarações de Bush, sobre o processo
político e a situação da segurança no Iraque,
parece contradizer a realidade no terreno. Até ao momento, a
Administração Bush tem sido incapaz de atingir qualquer dos
objectivos que se propôs antes da invasão do Iraque, ou no
período subsequente ao colapso do governo iraquiano.
O fracasso de não encontrar armas de destruição
maciça, que se apresentou como uma das principais razões para
empreender a guerra, arruinou a credibilidade estadunidense em todo o mundo.
Tal como o completo fracasso da segurança aos poços de
petróleo e oleodutos significou que a Administração tem
sido incapaz de cumprir a sua promessa perante as companhias
petrolíferas estadunidenses. Isto levou, rapidamente, Bush a modificar
os seus objectivos iniciais e a anunciar planos para democratizar o Iraque.
Isto permitiu à Administração algum tempo para respirar,
mas o aumento da resistência depois das eleições (30 de
Janeiro) acabou com a visão de Bush de um Iraque democrático. A
insegurança é galopante, a resistência está fora de
controlo e, tanto as forças as estadunidenses como as iraquianas
não estão preparadas, nem equipadas, para impor a sua autoridade
no Iraque.
SEM OBJECTIVOS NO IRAQUE
Hoje, os Estados Unidos de Bush encontram-se cada vez mais isolados, carentes
de qualquer objectivo crítico, desesperados por forjar qualquer
notícia que o ajude a perpetuar a mentira de que o Iraque está a
estabilizar e a democracia a criar raízes. Os estadunidenses decidiram
que já chega e começaram a expressar a sua discordância com
a maneira como Bush está a actuar no Iraque.
Uma recente sondagem do
The Washington Post-ABC News
mostrava que, pela primeira vez desde que começou a guerra, mais de
metade da opinião pública acredita que a invasão
estadunidense do Iraque não tornou os EUA mais seguros, e quase 40%
descreve a situação presente como análoga à da
guerra do Vietnam. O permanente gotejar de notícias negativas
sobre o Iraque está a minar, significativamente, o apoio às
operações militares dos EUA, afirmava Andy Kohout, director
de
Pew Research Centre for the People & Press.
Esta sondagem também revelou que apenas uns sem precedentes 46% da
opinião pública era favorável à retirada do
Iraque. Os políticos estadunidenses que fazem eco destas
preocupações também expressam o seu apoio à
retirada das forças estadunidenses do Iraque. Segundo uma sondagem da
Gallup,
cerca de 72% dos democratas, 65% de independentes e 41% dos republicanos
estão a favor de uma retirada completa ou parcial.
Mas a prova mais condenatória, que menospreza as insufladas
projecções de Bush sobre o Iraque, vem dos próprios
militares estadunidenses. Desde Julho de 2003 que o exército
norte-americano perdeu o predomínio no Iraque e ainda não
recuperou para esta situação. Esta é a
conclusão de um relatório elaborado pelo major Isaiah Wilson, o
historiador oficial do Exército norte-americano sobre a guerra do
Iraque. Além disso, o relatório é muito crítico
tanto com a liderança civil, como com os planificadores da guerra que
trabalharam debaixo da sua supervisão. O relatório afirma:
Os planificadores da guerra, os peritos e a liderança civil
estadunidense conceberam a guerra de uma forma excessivamente limitada. [...]
Esta concepção demasiado simplista da guerra levou a um
debilitamento em cadeia do esforço de guerra: demasiado poucos
soldados; demasiado pouca a coordenação com entidades civis,
governamentais e não governamentais; e um prazo de tempo demasiado curto
para ter êxito.
Até agora, o exército não avalizou este relatório
como versão oficial da história das suas forças armadas no
Iraque.
ROMPER FILEIRAS
Abstendo-se de confirmar as más notícias, especialmente as que
minam a política Bush, tem sido o traço distintivo da
Administração. Qualquer pessoa que se oponha à
visão apresentada pela Administração Bush ou é
isolado, ou é forçado a uma aposentação como
dirigente civil do Exército. Em 2003, o ex-chefe de pessoal do
Exército, Erik Shinseiki, calculou que, para uma força de
ocupação posterior à guerra, possivelmente eram
necessárias várias centenas de milhares de soldados. Não
muito tempo depois de fazer estas observações, Sinseiki foi
obrigado a reformar-se. Outro general do Exército, Jonh Riggs, foi
obrigado a reformar-se, com baixa de posto e perda de uma estrela, porque
contradisse publicamente Rumsfeld, ao afirmar que o Exército já
não dava conta de si no Iraque e Afeganistão, pelo que eram
necessários mais soldados. Outros estão à espera de ser
reformados, para desmascararem Rumsfeld, sendo o mais destacado deles o general
do Corpo de Marines, Anthony Zinni.
Recentemente, vários oficiais decidiram romper a unidade com
a Administração Bush e expressaram as suas próprias
preocupações sobre vários aspectos das
operações militares no Iraque. A 1 de Junho de 2005, o
comandante da Reserva do Exército dos EUA, o tenente general James
Helmly, afirmou num relatório reservado, que a Reserva do
Exército dos EUA está a degenerar rapidamente para uma
força desfeita. Afirmou igualmente, que a Reserva chegou a
um ponto em que não pode cumprir as suas missões no Iraque e no
Afeganistão. A Reserva do Exército é uma força de
200 mil homens e mulheres, a tempo parcial, que escolhem não entrar para
o serviço activo, mas que podem ser chamados em caso de necessidade.
Calcula-se que os reservistas sejam cerca de 40% das tropas no Iraque.
O futuro do Exército de Reserva agrava-se pelo facto de o número
de recrutamentos estar abaixo dos objectivos
[1]
. A 3 de Junho de 2005, num artigo intitulado O Exército
estadunidense tem dificuldades em fazer recrutamentos no meio da guerra do
Iraque, publicado pela Reuters, afirmava-se: Pela primeira vez em
quase cinco anos, no passado mês de Fevereiro, o Exército
não alcançou os seus objectivos mensais de recrutamento. Pela
primeira vez desde 1999, corre-se o risco de não atingir os objectivos
anuais de recrutamento. Comentando este défice, o analista da
Defesa, Loren Thompson, do Instituto Lexington, afirmava que se deu uma
deslocação dos recrutamentos das forças terrestres para
serviços que parecem menos perigosos no Iraque, a Marinha e a
Força Aérea: Há um ponto essencial no debate sobre o
recrutamento: as pessoas não querem morrer, afirmou Thompson.
DIVERGÊNCIAS SOBRE A RESISTÊNCIA
Também estão a surgir versões diferentes entre o governo
dos EUA e o Exército, sobre a actuação da
resistência iraquiana. A Administração Bush sempre
minimizou a resistência iraquiana, considerando-a, com
displicência, como actos levados a cabo por uma minoria desesperada, que
se opõe à liberdade e à democracia. Em contrapartida, a
valorização que o Exército faz da resistência parece
ser mais exacta.
Em Maio de 2005,
The New York Times
entrevistou o tenente-coronel Frederick P Wellman, que trabalha com o
destacamento especial que supervisiona o treino das forças de
segurança iraquianas. Wellman afirmou que a resistência
não parece necessitar de novos recrutamentos, é uma força
alimentada por membros tribais que procuram a vingança pelos seus
familiares mortos em combate. Não podemos matá-los a
todos, afirmou Wellman. Quando mato um crio três
[insurrectos]. O general George W Casey, o mais graduado militar dos EUA
no Iraque, expressou-se de modo idêntico, e qualificou os esforços
do Exército de "Ideia infantil" (Pillsbury Doughbo
Idea): ao pressionar a resistência numa única zona, a
única coisa que se consegue é que ela surja noutra zona. Deu-se
uma interessante mudança na posição de Casey, já
que em 9 de Março tinha afirmado que ...o nível de ataques,
o nível de violência desceu significativamente desde as
eleições [iraquianas]. A 30 de Maio de 2005 o general
Meyers admitiu que tinha aumentado o nível de letalidade dos
ataques da resistência
[2]
.
As afirmações do Exército estão apoiadas pelas
estatísticas. Os dados recolhidos pelo
Brookings Institute
apoiam a afirmação do Exército de que o Iraque
está cada vez mais caótico e mortal. Por exemplo, em Maio de
2005, o número médio de soldados estadunidenses mortos ou feridos
no Iraque eram, respectivamente, de 77 e 616 por mês
[3]
. Há um ano os números eram de 42 e 584. Então havia uma
média de 52 ataques da resistência, em Maio de 2005 eram de 70 por
dia.
As tensões crescentes entre a Administração Bush e os
altos comandos militares induziram o Exército a deixar escapar
notícias sobre os maus tratos aos prisioneiros de Guantánamo e
outras prisões. A notícia da
Newsweek
sobre a profanação do Corão escapou intencionalmente,
para o Exército se fazer ouvir. Inclusivamente, quando a Casa Branca
pressionava a
Newsweek
para que se retractasse, o Pentágono pôs a Casa Branca numa
situação embaraçosa, ao entregar aos meios de
comunicação uma informação que catalogava
vários incidentes relativos ao Corão como abusos sobre os presos.
RECONHECER QUE ESTÁ PIOR
Como consequência destas crescentes pressões, a
Administração Bush viu-se obrigada a reconhecer que a
situação no Iraque piorou. A 14 de Junho de 2005, numa
entrevista na BBC, o jornalista perguntou a Rumsfeld se a
situação de segurança no Iraque tinha melhorado e este
respondeu: ...estatisticamente, não. Nesse mesmo dia,
Cheney, também reconheceu que o Iraque tinha suspendido a capacidade dos
EUA para fazer guerras em qualquer parte do mundo. Contudo, apesar de
reconhecer tudo isto, a Administração Bush continua reticente em
admitir, e reconhecer em público, que os EUA foram derrotados no Iraque
e que devem retirar-se da zona de guerra.
Isto significa que vão continuar as tensões entre os comandos do
Exército estadunidense e a Administração Bush,
especialmente porque as operações militares não conseguem
controlar a resistência, ou melhorar a segurança no Iraque.
Agora, a Administração Bush está perante duas
opções, ou volta a instaurar o recrutamento obrigatório ou
retira-se do Iraque. Ambas as opções são humilhantes para
Bush, mas só uma delas salvará o Exército estadunidense de
um maior banho de sangue, e esse é a retirada do Iraque.
Isto deve-se ao facto de os EUA não estarem preparados, nem equipados
para lutar em guerras assimétricas. A máquina militar
estadunidense orgulha-se de dispor de uma força esmagadoramente superior
à do inimigo. Mas, contra lutadores assentes no apoio popular, estas
tácticas não dão resultados tangíveis. Melhor,
só servem para distanciar a população das forças de
ocupação. Na batalha de Faluja, os EUA utilizaram a maior
concentração de arsenal convencional desde a Segunda Guerra
Mundial, mas não conseguiram acabar com a resistência. Batalhas
semelhantes aconteceram noutros lugares do Iraque e os resultados foram
decepcionantes. Os comandos militares sabem que o Exército não
pode continuar a agir assim, e confiam que a Casa Branca os tire do atoleiro.
O problema é que Bush também esgotou as suas
soluções políticas e tem agora um futuro incerto pela
frente.
Uma coisa é certa, enquanto os EUA não conseguiram voltar os
iraquianos contra a resistência, esta sim, conseguiu voltar a
opinião pública e os militares contra a
Administração Bush.
Notas:
(1) Ver em Iraqsolidariedad:
Mark Benjamin: La guerra de Iraq consume al Ejército estadunidense
(2) Segundo o
New York Times
de 23 de Junho, o aumento de baixas norte-americanas em combate deve-se ao
aperfeiçoamento por parte da resistência dos chamados
artefactos explosivos de fabricação manual que
são colocados nas estradas e valetas, e que são accionados
à passagem dos combóios de viaturas. Em Maio, o Pentágono
contabilizou cerca de 700 destes ataques.
(3) Com uma média de 2,5 mortos por dia em combate, o mês de Maio
de 2005 é o de maior número de baixas dos EUA.
[*]
Analista político da
Al Jazeerah
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=17299
Tradução de José Paulo Gascão.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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