1.ª Conferência de Solidariedade com a Resistência do Povo
Iraquiano
«Tiraram-nos tudo, já não temos nada a perder!»
Entrevista de Silas Cerqueira
[*]
conduzida por Hugo Janeiro, do Avante!
Avante!: Como é que surgiu a ideia de reunir a 1.ª
Conferência Internacional de Solidariedade com a Resistência do
Povo Iraquiano?
Silas Cerqueira: O encontro foi dinamizado por um conjunto de intelectuais e
sindicalistas anti-imperialistas de França, Espanha, Itália e
patriotas iraquianos de forma quase expontânea, mas que correspondia
à necessidade de apelar à solidariedade democrática
internacional com todas as forças empenhadas na resistência
à ocupação americana.
Antes da Conferência, o Comité organizador, no qual estavam
personalidades como o intelectual iraquiano Subhi Toma ou o filósofo
francês Georges Labica, recebeu um milhar de adesões e mensagens
de personalidades e organizações progressistas incluindo partidos
comunistas, entre os quais o PCP.
Participaram, entre outros, a Federação Geral de Sindicatos da
Síria, Partidos comunistas como o de Cuba ou a Refundação
Italiana, numerosos movimentos e organizações da Europa, da
América Latina, de África, etc.
Enviaram mensagens personalidades como o ex-presidente argelino, Ben Bella, o
general Vasco Gonçalves e muitas mais.
Foi importante a presença dos iraquianos, com destaque para o presidente
da Aliança Patriótica Iraquiana (API), Jabbar Al Kubeissi.
Acabado de regressar de Bagdad e Fallujah, fez uma intervenção
de fundo e contou o que tinha vivido nessas cidades.
Foi então possível fazer o balanço do que se passa no
terreno e ouvir alguns testemunhos?
Sim, eles fizeram-nos o ponto da situação e relataram a
solidariedade das populações com aquela luta heróica, por
exemplo em Fallujah e Nadjaf, cidades a que as pessoas voltavam para ajudar a
resistência com comida, mantimentos, munições.
Isto é, a resistência não se reduz a um grupo de
sobreviventes do antigo regime como inicialmente foi propagandeado. Claro que
há forças próximas de Saddam Hussein que até
reivindicam a sua libertação, mas sobretudo existe uma
resistência de massas, popular, com grande variedade de credos,
tendências, e afirma-se na prática uma convergência destas
forças. A API procura promover a sua unidade.
Jabbar Al Kubeissi referiu ainda que americanos e ingleses fazem tudo para
fomentar a divisão com base nas diferenças ideológicas,
religiosas ou mesmo clânicas, recorrendo a tal ou tal chefe religioso.
Não têm tido sucesso. Pelo contrário, quanto à
divisão em que apostavam muito, entre sunitas e xiitas, na
prática tem sido a agressão, a repressão, os
bombardeamentos, os assassinatos a aproximar e a fazer convergir as correntes
patrióticas iraquianas.
Falaste em repressão, em assassinatos, houve alguma
comunicação na Conferência que tenha abordado a
questão da tortura e das sevícias aos prisioneiros iraquianos?
Na altura foi-nos dito que a repressão, as torturas, os crimes e a
liquidação de presos não são
excepções, produto de uma minoria não representativa, como
se quer fazer crer. Antes, são regras de um sistema preparado e estudado
para esse efeito pelos serviços de informação e altos
comandos das Forças Armadas Americanas, como já o fizeram no
Vietname e noutros lados! Aliás, a imprensa dos EUA confirma-o.
Disseram-nos também que existem dezenas de milhares de presos em todo o
país, não só na prisão de Abu Ghraib, incluindo
mulheres detidas por represália quando as forças de
ocupação não conseguem deter os maridos resistentes.
Isto leva-me a outra questão que tem relevância.
Perante a Conferência, o presidente da API sublinhou dois aspectos. Por
um lado, apesar da enorme superioridade do dispositivo militar e da brutalidade
fascista da ocupação, a total determinação e
confiança na vitória e na libertação do Iraque.
Mas, por outro, a extrema dureza e dificuldade da luta, cujas
condições não há que idealizar. Quer dizer,
não se perspectiva uma saída a curto prazo de tão
trágica situação, o que de alguma forma permite avaliar o
actual estado de coisas.
E noutros aspectos da ocupação, como é que ela se processa
e condiciona o quotidiano das populações?
A ocupação é totalmente militar e violentamente
antipopular. Isso traduz-se não só na acção
quotidiana de dezenas de milhares de militares estrangeiros, mas também
no facto de as forças ocupantes estarem instaladas em áreas
fortificadas.
Fora dessas zonas militares a situação é caótica,
porque os americanos desmantelaram os sistemas sócio-político e
económico preexistentes, tornando a vida dos iraquianos extremamente
difícil.
Já em áreas onde a resistência tomou controle da
situação, foi imediatamente visível a
diminuição da desordem pública, confirmando que no seio do
povo iraquiano não existe perigo de guerra civil. De facto o seu
principal instigador são as forças da ocupação
imperialista.
Esses factores contribuíram para que o povo se lançasse na
resistência?
O povo iraquiano nunca esteve disponível para dar as boas vindas aos
invasores imperialistas. Foi um dos erros dos norte-americanos, pensarem que
dada a natureza ditatorial do anterior regime, dados os mais de dez anos de
bloqueio económico que eles próprios tinham imposto com
perdas de vidas difíceis de calcular, um recuo na esperança
média de vida, mortes nos hospitais sobretudo de crianças por
falta de medicamentos agora seriam bem recebidos pelas
populações. O imperialismo comete um erro crasso quando subestima
os povos.
Ao contrário do que vimos nas televisões em imagens fabricadas,
os iraquianos nunca estiveram disponíveis para lhes darem as boas
vindas. A força da resistência popular surpreendeu todos, mesmo
aqueles que, como nós, sempre nos manifestámos contra a guerra e
a invasão.
A resistência desenvolveu-se rapidamente e conseguiu infligir derrotas
locais aos ocupantes, obrigando-os a aceitar, em algumas cidades,
soluções de compromisso, a recuar, embora em palavras, porque os
objectivos estratégicos de controlo do Iraque e da região, de
exploração dos recursos e da mão-de-obra, da
dominação imperialista naquela área, mantêm-se
integralmente. Viram-se obrigados a usar uma outra linguagem, uma outra
táctica.
Quem é que são as forças que compõem a
resistência?
Segundo Jabbar Al Kubeissi, convergem na resistência iraquiana elementos
do antigo Partido Baas, primeira força organizada, e numerosas outras
correntes ou partidos, uns de inspiração islâmica, outros
nasserianos, e os comunistas patriotas do PCI Cadre, que romperam
com a antiga direcção colaboracionista.
A resistência tem como prioridades estratégicas reforçar
uma frente política comum unificada pelo fim da ocupação e
a retirada imediata dos invasores, a formação de um governo
provisório com todas as tendências e a elaboração de
uma Constituição democrática provisória.
Há pouco referiste as difíceis condições de vida.
Na Conferência foram revelados indicadores nesse âmbito?
A Conferência concentrou-se sobretudo no campo da solidariedade
política internacional com a resistência, porque as
questões humanitárias têm sido focadas.
A ideia central foi a de que existe no Iraque uma forte resistência
popular, de massas que importa apoiar contra a
ocupação e a pilhagem imperialistas. Com a solidariedade dos
outros povos, o Iraque pode vir a ganhar esta dificílima batalha.
Aliás, a concluir a sua intervenção, o representante da
API disse que «nós lutamos também por vós», ou
seja, a resistência no Iraque é também uma luta pelos
outros povos, em primeiro lugar o povo palestiniano, e todos os que resistem ao
imperialismo.
Os iraquianos estão agora na linha da frente em condições
que por vezes temos dificuldade em compreender plenamente. Como eles dizem,
«tiraram-nos tudo, já não temos nada a perder!».
Segundo afirmam, não lhes faltam homens, combatentes, armas, o que lhes
falta é solidariedade internacional, desde logo ao nível de
certos Estados árabes comprometidos com o imperialismo. As massas
árabes, pelo contrário, estão solidárias.
Daí o apelo da Conferência à solidariedade
democrática internacional com a resistência iraquiana.
Foi elaborado um programa de acção que prevê transformar o
leque de adesões à Conferência num fórum
internacional.
Aprovou-se a constituição, em cada país, de um
comité de solidariedade e, a partir daí, a
realização de iniciativas nacionais e internacionais até
à 2.ª Conferência.
Não é mais possível avaliar o presente e o futuro do
Iraque, encontrar uma saída para aquela tragédia, sem ter em
conta o papel determinante e fundamental da resistência iraquiana.
Assistimos a um repúdio mundial contra a guerra e a
ocupação do Iraque. Na tua perspectiva o que é que
há de novo na luta pela paz no mundo?
No essencial, afirmam-se duas tendências contraditórias.
Por um lado, raramente se viram manifestações de massas populares
tão fortes, de dezenas de milhões de pessoas contra a guerra e as
agressões imperialistas. Mas, por outro, raramente os perigos foram
tão graves, eu diria mesmo gravíssimos, como se vê no
Iraque, na Palestina, nas ameaças contra o Irão, a Síria,
a Coreia do Norte, Cuba, a Venezuela.
Desde o derrube da URSS e de outros Estados socialistas e anti-imperialistas,
acabou na prática das relações internacionais, no plano da
correlação de forças, a coexistência pacífica.
Note-se que o papel da China na Ásia e no mundo, e a resistência
de outros Estados de orientação socialista e anti-imperialista,
as aspirações de paz e a luta das massas populares, impedem o
imperialismo, americano e europeu, de agir a seu belo prazer. Contudo
não chega!
Para obrigar o imperialismo a recuar na sua actual política
sistemática e declarada de guerra e repartilha geo-económica do
mundo, de guerras ditas «antecipativas» e «preventivas»,
impor-se-ão como necessidades objectivas, transformações
profundas, revoluções democráticas, de
libertação nacional, socialistas, em numerosos países,
tanto no Ocidente como no chamado «Terceiro Mundo».
Caso contrário, suceder-se-iam guerras de agressão cada vez mais
perigosas, inclusivamente inter-imperialistas com potencial recurso a armas
nucleares, que Bush prepara intensamente.
Tal é inaceitável! Sem qualquer dúvida, não
conseguirão o imperialismo e a guerra pôr em causa a
sobrevivência da humanidade! Terão que ser a classe
operária, as forças democráticas e os povos a acabarem com
tão horrenda ameaça e flagelo.
Mas a geo-economia da guerra é muito forte. Uma das razões para a
manutenção das agressões é precisamente
económica, a crise da «globalização» do capital.
Sim! Na sequência das três recentes guerras contra a
Jugoslávia em 1999, o Afeganistão desde 2001 e o Iraque desde
2003 a militarização da economia dos EUA acelerou-se a um
ritmo só comparável ao do período da guerra do Vietname.
Segundo o anuário do Instituto de Estocolmo para as Pesquisas para a Paz
(SIPRI), as despesas militares mundiais em 2003 atingiram os 956 mil
milhões de dólares, dos quais 47 por cento gastos pelos EUA,
inclusive em armas de destruição maciça.
Ainda de acordo com dados oficiais recentes, esta tendência agravou-se em
2003-2004, com cerca de 190 mil milhões de dólares adicionais
para as
guerras do Iraque e Afeganistão.
Tal traduz-se em fabulosas encomendas para grandes monopólios
armamentistas, como a Lockheed Martin, Boeing, Northport Grunam, sendo o grupo
Carlyle um dos intermediários.
Portanto, a reanimação económica americana,
indispensável à reeleição de Bush, está-se a
processar através de um enorme estímulo no orçamento
militar, comprimindo o investimento social e produtivo por via de um perigoso
aventureirismo bélico no Iraque, no Médio Oriente e noutras
áreas do globo.
Só que o défice orçamental norte-americano ronda os 520 mil
milhões de dólares; o da balança comercial anda na ordem
dos 500 mil milhões e o défice externo das operações
correntes nos mesmos valores; a dívida nacional contabiliza-se na casa
dos triliões.
A presente retoma económica nos EUA arrisca-se, pois, a ser de curto
prazo. Ainda mais se a resistência iraquiana conseguir, como até
aqui, prejudicar ou privar o imperialismo yankee do seu objectivo
estratégico de auferir sem obstáculos dos milhões de
barris de petróleo diário com que contava.
Também por isso os EUA voltaram-se agora para uma mudança de
táctica com recurso à ONU?
A vergonhosa Resolução do Conselho de Segurança, de 8 de
Junho, sobre o Iraque proclama em palavras o fim do «Conselho de
Governo» colaboracionista e da Autoridade Provisória da
«coligação». Transforma esta em «forças
multinacionais», sob comando dos EUA, que continuarão a ocupar o
Iraque «a pedido» de um Governo Provisório
«soberano», a instalar no fim do corrente mês de Junho!
Esta é a Resolução que Bush pretendia para
«legitimar» a sua política de guerra e ser reeleito.
Daí as aparentes «concessões» tácticas que fez,
mantendo plenamente a estratégia de dominação imperialista
com Israel ao seu serviço de um «grande Médio
Oriente».
Apesar da votação unânime no Conselho de Segurança
de uma Resolução que viola a Carta das Nações
Unidas, nem as contradições inter-imperialistas foram superadas
contradições de interesses, não de
princípios nem o povo iraquiano vê assegurados os seus
direitos à paz, à liberdade, à soberania, a uma vida
melhor, pelo contrário.
A «força multinacional» de cerca de 140 mil americanos, 40 mil
mercenários ocidentais, 15 mil britânicos, e por aí fora,
é anunciada como fundamental para assegurar uma série de actos
«eleitorais» e institucionais até 2005. Após o que, um
Governo iraquiano «soberano» teria, no plano jurídico formal,
o direito de «convidar» bilateralmente os EUA a continuarem
económica e militarmente no País.
É preciso dizer que, a par da pilhagem do petróleo, os EUA
já estão a construir no Iraque uma Embaixada de enormes
proporções e várias bases militares.
Compreende-se assim que, perante esta Resolução ilegítima
que desacredita a ONU, a luta da resistência iraquiana não
só não tenha diminuído como se tenha intensificado
diariamente.
Também por isso é renovado o apelo à solidariedade
democrática a nível internacional.
Povo do Iraque na garganta do imperialismo,
noticiava o Avante! em 1972
A par de uma carreira docente e de pesquisa que actualmente prossegue
como professor e investigador no Centro de Estudos Africanos da Universidade do
Porto o camarada Silas Cerqueira mantêm, há mais de
cinquenta anos, uma intervenção activa no movimento mundial pela
paz e a solidariedade internacionalista, dinâmica que o levou a
participar, em 17 e 18 de Agosto de 1972, em Bagdad, num encontro cujo
âmbito procurava expressar igual solidariedade com o povo de um
país que acabara de nacionalizar o seu recurso mais precioso, o
petróleo.
À época, este militante comunista enviou para o Avante! um artigo
que ajuda a compreender uma das razões pelas quais o povo do Iraque
é, desde há muito tempo e apesar da ditadura de Saddam e do seu
colaboracionismo táctico com os norte-americanos durante a guerra fria,
uma espinha cravada na garganta do imperialismo.
O texto abaixo reproduzido, publicado na edição de Outubro desse
ano, é também um trecho da história do nosso tempo que a
história manipulada insiste em branquear, nomeadamente na
transmissão dos factos que originaram o choque petrolífero do
início da década de setenta.
Realizou-se em 17 e 18 de Agosto, em Bagdad, uma Conferência de
Solidariedade com o Povo do Iraque na Nacionalização do
Petróleo.
Esta Nacionalização constitui uma grande derrota dos manejos do
Iraque Petroleum Company que, ainda recentemente, juntamente com as suas
filiais Mosul Petroleum e Basrah Petroleum, era dona dessa riqueza do
país.
Estas grandes companhias procuram agora impedir a compra do petróleo
iraquiano, principal fonte de abastecimento também de Portugal.
A Conferência convocada conjuntamente pelo Conselho Mundial da Paz, a
Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos e o
Conselho Nacional para a Paz e a Solidariedade no Iraque, aprovou uma
declaração política e um programa de acção,
dando particular realce ao direito dos povos às suas riquezas nacionais.
A esta Conferência assistiram delegados de 45 países,
representando cem organizações internacionais. Entre eles
encontrava-se um representante do Comité da Paz Português, que
falou em nome da organização.
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[*]
Silas Cerqueira participou na
Conferência Internacional de Solidariedade com a Resistência do Povo Iraquiano
, realizada em Paris em 15 de Maio de 2004, como representante da
Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos.
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=5789&area=19
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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