Iraque: Tortura não é aberração excepcional
por Praful Bidwai
A depravação exibida pelas forças de
ocupação do Iraque ao infligir formas nauseabundas de tortura
sexual sobre prisioneiros nas celas de Abu Ghraib chocou o mundo. Como se as
histórias de detidos mantidos em células de 1 m x 1m sem
água nem toaletes e fotos de "pirâmides" de homens e
mulheres nus não fossem bastante repulsivas, surgiram
revelações ainda mais doentias, incluindo fotos de soldados
americanos a lançarem cães pastores alemães sobre um
aterrorizado iraquiano nu, provocando ferimentos graves.
Igualmente degradante é a foto de um prisioneiro nu atado a
uma correia para cães e a ser arrastado por uma mulher soldado. O
próprio secretário da Defesa Rumsfeld afirma que
revelações ainda "mais terríveis" se
seguirão.
Está a tornar-se evidente que o abuso sexual não era o trabalho
de vagabundos a actuarem por conta própria. Nem tão pouco que
tais práticas estivessem restritas a Abu Ghraib. De acordo com todos os
relatos, as tropas americanas têm estado a torturar prisioneiros iraquianos de
forma rotineira. Não se pode lançar as culpas sobre "umas
poucas maçãs podres".
Os torturadores não eram exactamente "maçãs
podres" ou "canalhas". Ao contrário, estavam a actuar
sob as ordens da inteligência militar americana a fim de
"quebrar" prisioneiros e extorquir informação. A
autorização, revela
The New Yorker
e
The Washington Post
, era semelhante à permissão concedida em Abril do ano passado
para as técnicas de interrogatório coercivo utilizadas na
Base de Guantanamo, que incluíam reverter os padrões
normais de sono dos detidos e a exposição dos mesmos ao calor,
frio e "assalto sensorial". A lista classificada com cerca de 20 de
tais técnicas foi aprovada ao mais alto nível.
A prova definitiva de que o Pentágono estava consciente da tortura e
ainda assim recusava-se a actuar veio do Comité Internacional da Cruz
Vermelha (CICV), o qual dificilmente pode ser acusado de viés
anti-americano. O CICV efectuou 29 visitas a 14 centros de
detenção no período Março-Outubro de 2003. Sua
evidência da tortura "ia além de casos excepcionais e pode
ser considerada uma prática tolerada pelas" forças
americanas. O CICV "solicitou repetidamente às autoridades
americanas que tomassem acção correctiva. Isto foi ignorado ao
longo de nove meses.
A não actuação dos EUA deteriorou a credibilidade de
Washington irreversivelmente globalmente, não apenas no
"mundo árabe" ou no "mundo muçulmano", como
os media ocidentais muitas vezes enfatizam. O secretário da Defesa
Rumsfeld desculpou-se a assumiu "responsabilidade" pela tortura. Do
ponto de vista de Washington, o modo mais simples de cobrir o dano seria
demiti-lo, embora isto não remediasse o erro sistémico. Mas o
gabinete Bush parece ter-se unido em torno dele. O vice-presidente Cheney
descreveu-o como "o melhor secretário da Defesa que os EUA
já tiveram" !
A humilhação sexual dos prisioneiros iraquianos está
estreitamente relacionada com a natureza da ocupação do Iraque.
Uma excelente reportagem em
The Guardian
, citando fontes militares britânicas, revela que é "parte de
um sistema de maus tratos e degradação utilizado pelos soldados
das Special Forces que agora está a ser disseminado entre tropas
regulares e mercenários
(contractors)
". As técnicas pertencem a um sistema chamado R2I
resistência ao interrogatório.
O R2I inclui a utilização de humilhações sexuais, assim como
despir
prisioneiros um método ensinado de ambos os lados do
Atlântico para "prolongar o choque da captura". As mulheres
guardas desempenham um papel importante na humilhação de prisioneiros homens.
As
técnicas R2I incluem manter os prisioneiros nus a maior parte do tempo,
assim como encarapuçamento, privação do sono,
desorientação temporal e privação de água e
alimento.
É crucial a recente mudança de relacionamento entre
polícia militar e inteligência encontrada nas prisões do
Iraque que favorece a inteligência militar, reduzindo a polícia
militar a um papel subordinado e de apoio. O assunto tem sido complicado
pela presença de 20 mil mercenários e empregados de empreiteiros
militares como a CAC International, sobre os quais a supervisão do
Pentágono é "inconsistente e por vezes incompleta".
A tortura é inseparável do contexto mais amplo estabelecido pelo
consenso pós-11 de Setembro na administração Bush
nomeadamente que as antigas regras não se podem aplicar à
"guerra contra o terrorismo". Isto é uma forma
especial de guerra contra um desconhecido, ainda que poderoso, inimigo
omnipresente. As regras estabelecidas para travar a guerra só podem
estorvar.
Foi esta mentalidade que levou Rumsfeld a pedir reiteradamente aos seus
generais e almirantes para actuarem agressiva e brutalmente, e
"assumirem maiores riscos". Um dos seus memorandos diz: "O
nosso pré-requisito da perfeição para 'inteligência
accionável' tem-nos paralisado..." Rumsfeld quis passar ao lado do
protocolo militar. Isto reflectiu-se no seu desprezo para com o ultraje global
em relação à tortura dos prisioneiros da Base de
Guantanamo e na sua rejeição arrogante das
Convenções de Genebra. Os EUA têm resistido às
tentativas de definir o seu status como prisioneiros de guerra.
O pressuposto é que os detidos de Guantanamo e de Abu Ghraib não
merecem tratamento humano porque são sub-humanos. As normas
"civilizadas" não podem ser-lhes aplicadas. A
coerção e a tortura são "a única linguagem
que eles entendem". Isto é um modo horrendamente racista de
demonizar pessoas. Ainda assim, tal demonização está
subjacente nas punições pós-1990 aplicadas ao Iraque, as
quais levaram à morte de 1,3 milhão de pessoas, incluindo 500 mil
crianças. A então secretária Madeline Albright, de modo
vergonhoso, afirmou que "valia o preço".
O modo como os EUA e o Reino Unido têm conduzido a ocupação que
já dura há um ano é plenamente consistente com a
demonização. Mais de 10 mil civis iraquianos foram assassinados,
muitos deles indiscriminadamente, em "retaliações" de
vingança. As acções das forças de
ocupação em Faluja e Najaf já ganharam notoriedade
internacional.
Os EUA afundaram-se no pântano do Iraque, o que é pior do que a
situação de 1991. Cheney havia-a então descrito assim
para justificar uma rápida retirada do Iraque depois de a invasão
do Kuwait o ter desocupado: "Depois de conquistada Bagdad,
não é claro o que fazer. Não é claro que
espécie de governo seria posto no lugar... Que credibilidade vai ter
o governo se ele for imposto pelos militares americanos?... Penso que ter
forças militares americanas empenhadas numa guerra civil dentro do
Iraque adequar-se-ia à definição de pântano, e
não temos absolutamente nenhum desejo de ficarmos atolados desse
modo".
Os EUA enfrentam uma insurreição tanto dos sunitas do
centro-norte como dos xiitas do sul. A perspectiva parece negra. Esta
situação é da própria responsabilidade de
Washington fácil de seguir a partir das suas mentiras sobre as
armas de destruição maciça do Iraque. Eles actuaram
contra a vontade da comunidade internacional e manipularam a ONU. A
ocupação tornou-se ainda mais grotesca do que a guerra.
Os Estados Unidos estão agora desesperados por uma saída
através da mesma ONU. Uma fórmula é aquela de um governo
iraquiano "plenamente soberano" em 30 de Junho, para o qual eles
"transferirão o poder". Mas não pode haver soberania
ali enquanto a ocupação não terminar. Depois disso, os
iraquianos poderão decidir de que forças de
manutenção da paz todas árabes, conduzidas pela ONU
ou quaisquer outras precisarão para efectuar uma
transição para a democracia constitucional. A prioridade
é conseguir que as tropas EUA-RU saiam AGORA!
Nota final: É profundamente deplorável que os governos do Sul da
Ásia não se tenham pronunciado em alta voz, ao contrário
dos próprios aliados próximos dos EUA, para condenarem a tortura
de prisioneiros. O vice-primeiro-ministro da Índia chegou mesmo a
afirmar que isto é um "assunto interno" dos EUA (8 de Maio).
Uma pessoa mais civilizada deveria saber que violações brutais de
direitos humanos não são assunto "interno" de
ninguém, elas preocupam TODA a humanidade. E desde quando o Iraque
se tornou parte dos Estados Unidos da América?
O original encontra-se em
http://www.hipakistan.com/en/detail.php?newsId=en64399&F_catID=&f_type=source
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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