Sobre a Cimeira Alternativa em Atenas e os seus perigosos propósitos

por KKE [*]

Uma nova e renovada versão do fórum social, denominada "Cimeira Alternativa", está a ser preparada neste período. Está calendarizada para Atenas, entre 7 e 9 de Junho. A escolha de Atenas não é acidental. O SYRIZA irá recebê-la. O SYRIZA é o partido oportunista na Grécia, que rapidamente se está a transformar num partido social-democrata. À luz destes acontecimentos, o KKE gostaria de sublinhar algumas conclusões que retirou da sua experiência em relação à trajetória dos fóruns ao longo de todos estes anos, desta sua nova versão e colocar alguns critérios sobre qual deveria ser a posição para com eles.

A criação e os objetivos dos "fóruns sociais"

Os fóruns europeus e outros "fóruns sociais" emergiram na década posterior à contra-revolução. Foram promovidos como uma moda pelos grupos burgueses, especialmente pelas forças dissidentes do Marxismo-Leninismo, do movimento comunista e aplaudiram o derrube do socialismo. A participação de partidos comunistas nestes fóruns foi promovida e propagandeada com um objetivo particular. O surgimento de mobilizações massivas, nas quais se podiam encontrar até algumas palavras de ordem anti-capitalistas, constituíram o pretexto para o desenvolvimento destes fóruns. Mas os fóruns tentaram apagar e manipular quaisquer palavras de ordem radicais e encurralar as forças que se tinham unido numa linha para "corrigir" o capitalismo. Promoveram a exploração capitalista como uma inevitabilidade e, consequentemente, que apenas existiria um caminho para levar a cabo certas reformas. Uma melhor redistribuição social-democrata era considerada a saída, com a conhecida taxa Tobin à cabeça que, de facto, foi já hoje adotada por, pelo menos, 11 governos da UE.

Na sua época, os "fóruns sociais" tentaram ter sucesso na sua missão, em nome de social-democracia. Procuraram turvar as águas, dando-lhe um aspeto militante, quando os social-democratas, a nível internacional, estavam a tomar selvagens medidas anti-operárias, em condições de desenvolvimento dinâmico dos lucros capitalistas.

Os seus objetivos contra o movimento comunista

O KKE considerou todos os parâmetros cuidadosamente examinados na sua participação no Fórum. Participou discretamente nas grandes mobilizações, como em Génova em 2001, mas sem legitimar, com a sua presença, processos e encontros que a social-democracia e o oportunismo apresentavam como alegadamente "o movimento dos movimentos". Ao mesmo tempo expôs de uma forma substancial as questões ideológicas e a gestão das palavras de ordem que acompanharam a formação dos "fóruns sociais", baseado em critérios que os comunistas devem assumir nas suas posições perante estas matérias.

A forma como os "fóruns sociais" foram constituídos confirmam o objetivo permanente da classe burguesa e dos que a servem, que não são mais do que os que lutam contra o movimento comunista e para enfraquecer o movimento sindical de classe. Para concretizar os seus objetivos, os burgueses e os seus patrocinadores nunca recuaram quando tocava a tentativas, métodos e dinheiro para apresentar o movimento comunista como ultrapassado e o movimento operário e a atividade organizada dos trabalhadores como desvalorizados e obsoletos.

Podemos ainda relembrar as suas falsas queixas de que o movimento em cada país "está acabado", e de que a visão de que a classe operária pode tomar o poder num só país é uma visão nacionalista. A resposta do KKE a tudo isto foi, claro, a de que o único sujeito revolucionário que pode derrotar a barbaridade capitalista é a classe operária, precisamente pela sua posição no processo produtivo, porque produz toda a riqueza. O único partido revolucionário é o partido comunista, a vanguarda da classe operária, que luta em cada país numa aliança para derrubar o poder da classe burguesa.

A trajetória descendente que os "fóruns" seguiram expõe todos os que tentaram negar o papel dirigente do partido comunista e escarnecer do movimento operário organizado.

A sua trajetória descendente

A trajetória do fórum seguiu-se à falência política e ideológica dos seus slogans. Assim, rapidamente se tornou numa sucessão de eventos que foram fiascos. Estes foram encontros menores sem a participação de massas, que incluíam ONG, figuras governamentais e patrocinadores multinacionais. É significativo que o autoproclamado fórum subversivo que aconteceu recentemente na Croácia tenha tido um... conteúdo tão subversivo... que grupos monopolistas como a Peugeot e o DHL o financiaram generosamente. O "rico programa de dias europeus e globais para mobilizações", que, de vez em quando, eram esboçados nos "fóruns", acabaram na maioria das vezes por não ser implementados, enquanto que um grande conjunto de queixas dos participantes, no seu curso de dissolução e degeneração, prevaleceu nos eventos recentes.

O Partido da Esquerda Europeia procura salvar os fóruns com o objetivo de salvar o capitalismo

A "Cimeira Alternativa" foi criada com o propósito, por parte do Partido da Esquerda Europeia, de evitar este declínio.

É uma armadilha contemporânea que pretende ir além das "contra-conferências" e dos "fóruns" e transformá-los num movimento que irá propagandear um governo de gestão burguesa. Eles propõem claramente a gestão governamental burguesa como uma alegada saída, com os monopólios a permanecerem intactos, e apresentam-se como gestores responsáveis do sistema capitalista. Invocam o declínio da social-democracia tradicional, que está presentemente a tentar encontrar novas formações para a sua representação internacional, e apresentam-se a si próprios como a solução alternativa, servindo uma outra versão para a consolidação do sistema político burguês que, alegadamente, se opõe ao reforço das forças fascistas como a Aurora Dourada, afirmando que é o neoliberalismo que reforça as forças fascistas. Mas como é possível declarar-se opositor do fascismo sem se opor ao próprio sistema capitalista que gera o fascismo, mas somente a algumas versões da sua gestão?

Contrastando com a afirmação dos fóruns de que "a integração dos atores políticos – independentemente do papel que desempenham nas lutas sociais – foi mais ou menos rejeitada explicitamente" [[] ] , a Cimeira Alternativa define-se como: "…. mas também aceitamos as forças políticas que apoiam as nossas reivindicações. Personalidades que apoiam o nosso apelo são bem-vindas" [2] . Assim, parece que esquecem toda esta grande questão da "autonomia e independência dos movimentos". Não se podem dar ao luxo de deixarem fora dos painéis dos fóruns aquelas pessoas que o capital promove para uma solução governamental a favor da plutocracia.

Útil e bem-vindo pelo capital

Os fóruns sempre serviram como um "centro de exibição" para a social-democracia internacional, mas a "Cimeira Alternativa" é o "ensaio" para aqueles que procuram transformar-se em social-democracia no lugar da social-democracia. É simbólico que o SYRIZA, para o Partido da Esquerda Europeia e os outros organizadores da alegada Cimeira Alternativa, seja promovido como o modelo para a saída política. Tsipras, o líder do SYRIZA, quando falou no Encontro Geral da Federação Helénica de Empresas (FHL) foi louvado pelo presidente desta, que foi capaz de afirmar facilmente que o "radicalismo do SYRIZA é útil e bem-vindo". Então, é este o tipo de radicalismo que a Cimeira Alternativa está a tentar servir: "útil e bem-vindo" para o grande capital, capaz de atrasar o desenvolvimento de um forte movimento sindical de classe e que será preparado para prevenir qualquer mobilização que ponha em causa a classe burguesa.

Propostas para uma saída a favor do capital com um capitalismo "humanizado"

O apelo da Cimeira Alternativa abraça todas as propostas para a gestão do sistema que alimente a ilusão de que o capital pode ser controlado, que os monopólios podem ser dominados sem que se derrube o seu poder. Ao mesmo tempo, claramente afirma que a Cimeira procura "melhorar o modelo social Europeu"3, enquanto que ao mesmo tempo pode acolher várias versões, que servem os interesses de vários setores da classe burguesa em cada país...desde os hinos à UE às vozes eurocéticas e até aquelas que apoiam a saída do euro. Historicamente, os fóruns nunca deixaram de desorientar as pessoas em relação à UE como um alegado "contrapeso" da NATO.

O KKE segue um caminho diferente…

A posição consistente do KKE em relação a este tipo de "movimentos" que procuram restringir a organização da luta de classes em cada país, para a transformar nas mesas de negociação do governo, de forma a aceitar o massacre dos direitos das pessoas, equivale à recusa da participação do KKE em participar em qualquer tipo de governo de gestão, uma posição que constitui um legado para os movimentos de massas.

A consistente frente ideológico-política do KKE contra o Partido da Esquerda Europeia como um mecanismo de mutação dos Partidos Comunistas, como um centro de oportunismo europeu, está a ser confirmada pelo papel que o PEE assume no esforço de salvar da morte tais instituições de manipulação das classes trabalhadoras. O desenvolvimento da luta de classes requer que tais tentativas falhem e que estes eventos e os seus objetivos sejam rejeitados pela classe operária e os estratos populares pobres e oprimidos.

A única saída, a única solução alternativa real é o reagrupamento do movimento sindical de classe e a organização da aliança popular que trará para a vanguarda o poder da classe operária, onde o sujeito será o povo e não os monopólios. É este o caminho que o KKE está a seguir.

03/Junho/2013

1. transform-network.net/...
2. Ibid.
3. Do "Apelo por uma cimeira alternativa".


A versão em inglês encontra-se em inter.kke.gr/News/news2013/2013-05-17-alter-summit e em português em www.pelosocialismo.net

Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Jun/13