Choramingões indignos
por Jacques Sapir
Pela sua voz mais autorizada, a do presidente François Hollande, o
governo protestou contra a manifestação organizada em 8 de Junho
diante do domicílio de Myriam El Khomri, ministra do Trabalho
[1]
. Este protesto François Hollande qualificou a
manifestação de "inadmissível"
verifica-se após os protestos de Emmanuel Macron, ministro do
antigamente
(
ci-devant
)
da Economia, contra o movimento em que foi criticado e em que um ovo aterrou
sobre a sua nobre cabeleira
[2]
. Este incidente foi quase qualificado de atentado contra a democracia. E por
que não de crime de lesa-majestade? É preciso portanto reflectir
quanto ao que revela este discurso.
A política da exasperação
O discurso utilizado, quer pelo ministro ou pelo presidente, levanta um imenso
problema. Não que este género de manifestações seja
normal. Num país democrático, em tempos normais, eles não
deveriam ocorrer. Mas não estamos nem em tempos "normais", a
menor que se considere 3,5 milhões de desempregados como uma
"norma", nem tão pouco num país democrático se
se julgar pela bitola das violências policiais que têm assinalado
as últimas manifestações contra a lei El Khomri
[NT]
. E este é exactamente o problema.
O governo assumiu a responsabilidade de criar relações altamente
conflituosas com uma grande parte da população. A lei El Khomri
não é senão um dos aspectos desta situação,
mas um aspecto essencial. Para além do problema de fundo, com toda a sua
importância, o problema do método salta à vista. As
diversas sondagens confirmam que uma maioria absoluta dos franceses se
opõe a esta lei. Mas o governo não tem cura. Ele impõe
sobre este assunto e o emprego do artigo 49-3 é aqui altamente
simbólico. A ameaça de uma requisição dos
grevistas, ameaça agitada por membros do governo
[3]
, e parece que pelo presidente, em privado
[4]
, inscreve-se nesta lógica de uma utilização brutal de
todos os meios que um governo dispõe. As palavras utilizadas pelo
ministro dos Transportes são igualmente significativas e terrificantes.
Quando este ministro ousa dizer "não haverá nenhuma
tolerância em relação a actuações que
pusessem em causa a grande festa na qual a França se empenha"
[5]
, percebe-se que ele descreve uma política que se reduz ao
"pão e jogos"
(Panem et Circens)
do Império Romano decadente?
A exasperação de uma parte da população,
exasperação que se alimenta também de outros problemas,
é portanto compreensível. Ela é mesmo palpável e
isto é uma das provas da natureza
fora de si
deste governo, cristalizado nas auras da República, de que ele nem
sequer se dá conta.
Assim, ele não compreende tudo o que implica esta
exasperação, que nasce do sentimento de que um movimento
amplamente maioritário entre os franceses choca-se com o autismo, assim
como com a violência de um poder minoritário, o que é
testemunhado pelas últimas sondagens. Ele não compreende que esta
exasperação se reforça cada vez que o governo, em nome da
manutenção da ordem, uma utilização claramente
desproporcionada da força.
Indignação selectiva
O discurso que nos é apresentado pelos diversos membros do governo
é portanto o da indignação. Mas esta
indignação é demasiado selectiva para ser honesta. Que se
recorde manifestações provocadas pela reforma Allègre, o
nome deste deplorável e calamitoso ministro da Educação
Nacional do governo socialista de Lionel Jospin. Em manifestações
contra esta dita reforma, militantes sindicais instalaram abaixo das suas
janelas alto-falantes e regalaram suas orelhas com rugidos de elefantes,
perdão, de mamutes... Ninguém se lembra que o senhor Claude
Allègre tenha gritado que fora um atentado anti-democrático,
ainda que se possa pensar que pouco apreciou o procedimento.
Além disso, os miitantes socialistas não se privaram, na
história destes últimos quarenta anos, nem de apoiar
manifestações interpelando directamente ministros de direita nem
de contribuir, na imprensa, para tais manifestações. Portanto,
estas últimas fazem parte também da democracia.
Certamente esta democracia não fica nada apaziguada, mas é
preciso compreender que esta noção de apaziguamento abrange seja
a existência de um consenso, mas nada na política conduzida por
este governo a ele conduz, seja, na realidade, o silêncio da
repressão do movimento social. E este silêncio é muito
frequentemente um silêncio de morte. Eis porque esta
"indignação" dos membros do governo soa a falso.
O desprezo e a indignidade
Portanto, esta "indignação" é na realidade
reveladora de duas atitudes. Ela pode nos revelar o desprezo profundo no qual o
presidente, assim como seus ministros, tem para com o povo dito
"miúdo". É a síndrome de Maria Antonieta. O nome
da mulher de Luís XVI tornou-se, com ou sem razão, o
símbolo de uma elite completamente cortada das realidades vividas pela
maioria da população. E sabe-se da expressão, sem
dúvida apócrifa, que ela pronuncia em plena fome: "se eles
não têm pão, que comam brioches". Esta
indignação pode portanto traduzir um profundo desprezo, desprezo
de casta e desprezo de classe. Mas pode, também, e não é
incompatível, revelar a boa consciência incurável que
circunda toda a política do governo actual. Como seria possível
revoltar-se contra um governo que é "bom" por natureza? A
"esquerda" representa o povo, ouve-se desde a eternidade. Quem
são portanto estes energúmenos que ousam nos contestar? Assim,
cristalizados na sua boa consciência, tanto o ministro como o presidente
não podem muito simplesmente imaginar os efeitos reais, e profundamente
reaccionários, das medidas que eles fazem aprovar com uma grande
brutalidade. Como então sindicatos podem atacar este governo de
"esquerda"? Assim segue a vida neste caso e este governo imagina-se
no mundo dos
ursinhos de peluche
mas na realidade age com uma dureza, um desprezo pelos bens e as pessoas e uma
instrumentalização da ordem pública de que há raros
exemplos.
Qualquer que seja a explicação, e seja qual for a atitude que
explica este comportamento, o efeito sobre a população é
completamente desastroso. Hoje é evidente para uma grande maioria dos
nossos concidadãos que o governo não protesta: ele choraminga.
Portanto é esta a imagem terrível que este governo mostra: duro
com os fracos e submisso com os poderosos quando se trata de política,
choramingando e lamuriando-se quando se confronta com a menor
oposição. Esta combinação de brutalidade de
brutalidade para com os outros e de auto-piedade para consigo próprio
é devastadora em matéria de opinião pública. Uma
das consequências do movimento social contra a lei El Khomri terá
sido portanto revelar a verdadeira natureza deste governo e mostrar a todos, e
para além das opiniões políticas particulares que se possa
ter sobre este ou aqueles ponto, a sua profunda indignidade.
10/Junho/2016
[1]
www.lefigaro.fr/...
[2]
www.lemonde.fr/...
[3]
lexpansion.lexpress.fr/...
[4]
www.lexpress.fr/...
[5]
lexpansion.lexpress.fr/...
[NT] Ver
La CGT décrypte la loi travail
O original encontra-se em
http://russeurope.hypotheses.org/5012
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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