Árabes e africanos:
Marie ou a época dos lobos

por Ouardia Yahiaoui [*]

Porque o que é de mais não presta, eu respondo a todos os meios de comunicação, no seguimento do chamado “caso do RER D” em que magrebinos e africanos imaginários teriam cometido o pior...
Nota: texto escrito entre 13 e 15 de Julho (revisto a 19/07/04)

. Neste país, todos os cidadãos podem viver tranquilamente, mas alguns têm de repontar sempre, não por vontade ou gosto, mas porque é de mais! Alguns são livres de viver sem serem agredidos, estigmatizados, diabolizados, mas outros têm sempre de se erguer contra os «Folcoches [1] mediáticos» e responder-lhes «com quatro pedras na mão». Sim, como o herói de Bazin, os africanos, magrebinos e muçulmanos «agradecem à imprensa, pois, agora, são eles que caminham na vida com quatro pedras na mão» (H. Bazin, Vipère au poing ).

“A Época dos Lobos” ou como uma jovem mitómana de 23 anos conseguiu levar os seus carneiros para o abate, com o Chefe do Estado à frente, assim como o Governo, o Primeiro Ministro e uma parte da Assembleia Nacional. A jovem pastora, levada por um delírio mitómano, conduzia o seu rebanho de carneiros, cada qual balindo histericamente, quando por fim o veterinário descobriu o remédio para trazer Marie à realidade e os carneiros ao redil, não sem dificuldades e alguma vergonha.

Marie. Ícone da Mitomania, que serviu, durante um fim-de-semana, os fantasmas de uma imprensa desnorteada.

Entre os franceses, cuja França e imprensa, assim como um bando de pseudo-intelectuais, lembram continuamente a cor da pele, as origens ou a religião, elevam-se vozes para que a imprensa da vergonha, a imprensa da valeta apresente desculpas. Mas desde quando é que os escrevinhadores, patetas e outros coveiros do jornalismo independente e verdadeiro terão a educação suficiente, a correcção e a honestidade intelectual para pedir desculpa? Esta imprensa, que já não tem que invejar o verdoso visível e a coscuvilhice de mau gosto das Detective, Voici e outras nojices. Esta imprensa, que se suicida em vez de denunciar aqueles que gostariam de domá-la e fazer dela um capacho mediático: «a imprensa de investigação é perigosa para a democracia» (Edith Cresson). Claro que sim, Edith, aquela que a fez, em parte, ir a tribunal? Aquela que denuncia as despesas insultuosas do sr. Attali? O Canard Enchaîné , que tinha revelado o caso dos «diamantes de Bokassa»? É bom recordar que, nesses tempos arcaicos, um jornalista cumpriu 18 meses de prisão. Mas a imprensa lembra-se disso todos os dias, não é? E, da ORTF e das ordens do Eliseu, quem é que se lembra? Mas é triste constatar que, muitas vezes, no Ocidente se confunde «liberdade» com «mostrar o rabo ou dizer baboseiras». Que os jornalistas se passeiem nus, o poder está-se nas tintas, mas que ponham a nu as manigâncias políticas, isso é que não. As palavras da sra. Cresson explicam-no claramente. É claro que «o jornalismo de investigação é perigoso para a democracia». A mudança de atitude dos anti-Baudis, embora criticável, pouco importa, mas os negócios de J. C. Mitterrand não podem ser silenciados, tanto quanto os do sr. Pasqua e outros. Recordo a anedota belga: «Qual a diferença entre N. Mandela e os políticos franceses? Mandela esteve na prisão antes de ser eleito». Aí está uma boa anedota!

Este fim-de-semana, a imprensa francesa encarniçou-se como um abutre sobre o cadáver de todos os africanos mortos pela mão do racismo e da intolerância. Este fim-de-semana, a imprensa caminhou sobre os cadáveres do colonialismo e do esclavagismo. Este fim-de-semana, as redacções de França tornaram-se as redacções de Pieter Botha. Com os termos genéricos de magrebino e africano, a imprensa e alguns responsáveis de associações de culto e religiosas, mesmo de duvidosa fachada anti-racista, subentendem «escuro e crespo» ou ainda «negro e encarapinhado». A trágica ironia da sorte e o cinismo da situação terão querido que, com uma chalaça corrente, nós acabássemos quase por agradecer às organizações fascistas, como «Bloc Identitaire», que não tenham tido a ideia de lançar um negro ou árabe à água, para vingar a Marie. «Seis negros e beurs inflingem um pontapé a uma jovem branca e deixam-na estendida no chão» (Ref.: Libération , artigo de J. Durand e P. Tourancheau). «Beur» é um insulto racista e são os que se manifestam contra o termo «judeu» que o utilizam, com total desprezo em relação aos franceses de origem magrebina. Nós teremos reparado bem nas maiúsculas utilizadas para apontar a cor negra e a cor branca. Quanto à cor beur, o Libération vai seguramente especificá-la num dos seus próximos números. É certamente a de «Bicot», «Bougnoule» ou ainda «Raton» ou o famoso «Crouille» [2] ? Mais adiante, num outro artigo, C. Coroller fala-nos do «acto dos jovens árabes». E que quer dizer árabe? Que significa este alinhamento de cores e raças? Do Sudão a Paris, para ser honesta, há certamente cidadãos de língua árabe, mas de origem africana. Este ódio ao árabe causa-me arrepios. Ao ouvir falar dos massacres cometidos pelas «milícias árabes» no Sudão, pensei que tropas árabes, vindas do Golfo, tinham invadido o Sudão, para matar africanos, quando não é nada disso. Os «milicianos árabes» são de facto africanos, que falam árabe, mas que nada têm a ver com a Arábia. Deliberadamente, muito contentes por bater nos árabes, nenhum jornal francês, mesmo nenhum, explicou a realidade do problema. Toda a imprensa dá a entender que os Milicianos Sudaneses são talvez um pouco sauditas, um pouco egípcios, um pouco sírios ou, até, iraquianos? Que racismo é este? Porquê estas mentiras? Porque, quando não se explica, de certo modo, mente-se.

Esta maneira de «bater nos árabes», de detestar os árabes e apontar o dedo a tudo o que é árabe ou que se relaciona com os árabes (o Islão, logo por azar, é uma herança árabe) como designando «a raça ou a comunidade ideal a diabolizar, a atacar ou a neocolonizar». É muito grave. Foi assim que, no Reino Austro-Húngaro, Georg von Schönerer esteve na origem da «teoria anti-semita das raças». As teorias deste racista imundo foram retomadas mais tarde por um tal Adolf Hitler. O ódio aos árabes e ao Islão assume tamanha violência neste país que, penso eu, um dia os cidadãos de origem árabe ou africana terão de fazer as malas. Do que se passa na Córsega ao que se lê nos jornais metropolitanos, vê-se que a imprensa deste país é tão irresponsável como racista. Atente-se nos artigos do Libération sobre o racismo na Córsega, que datam do mês de Maio, e comparem-se com os do mesmo jornal que cobriram o caso «Marie». É chocante. Uma viragem de 180 graus. Se a Extrema-Direita tomasse o poder neste país e decidisse confinar os árabes, os africanos e os muçulmanos em bantustões, quem se mexeria neste país? Ninguém.

O que li no Libération e nos outros diários ( Libération , que se diz de esquerda, é um bom barómetro para medir o impacto das ideias da Frente Nacional, entre outras, tão enraizadas de maneira normal e natural na cultura do Hexágono). Para mim, é propaganda nacionalista. O árabe, o negro e o muçulmano são uma e a mesma coisa e já não são nem franceses nem brancos. São «o Negro, o Beur». «Franceses» é que não.

Isto faz-me pensar no anti-semitismo do Reino Austro-Húngaro, numa frase de G. Von Schönorer, furioso com a Imperatriz Elisabeth e outros admiradores do poeta alemão Enrich Heine, que pretendiam erigir uma estátua em sua homenagem: «eles queriam erigir um monumento à memória deste judeu, autor de escritos vergonhosos e imundos». A imprensa acertou o passo pelo fascista e escreveu, então: «Vejam como pensa um judeu, como todos os judeus tomam partido por este desavergonhado, tocando a reunir, como há também alemães para acorrerem ao som deste tambor judeu».

São as reportagens da France Télévision , os artigos do Figaro, cujos títulos de certas revistas do grupo não primam nem pela inteligência nem pela razão: «Islamismo: até onde se estenderá o contágio» (Título do Figaro Magazine em 2003). Um autêntico título fascista, que nenhum intelectual denunciou. Nenhum. E é tão espantoso como chocante ver como o anti-semitismo não desapareceu na Europa e, sobretudo, no Hexágono. Houve apenas uma transferência do «judeu» para «o muçulmano» ou «o árabe». Na Europe 1, a uma hora de grande audiência, no programa do sr. Field, no dia a seguir ao 11 de Setembro, um ouvinte declarou: «Eu cá não compreendo os muçulmanos depois do que se passou em Nova-Iorque. Se eu fosse muçulmano mudava de religião». O ouvinte queria fazer passar uma mensagem, queria veicular a ideia de que os mulçumanos são uma massa muito compacta, liderada por um cérebro único, que deve responder pelos actos de todos. Esta ideia reencontramo-la no cineasta Ellie Chouraqui, para quem os «muçulmanos são responsáveis uns pelos outros». Está-se mesmo a ver, sr. Chouraqui! Os espíritos mais brilhantes através da história, até aos nossos dias e através do mundo inteiro têm, dado a primazia ao «espírito crítico» e desconfiam do «espírito gregário», que denunciam. Mas o sr. Chouraqui, esse, com uma tal afirmação e acusação só faz trair o seu próprio espírito comunitário. Também é interessante notar que o sr. Chouraqui não é «inocente», na medida em que ofereceu a estreia dos «Dez Mandamentos» a uma associação de apoio aos soldados israelenses. De igual modo, ele anuncia por via publicitária, na Radio J que a estreia do espectáculo «Gladiador» será oferecida às crianças israelenses. Não critico que se pense nas crianças israelenses mais desfavorecidas, só que o sr. Chouraqui não é «neutral» quando fala negativamente do Islão, dos árabes e do anti-semitismo. E não é normal que o Serviço Público lhe abra as portas, quando esse mesmo Serviço Público é suposto não ignorar o apoio do sr. Chouraqui a Israel. A sua reportagem, dirigida contra a comunidade muçulmana e africana deste país, inscreve-se também no ideal político do sr. Chouraqui: o sionismo. E, deve-se ter presente que uma parte da imprensa e de certos políticos, artistas e intelectuais deste país responderam ao apelo de Ariel Sharon, que pretendia que a França se tornara um país tão inóspito para os judeus, sobretudo por causa da comunidade muçulmana, que era absolutamente necessário organizar a sua partida para Israel. Este apelo de Sharon foi ouvido por muitos responsáveis de associações de culto ou culturais judaicas. Alguns querem fazer crer que ser anti-sionista é sinónimo de ser anti-semita, mas fiquem a saber que, mesmo que venha a acabar na prisão ou fuzilada, continuarei a denunciar o sionismo ultra. Os ciganos são vítimas do racismo mais primário e mais violento do mundo: continuamente perseguidos na Europa de Leste, continuamente expulsos de França, onde não se tem vergonha de chamar-lhes «os Rom». Até os jornalistas escrevem «Rom». Isto é inaceitável. Os ciganos sofreram a mesma sorte, a mesma tragédia que os judeus. No entanto, onde estão as Jornadas de Memória para eles? Onde estão os monumentos aos ciganos? Eu acho que, decididamente, certas pessoas têm uma memória selectiva e aproveito este correio para denunciar o ódio fácil, o desprezo total que a Europa continua a ter em relação àqueles que ela não tem vergonha de designar por «os Rom».

Retomemos a questão do Sionismo ultra:

Elie Wiesel (lamentável prémio Nobel da Paz): «Se sois hoje contra Israel, sois, ipso facto , antijudeu. E, sendo judeu, se sois contra Israel, sois um renegado. Os jovens judeus da nova esquerda devem ser aberta e publicamente proclamados renegados do povo judeu. Eles que façam o que entenderem, mas não deveriam fazer parte do povo judeu. Não fazem.» Se um imã ou um escritor árabe tivesse uma saída destas, toda a imprensa teria feito um grande alarido, mas, no caso de Elie Wiesel, nada de criticá-lo e, muito menos, denunciá-lo...

No entanto, em seguida, há que apontar o dedo a quem lança Fatwa contra Ruchdie. E aquilo não é uma Fatwa? Então é o quê?

Igualmente interessante, Vladimir Jabotinsky: «Toda a colonização sionista, por limitada que seja, não deve ser abandonada, mas prosseguida, mesmo contra a vontade da população autóctone. É por esse motivo que a nossa colonização só pode desenvolver-se sob a protecção de uma grande potência que não esteja preocupada com a vontade da população local, a fim de que seja possível ficarmos separados dessa população por um muro de ferro intransponível. Um acordo entre eles e nós, numa base voluntária, é impossível. Enquanto tiverem a mais pequena esperança de se desembaraçarem de nós, não abandonarão essa esperança e nada poderá convencê-los, nem as bonitas palavras, nem o dinheiro, pois eles não são uma miscelânea indefinida, mas uma nação, nação oprimida, mas nação viva. Nenhum povo pode fazer as concessões que nós lhe pedimos, enquanto tiver a esperança de poder desembaraçar-se de nós. Só quando constatarem que a Cortina de Ferro entre eles e nós é intransponível é que os extremistas entre eles desistirão e os mais moderados aparecerão a pedir-nos concessões nalguns aspectos práticos. Pedir-nos-ão que lhes garantam que não os expulssamos ou que teremos a bondade de lhes conceder direitos iguais» V. Jabotinsky, Le Mur de Fer (Nous et les Arabes).

«Não existe nem nunca existiu um povo palestiniano», Golda Meir, 1969.

«Nós criaremos à Europa uma testa-de-ponte para a Ásia, um bastião da Civilização contra a Barbárie... O país estender-se-á do rio do Egipto (o Nilo) até ao Eufrates. A população local não poderá trabalhar, excepto para secar os pântanos e matar as serpentes. Há que expulsá-los discretamente do país», Théodor Herzl (citado em La Palestine, dernière colonie , de Lucas Catherine, Anvers, EPO, 2003.

Leia-se o L'État Juif (1896). Este livro é a base do Sionismo actual. Certos jornalistas, que falam do que não conhecem, deveriam lê-lo e meditar.

«Não foi o Holocausto, mas a assimilação, a pior catástrofe que aconteceu ao judaísmo...», Nissim Dahan, ministro da Saúde Pública israelense, 31 de Dezembro de 2001.

Eu gostaria muito de saber, antes de mais, por que razão a imprensa não se insurge nunca contra este tipo de discursos? Por que razão não os denuncia?

Quem terá esquecido, na esteira de N. Dahan, o discurso do rabino Ovadia Yossef, que considera os «judeus vítimas do Holocausto» como «más almas reencarnadas» ou os árabes como «serpentes que Deus se arrependeu de ter criado». A imprensa entendeu por bem não fazer grandes títulos nem sobre O. Yossef nem sobre N. Dahan. Mas, se um muçulmano tivesse falado assim, o mundo inteiro teria ouvido falar dele.

Até à chegada do general Sharon ao poder, com o apoio de mais de 60% dos israelenses, eu fazia parte daqueles que «reconheciam Israel». No entanto, o comportamento da imprensa ocidental, os massacres de Jenine, somados à recordação dos de Sabra e Chatila, cometidos pelo mesmo homem, levaram a melhor sobre a minha visão ingénua deste Estado chamado «Israel». Sim, o ódio, que me choca profundamente, de artistas como Sophie Marceau, por exemplo, em relação aos árabes e o desprezo natural com que passam por cima dos Direitos do Povo Palestiniano é tão aterrador como os discursos de Botha ou do KKK. Patrick Bruel, no programa 7/7, declarou, perante uma Anne Sinclair toda sorridente: «Sim, Israel deve continuar firme, Israel tem razão em continuar firme relativamente aos palestinianos». Só que uma dezena de palestinianos acabavam de ser mortos pelas balas de Tsahal na Esplanada das Mesquitas. A firmeza, para mim, não tem nada a ver com o crime, mas, para Bruel, matar um árabe é apenas «ser firme».

Na mesma ordem de ideias, após a primeira guerra do Golfo, Sophie Marceau vinha apresentar o seu filme pro-israelense no programa 7/7: «Sim, os israelenses acreditam nela e sentem-se felizes». E a sra. Sinclair, incomodada pelo facto de ver Sophie Marceau a parafrasear, sem ser capaz de explicar por que razão tinha um discurso ultra-sionista de base, parecendo não conhecer sequer a ideologia sionista, lançou-lhe: «Sim, Sophie Marceau, mas os palestinianos estão a sofrer».

Então, Sophie Marceau, admirada e surpreendida com a objecção, prosseguiu estupidamente: «Os israelenses acreditam nela». De facto, se Sophie Marceau é a paladina de «é preciso bombardear o Iraque, pois antes de S. Hussein invadir o Koweit, eles eram felizes» ou, ainda, ultimamente, «sim, Bush tem razão em invadir o Iraque», Sophie Marceau é incapaz de um raciocínio lógico, é incapaz de dizer por que é preciso bombardear o Iraque e explicar como é que ela, socialista, pode aderir às teses de Bush.

Eu pergunto a mim mesma se ela saberia situar o Iraque num mapa geográfico ou mesmo dizer-nos o que a Mesoptâmia englobava. Diz «gostar de Dostoievski», o que é muito simpático, mas prefere o quê? «Crime e Castigo» ou «Humilhados e Ofendidos»? A obra deste homem assenta na existência que encontra o seu equilíbrio apenas na caridade pelas pessoas (o pai foi assassinado pelos camponeses, por se comportar como um tirano) e na fusão das culturas ocidental e oriental, no que se refere à colectividade (para os russos). Em certos aspectos, Dostoievski tem muito em comum com Emmanuel Mounier, o fundador da Revue Esprit e pai do Personalismo Comunitário. Não creio que a sua passagem pela prisão, na Sibéria, no regime czarista – Lenine e Estaline não inventaram as prisões siberianas, apenas imitaram os czares – o tivesse deixado indiferente à humilhação e ao sofrimento do povo palestiniano. O escritor escapou à execução capital, mas não escapou ao sofrimento e humilhação das prisões siberianas. Aqui está como qualquer um é convidado a dizer tudo sobre qualquer coisa, mesmo quando não sabe nada, nos programas da TV ou nas rubricas dos nossos diários ou semanários. Mas é preciso confessar que certos jornalistas gostam de ouvir os «vamos para a guerra», sobretudo, quando a guerra ou a invasão visa os árabes. Este racismo, jamais o caucionarei. Um grande número de movimentos “berberistas” caiu por causa deste racismo que alardeiam, filho da herança colonial. Os resultados insignificantes dos fascistas do RCD mostram isso. E não falarei do FFS que quis legitimar o FIS, talvez por ser uma invenção de um argelino simpático, oriundo da Grande-Cabília, que não pediu asilo político em Zurique ou Berlim, mas em Doha, na Arábia.

Há um momento na vida, em que se impõe não atender às raízes culturais ou de culto, para não se morrer asfixiado pela própria comunidade. Não é sr. Wiesel? Ser livre, no sentido berbere do termo (amazigh), é também libertar-se do seu grupo cultural. Ora, é triste verificar que certas pessoas defendem o indefensável, precisamente porque ele é «judeu como nós», «cristão como nós» ou, então, «mulçumano como nós», etc.

E reflectindo honestamente, não vejo por que razão os árabes deveriam detestar S. Hussein, se os israelenses têm o direito de gostar de A. Sharon e os americanos de G. Bush. Não vejo por que razão fazer explodir edifícios em Gaza ou em Bagdade é menos fascista que fazê-lo em Telavive ou Nova-Iorque. Não vejo por que razão se faz três minutos de silêncio pelos americanos e nenhum por Sabra e Chatila, cujo martírio durou três dias, em Setembro de 1986. O mais grave é que, se eu distinguia Bush de Ben Laden até 2001, já não o faço, desde que vi imagens de bebés sem vida, na CNN, acompanhadas da frase horrível e fascista: «foi esta gente que nos agrediu no 11 de Setembro». Crianças e bebés. Essas imagens deixaram-me um travo na boca de «Nuremberga em Nuremberga» e as imagens do Iraque confirmaram-me apenas que Bush é a mesma coisa que Ben Laden. Para mim, os EUA são um Estado fascista que avança um pouco mais, dia após dia, para o nazismo e apenas isso. O facto de Washington estudar a possibilidade de Teerão estar envolvido nos atentados do 11 de Setembro de 2001, reflecte, sem margem para dúvidas, o espírito de Bush: um autêntico Hitler frustrado. Se Bush tivesse sido inteligente, não se teria lançado contra o Afeganistão e o Iraque. Não, teria esperado. Ora, ele destruiu uma boa parte do seu exército, arruinou a economia. Oxalá ele estude o assunto e veja que cortou as suas próprias pernas e as suas próprias asas. Tudo o que este cretino censurou a S. Hussein, ele mesmo fez, desde a invasão ilegal do Iraque à tortura dos iraquianos e outras coisas que iremos saber dentro de algumas semanas.

Mas voltemos à conversa inicial: nós agradecemos aos cabeças rapadas que ficaram em casa, sem dar ouvidos à SUA IMPRENSA DOS BRANCOS (nem escura nem negra) para juntar violência física ou assassinato racista aos insultos infundados, vindos de todos os lados, tanto racistas como fascistas (Gaubert, Os nazis dos subúrbios ). De passagem, Sharon ouviu o apelo da Licra que deveria retomar a sua denominação de origem, dada a maneira como o sr. Gaubert fala dos Mulçumanos e dos africanos. Agradecemos a Jean-Marie Le Pen ter deixado a tarefa aos deputados Huchon, Lellouche, DSK, Dray de gritarem o seu ódio contra franceses a quem chamam «jovens dos subúrbios», fórmula racista, anti-árabe e anti-africana que utilizam para não dizerem «magrebino», «africano» ou «muçulmano». Toda a França tem pelo menos um árabe ou um africano no seio da sua família. Os antilhanos sentem-se também atingidos, pois, do ponto de vista da imprensa hipócrita, africano é o preto, que não é nada africano e é também o meu pai e o meu irmão. Africano não é quem tem pele negra, não, é quem vive em África, quem é originário de África. E por que razão se deverá dar-lhes uma cor, quando há milhares? Será que a nossa imprensa viaja? Os jornalistas saem ao domingo? Restringir o magrebino apenas aos frisados exóticos e à pele escura parece-me redutor e digno dos Afrikaners ou dos Nacionais-Socialistas. Eu acho piada quando penso nos socialistas que denunciaram os panfletos de Mégret, onde estava desenhado um carapinha de beiços grossos. Presentemente, é a imprensa dita de esquerda que faz o mesmo com o africano. Ele será apenas um homem negro de cabelos encarapinhados? De Mandela aos Tuaregues, passando por Désiré Kabila e o sr. Wade, Zidane e Bouterflika ou, ainda, as cantoras Warda e Naget Hatabou e Bob Marley, profeta do Reggae e símbolo ilustre da mestiçagem, parece-me, de facto, que os jornalistas não conhecem África. Não há nenhum tipo magrebino ou africano, mas tipos africanos. Ponham-se no lugar de um magrebino de tipo nórdico, a quem não se cansam de dizer: «tu não tens o tipo magrebino». Ou do mestiço, a quem dizem: «tu não és africano» Com que direito? Remeto para a canção de Laurent Voulzy, que sofreu esse racismo – Belle Île en Mer . Vocês atiram com palavras parvas a comunidades das quais não sabem nada, além das palavras Corão, Merguez, Mandioca, Véu ou Mesquita. Vocês não sabem nada, absolutamente nada dessas comunidades.

A imprensa, a Licra, o Crif e alguns políticos com telhados de vidro não insultaram apenas magrebinos e africanos, mas famílias mistas, mulheres «brancas naturais», como escreve a sra. Coroller, que não é a única, casadas com homens negros, magrebinos casados com africanas, asiáticas, francesas. A imprensa está demasiada confinada aos seus estereótipos de 14-18, longe da verdade e muito aquém das realidades da sociedade, que é suposta informar. Não é fazendo “reality-show” que nos abrimos à vida, não é indo todos os dias de casa para a sala de redacção que se cresce francês. Não, as salas de redacção estão desconectadas da realidade, do que chama «os subúrbios», como se o subúrbio significasse «bairro árabe» ou «bairro africano» ou, ainda, «bairro muçulmano». Não é a juventude que não está integrada, mas a imprensa e uma parte da classe política que não vivem «a actualidade francesa». Se analisarmos a expressão «jovens dos subúrbios», podemos facilmente compará-la a termos da imprensa afrikaner como «jovens do Sowetto» ou, até, «moradores dos bantustões». A imprensa torna-se um gueto, uma torre de marfim, uma entidade esclerosada e completamente demagógica, tendo a demagogia como ciência o Populismo dos Mussolini, dos Le Pen ou dos de Villiers. Este caso terá demonstrado como jornalistas, políticos e presidentes de associações ditas anti-racistas fazem eles próprios vulgar racismo, alimentam o racismo e é perfeitamente natural que eu deduza serem alguns verdadeiramente racistas. Continuemos com o «sensatamente político» silêncio da Extrema-Direita.

Agradecemos, ironicamente, a de Villiers que, depois de fazer uma campanha racista, xenófoba e islamófoba para as eleições europeias, se tenha calado. Agradeço ao jornal frentista Minute o facto de não estar na origem dos artigos publicados no Libération, Le Monde, Le Parisien, Le Figaro, pois os dele não podiam ser piores. Porque a imprensa não traumatizou ninguém, dado que, para ela, os “negros” e aquilo a que chama “beurs” (“feuj” é um insulto anti-semita, mas “beur” uma metáfora exótica, que permite tratar o magrebino como «mouro não integrado, que vive nos subúrbios e gosta de Ben Laden») não têm alma, portanto estados de alma e é natural «cagar-lhes em cima e vomitar-lhes em cima», quer na France Télévision quer nas emissões da Radio France ou na imprensa escrita. Imaginemos que pretos e árabes agridem uma branca. É razão para enxovalhar toda a comunidade? Será que um homem que agride ou viola uma mulher é menos culpado por ser branco? Porquê a importância da origem? Por que é sempre assim quando se trata de árabes ou negros?

De facto, agradeço à Extrema-Direita deste país ter-se contido, para que se demonstre bem que, em França, não há uma Extrema-Direita mas Extremas-Direitas. Não ouvi nem o Jean-Marie Le Pen, nem a Marine Le Pen, nem o Bruno Mégret ou, mesmo, as tendências “SOS Racailles” ou outros “Blocs Identitaires”, que têm uma palavra de ordem do género «as ratazanas, ou as alimentamos ou as eliminamos, é preciso escolher» (VSD, Maio de 2004). A Licra vê nazis por toda a parte, mas, quando estão em dupla página na VDS com os seus “pen-ball”, durante um treino paramilitar, não os vê. O sr. Gaubert devia mudar de óculos ou deixar de beber vodka. Basta que a Extrema-Direita fique silenciosa para outros lobos uivarem em seu lugar. Ao ouvir militantes do UMP e alguns socialistas, compreendo facilmente que Le Pen tenha conseguido passar na primeira volta das presidenciais e, sobretudo, a razão por que Mitterand abriu as portas da Assembleia Nacional à Frente Nacional, deturpando a lei da proporcionalidade. Sim, compreendo, agora, que Le Pen não tem “ideias suas”, mas partilha “ideias” com uma franja do PS e do UMP.

Desde 17 de Outubro de 1961, foram várias as operações punitivas, sempre criminosas, contra megrebinos e africanos neste país: jovens mortos à queima-roupa por um racista ou um polícia; o pequeno Toufik, de 10 anos, morto por um polícia, em Aubervilliers, com uma bala na cabeça, quando estava na varanda; Malik Oussékina, assassinado por dois CRS que, depois, foram promovidos; o jovem marroquino atirado à água, depois de uma manifestação da Frente Nacional; o pai de família, da Costa do Marfim, que foi afogado por três jovens racistas; Makomé, de 18 anos, assassinado com uma bala na cabeça por um polícia, no 18º bairro de Paris, quando tinha as mãos algemadas atrás das costas (eu imagino o terror deste jovem e os seus gritos); o argelino empurrado da janela por três magalas racistas; a profusão de artigos racistas e fascistas, conjugada com reportagens racistas (de Trappes a Chouraqui) e redutoras acerca do Serviço Público, desde a Terça-feira do 11 de Setembro; o tunisino caluniado, mesmo na morte, porque «o terrorista usava dois pares de ceroulas» (USD, Outubro de 2001); sem esquecer o «Terrorista dos aeroportos de Paris», que não era nada disso, mas foi arrastado na lama por uma imprensa que desrespeita as leis da República, sejam elas da Justiça ou da Moral. A Justiça, neste país, fala de «presunção de inocência» mas, aparentemente, a imprensa decidiu que magrebinos e africanos, tal como muçulmanos não têm direitos. Ora, se a imprensa tem apenas o papel que a sociedade lhe atribui, talvez seja a altura de o sr. Perben lhe dar cursos de Direito. Talvez seja mesmo uma boa altura para o sr. Baudis recordar as regras elementares, primárias, para não dizer “primitivas”, de deontologia, que a imprensa parece ignorar. Este fim-de-semana, a boca dos jornalistas abriu-se como a boca de um camião do lixo, quebrando, triturando, revolvendo, reduzindo a migalhas duas comunidades, antes de ir vazar as suas entranhas naquilo que ela chama PAF e que se transformou num vazadouro público. A pena dos jornalistas afogou-se na tinta da vergonha e da incorrecção. Nas redacções, não é o cérebro que comanda a caneta, mas a caneta que comanda o cérebro, dando azo a artigos de mau gosto, por irreflectidos, tanto quanto irresponsáveis e carregados de ódio e de desprezo.

Acrescente-se ainda os artigos de Le Monde e os de Libération, passando pelas nojices distribuídas na rua (não é por acaso que são gratuitas), o Parisien ... Penso que a imprensa é a culpada das mentiras. A imprensa é pior que a mitómana, já que não esperava senão um sinal, qualquer facto sem importância para levar a água ao moinho de Chouraqui, de Crukierman e de Gaubert. Sim, a imprensa quis inculcar que os magrebinos e os africanos eram anti-semitas. A imprensa tentou dar vida ao fantasma e ao delírio mitómano do sionismo ultra, que se serve do anti-semitismo para defender Israel a todo o custo. A chantagem com o anti-semitismo tomou uma forma detestável e perigosa neste fim-de-semana, mas a culpa não é de quatro magrebinos e dois africanos. A culpa é dos lobos que encontraram, este fim-de-semana, um osso para roer. O sr. Gaubert, presidente da Licra, que fala de «nazis dos subúrbios» talvez esteja a falar do sr. Bensoussan, que queimou uma jovem marroquina na cara. Ou, ainda, desses imbecis que se automutilam e enviam mensagens judeofóbicas, para acusar os magrebinos e os africanos, e que causam problemas à comunidade judia, que, contudo, não os põe em tribunal... Mas Marie, tendo compreendido quais eram os bodes expiatórios a denunciar e a vítima a designar, não hesitou «em ser judia durante 13 minutos» (Le Monde) e em acusar magrebinos e africanos de a terem violentado e de terem desenhado cruzes hitlerianas no ventre. E foi assim que ela fez a primeira página dos jornais e das televisões. De tanto brincar com lobos, um dia já ninguém acreditará neles e, quando aparecerem de facto, será demasiado tarde. É uma coisa elementar. Basta pensar na história de Pedro e o Lobo. Aparentemente, ninguém entendeu que o caso de Epinay, de Alexandre Moïse, do rabino Fahri e, hoje, o de Marie são demasiados actos anti-semitas montados, que não resultaram. Quem é que acreditará na próxima Marie ou no próximo rabino Fahri? O anti-semitismo foi banalizado por imbecis e irresponsáveis. Também alguns, pelo seu afã em condenar tudo e mais alguma coisa, estão a passar a mensagem de que é preciso ser-se «vítima de um acto anti-semita» para se ser escutado. Alguns já dizem «ouvimos falar disso porque ela disse ter sido vítima de um acto anti-semita, de outro modo não haveria nem inquérito nem caso». Eis o grande problema desta questão. O resultado é mau. Para além de se ter insultado duas comunidades, banalizou-se o anti-semitismo, a judeofobia e o racismo.

Chamavam-lhe contrapoder, chamavam-lhe garante da democracia, chamavam-lhe progresso humano, chamavam-lhe mesmo a 5ª coluna e, oh desgraça das desgraças!, só faltava que esta 5ª coluna se abatesse sobre nós, nos caísse em cima, com um estrondo ensurdecedor e criminoso. Mas a República que não se fie nisso: esta 5ª coluna caiu porque a sua barriga balofa e a sua cara bochechuda tornaram-se demasiado pesadas para a coluna vertebral as suportar. Este monstro barrigudo e bochechudo foi-se abaixo à força de se alimentar de caviar e de se remexer com empáfia e à-vontade nas poltronas estofadas de restaurantes, tão sofisticados como tacanhos, da gente fina de Paris. E ei-lo, tal Gargantua, deslocando-se num carrinho de mão, ocupando os palcos da televisão ou as emissões radiofónicas. Um jornalista não é um representante comercial que vende tapetes ou aspiradores à televisão. Um jornalista, numa sociedade normal, faz parte dos “intelectuais”. Da Revista da imprensa aos Debates demagógicos do sr. Ardysson e ao circo demagógico de outros Mazerolle, que por pouco deixava o PAF, depois de ter apanhado uma bofetada amplamente merecida, uma boa parte da imprensa deveria ser posta em causa.

A imprensa é tudo e mais alguma coisa, um anexo da Samaritaine , um petisco de cervejaria popular, a entrada de uma sarjeta. Em suma, não nos podemos admirar que a indústria do armamento se interesse por esta «arma de embrutecimento maciço». Os que falam de liberdade de imprensa tornam-se comediantes ou, simplesmente, palhaços. Que liberdade? Liberdade não é escrever parvoeiras, liberdade também é recusar escrever parvoeiras, sujeitando-se a deixar uma página em branco e preferindo comer batatas cozidas a empanturrar-se à mesa dos lobos. Eu prefiro Robert Fisk a todos os bananas que escrevem os artigos ditados por Murdoch. Prefiro a redacção de Politis à do Figaro . Vale mais ter o estômago colado às costas do que ter a alma no estômago. A liberdade não é seguir o rebanho, deixando-se levar pelos seus instintos mais bestiais, instintos que alguns animais domésticos já não têm. A liberdade de uns pára onde começa a dos outros. Ora, eu tenho a impressão de que, durante todo o fim-de-semana, se pisaram o espaço e o corpo de outros. Esta imprensa, que nos fala dos “Saddam” e dos “Georges Doubleiou”, mas nos deixa dúvidas de como se comportaria sob uma ditadura. Rastejaria e acertaria o passo. Isso é bem claro, pois a razão do mais forte é sempre a melhor e, principalmente, porque quem mais berra é quem tem razão. Mamadou e Karim não têm os estúdios da France Télévision à sua disposição (embora paguem a taxa) para se explicarem, não têm amigos na direcção da France Télévision ou nas salas de redacção da imprensa escrita. É esta a realidade: Crukierman, Gaubert, o deputado Lellouche e outros energúmenos têm todos os órgãos de imprensa à sua disposição, mas aqueles a quem caluniaram não têm espaço nenhum de comunicação à sua disposição. É esta também a cobardia e a “ditadura relativa” da imprensa neste país.

Hoje, de manhã, ao acordar aturdida pelo chamado “caso do RER D”, a nossa imprensa não nos explica donde veio a informação dos “africanos e magrebinos”. Marie falou de africanos e magrebinos? O sr. Chirac falou de racismo e de anti-semitismo, mas não de africanos e magrebinos? Donde é que saiu esse esclarecimento? Do Comissariado da Polícia? Entre o Comissariado da Polícia e as salas de redacção ou directamente das salas de redacção? Falar de acto anti-semita, quando se constataram cruzes gamadas na barriga da Marie, concordo, é normal. Em contrapartida, falar de magrebinos e africanos, quando nada se provou, isso não. E mais: que Fourniré e Dutrouc sejam um, francês, e outro, belga, altera a natureza do seu crime? Será que o mesmo crime, cometido por um magrebino daria direito a um linchamento mediático da comunidade magrebina? Ouvimos nós os jornalistas magrebinos, árabes ou africanos fazer generalizações e declarar que todos os franceses são assassinos de mulheres e todos os belgas são pedófilos, ou que a pedofilia é uma especialidade dos “brancos” ou dos “cristãos”? Não. Que processo foi o de Nuremberga? O do cristianismo? O da cultura alemã? O do tipo germânico? O da “raça branca” ou o do nazismo? Quem organizou o processo? Um tribunal ou jornalistas? A imprensa foi longe de mais. Demasiado longe. A imprensa mete medo, mesmo muito medo.

Falou-se da religião e das origens de Michel Bensoussan, membro do Betaar, que tem por ídolo o general Sharon? Fez-se a mesma publicidade à volta da pequena marroquina que ele desfigurou com ácido? O presidente da Câmara de Lyon nem sequer se chegou à cabeceira da miúda.

Tão-pouco a imprensa escreveu um artigo ou uma reportagem acerca da garota. Michel Bensoussan passeia-se pelas ruas de Lyon, porque tem talvez um pai magistrado, jornalista ou político? Nós temos o direito de fazer esta pergunta e devemos fazê-la. Floriant Truchaud, que tentou mandar pelos ares a Mesquita de Paris, é de que origem? Italiana? Francesa? Qual é a sua confissão religiosa? Maxime Brunerie é católico ou protestante? A realidade é que a imprensa só destaca a origem magrebina, africana e a cultura muçulmana. O racismo também é isto.

A imprensa só se encarniça contra os muçulmanos e, quando tem um tema sobre um imã ou uma jovem de véu, agarra-se a isso como uma lesma a uma folha de couve, pois cuspir nos muçulmanos, africanos e magrebinos não exige nem profissionalismo nem talento, ao contrário do verdadeiro jornalismo. Tudo quanto pede é cuspir e esganiçar-se como um cretino nos programas de televisão. Jogos de palavras maldosos, artigos chatos e enfadonhos, sem vida, sem perfume, sem som, sem cor, a morte, o aborrecimento, o ódio aos outros também, o desprezo pelos outros, ao ponto de falar em seu lugar e atrever-se a pretender compreender ou saber o que eles pensam ou, mesmo, o que sentem. Se permitirmos, muito em breve, a imprensa francesa vai-nos dizer quando devemos rir e quando devemos chorar. Se permitirmos, uma certa imprensa exigirá, um dia, que o nosso cérebro nos seja interdito, a pretexto de que as nossas ideias poderiam ser más. Se permitirmos, um dia, uma certa imprensa exigirá que se proiba a nossa existência socio-cultural e política. Se, uma certa imprensa faz campanha anti-africanos, é que não suportaria ver muçulmanos e negros à cabeça de partidos políticos, à cabeça de televisões privadas. Le Pen e Mégret, esses, sim. Mamadou ou Ahmed, jamais! Ora contem os negros e os árabes que apresentam os telejornais das 13h ou das 20h, contem os cabeça de lista ou ministros de origem africana.

Em suma, com tal matraqueamento, uma parte da imprensa, apoiada por responsáveis associativos e políticos, anti-árabes e antimuçulmanos, tentou fazer-nos calar. Mas nós não nos calaremos nunca. Nunca.

Longe da verdade, ultrapassada, atrasada, a imprensa envelhece mal, como as suas rotativas. O progresso tecnológico é uma coisa, mas o progresso moral e espiritual é outra. Alguns imbecis gostariam de nos fazer crer que o progresso tecnológico está relacionado com o progresso humano e espiritual de uma sociedade, quando é inteiramente falso, sendo o progresso, muitas vezes, acompanhado por uma regressão social enorme, que deixa à beira do caminho centenas de milhar de pessoas. Isso aconteceu no século XIX, cuja Revolução Industrial alguns gabam, esquecendo muito frequentemente a situação das crianças e da gente camponesa e operária da época. Alguns esquecem frequentemente o calvário dos mineiros que conheceram mais os abismos negros das grutas que a luz do dia. Alguns esquecem as centenas de milhares de africanos e magrebinos, transportados em camiões até França, onde os esperavam os contratos e uma cama miserável, numa barraca de bairro de lata ou numa cabana das obras. Nessa época, não valia a pena fazer bicha diante do Ministério do Interior, ou andar às voltas na Praça do Châtelet, para reclamar “os papéis”. Sim, nessa época, os papéis corriam atrás do magrebino e do africano. Tudo isto a França amnésica ou de memória muito selectiva esqueceu. Contrato, documentos, boletim de voto, jornais sem orientação, tudo isso é apenas papel nesta França, onde uma elite se empanturra com bolos, vaidosa da sua caneta Mont-Blanc e do seu impermeável Burberry, tanto mais que a antiga marca de mau gosto volta a estar na moda. Experimente usar uma túnica africana e perguntar-lhe-ão se fez a sua roupa das cortinas. Mas se usar o axadrezado da Burberry, que parece a toalha de cozinha da minha avó, dir-lhe-ão: “Oh, que bonito”. O que se inveja é o inglês, o celta e as pessoas divertem-se a beber o chá das cinco, falando da sua costela “british”, quando foram os antepassados de Mollah Omar, de Mao e um outro Moucharaf que ensinaram os ingleses a beber chá. Admitamos, porém, que os britânicos continuam ainda hoje a não perceber que são os reis da infusão e não da civilização do chá. Uma infusão numa chávena de porcelana não tem nada a ver com um chá tuaregue de cravinho, uma chaleira de prata não tem nada a ver com uma chaleira de porcelana, qualquer que seja a marca de luxo. Quanto ao smoking, os anglo-saxões devem-no aos antepassados dos actuais prisioneiros de Guantanamo. Com efeito, ser francês é o quê? Que quer dizer “cultura francesa”? Quais são os costumes deste país? Serão as festas religiosas, todas elas desvirtuadas pelo comércio, o Halloween céltico que se festeja nas escolas laicas (o Halloween é mais engraçado que um véu? Onde está a lógica?), como se a Virgem Maria e o Menino Jesus não fossem mais saudáveis que todas essa feiticeiras e mortos-vivos que rendem culto aos Scream , ao Hannibal Canibal , em que o assassino, o criminoso passa a ser um herói simpático. Não nos admiremos, pois, que um garoto de 14 anos «se livre da namorada para fazer como no filme», sem falar do adolescente que, em Fontenay aux Roses, matou os pais, disfarçado de mr. Scream. Ah, como é belo o progresso! O halloween, o gótico, os scream, os homicidas de serra eléctrica e outros Van Helsing, tudo isso é verdadeiramente progressista. Quanto a Kill Bill , como é a obra do talentoso Tarantino, não faremos caso daquela mulher grávida até ao pescoço, que é morta à pancada e apanha, depois, uma bala na cabeça, ou ainda aquela cena em que uma miúda assiste ao assassinato da mãe. Sim, o culto da violência é uma coisa boa: aos 23 anos, Marie não se inspira apenas no cinema, mas também nos casos quotidianos, segundo parece (a dúvida impõe-se por vezes). E o Pulpe Fiction , que não tem nem pés nem cabeça, onde toda a gente mata alguém e se droga, parecendo-se mais com “Assassinos Natos” que com “Mystic River”. De facto, a violência de um “Mystic River”, que nos confronta com casos do dia-a-dia das nossas sociedades e com a miséria que os gera, é mais salutar que a “grande merda comercial” de Kill Bill, que não analisa nada e só vê os lucros a arrecadar. Neste país, alguns ministros da cultura declararam guerra às canções estrangeiras, em particular aos êxitos anglo-saxões, impondo quotas, mas eu, cá, penso que é à violência que é preciso impor quotas. Não sei se as imagens de Abou Graïb ou de crianças iraquianas mutiladas foram, ou não, banalizadas pela hemoglobina que se exibe gratuitamente nos ecrãs dos nossos cinemas.

Não sei se, para a Marie, as cruzes gamadas, os insultos racistas, são elementos banais de jogos de vídeo ou de filmes violentos, sem nenhum papel educativo ou moralizador. Infelizmente, essas cenas mórbidas e maquiavélicas fazem parte de muitos filmes brutalmente violentos. A violência foi banalizada e o anti-semitismo também. Não compreendo que gente normal possa ver imagens da invasão do Iraque, imagens do filme de Michael Moore, sem chorar ou sem ficar comovida. Os rostos queimados pelo napalm, o corpo de uma criança de dois anos, no máximo, deposto numa camioneta já cheia de cadáveres, aquele homem que transporta o filho sem vida e a mancha que se vê, porque o miúdo mijou-se antes de expirar... Em si, esta imagem, este horror, é o nazismo. Aquela mancha é uma cruz gamada em si mesma. Uma criança aterrorizada, ao ponto de fazer chichi e que agoniza um segundo depois, eis também o nazismo, de que os meios de comunicação não gostam de falar. Prefere-se ver o nazismo nos subúrbios de França. O pequeno Ali foi pulverizado pela barbárie tecnológica americana, uma criança foi mutilada e querem fazer-nos crer que os negros e os magrebinos são os «novos nazis». A violência também é isso, os mísseis que o sr. Dassault fabrica, o mesmo sr. Dassault que se tornou dono do Figaro , porque o “business” é que conta. Mísseis, que são dirigidos contra seres humanos, em nome da liberdade e da civilização. Enquanto explodem no estrangeiro, na Arábia ou em África, é a Guerra, mas, quando explodem na Europa ou nos Estados Unidos, é o Terrorismo. Como se a guerra não fosse sinónimo de terrorismo! Os iraquianos estão em guerra contra o invasor e há quem fale dos prisioneiros que o invasor faz e dos reféns que a Resistência faz. É o mundo de pernas para o ar: o Resistente deveria aceitar o invasor e o invasor seria a vítima do terrorismo, num país onde ele impõe uma guerra ilegal. “A Puta respeituosa”, de Jean-Paul Sartre tem palavras menos ordinárias que Bush, é certo, mas o que interessa ver é que, contrariamente a ele, a Puta não tem “as mãos sujas”. Os nossos jornalistas fazem a apologia das guerras de Washington e só se distanciam de Washington quando as coisas dão para o torto. Os nossos jornalistas começaram a falar de manipulação, tentando desacreditar o filme “Farheneit 9/11”, sem dizer abertamente que uma parte da imprensa, responsáveis de associações e deputados ditos “de esquerda” são pelo fascista Bush. Os americanos, conhecendo Bush e tendo visto as imagens de arquivo de M. Moore, não podem ser manipulados. Mas, mais que o filme de M. Moore, mais que as torturas sobre iraquianos, penso que foram os seus próprios mortos que os fizeram mudar um pouco de opinião. Se os iraquianos fossem os únicos a morrer no terreno, nenhum americano, excepto os anti-guerra notórios, como S. Penn ou M. Sheen, criticaria Bush. O que dói aos americanos é a morte dos seus soldados, dos seus filhos, e não, certamente, o massacre de inocentes. É fácil aplaudir Bagdade a ferro e fogo, isso é muito fácil, mas, no dia em que o sangue dos vossos se verte nas ruelas de Bagdade, então torna-se difícil aplaudir Bagdade a ferro e fogo.

Voltemos a M. Moore, pois mesmo na análise e comentário de acontecimentos “exteriores”, a nossa imprensa é verdadeiramente estranha. Começa por marginalizar o sr. Moore, criticar Farheneit 9/11 , depois faz a apologia dele, quando, no Festival de Cannes, o “génio” Tarantino lhe entrega a Palma de Ouro. Farheneit, no mundo anglo-saxão, significa grau. Num só título, M. Moore ironiza o “grau” que a febre da psicose e do terror atingiu nos Estados Unidos, graças à propaganda do Governo e ao matraqueamento da imprensa americana que se pôs às ordens de Bush. O título é também uma alusão a Farheneit 451 , de Ray Bradbury, um romance de ficção científica, que descreve uma ditadura, onde a vigilância do cidadão atinge o seu paroxismo máximo, onde a leitura dos cidadãos é vigiada e onde as outras liberdades individuais são postas em causa. Assim, M. Moore ilustra estes dois pontos: infiltração de um polícia num grupo pacifista, os serviços secretos a perguntar a M. Moore o que faz diante da embaixada saudita e, de fonte oficial, ficamos a saber a possibilidade do Estado controlar as leituras de um cidadão. Farheneit 9/11 é Farheneit 451 nos Estados Unidos e não um romance de ficção científica, cerca de 50 anos depois do aparecimento da obra-prima (1953).

Esta falta de análise pela imprensa especializada ou outra, que se contenta em desenhar duas ou três estrelas como argumentos de crítica em matéria de cinema, torna-se também inquietante. A falta de cultura e de análise é flagrante e mete medo. A imprensa mete-nos medo. Ela mete-nos muito medo.

Volvamos à conversa inicial ou ao “rebanho de Marie”.

Ondas hertzianas, transistores aos berros (o megalómano populista da RMC, que não tem nada a invejar ao Le Pen, estava histérico. Não sei donde saiu este berrador que é tido por jornalista), ecrãs de televisão a rebentar pelas costuras, políticos, responsáveis (irresponsáveis, na realidade) de associações de culto e culturais, todos disputam um lugarzinho nos ecrãs e nas ondas radiofónicas: desembrulhar, embrulhar e voltar a embrulhar, eis o que significa política e imprensa no Hexágono. Tristes trópicos, não é sr. Lévy-Strauss? Triste França, na verdade! Isto dá para escrever um bom ensaio de etnologia! A dança dos braços, as caretas e os gritos guturais da nossa “França de elite” ou da nossa “imprensa” tem qualquer coisa de mórbido e de decadente. Se o que é próprio de uma República é ser popular, ela não deve, por esse facto, tornar-se populista. À força de falar de “Cartas de Nobreza”, a imprensa faz-se monárquica e à força de falar de “Tenores políticos”, o político torna-se berrador e tenta vender o seu peixe em hasta pública. Só que nós não estamos nem num mercado nem no 1º de Abril, embora muitos já o façam crer.

Tal como uma enfiada de salsichas vermelhas, na montra de um talho, eles desfilaram pelos corredores da France Télévision e da Radio France, sem contar com a prosa de supermercado vertida nos diários, que se seguem uns aos outros e se assemelham todos... Eles exortam à luta contra o racismo e contra o anti-semitismo, mas são os primeiros a apontar o dedo à população dos subúrbios desfavorecidos e a subentender, quando não o dizem directamente, que o africano e o magrebino são os culpados, sem qualquer prova de facto, mas, de facto, com muitos preconceitos. Este fim-de-semana, não foram os “ravers” de 20 anos que se juntaram no campo, ao som da Techno. Não, foram os nossos políticos, os nossos jornalistas quarentões e cinquentões que se encristaram como galinhas e galos, a baterem-se pelos grãos lançados como pasto pela Marie. E o certo é que não há vão de escada onde «não se ouça cacarejar os galináceos que fazem a opinião» (A. Souchon). A França de elite e a imprensa puseram-se ao mesmo nível. Neste momento, em que temos um Conselheiro de Região pago a cerca de 2000 euros por mês, que, em directo da “Quinta”, berra como um vitelo, espojando-se na sordidez, como um “esganado por dinheiro”, só diz asneiras, podemos facilmente compreender o provérbio chinês: “uma sociedade, como um peixe, não apodrece pelo rabo, mas pela cabeça”. Alguns têm sorte: ser-se pago para fazer de burro numa quinta e receber 13 000 francos, como Conselheiro Regional, quando o Governo até tentou suprimir o subsídio de solidariedade, é uma grande sorte. Não sendo a educação um privilégio, como não é a correcção, uma parte da nossa França de elite não sabe comportar-se em sociedade. Assim, a sra. Gilbert, tendo estado na prisão por uma história de anéis, aparece nos ecrãs de televisão, a zurrar como um burro, o que é, apesar de tudo, menos humilhante que fazer de “serpente com plumas” na Lui . E vem o sr. Baudis falar da pornografia a banir do PAF, quando a rainha da pornografia francesa mostra as ventas nos estúdios da TV, da pública à privada, a horas de grande audiência, sujeitando-se às piadas sexistas («ela gosta de montar a cavalo», etc.) e machistas dos Foucault e outros “animadores”, que se aferrem ao seu lugar no audiovisual como um ditador ao seu trono. Triste PAF! Prefiro reler os velhos Pif a ver este enxurro de estupidez. Se a imprensa e a dita “fina flor” querem participar no grande estendal, então tudo pode ser permitido: boa parte da imprensa, escrita ou audiovisual, não é mais do que uma “enorme cloaca”.

Este parágrafo não se refere a jornalistas que apresentaram abertamente as suas desculpas.

Correcção e humildade é também o que falta aos nossos jornalistas, que só pensam depois de ter acusado e são incapazes de reconhecer os seus erros, pedindo perdão aos cidadãos e comunidades a quem acusam de todos os males, quando usam e abusam das palavras. Se um engenheiro, uma secretária, um vendedor, um futebolista, um cozinheiro, um sapateiro, um empregado de correios, um cantor, um actor podem facilmente dizer “perdão ou “meti a pata na poça”, um jornalista é incapaz disso. Quando muito, apesar da asneira à vista, atreve-se a responder-nos: “não, eu não fiz merda”.

Um jornalista nunca se engana e, quando se engana, “a culpa é do despacho noticioso, a culpa é dos despachos que se acumulam nos nossos computadores e não temos tempo de verificar tudo e partimos do princípio de que recebemos uma informação correcta e, depois, o Presidente da República reage” (se Jacques manda, é preciso obedecer, como é da praxe. São verdadeiros putos! Eis, pois, o que me dão estes desgraçados, que puseram a funcionar uma K7 audio, na radio, ou um vídeo que repetiram todo o fim-de-semana. O primeiro prémio vai para a LCI, onde Malik Bouthi fez de cabeça rapada, cuspindo sobre o Islão e nos magrebinos, esquecido, aparentemente, das suas origens magrebinas. Por que não esmagar aqueles a quem chamam “jovens dos subúrbios”, para ter um lugarzinho no PS? Defender o racismo antijudeu, fazendo racismo antimulçumano, devo dizer que o SOS Racismo é muito bom nisso. SOS Racismo não foi imitado pelo SOS Racailles, por um simples acaso.

A imprensa, como adolescente mentecapto, brinca connosco depois deste fim-de-semana vergonhoso, com os nossos pequenos “figurões” a dizer ou a escrever: “Se eu soubesse, não teria escrito”. Como se molhar a pena no tinteiro fosse mais vital do que fazer trabalhar as meninges. Como se fossem obrigados a escrever seja o que for, a dizer qualquer coisa, desde que se escreva ou se diga.

É quase como se os magrebinos e os africanos tivessem de calar a boca e PEDIR DESCULPA ou dizer OBRIGADO À IMPRENSA, particularmente no que se refere à imprensa radiofónica. A Radio France caiu no ridículo. Esta odiosa maneira de baralhar as coisas, tentando fazer crer que os magrebinos e os africanos não tinham sido caluniados e difamados, não engrandece certa imprensa e estou a pensar, sobretudo, na France Info, RFI, Europe 1 e RMC.

Ontem, um polícia foi detido por ter atropelado dois ciclistas, mas nenhuma rádio ou televisão falou da sua origem ou religião. Será que só se deve falar das origens africanas e magrebinas? Só a confissão muçulmana é que deve ser destacada? De que religião e de que origem é o sr. Fourniré que matou nada menos que nove raparigas? Teremos cometido crimes piores que os de um assassino em série, para nos matraquearem durante todo o fim-de-semana? Qual é a religião do sr. Fourniré? Qual é a religião do “Pedrinho maluco”, qual é a religião de todas as pessoas que cometem delitos todos os dias? Quais as suas origens? Em todo o caso, não tendo a imprensa falado de origem magrebina e de religião muçulmana, sobram apenas duas religiões. Portanto, podemos fazer um jogo: apostar na religião da pessoa. Chamar-lhe-emos “O Jogo da imprensa”.

E esse relatório dos RG, que fala da delinquência entre os magrebinos ou nos subúrbios (já que magrebino é igual a jovem de subúrbio, na síntese política e mediática), é um relatório étnico ou visa uma etnia? Aparentemente é esse o caso. Qual é o número das outras etnias? Vamos mais longe, desenvolvamos esta lógica e peçamos aos RG que nos dêem os números dos crimes de sangue neste país e a religião e a etnia daqueles que os cometem. Por exemplo: qual é a categoria socio-profissional, a origem étnica e a religião que mais frequentemente se encontram nos crimes pedófilos? Não basta dizerem-nos que Rachid roubou mais auto-rádios que François, é ainda preciso dizer qual dos dois é capaz de violar crianças ou matar mulheres em série? Aqui está aonde levam as derrapagens racistas dos políticos e da imprensa. Qual é a religião dos pedófilos notórios? Qual é a sua cor de pele? O QUE É DE MAIS NÃO PRESTA. Mesmo os RG não são pagos para escrever ensaios etnológicos retrógados, dirigidos contra uma comunidade. Este relatório é uma estupidez à medida das leis retorcidas, que nos fazem justiça com dois pesos e duas medidas, uma estupidez à medida das cidades-gueto onde a França enterra as franjas mais pobres da população, para nos vir, depois, falar de “fechamento comunitário”. Amontoam-se africanos num gueto e, seguidamente, faz-se notar que eles gostam de túnicas compridas e de mandioca? Amontoam-se árabes em guetos, longe de tudo e, depois, os RG constatam que eles gostam de comer borrego morto segundo o rito muçulmano? Que raio de estupidez imunda é esta? Quem é que construiu as cidades-gueto e quem é que decidiu lá concentrar negros e árabes? Fui eu? Foi o sr. Comunitarismo ou o sr. Fechamento Comunitário? Foi porque Jacques Chirac, Giscard, os falecidos Pompidou e Mitterrand imaginaram que iam fabricar cosmonautas nas coelheiras dos “4 000” ou do “Vale Fourré” e se enganaram? Este relatório é imundo e demonstra também que a maturidade do ou dos redactores levanta um sério problema, pois, mesmo aos 20 anos faz-se melhor, muito melhor.

Em Hassi-Messaoud, alguns ocidentais, pagos pelas companhias petrolíferas, praticam um superfechamento comunitário: nenhuma relação com os argelinos, álcool e comida à vontade, atrás de grades doiradas. Idem, nas bases de Luanda e de Cabinda, em Angola. Idem, na base de Brazzaville, no Congo. O fechamento comunitário dos “expatriados” franceses também se vê, portanto, em África e na Arábia. Vamos, então, filmar o fechamento identitário franco-francês em África. Vamos ver as antenas parabólicas dos expatriados franceses em África. Vamos, então, ver como os orfanatos de Djibouti estão cheios de mulatos abandonados, filhos de pai francês. Antes de apontar o dedo ao fechamento comunitário deliberado e desejado por certas pessoas, que a imprensa faça o seu trabalho e mostre à França o fechamento comunitário no estrangeiro. Mas é bem verdade que é melhor ficar na sua vivenda, à beira da piscina, que ir “chatear-se com os negros de Brazza”.

Se Fourniré fosse africano e muçulmano, nós teríamos direito à sua origem marroquina ou da Costa do Marfim. Mas, aparentemente, ele é “indígena”. Aparentemente, os maiores crimes são coisa dos indígenas? Gostaria de saber de que origem e de que religião são todos os jornalistas que falam das origens e das religiões dos outros. Deixemo-nos de cinismos de mau gosto. Fourniré nem é a França nem é o cristão. Mas continuemos com a ironia. Admiremos esta imprensa e esta classe política que nos servem o “dia de hoje”, porque há o dia de ontem e haverá o dia de amanhã. Devemos ao sr. Jean-Marie Cavada, de “A marcha do Século”, a popularidade deste barbarismo. Nem toda a gente pode “falar de França” como H. Troyat, escritor “oriundo da imigração russa” ou, ainda, como PPDA.

Os jornalistas divertem-se como os americanos dos anos 70 (a época dos “chicanos”): estudam-nos, põem-nos alcunhas para nos identificar como o “black”, o “beur”, o “magrebino”, o “muçulmano”, o “jovem do subúrbio”, o “jovem das cidades-dormitório”. A loucura da imprensa é tal que se esquece de que nas cidades-dormitório há mais trintões e quarentões do que jovens e todos os anos nos faz um “leafting”, imaginando talvez que um magrebino e um africano não passa dos 14 anos. Um pouco como C. Trénet, que dizia que «os negros eram crianças grandes». Era preciso ensinar-lhes tudo, pobrezinhos, eram crianças para toda a vida!

Presume-se sermos muito jovens, jovens para sempre, educadores e mediadores sociais, imãs, estúpidos, iletrados e até analfabetos, com problemas de identidade, integristas, não integrados, que gostamos de Ben Laden e de Mollah Omar, que gostamos da morte, que estamos desempregados, que somos drogados, vítimas do insucesso escolar, que usamos véus islâmicos, comemos merguez, passamos droga, roubamos auto-rádios, degolamos carneiros na casa de banho, agredimos ao longo do dia, estamos mais na prisão que em liberdade. Em suma, nós seríamos uns falhados e, em conclusão, más reses. Coisa a deitar para o lixo. Nós não somos indivíduos. Nós não somos cidadãos. Nós somos NÓS e nunca Eu, Tu, Ele, Ela, Nós, Vós, Eles, Elas. Nós só somos NÓS. Um NÓS vago, bem compacto, uma coisa enorme que ameaça, que se desloca como um fantasma pelos guetos, isolados de tudo, zonas que não fariam parte da República, zonas indefinidas. A este propósito, uma jornalista fez a descoberta “dos territórios perdidos da República”. Em contrapartida, eu acabo de fazer uma também importante, a dos “jornalistas perdidos da República”. Nós estaríamos, pois, em “zonas sem lei”, um pouco como a desaparecida Atlântida, zonas de sombra, onde matulões magrebinos, de rosto ameaçador, se passeiam com facas, onde colossos africanos têm quinze mulheres de 16 anos. Nós somos o subúrbio pobre, nós somos os vãos de escada degradados, nós somos os elevadores que caiem, nós somos os CV deitados para o lixo, nós somos o NÓS irresponsável, o NÓS comunitário, o NÓS que cria problemas, o NÓS terrorista, o NÓS anti-semita, o NÓS que anda em rebanho, a horda de Átila que se abate sobre a França, pilhando, escavacando, destruindo tudo o que encontramos no caminho, NÓS somos Aníbal que sonha anexar a França, NÓS temos de sofrer pela audácia de existir, NÓS ousámos nascer em França, NÓS temos a desfaçatez de representar o fracasso colonial do Império francês, NÓS temos a audácia de sermos muçulmanos num país que seria judeo-cristão. Nós temos a audácia de criticar a França. Nós temos a audácia de reclamar os nossos direitos porque cumprimos os nossos deveres, NÓS temos a audácia de sermos filhos e netos de independentistas, NÓS temos, para alguns, o descaramento de usar o lenço da cabeça das nossas avós ou bisavós.

Estes lenços que floresceram em França são talvez os minaretes das mesquitas interditas. Como as bretãs, numa determinada altura, decidiram usar “bem alto os seus campanários”, parece, hoje, que algumas muçulmanas usam “o seu minarete na cabeça”. Este país, que se afirma “judeo-cristão” para desculpar a sua aversão ao Islão e à cultura árabe no seu conjunto, viu no seu solo, cidadãos cristãos ajudarem o ocupante a massacrar os judeus, como, numa outra época, fechou com grande zelo os campanários das igrejas bretãs, alegando ser “a solução para integrar e dominar os bretões”. Procuram motivos, tentam justificar-se, mas isso é tão inútil como lamentável. Mas como esconder-se atrás da religião judaica e cristã, quando neste país se maltratam uns e outros? Robespierre não era muçulmano e Pétain também não. Os padres que foram cúmplices no suplício das gentes da Vendeia, afogadas às centenas, não eram nem judeus nem muçulmanos. Neste país, cristãos mataram cristãos, cristãos mataram judeus, como também alguns os defenderam. Então não se escondam atrás do termo genérico “judeo-cristão”. Que quer dizer muçulmano? Aquele que se submete à vontade de Deus, Alá, em árabe. Quem é o pai dos muçulmanos? Abraão. Então expliquem-me como é que o Islão não é judeo-cristão. Expliquem-me o que fazem, no Islão, Moisés e Jesus. Expliquem-me o nome judeu de muitíssimos muçulmanos, expliquem-me por que é que os nomes muçulmanos são mais “cristãos” que os nomes dos “cristãos do Ocidente”. O sr. de Villiers, por exemplo, que me esclareça sobre a raíz cristã do seu nome. O meu nome é mais cristão do que o de Charles Martel e de muitos dos reis do Ocidente que, no entanto, representaram o cristianismo? O meu nome é mesmo mais cristão do que o do Papa ou, até, o de São Paulo e São Pedro? É preciso deixar de fazer como se Jesus de Nazaré tivesse nascido no Quartier Latin e o Islão fosse a única religião árabe. O Cristianismo também nasceu no mundo árabe. O Catolicismo é uma herança do Maronismo. A Igreja de Antíoco ergueu-se antes da Igreja Católica. É no mundo árabe que os baptismos cristãos continuam a fazer-se em arameu e, à maneira de São João Baptista, é no Iraque, na Síria, na Palestina e no Líbano, entre outros, que a Missa se continua a dizer na língua de Jesus e de São João Baptista. É na grande sala das orações da Mesquita dos Omíadas que se encontra o Mausoléu de São João Baptista e não no Vaticano ou em Washington. Sim, na Mesquita dos Omíadas, não numa Igreja, mas numa Mesquita. É preciso deixar de fazer como se o Cristianismo e o Judaísmo fossem estranhos ao Corão, pois o Islão não pode juntar-se à cultura “judeo-cristã” por ser já “judeo-cristão”. Os muçulmanos são, assim, os últimos a praticar o sacrifício de Abraão. O problema deste país é que as pessoas nunca procuraram compreender o significado do Islão e o percurso do Judeu e do Cristão que se “realizaram” e “completaram” no Islão. Para compreender isso, é necessário estudar a História dos países árabes e é também necessário conhecer a cultura desses países.

Não houve agressão semita, é certo. Mas, na sua mentira, uma cidadã decidiu que os agressores imaginários deviam ser magrebinos e africanos. É o racismo na sua forma mais banal, na sua forma oficiosa e oficial. Vejamos, então: «Marie mentiu». Imagino que as mães magrebinas e africanas de Sarcelles devem ter suspirado de alívio, ao saber que o(s) filho(s) de 15 ou 20 anos não tinha(m) tido a infelicidade de sair a correr da estação de Sarcelles. Quem, mais que um adolescente ou um jovem de 15 a 20 anos, faz algazarra e corre com os amigos? Se uns jovens magrebinos e africanos tivessem deixado a estação a correr, porque se divertiam ou estavam atrasados para o autocarro, iriam para a prisão? Tê-los-iam forçado a confessar um crime que não cometeram? Mas Marie não fez nada de mal. Mentiu simplesmente. Acusou apenas magrebinos e africanos. Banal, não é? Fácil, não é? A isto se chama “preconceitos racistas”.

Marie não fez nada de mal, limitou-se a desenhar cruzes gamadas na barriga, cruzes gamadas ou flores (cada qual tem o seu estilo) e ela optou pelas cruzes gamadas, talvez por ser mais fácil que desenhar as mãos de Fatma ou Corões. Ela acusou, muito naturalmente, magrebinos e africanos de terem feito isso, de lhe haverem cortado o cabelo com uma faca, rasgado a roupa, atirado ao chão o carrinho onde tinha o bebé, de terem concluído que ela era judia porque morava no 16º bairro. Em suma, Marie não fez nada de mal. Nenhuma associação judia apresentará queixa, pois desenhar cruzes na barriga, como se poderiam desenhar flores, é aceitável. Nenhuma associação anti-racista e anti-semita apresentará queixa, porque, se Marie acusou uns magrebinos e uns africanos de a terem atacado por julgarem que ela era judia, devido a uma morada no 16º bairro, foi porque ela, em si, não tem esse preconceito. Marie não fez nada de mal e até pediu perdão. A quem? Não aos “Negros ou aos Magrebinos”.

Se o sr. Crukierman soube «apelar aos imãs das cidades-dormitório para falarem aos jovens», via comunicado na RFI, como se fosse o ministro do Interior ou o Reitor da Mesquita de Paris, ele nunca ousou “apelar aos padres para falarem aos jovens do centro ou a Marie”. Isto diz muito da mentalidade do sr. Crukierman, que enferma do espírito do “Decreto Crémieux”. O sr. Crukierman está bem mais longe das ideias de Nelson Mandela do que das de Pieter Botha. Desprezo o sr. Crukierman desde a sua declaração pro-Le Pen, sob a forma de uma ameaça dirigida à “comunidade muçulmana”, no dia seguinte à primeira volta das presidenciais. Um judeu, que ameaça com o nome de um homem que bateu numa deputada judia, atirando-a ao chão, depois de a ter empurrado contra a parede, ou, ainda, de um homem que declarou que «as câmaras de gás era um pormenor da História de França», para não falar da graçola à sr. Durafour, não tem um mínimo de consciência e, quando se trata do Presidente do CRIF, é tão indigno como vergonhoso. Ele não tem nenhuma correcção, nem sentido da Honra.

O sr. Crukierman, tal como outros, gostaria que, neste país, houvesse uma escala de valores, mas a França não é a África do Sul de Botha, nem Israel de Sharon. A coberto do anti-semitismo, alguns tentam defender o sionismo ultra, como acontece com Alex Moise, que enviava insultos anti-semitas a si próprio. E isso não é inocente, num homem que representava o Likoud em França. Quando Julien Dray atira o seu ódio (ele tem todo o direito) contra Tarik Ramadan («eu dar-lhe-ia, de bom grado, um murro nas trombas»), eu pergunto a mim mesma por que é que ele não tem vontade de dar esse murro a Papon e por que é que nunca o quis dar a Jean-Marie Le Pen pelas suas piadas anti-semitas e pela sua opinião acerca das câmaras de gás no quadro da História de França. Eu pergunto a mim mesma como teria reagido Julien Dray ou Crukierman, se o sr. Ramadan tivesse dito o mesmo que Le Pen. Mas, como escreve a sra. Coroller no Libération , no artigo “Traumatizada”, Le Pen é “um branco vulgar”. Isto é grave.

Mas donde vem essa escala de valores? Pois, se a Dieudonné foi interdito o serviço público por causa de uma cena onde ele fazia de extremista israelense (quando o extremista é negro ou árabe, isso já não choca), o sr. Le Pen, com todas as suas manifestações anti-semitas, como «Durafour crematório» e «as câmaras de gás são um pormenor da História», pavoneia-se pelos corredores da France Télévision e da Radio France, sem problemas. Mas a verdade é que há negros, brancos e “beur”, o que nos traz de volta a Pieter Botha, também ele, talvez, “um branco vulgar, traumatizado”. O nazi Botha fez milhares e milhares de discursos e nunca foi incomodado pela ONU pela sua ideologia nazi. Pior ainda: Washington apoiou Botha e votou contra a libertação de Nelson Mandela. De qualquer modo, a ONU chamou Israel à ordem a 10 de Novembro de 1986 pelas suas relações com o regime de Botha -- em 1986, Resolução 41/35, ponto C, “Relações entre Israel e África do Sul”, extracto, ponto 1: «a Assembleia Geral volta a condenar energicamente a colaboração sempre cada vez mais estreita entre Israel e o regime racista da África do Sul, principalmente nos domínios económico, militar e nuclear”.

Gostaria, também, que os que se servem do anti-semitismo, para fazer passar as suas ideias à Botha, tivessem a coragem de assumir as suas opiniões. Defender Israel, quando é Sharon quem está na chefia, é duvidoso e partir para a guerra contra os franceses, que são negros e árabes, é próprio de uma mentalidade afrikaner. Eu sou membro de uma Associação para a Defesa dos Direitos do Povo Palestiniano e a maioria dos membros desta Associação são “indígenas”, de cultura cristã e judaica. Por isso, não compreendo a razão por que Crukierman e Gaubert, entre outros, têm esta ideia fixa dos mulçumanos, árabes e negros. Ariel Sharon, segundo a Jeune Afrique (há vários artigos) efectuou frequentes viagens à África do Sul, durante o governo de Botha. O regime agradava-lhe muito. Esse facto não me tornou anti-semita. Assim, seria talvez a altura de certas pessoas terem a coragem de assumir as suas ideias racistas e fascistas e deixassem de se servir de tudo e mais alguma coisa para se defenderem. Terá sido preciso esta história de uma mitómana para compreenderem que brincar ao “Pedro e o Lobo” não era nem inteligente nem aceitável? Eu relembro que, quando o lobo chegou de facto à aldeia, ninguém acreditou no Pedro que se fartara de gritar “vem aí o lobo” e o fim da história toda a gente conhece.

Abaixo, transcrevo o extracto de um discurso de Botha que faz com que, em caso nenhum, admita que um jornalista, um país, um político, faça do racismo antinegro ou anti-árabe um jogo ou uma banalidade. O que se passou em França neste fim-de-semana é uma completa vergonha.

Extracto do discurso de P. Botha, “O meu programa de exterminação física dos negros da África do Sul”, Agosto de 1980 (Ver Magazine Réflexe, Jan./Fev. 1990): «Vivemos no meio de selvagens que não suportam o nosso sangue, que nos odeiam e querem arrancar-nos o que adquirimos. Em verdade vos digo, esta é uma terra dada por Deus e pela qual nos devemos bater até à última gota do nosso sangue. Nós não somos obrigados a provar a ninguém, e muito menos aos Pretos, que somos um povo superior. Já demonstrámos isso aos Pretos mil e uma vezes. Nós não afirmamos, como fazem outros brancos, que gostamos dos negros. O facto de os negros se parecerem com seres humanos e agirem como seres humanos não faz deles necessariamente seres dotados de inteligência. Os sapos não são porcos-espinhos e os lagartos não são crocodilos só pelo facto de se assemelharem. Se Deus tivesse querido que fôssemos iguais aos negros, ter-nos-ia criado uniformemente, com a mesma cor, com a mesma inteligência. Mas criou-nos diferentes – brancos, negros, amarelos, desde há anos. De qualquer modo, é reconfortante saber que, apesar das aparências, a Europa, a América, o Canadá, a Austrália estão connosco, uns e outros, digam eles o que disserem. No que diz respeito às relações diplomáticas, sabemos que linguagem se deve utilizar e onde se deve utilizar. Para justificar o meu ponto de vista, peço que me digam se há um só país branco que não tenha investido ou que não tenha interesses na África do Sul. Quem compra o nosso ouro? Quem compra os nossos diamantes? Quem faz comércio connosco? Quem nos ajuda a desenvolver a arma nuclear? O desejo de poder não começou connosco. A lei da natureza quer que o pequeno peixe seja comido pelo grande. Daí, nós estarmos intimamente convencidos de que o Negro é uma matéria-prima para o Branco. Irmãos e Irmãs, unamos os nossos esforços para combater o diabo negro. Aceitemos, pois, que o negro é o símbolo da pobreza, da inferioridade mental, da preguiça e da incapacidade emocional. A alimentação, enquanto suporte do genocídio que vamos levar a cabo em relação aos negros, deve ser utilizada. Já desenvolvemos excelentes venenos que matam lentamente (veneno a pôr nos alimentos) e possuem, para mais, a virtude de tornar as mulheres estéreis. O meu último apelo é que as operações nas maternidades sejam intensificadas. Nós não pagamos aos responsáveis dos serviços hospitalares para eles ajudarem as crianças negras a vir ao mundo, mas para as eliminar à nascença. Se esse serviço trabalhasse eficazmente, uma grande tarefa seria cumprida. O meu governo pôs de lado um fundo especial, para que este programa seja executado convenientemente nos hospitais e clínicas». (P. Botha).

Esperando que este discurso recorde a alguns que estigmatizar e apontar o dedo a uma cor de pele ou a uma religião deu sempre lugar a massacres, a genocídios e não serviu nenhuma nação até hoje. Quem oprime não colhe senão o ódio que semeia. Basta olhar à nossa volta para compreender.

Saudações

Notas
[1] Folcohe, personagem do livro de Hervé Bazin “Vipère au poing”, editado pela Europa-América, em 1960, com o título “De víbora na mão”. Optou-se, aqui, pela tradução “Com quatro pedras na mão”.
[2] Pejorativos utilizados em França para designar os árabes, magrebinos, norte-africanos.

[*] Poetisa socialmente comprometida

O original encontra-se em http://fr.groups.yahoo.com/group/CubaSolidarityProjet/message/6305 .
Tradução de MJS e ASA.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
15/Set/04