A vitória deles e a nossa
É razoavelmente pacífico afirmar que a II Guerra Mundial, cujo
fim na frente europeia se celebra por estes dias, foi essencialmente uma guerra
dupla, se não mesmo duas guerras em uma só, que as
contingências a dada altura juntaram: de um lado, uma guerra
inter-imperalista que opôs a Alemanha nazi e a Itália fascista
às demais potências ocidentais (França, Reino Unido,
Estados Unidos); do outro, uma guerra contra-revolucionária de ataque e
abate à grande experiência de construção do
socialismo em que se tinha constituído a URSS.
É portanto uma vitória bem diferente aquela que celebram os
comunistas, os revolucionários, os que combatem o fascismo como
ideologia e o capitalismo de cujas entranhas ele saiu. Não é
apenas o soçobrar de um projecto político antidemocrático,
antipopular, expansionista, belicista, agressivo: é a derrota em toda a
linha da maior máquina de combate à classe operária,
à revolução socialista, à organização
popular, ao anticapitalismo, que a burguesia alguma vez inventou.
Porque, e ninguém o duvide, foi essencialmente isso que o fascismo foi:
misturando alta e baixa intensidade, violência e propaganda, aparelho
repressivo e aparelho ideológico, reprimindo e proibindo por um lado,
exacerbando por outro racismos, chauvinismos, preconceitos, divisões
artificiais e glamourização das agruras e dificuldades da vida
proletária, estatuída em exemplo de abnegação
estóica pelo futuro da nação, o fascismo demonstrou como a
burguesia se dispõe a rigorosamente tudo para desarticular e dividir o
proletariado. Ao genocídio, se for necessário. Ao totalitarismo,
se for necessário. A toda a máquina de destruição e
terror que a Alemanha nazi ergueu máquina que derrocou diante das
tropas soviéticas, do heróico Exército Vermelho, na Grande
Guerra Patriótica, guiado por Estaline. Por um lado, a consciência
desta situação reduz todos os discursos pacifistas a uma
parvoíce que só a ignorância histórica pode permitir
afirmar, e a um luxo a que nenhum trabalhador se pode dar. Por outro, a derrota
do nazismo às mãos da União Soviética figura ainda
hoje, e figurará para sempre, como uma das páginas mais gloriosas
da história da classe trabalhadora à escala mundial, um exemplo
imorredouro e inspirador de que nenhum expediente militar ou ideológico
inventado pela burguesia é, ou algum dia será, suficientemente
poderoso para quebrar a unidade da classe trabalhadora e a arrancar do poder,
assim ela tenha dirigentes firmemente empenhados no curso da
revolução.
É portanto, hoje mais do que nunca, dia de refutar duas teses mil vezes
repetidas: em primeiro lugar, a de que a derrota do nazi-fascismo às
mãos do Exército Vermelho é a mesma derrota que este
sofreu diante de norte-americanos, de britânicos, e de franceses.
Não, não é. Uma derrota frente ao proletariado nunca
será igual a uma derrota perante uma burguesia concorrente, a qual, de
resto, nem sequer pode reclamar a autoridade moral suficiente para afirmar que
enfrentou o fascismo por uma questão de princípio. A
França do mesmo De Gaulle que moveu a guerra da Argélia e o
massacre dos argelinos em Paris, a Grã-Bretanha do mesmo Churchill que
chacinou malaios e quenianos nos anos 50, os EUA que invadiram e massacraram na
Coreia, no Vietname, no Cambodja, que ao tempo da II Guerra Mundial tinham (e
continuaram a ter por mais 20 anos) as
leis Jim Crow
de segregação dos negros do sul, tinham tudo menos autoridade
para denunciar e atacar o nazismo. O próprio Churchill, que enquanto a
URSS auxiliava a República em Espanha elogiava Franco enquanto
«combatente antivermelho», terá dito, numa conversa de
corredor à margem da Conferência de Potsdam,
«we might have slaughtered the wrong pig»,
referindo-se aos soviéticos. E foi de bom grado que os EUA e os demais
países ocidentais adoptaram o acervo de mentiras e
distorções engendradas pela propaganda de Goebbels sobre a URSS,
no fito de prosseguirem a sua sanha anticomunista durante a Guerra Fria.
Em consequência desta primeira refutação, chegamos à
segunda: a de que exista uma «herança democrática do
antifascismo» que cumpre defender e conservar. Não, não
existe. E este argumento, que sustenta posições política
clamorosamente contrárias ao proletariado, desde a defesa do projecto
europeu à crença semi-religiosa na bondade de sectores da
social-democracia e do reformismo verbalista dos partidos burgueses, é
cancerígeno para o avanço da revolução. Porque a
verdade, a histórica, a material, a objectiva, é apenas esta:
assistiu-se a um tempo em que, alterada radicalmente a correlação
de forças a favor do movimento operário com a vitória
soviética, a constituição de um Bloco Socialista de Berlim
Leste a Pequim, e o prestígio social dos comunistas enquanto linha da
frente da resistência antifascista no essencial dos países
europeus, as burguesias da Europa ocidental tiveram de fazer largas
concessões no imediato pós-guerra. Essa conjuntura, essa
correlação de forças, com a vitória da
contra-revolução na URSS e no Leste, com a traição
eurocomunista de diversos partidos operários no coração da
Europa ocidental (França, Itália, Espanha, etc), acabou em
definitivo. Perante essa derrota, a burguesia aposta cada vez mais
despudoradamente no fascismo, com partidos burgueses herdeiros dessa
«herança democrática» a abrirem o caminho sem qualquer
hesitação. Apelos emocionais às suas
tradições democráticas de coisa nenhuma servirão. A
burguesia só conhece a crítica das armas, liga pouco às
armas da crítica.
O rearmamento teórico da classe trabalhadora, para enfrentar a vaga
reaccionária que se vai abater sobre ela nos próximos tempos tem
um exemplo elucidativo na vitória soviética: só
poderá contar com ela mesma, e qualquer confiança em sectores da
burguesia será atraiçoada na primeira esquina, assim que os
motivos conjunturais que ditaram a amizade de circunstância tenham
passado. Nunca confiar na burguesia. Aliar-se sempre com autonomia em
relação à burguesia. Nunca aceitar a hegemonia da
burguesia numa aliança. E assentando nas suas próprias
forças, determinada, organizada, mobilizada para a vitória, a
classe trabalhadora derrotará, como já derrotou, todas as SS,
todos os Marines, toda a repressão que a burguesia faça desabar
sobre ela.
10/Maio/2015
O original encontra-se em
https://conscienciavisceral.wordpress.com/2015/05/10/a-vitoria-deles-e-a-nossa/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|