Uma admissão

por Jacques Sapir

Houve uma notícia que passou praticamente desapercebida na sexta-feira passada. Trata-se do anúncio, por parte do governador do Banco Central da Holanda, sr. Klaas Knot, de que sua instituição tinha preparado "um plano de emergência" (a contingency plan) para a saída do Euro em 2012. Esta notícia não tem nada de surpreendente, confirmando aliás o que já se sabe de várias fontes. Diversos bancos centrais de países da zona euro, bem como os respectivos ministérios das finanças, trabalham com base em cenários de explosão ou de saída do Euro, pelo menos, desde a primavera de 2011.

O conteúdo desses estudos


Deste ponto de vista, é importante notar que uma saída do Euro não constituiria o perigosíssimo "salto no vazio" alegado por muitos europeístas. Estes estudos têm continuado, e diversos economistas conhecidos pela sua oposição ao Euro, seja ela uma oposição antiga ou recente, continuam a ser regularmente consultados. Aquilo que demonstram estes estudos, e posso atestá-lo com base naquilo que conheço dos resultados relativos aos que foram realizados para quatro países, é que a saída poderia ter lugar sem drama sob condição de que o Banco Central tome medidas de salvaguarda. Diversos pontos críticos foram identificados de forma convergente nestes trabalhos: violentos movimentos especulativos no curto prazo, alterações no balanço dos bancos e das companhias seguradoras, tensões inflacionistas. Pode-se registar que para nenhum país foi dado particular destaque à questão da dívida pública. Assumiu-se a aplicação da lex monetae , ou seja, o princípio de que uma dívida emitida por um país no seu solo é reembolsável na moeda desse mesmo país, trate-se do Euro ou de outra moeda. Note-se que nenhum desses estudos aceita como plausível um colapso do comércio entre os países da área do Euro. Em todos eles, bem como nas discussões que os prepararam e nas que se seguiram, foi considerado de forma muito razoável que os movimentos comerciais sofreriam decerto modificações, mas que iriam continuar. Assim, as avaliações catastrofistas produzidas por alguns institutos "de estudos" marcadamente europeístas, as quais anunciam resultados dramáticos (como uma queda de 10% do PIB, por exemplo), não foram validadas: nem para a França, nem para outros países. Na verdade, esses estudos têm, isso sim, confirmado a validade dos resultados dos trabalhos realizados pelo "anti-Euro". Sabemos que na França um estudo do Ministério das Finanças procedeu à validação das perspectivas de crescimento no caso duma acentuada desvalorização do "Novo Franco", com base nos cálculos efectuados para a economia francesa relativos à paridade Euro/Dólar.

Riscos associados a uma saída do Euro

Os pontos críticos identificados são-no apenas na medida em que se assuma que o sistema financeiro dos países permaneceria inalterado. No entanto, para a maioria dos países, diversos cálculos e estimativas mostram que estes problemas são susceptíveis de ser geridos. O risco de forte especulação que acompanharia o regresso às moedas nacionais seria severamente limitado pelos controles de capitais relativos às transacções financeiras de curto e médio prazo. Esses controles de capitais devem ser mantidos por um período de pelo menos seis meses, e até um ano e meio. O facto de as transacções financeiras ocorrerem hoje em dia exclusivamente por via electrónica torna tudo isto muito mais fácil de aplicar. A situação dos bancos e das seguradoras levanta problemas um pouco maiores. Os sistemas bancários italiano, francês, holandês e belga, no seu todo, mostram grande resistência à desestabilização resultante da saída do euro. No entanto, algumas instituições podem atravessar dificuldades, as quais são ainda assim reduzidas por comparação com as experimentadas no Outono de 2008. Os governos têm meios cabais para lidar com isso. Há um caso apenas em que os problemas são graves: é o da Espanha. Todavia, tendo em conta as ligações entre os bancos alemães e a banca espanhola, é claro que este país iria receber um apoio substancial. O problema é mais complexo para as companhias de seguros (ou para a parte correspondente a estas nos balanços dos bancos). No entanto, aqui, mais uma vez, a necessidade de recapitalização não excede um montante entre 0,5 e 0,75% do PIB, consoante os países.

O risco de inflação varia consideravelmente, dependendo do país considerado e sendo moderado no caso da França. É inegável que ocorrerão perdas no património (e especialmente no património das famílias), as quais serão um resultado da inflação, que pode ser mais elevada do que a taxa de juro durante um período de um a dois anos. Isto implica uma perda total no património financeiro de cerca de 10%, a qual pode ser compensada por subidas noutras componentes patrimoniais (especialmente o imobiliário) e pelo aumento dos rendimentos do trabalho. Entretanto, é claro que uma saída do Euro teria consequências em matéria de redistribuição duma parte dos activos patrimoniais. Mas a magnitude deste efeito redistributivo parece não exceder 5% a 7%, dependendo do país.

Os efeitos positivos

Os efeitos positivos duma saída do Euro são discutidos apenas lateralmente nestes estudos, os quais incidem sobre a dimensão técnica dos riscos que essa saída produziria. Todavia, implícita ou explicitamente, são reconhecidos como importantes para dois países, a França e a Itália. Quanto à Holanda, são considerados "significativos". Estes estudos sublinham a dimensão política de tal decisão. Neste ponto, o leitor é remetido às suas próprias convicções. Se ele pertencer à comunhão europeísta quanto à ideia de que "O Euro corresponde ao sentido da história", nesse caso então, tal como "Paris vale bem uma missa", assim também o Euro vale bem uma crise e uma depressão duradoura nos países considerados. Pelo contrário, sendo mais aquilo que habitualmente se designa por "Euro-realista", ou sendo simplesmente agnóstico em matéria de "religião do Euro", considerará que chegou a altura, ou até mesmo que já passou a altura, de pôr fim a uma experiência infeliz e que já durou demasiado tempo. A evolução do PIB dos países desde a introdução do Euro e a evolução do investimento indicam bem o custo exorbitante da moeda única.

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Estão bem patentes nestas curvas as implicações que o Euro teve, e tem ainda, para a economia dos países da zona do Euro. As consequências sociais são igualmente dramáticas e a enorme manifestação de Madrid no passado sábado, 22 de Março, mostra que as pessoas já não suportam o insuportável. O Euro, em virtude da sua própria existência, está a organizar o fim do "Estado social", para recorrer aos termos utilizados pelo nosso colega Christophe Ramaux no livro do mesmo nome [1] .

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Está claro hoje que, perante a deterioração da situação macroeconómica, e face à redução dos meios de acção deixados ao alcance do BCE, as tentativas para "salvar" o Euro não podem resultar senão em austeridade renovada e ampliada. Com o fim desse tal "Estado social", que era parte integrante da cultura europeia desde 1918 (e, no caso da Alemanha, já mesmo antes disso), é ao fim da Europa que vamos assistir. Constitui, portanto, uma emergência de primeiro plano que os diferentes estudos sobre o fim do Euro sejam finalmente publicados, e que o sejam honestamente, isto é, na sua totalidade. Fornecerão a base para um debate real durante as eleições europeias, o qual deve girar em torno da questão da "euro-austeridade", e portanto, em última instância, em torno da questão da existência ou não do Euro.

Mas é muito duvidoso que isso seja feito. Os pró-europeus de todas as franjas no poder, sejam eles de esquerda ou de direita, esse famoso "Partido Único do Euro", continuarão com a sua ladainha todo-o-terreno sobre como "Outra Europa é possível", quando na realidade é claríssimo que a única Europa que se pode esperar é a da miséria. É melhor, nestas condições, não ficarmos espantados com os resultados eleitorais que aí vêm.

[1] Ramaux C., L'Etat Social, Paris, Les Mille et Une Nuits, 2012.

23/Março/2014
O original encontra-se em http://russeurope.hypotheses.org/2138 . Tradução de João Carlos Graça.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
28/Mar/14