O fim do Minotauro e a bancorruptocracia
Em meio a uma crescente maré de livros sobre a crise económica
capitalista mundial, este destaca-se. Está baseado solidamente na teoria
marxista, embora não se entregue ao jargão pelo gosto do
jargão. Ele revela admirável conhecimento da história e
das instituições, rastreando os papéis dos Estados Unidos,
das potências europeias, as do Extremo Oriente e mais, a partir da II
Guerra Mundial, com esplêndido domínio tanto dos dados como dos
comentários de referência. E o seu estilo de escrita viva
demonstra domínio do vocabulário e do idioma inglês para
além da norma [aplicável] mesmo àqueles que a têm
como língua mãe.
Em nove capítulos, Varoufakis conduz o leitor ao longo da sua
versão de quase sete décadas da era do pós-guerra. Um
capítulo anterior apresenta a pré-história e apresenta
alguns conceitos básicos da economia capitalista como tal, incluindo a
natureza característica dos mercados de trabalho e de dinheiro, assim
como o papel cambiante das finanças. Os capítulos que se seguem
esboçam em traços grossos o sistema capitalista mundial que
emergiu da guerra. Primeiro, o que Varoufakis chama o Plano Global, consagrado
em Bretton Woods em 1944, estabeleceu a dominância dos Estados Unidos
como fornecedor de bens, graças aos enormes excedentes comerciais, para
o mundo fraco e em recuperação; um processo que entronizou o
dólar como divisa mundial e deu ao capital dos EUA cheques em branco
para adquirir o controle de interesses por todo o globo. O Plano Global tinha
uma fraqueza crucial que disparou o seu colapso em 1971: "a inabilidade do
governo dos EUA para exercer auto-contenção em
relação à sua própria capacidade para explorar o
seu exorbitante privilégio original; sua capacidade, como
guardião da divisa de reserva do mundo, para imprimir dinheiro
público global à vontade".
O Plano Global rendeu-se portanto ao Minotauro Global, a metáfora
central do livro. (O original desta imagem na mitologia grega é
explicado numa caixa especial logo no princípio do livro; o Minotauro
era uma besta, semi-humano, semi-touro, que devorava carne humana que lhe era
oferecida como tributo). O excedente comercial dos EUA tornou-se um grande e
crescente défice, o qual se somou ao défice do governo para
formar os défices gémeos que definem a cena do Minotauro. Este
cenário perdurou até a crise financeira de 2008. Tal como o Plano
Global tinha uma fraqueza crucial, também a tinha o Minotauro Global.
Mais uma vez, foi um fracasso americano em auto-contenção.
Só que neste momento, não foi um fracasso do governo
estado-unidense... mas da generalidade do sector privado e dos bancos em
particular. O sector financeiro americano fracassou espectacularmente em
exercer auto-contenção em relação à sua
capacidade de explorar seu novo e moderno privilégio: sua possibilidade,
como guardião da financiarização global, para emitir
dinheiro global privado à vontade.
O cerne da finança moderna, portanto, é o impulso
inexorável do capital privado para romper o seu próprio
constrangimento auto-imposto: o controle do governo sobre a oferta
monetária. Dólares offshore (euro- ou petro-) são
suplementados por novos instrumentos financeiros: hipotecas titularizadas,
Collateralized Debt Obligations, Credit Default Swaps. Esta superestrutura
financeira derivativa mistifica e oculta a extensão do endividamento,
enquanto simultaneamente torna o sistema mais frágil. Isto também
liberta o Minotauro para saciar, implacavelmente, seu apetite por capitais
europeus, chineses e outros a fim de financiar seus défices
gémeos. O resultado: a crise actual, anunciada solenemente no que
Varoufakis chama de a etapa do domínio pelos bancos em bancarrota, ou
bancorruptocracia.
A ausência de mecanismos gerais de reciclagem do excedente (comercial)
desempenha um grande papel explicativo. Mercados não regulados geral
desigualdades persistentes em produtividade e capitalização entre
regiões de uma economia; eles certamente falham na
eliminação destes desigualdades. Excedentes em um sector (e sua
contrapartida, défice em outro) devem finalmente explodir o sistema, a
menos que haja um mecanismo de investimento para transferir excedentes daqui
para ali. Onde há uma divisa única (o dólar, ou o euro)
deve haver um mecanismo fiscal para transferir recursos se se quiser evitar a
crise. Isto existe nos Estados Unidos; não existe na Comunidade
Europeia. Portanto a crise desenvolve-se nesta última, mais
visível a princípio no caso da Grécia.
Soluções de remendos para a crise do euro simplesmente não
funcionarão. Não é apenas uma questão de
dívida soberana (de países tais como a Grécia e a
Irlanda), mas antes uma crise bancária à escala europeia. Simples
reconfigurações de dívida, "haircuts" e medidas
semelhantes não eliminarão os desequilíbrios subjacentes.
Atacar défices através de cortes "austeritários"
de despesas (aprofundando assim recessões) é contraproducente. A
Europa precisa nada menos do que um Programa de Recuperação
Económica, modelado de acordo com o New Deal dos EUA, juntamente com a
assunção de grande parte da dívida soberana pelo
emissão de títulos do Banco Central Europeu a fim de criar poder
fiscal e reciclar o excedente ao nível europeu.
A conclusão geral de Varoufakis está aberta. Se a economia
mundial emerge ou não da bancorruptocracia depende de encontrar a
vontade política para estabilizar divisas e construir um mecanismo de
reciclagem do excedente global. Isto por sua vez depende em grande medida dos
Estados Unidos.
"Se decisores políticos da América compreenderem o
significado e a irreversibilidade da morte da morte do Minotauro Global ...
há uma possibilidade de um futuro que se demonstrará racional,
estável e fértil com pelo menos um mínimo de
esperança de que à nossa última Crise será
permitido que desencadeie o seu potencial criativo.
[NR]
Talvez séculos mais tarde a morte do nosso próprio Minotauro
inspire os poetas e construtores de mitos a assinalarem o seu perecimento como o
princípio de novo e autêntico humanismo".
As perguntas, naturalmente, abundam. A transição do
pós-guerra entre Plano e Minotauro sugere que uma era realmente de ouro
entre elas (com comércio equilibrado e relações
estáveis por cima do "charco"
[1]
) pelo menos era possível. Qual
é a origem que leva a extremos? Além disso, a
concepção de o poder dos EUA sobre o resto do mundo é
assegurado em primeiro lugar por excedentes comerciais, posteriormente por
défices comerciais, parece insatisfatório de um ponto de vista
explicativo. Teríamos nós realmente efectuado uma boa
política económica mercantilista, construindo poder nacional pela
produção e vendendo mais para parceiros comerciais do que deles
se recebesse? A análise de Varoufakis ainda está bastante ligada
a capitais nacionais (ou pelo menos regionais): EUA vs. Europa; Alemanha
(e
outros países excedentários) vs. Grécia (e outros
países deficitários) dentro da Europa; China vs. Extremo Oriente;
Extremo Oriente vs. o resto do mundo.
Será que o quadro ficaria beneficiado ao incorporar a emergência
de uma classe capitalista transnacional e tratar os Estados Unidos (o
Minotauro) como principiando a assumir o papel de um estado capitalista
transnacional? Finalmente, terá o papel explorador central das
finanças ficado um tanto perdido no torvelinho da reciclagem do
excedente comercial? Nós, presumivelmente, não queremos esquecer
que mesmo um capitalismo bem administrado seria um sistema explorador e, como
tal, inerentemente inclinado â crise. Não estou a sugerir nem por
um momento que Varoufakis não saiba disto; apenas que por vezes talvez a
sua
teoria perca o rastro.
Não obstante tudo isso,
The Global Minotaur
é um lançamento refrescante e poderoso no grande debate global e
uma
contribuição importante para o "humanismo novo e
autêntico" ao qual certamente devem aspirar os observadores (e
vítimas) da crise actual.
06/Agosto/2013
[NR]
resistir.info está de acordo com a análise geral de
Varoufakis, mas não com as suas conclusões reformistas. Sugerir
que se decisores políticos compreendessem a situação
poderiam saná-la (restabelecendo os mecanismos de reciclagem e os
fluxos rompidos) é uma utopia. Recorde-se que o Plano
Marshall (o plano de reciclagem do pós-guerra) só foi
concretizado porque existia então a URSS e o governo dos EUA temia que o
socialismo se estendesse à Europa Ocidental. Do contrário
é provável que cometesse os mesmos erros que se seguiram à
I Guerra Mundial, com a imposição de reparações de
guerra extorsivas aos países vencidos.
[1]
"charco": refere-se ao Atlântico.
Alguns artigos de Varoufakis:
Uma fábula para os nossos tempos na conclusão de 2011
, 23/Dez/2011
Fúria sem sentido: Porque tanto os políticos alemães como os gregos cometem um erro ao ficarem raivosos
, 30/Jan/2012
Será a Grécia ainda viável? (E a Europa ainda é?)
,
05/Fev/2012
Os jornalistas e a reportagem da crise da eurozona
, 06/Fev/2012
Sim, há a Grécia... Mas e a Espanha?
, 17/Mai/2012
[*]
Editor de
Science & Society,
revista académica marxista fundada em 1936.
O original encontra-se em
yanisvaroufakis.eu/...
Esta resenha encontra-se em
http://resistir.info/
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