O fim do Minotauro e a bancorruptocracia

por David Laibman [*]

Capa da edição espanhola. Em meio a uma crescente maré de livros sobre a crise económica capitalista mundial, este destaca-se. Está baseado solidamente na teoria marxista, embora não se entregue ao jargão pelo gosto do jargão. Ele revela admirável conhecimento da história e das instituições, rastreando os papéis dos Estados Unidos, das potências europeias, as do Extremo Oriente e mais, a partir da II Guerra Mundial, com esplêndido domínio tanto dos dados como dos comentários de referência. E o seu estilo de escrita viva demonstra domínio do vocabulário e do idioma inglês para além da norma [aplicável] mesmo àqueles que a têm como língua mãe.

Em nove capítulos, Varoufakis conduz o leitor ao longo da sua versão de quase sete décadas da era do pós-guerra. Um capítulo anterior apresenta a pré-história e apresenta alguns conceitos básicos da economia capitalista como tal, incluindo a natureza característica dos mercados de trabalho e de dinheiro, assim como o papel cambiante das finanças. Os capítulos que se seguem esboçam em traços grossos o sistema capitalista mundial que emergiu da guerra. Primeiro, o que Varoufakis chama o Plano Global, consagrado em Bretton Woods em 1944, estabeleceu a dominância dos Estados Unidos como fornecedor de bens, graças aos enormes excedentes comerciais, para o mundo fraco e em recuperação; um processo que entronizou o dólar como divisa mundial e deu ao capital dos EUA cheques em branco para adquirir o controle de interesses por todo o globo. O Plano Global tinha uma fraqueza crucial que disparou o seu colapso em 1971: "a inabilidade do governo dos EUA para exercer auto-contenção em relação à sua própria capacidade para explorar o seu exorbitante privilégio original; sua capacidade, como guardião da divisa de reserva do mundo, para imprimir dinheiro público global à vontade".

O Plano Global rendeu-se portanto ao Minotauro Global, a metáfora central do livro. (O original desta imagem na mitologia grega é explicado numa caixa especial logo no princípio do livro; o Minotauro era uma besta, semi-humano, semi-touro, que devorava carne humana que lhe era oferecida como tributo). O excedente comercial dos EUA tornou-se um grande e crescente défice, o qual se somou ao défice do governo para formar os défices gémeos que definem a cena do Minotauro. Este cenário perdurou até a crise financeira de 2008. Tal como o Plano Global tinha uma fraqueza crucial, também a tinha o Minotauro Global.

Mais uma vez, foi um fracasso americano em auto-contenção. Só que neste momento, não foi um fracasso do governo estado-unidense... mas da generalidade do sector privado e dos bancos em particular. O sector financeiro americano fracassou espectacularmente em exercer auto-contenção em relação à sua capacidade de explorar seu novo e moderno privilégio: sua possibilidade, como guardião da financiarização global, para emitir dinheiro global privado à vontade.

O cerne da finança moderna, portanto, é o impulso inexorável do capital privado para romper o seu próprio constrangimento auto-imposto:   o controle do governo sobre a oferta monetária. Dólares offshore (euro- ou petro-) são suplementados por novos instrumentos financeiros: hipotecas titularizadas, Collateralized Debt Obligations, Credit Default Swaps. Esta superestrutura financeira derivativa mistifica e oculta a extensão do endividamento, enquanto simultaneamente torna o sistema mais frágil. Isto também liberta o Minotauro para saciar, implacavelmente, seu apetite por capitais europeus, chineses e outros a fim de financiar seus défices gémeos. O resultado: a crise actual, anunciada solenemente no que Varoufakis chama de a etapa do domínio pelos bancos em bancarrota, ou bancorruptocracia.

A ausência de mecanismos gerais de reciclagem do excedente (comercial) desempenha um grande papel explicativo. Mercados não regulados geral desigualdades persistentes em produtividade e capitalização entre regiões de uma economia; eles certamente falham na eliminação destes desigualdades. Excedentes em um sector (e sua contrapartida, défice em outro) devem finalmente explodir o sistema, a menos que haja um mecanismo de investimento para transferir excedentes daqui para ali. Onde há uma divisa única (o dólar, ou o euro) deve haver um mecanismo fiscal para transferir recursos se se quiser evitar a crise. Isto existe nos Estados Unidos; não existe na Comunidade Europeia. Portanto a crise desenvolve-se nesta última, mais visível a princípio no caso da Grécia.

Soluções de remendos para a crise do euro simplesmente não funcionarão. Não é apenas uma questão de dívida soberana (de países tais como a Grécia e a Irlanda), mas antes uma crise bancária à escala europeia. Simples reconfigurações de dívida, "haircuts" e medidas semelhantes não eliminarão os desequilíbrios subjacentes. Atacar défices através de cortes "austeritários" de despesas (aprofundando assim recessões) é contraproducente. A Europa precisa nada menos do que um Programa de Recuperação Económica, modelado de acordo com o New Deal dos EUA, juntamente com a assunção de grande parte da dívida soberana pelo emissão de títulos do Banco Central Europeu a fim de criar poder fiscal e reciclar o excedente ao nível europeu.

A conclusão geral de Varoufakis está aberta. Se a economia mundial emerge ou não da bancorruptocracia depende de encontrar a vontade política para estabilizar divisas e construir um mecanismo de reciclagem do excedente global. Isto por sua vez depende em grande medida dos Estados Unidos.

"Se decisores políticos da América compreenderem o significado e a irreversibilidade da morte da morte do Minotauro Global ... há uma possibilidade de um futuro que se demonstrará racional, estável e fértil com pelo menos um mínimo de esperança de que à nossa última Crise será permitido que desencadeie o seu potencial criativo. [NR] Talvez séculos mais tarde a morte do nosso próprio Minotauro inspire os poetas e construtores de mitos a assinalarem o seu perecimento como o princípio de novo e autêntico humanismo".

As perguntas, naturalmente, abundam. A transição do pós-guerra entre Plano e Minotauro sugere que uma era realmente de ouro entre elas (com comércio equilibrado e relações estáveis por cima do "charco" [1] ) pelo menos era possível. Qual é a origem que leva a extremos? Além disso, a concepção de o poder dos EUA sobre o resto do mundo é assegurado em primeiro lugar por excedentes comerciais, posteriormente por défices comerciais, parece insatisfatório de um ponto de vista explicativo. Teríamos nós realmente efectuado uma boa política económica mercantilista, construindo poder nacional pela produção e vendendo mais para parceiros comerciais do que deles se recebesse? A análise de Varoufakis ainda está bastante ligada a capitais nacionais (ou pelo menos regionais):   EUA vs. Europa; Alemanha (e outros países excedentários) vs. Grécia (e outros países deficitários) dentro da Europa; China vs. Extremo Oriente; Extremo Oriente vs. o resto do mundo.

Será que o quadro ficaria beneficiado ao incorporar a emergência de uma classe capitalista transnacional e tratar os Estados Unidos (o Minotauro) como principiando a assumir o papel de um estado capitalista transnacional? Finalmente, terá o papel explorador central das finanças ficado um tanto perdido no torvelinho da reciclagem do excedente comercial? Nós, presumivelmente, não queremos esquecer que mesmo um capitalismo bem administrado seria um sistema explorador e, como tal, inerentemente inclinado â crise. Não estou a sugerir nem por um momento que Varoufakis não saiba disto; apenas que por vezes talvez a sua teoria perca o rastro.

Não obstante tudo isso, The Global Minotaur é um lançamento refrescante e poderoso no grande debate global e uma contribuição importante para o "humanismo novo e autêntico" ao qual certamente devem aspirar os observadores (e vítimas) da crise actual.

06/Agosto/2013

[NR] resistir.info está de acordo com a análise geral de Varoufakis, mas não com as suas conclusões reformistas. Sugerir que se decisores políticos compreendessem a situação poderiam saná-la (restabelecendo os mecanismos de reciclagem e os fluxos rompidos) é uma utopia.   Recorde-se que o Plano Marshall (o plano de reciclagem do pós-guerra) só foi concretizado porque existia então a URSS e o governo dos EUA temia que o socialismo se estendesse à Europa Ocidental.   Do contrário é provável que cometesse os mesmos erros que se seguiram à I Guerra Mundial, com a imposição de reparações de guerra extorsivas aos países vencidos.

[1] "charco": refere-se ao Atlântico.


Alguns artigos de Varoufakis:
  • Uma fábula para os nossos tempos na conclusão de 2011 , 23/Dez/2011
  • Fúria sem sentido: Porque tanto os políticos alemães como os gregos cometem um erro ao ficarem raivosos , 30/Jan/2012
  • Será a Grécia ainda viável? (E a Europa ainda é?) , 05/Fev/2012
  • Os jornalistas e a reportagem da crise da eurozona , 06/Fev/2012
  • Sim, há a Grécia... Mas e a Espanha? , 17/Mai/2012

    [*] Editor de Science & Society, revista académica marxista fundada em 1936.

    O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/...


    Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 14/Ago/13