Kosovo: A independência, na Admirável Nova Ordem Mundial, de uma colónia da NATO

por Diana Johnstone [*]

. Neste último fim-de-semana, a máquina de propaganda ocidental andou a fazer horas extraordinárias, festejando o último milagre da NATO: a transformação do Kosovo sérvio no Kosovo albanês. O território vergonhosamente ocupado pelos Estados Unidos, que se serviu do problema do Kosovo para instalar uma enorme base militar (Camp Bondsteel) num território estrategicamente posicionado, pertencente a outras pessoas, está transformado pelo poder dos meios de comunicação numa lenda fabricada de "libertação nacional".

Para os poucos infelizes que conhecem a complexa verdade acerca do Kosovo, parecem mais apropriadas as palavras de Aldous Huxley: "Vocês vão ficar a saber a verdade, mas a verdade vai dar cabo de vocês".

No que se refere ao Kosovo, a verdade é como as palavras escritas na areia quando o tsunami da propaganda chega de rompante. A verdade está acessível – por exemplo, no artigo cuidadosamente informativo de George Szamuely da passada sexta-feira, no CounterPunch. Por vezes também aparecem fragmentos da verdade nos meios de comunicação predominantes, normalmente em cartas de leitores. Mas como é impossível remar contra a maré que oficialmente patrocina a lenda, vou examinar apenas uma gota deste imparável mar de propaganda: uma coluna de Roger Cohen intitulada "O novo Estado da Europa", publicado na edição do Dia de S. Valentim no International Herald Tribune.

. O artigo de opinião de Cohen é bastante típico no modo desprezível como trata Milosevic, a Rússia e os sérvios. Coehn escreve: "Slobodan Milosevic, o falecido ditador, pôs em marcha a onda nacionalista assassina da Sérvia em 24 de Abril de 1987, quando foi ao Kosovo declarar que os 'antepassados sérvios ficariam desonrados' se a etnia albanesa levasse a melhor".

Não sei onde é que Roger Cohen foi buscar esta citação, que não se encontra no discurso que Milosevic fez em Kosovo naquele dia. E de certeza que Milosevic não foi a Kosovo para declarar uma coisa destas, mas sim para consultar os funcionários da Liga Comunista de Polje, município do Kosovo, sobre os graves problemas económicos e sociais da província. Para além da pobreza crónica da província, do desemprego e da má gestão dos fundos de desenvolvimento provenientes do resto da Jugoslávia, o principal problema social era o constante êxodo dos habitantes sérvios e montenegrinos sob a pressão da etnia albanesa. Na altura este problema foi noticiado nos principais meios de comunicação ocidentais.

Por exemplo, já em 12 de Julho de 1982, Marvine Howe noticiava no New York Times que os sérvios estavam a abandonar o Kosovo às dezenas de milhares por causa da discriminação e intimidação por parte da maioria étnica albanesa:

"Os nacionalistas [albaneses] têm uma plataforma com dois pontos", segundo Beci Hoti, secretário executivo do Partido Comunista do Kosovo, "o primeiro para instaurar aquilo a que chamam uma república albanesa etnicamente limpa e a seguir para a fundir com a Albânia para formar uma Albânia maior.

Mr. Hoti, albanês, manifestou a sua preocupação com as pressões políticas que estavam a forçar os sérvios a sair do Kosovo. "Agora o que é importante", disse, "é instalar um clima de segurança e criar a confiança".

E, sete meses depois da visita de Milosevic ao Kosovo, David Binder noticiou no New York Times (01/Novembro/1987):

Albaneses no Governo [do Kosovo] manipularam fundos públicos e regulamentos para se apropriarem de terras pertencentes a sérvios. Foram atacadas igrejas ortodoxas, e foram rasgadas bandeiras. Foram envenenados poços e incendiadas searas. Foram esfaqueados rapazes eslavos e alguns jovens de etnia albanesa foram instigados pelos mais velhos para violarem raparigas sérvias.

O objectivo dos nacionalistas radicais entre eles, disse-se numa entrevista, é uma "região de etnia albanesa que inclua a Macedónia ocidental, o sul de Montenegro, parte do sul da Sérvia, o Kosovo e a Albânia propriamente dita".

Como os eslavos estão a fugir perante a violência prolongada, o Kosovo está a tornar-se no que os nacionalistas de etnia albanesa têm vindo a exigir há anos, e que se tornou particularmente forte desde os motins sangrentos da etnia albanesa em Pristina em 1981 – uma região albanesa "etnicamente pura".

Esta é que foi de facto a primeira ocorrência da "limpeza étnica" na Jugoslávia após a II Guerra Mundial, conforme noticiado no New York Times e em outros meios de comunicação ocidentais, e as suas vítimas foram os sérvios. O culto da "memória" é hoje uma religião contemporânea, mas há memórias mais iguais do que outras. Na década de 90, o New York Times obviamente tinha-se esquecido completamente do que havia dito sobre o Kosovo nos anos 80. Porquê? Talvez porque, entretanto, o bloco soviético se desmoronou e a unidade da Jugoslávia independente e não alinhada já havia deixado de ser um interesse estratégico para os Estados Unidos.

Voltando a Milosevic em Polje, Kosovo, em 24 de Abril de 1987. Ocorreu um incidente quando a polícia local (sob um governo da Liga Comunista dominado por albaneses) atacou sérvios que se haviam reunido para protestar contra a falta de protecção legal. É bem conhecido que Milosevic lhes disse, espontaneamente: "Nunca mais ninguém vos vai bater!" Se isto é "nacionalismo extremo", talvez fosse preciso haver mais deste tipo.

Mas em parte alguma encontro indícios da afirmação que Cohen atribui a Milosevic. No seu discurso seguinte aos delegados locais do partido, que é do conhecimento público, Milosevic referiu-se ao "lamentável incidente" e prometeu uma investigação. Prosseguiu, sublinhando que "não permitiremos que as desgraças das pessoas sejam exploradas por nacionalistas, que devem ser combatidos por todas as pessoas honestas. Não devemos dividir a população entre sérvios e albaneses, mas pelo contrário devemos separar, dum lado, as pessoas decentes que lutam pela fraternidade, unidade e igualdade étnica e, do outro, os contra-revolucionários e nacionalistas".

Volto de novo a Aldous Huxley à guisa de consolação: "Os factos não deixam de existir só porque são ignorados".

Mas Huxley também disse: "A verdade é importante, mas de um ponto de vista prático, o silêncio sobre a verdade ainda é mais importante. Ao não mencionarem certos assuntos, os propagandistas totalitários influenciaram a opinião pública muito mais eficazmente do que o teriam feito através das denúncias mais eloquentes".

Na passada terça-feira em Genebra, o ministro russo dos Estrangeiros, Sergei Lavrov, tentou alertar os jornalistas para a sua grande preocupação sobre o modo como os Estados Unidos estão a tratar do problema do Kosovo.

"Estamos a falar da subversão de todos os fundamentos e princípios do direito internacional, que foram conquistados e instituídos como base da existência da Europa com enorme esforço, e à custa de sofrimento, de sacrifício e de derramamento de sangue", disse.

"Ninguém tem um claro plano de acção a propor, no caso de uma reacção em cadeia [de outras declarações de independência unilaterais]. Verifica-se que eles [os Estados Unidos e os seus aliados da NATO] estão a planear agir de modo descuidado numa questão da maior importância. Isto é totalmente inaceitável e irresponsável", disse o diplomata russo. "Sinceramente não consigo compreender quais são os princípios que orientam os nossos colegas americanos e os europeus que adoptaram esta posição", acrescentou.

Roger Cohen reduz estas considerações a cinco palavras: "o urso russo vai rugir". A Rússia, acrescenta, "vai dar gritos. Mas apostou no cavalo errado". Aqui não há questões, não há princípios. Apenas rugidos e apostas. "Milosevic lançou os dados do nacionalismo genocida e perdeu", diz Cohen.

Isto não é apenas uma afirmação falsa, é uma metáfora grosseira e sem sentido. Milosevic tentou suprimir um movimento divisionista armado, secreta mas eficazmente apoiado pela vizinha Albânia, pelos Estados Unidos e pela Alemanha, que propositadamente provocou a repressão assassinando sérvios e albaneses leais ao governo. Tal como os americanos em circunstâncias semelhantes, Milosevic confiou demasiado na superioridade militar em vez de utilizar a perícia política. Mas o próprio Tribunal Criminal para a ex-Jugoslávia, de Haia, patrocinado pela NATO, teve que abandonar as acusações de "genocídio" contra Milosevic no Kosovo. Pela simples razão de que nunca houve ponta de provas para tal acusação.

Milosevic já não está vivo, e a Rússia está muito longe. Mas e quanto aos sérvios que ainda vivem na parte histórica da Sérvia que se chama Kosovo? Cohen resolve o problema em poucas palavras: "Parte dos 120 mil sérvios do Kosovo podem fazer-se à estrada".

Como Aldous Huxley realçou, "O objectivo do propagandista é fazer com que um grupo de pessoas se esqueçam que há outros grupos de pessoas que são humanas".

Depois podem dizer-lhes para "se fazerem à estrada".

O caso "único"

A Rússia chamou a atenção para o facto de que a independência do Kosovo estabelecerá um precedente perigoso, encorajando outras minorias étnicas a seguir o exemplo dos albaneses e a exigirem a separação e um Estado independente. Os Estados Unidos minimizaram estas preocupações afirmando lisonjeiramente que o Kosovo é um caso "único". Pois bem, o Kosovo é um caso único, e é o único reconhecido pelos Estados Unidos até que apareça o próximo "caso único". Depois de derrubados os critérios legais, haverá mais "casos únicos", uns atrás doutros.

O "caso único" apregoado pelos Estados Unidos é uma construção propagandística. Baseia-se no suposto "caso único" da repressão de Milosevic do movimento divisionista armado, que não foi nada único. Foi um procedimento de actuação habitual em toda a história e em todo o mundo, em tais circunstâncias. Deplorável, sem dúvida, mas nada único. Na verdade, foi bem menor se comparado com operações repressivas semelhantes mas muito mais prolongadas e muito mais sangrentas na Colômbia, no Sri Lanka e na Tchetchénia, para não falar da Irlanda do Norte, da Tailândia ou das Filipinas. E, ao contrário das operações contra insurreições no Iraque e no Afeganistão, que mataram incomparavelmente mais civis, foi levado a efeito pelo governo legal, democraticamente eleito do país, e não por um poder estrangeiro.

A propaganda do "caso único" é uma abstracção. Tal como outro lugar qualquer na Terra, o Kosovo é de facto único. Mas em coisas que nada têm a ver com o pretexto dos EUA para o ocuparem e o transformarem num bastião militar do império.

Para se saber como um local é único, é preciso estar interessado nele.

Não voltei ao Kosovo desde que começou a guerra da NATO em 1999. Numa ocasião, em Agosto de 1997, percorri a província num velho Skoda, à minha custa, só para observar. Guiar em Kosovo era um pouco arriscado, em parte por causa do número de cães mortos no meio da estrada, mas sobretudo por causa do hábito dos motoristas locais de ultrapassar veículos mais lentos nas lombas e nas curvas. No norte de Kosovo, mesmo fora da cidade de Zubin Potok, este hábito provocou uma das suas inevitáveis consequências: uma colisão frente a frente com feridos graves, com o encerramento de duas pistas da auto-estrada durante horas enquanto ambulâncias e polícia resolviam o assunto.

Impossibilitada de seguir para Priscina, voltei a Zubin Potok, para passar o tempo numa esplanada à sombra dum restaurante de estrada. Eu era a única cliente e o criado solitário, um jovem alto e bem parecido chamado Milomir, aceitou satisfeito o meu convite para se sentar à minha mesa e conversar comigo enquanto eu bebia copos dum delicioso sumo de morango, uns atrás dos outros.

Milomir ficou contente por poder falar com alguém que conhecia a cidade francesa de Metz, que ele visitara enquanto estudante e de que se lembrava com saudade. Gostava de ler e de viajar, mas em 1991 tinha-se casado e agora tinha duas filhotas para criar. As perspectivas de emprego eram fracas, apesar de ele ter estado na universidade, por isso não teve outra hipótese senão ficar em Zubin Potock. Quanto à Europa, mesmo que conseguisse arranjar um visto (o que era impossível para os sérvios), não falava outra língua europeia que não fosse a sua língua natal, servo-croata. Tinha estudado russo (adorava a sua literatura) e albanês como línguas estrangeiras. Aprendera albanês para poder comunicar com a maioria em Kosovo.

Mas essa comunicação era difícil. Milomir era a favor duma sociedade bilingue e, achava que toda a gente no Kosovo devia aprender o sérvio e o albanês, mas infelizmente isso não acontecia. A geração mais jovem de albaneses recusava-se a falar sérvio e preferia aprender inglês.

A cidade de Zubin Potok estava situada perto da barragem do Rio Ibar construída no final dos anos 70 para produção de energia hidráulica. Vinda de Novi Pazar, eu tinha guiado ao longo do lago artificial com 35 km de comprimento, criado pela barragem, procurando em vão um sítio simpático para parar. Parece que tinha havido aldeias ao longo do rio Ibar antes de a barragem ser construída, e falei com Milosevic sobre isso. Sim, disse ele, o lago artificial tinha submergido uma série de antigas aldeias, de etnia mista, mas na sua maioria de população sérvia. As autoridades comunistas albanesas em Pristina tinham reinstalado os sérvios fora do Kosovo, em torno da cidade de Kraljevo. Seriam umas 10 mil pessoas.

Isso foi um pequeno exemplo das medidas administrativas tomadas para reduzir a população sérvia durante aquela época, antes de Milosevic, quando os albaneses governavam a província por intermédio da Liga Comunista local.

Milomir não se estava a queixar, mas apenas a responder às minhas perguntas. Não ia muitas vezes (de autocarro porque não tinha automóvel) à grande cidade mais próxima, Mitrovica, porque tinha medo de ser espancado pelos albaneses. Era apenas um facto da vida, numa altura em que (segundo os meios de comunicação ocidentais), os albaneses no Kosovo estavam a ser aterrorizados pela repressão sérvia.

Enquanto conversávamos, entrou na conversa um amigo dele e a conversa virou-se para a política. Estava a decorrer uma campanha presidencial. Os dois jovens queriam saber qual era o candidato que eu achava melhor para a Sérvia aos olhos do mundo. Milomir inclinava-se para Vuk Draskovic, e o amigo dele era a favor de Vojislav Kostunica. Nenhum deles sonhava sequer em votar quer em Milosevic quer em Seselj, o líder nacionalista do Partido Radical.

Zubin Potok hoje em dia

Não faço ideia do que é que aconteceu a Milomir, à mulher dele, às suas duas filhas, ou ao seu amigo. Zubin Potok é o município mais a ocidente no norte de Kosovo, com muita população sérvia. Pela Internet vim a saber que a população do município de Zubin Potok (incluindo as aldeias vizinhas) quase duplicou desde que por lá passei. Actualmente chega quase a 14 900, incluindo cerca de 3 000 sérvios deslocados internamente (de outras áreas do Kosovo donde foram expulsos pela maioria albanesa), 220 refugiados sérvios da Croácia e 800 albaneses. A assembleia local é esmagadoramente dominada pelo Partido Democrático da Sérvia, de Kostunika, mas inclui dois representantes kosovo-albaneses.

Até agora, as escolas, os hospitais e outros serviços públicos, assim como a economia local, têm continuado a funcionar graças sobretudo a subsídios de Belgrado. A declaração albanesa da independência do Kosovo vai criar uma crise ao pôr fim a esses subsídios vitais – que, no entanto, um "Kosovo independente" não conseguirá substituir. Além disso, bandos de nacionalistas albaneses andam a declarar que Zubin Potok "é albanesa" e tem que ser "libertada dos sérvios". Podemos vê-los no You Tube, utilizando a Estátua da Liberdade como símbolo, e ameaçando os sérvios num rap albanês.

A União Europeia está a tentar impor a lei e a ordem. Mas a "ordem" que afirmam estar a proteger é a ordem definida pelos nacionalistas albaneses. O que é que isso significa para pessoas como Milomir e a sua pequena família?

Para Roger Cohen, a resposta é fácil: "metam-se à estrada!".

A propósito, a Sérvia já tem o maior número de refugiados da Europa, vítimas da "limpeza étnica" na Croácia e no Kosovo. E os sérvios não conseguem obter vistos ou estatuto de refugiados na Europa ocidental. Foram rotulados de "maus da fita". Só os seus inimigos é que são as "vítimas".

Antes e depois

No entanto, o Kosovo, antes da guerra e ocupação da NATO era uma sociedade pluriétnica. A acusação de "apartheid" era apenas propaganda albanesa, visto que foram os líderes dos nacionalistas albaneses que escolheram esse termo com uma forte carga para descrever o seu próprio boicote aos sérvios e às instituições sérvias. Todas as acções policiais contra um albanês, fosse qual fosse a razão, quer por suspeita de rebelião armada quer por qualquer crime comum, era descrita como uma "violação dos direitos humanos" pela rede albanesa de defesa dos direitos humanos financiada pelo governo dos Estados Unidos.

Foi uma situação invulgar os governos da Sérvia e da Jugoslávia terem permitido que um ilegal "governo do Kosovo" separatista, chefiado por Ibrahim Rugova, se instalasse no centro de Pristina, recebendo com regularidade jornalistas estrangeiros e presenteando-os com histórias sobre como eram oprimidos pelos terríveis sérvios.

Mas as leis eram as mesmas para todos os cidadãos, havia albaneses no governo local e na polícia e, se houve casos de brutalidade policial (em que países é que não há casos de brutalidade policial?), os albaneses pelo menos não tinham nada a temer dos seus vizinhos sérvios.

Mesmo nessa altura, eram os sérvios que tinham medo dos albaneses. Só fora do Kosovo é que alguém poderia mesmo acreditar que eram os albaneses que estavam ameaçados de "limpeza étnica" (mas nunca de "genocídio"). Um plano desses, obviamente, estava fora de questão. Eram os sérvios que tinham medo, que falavam de enviar os filhos para lugar seguro se tivessem meios para tal, ou que falavam corajosamente em ficar "custasse o que custasse".

Posteriormente, em Março de 1999, quando a NATO começou a bombardear o Kosovo, os albaneses fugiram às centenas de milhares, e a sua fuga temporária do teatro de guerra foi apresentada como justificação para o bombardeamento que fora causa disso. A imprensa não se preocupou em dar notícias sobre os sérvios e outros que também fugiram dos bombardeamentos na mesma altura.

No Kosovo, em 1987, em Pristina e em Pec, observei um tipo estranho de comportamento de grupo que me faz lembrar os parques de recreio das escolas em Maryland da minha infância. Um grupo de miúdos reunia-se e, através de diversos sinais, linguagem corporal, e um mínimo de palavras, apelidavam outros de excluídos e desprezados. Vi albaneses a agir dessa forma em relação a sérvios solitários, principalmente velhotas. Este tipo de "pressão popular" em 1987 não era violento, mas passou a sê-lo depois de a NATO ocupar o território. Foi encorajado pelo carimbo oficial da NATO na aprovação dos albaneses odiados pelos sérvios, entregue com as bombas na primavera de 1999.

Claro que devia haver sérvios que odiavam os albaneses. Mas, na minha experiência limitada, o que me chocou foi a ausência de ódio pelos albaneses entre os sérvios que conheci. Medo, sim, mas ódio não. Uma grande dose de perplexidade. A irmã Fotina do mosteiro de Gracanica tinha uma explicação muito cristã. Tentámos ajudar os albaneses a criar os seus muitos filhos, disse ela, e no entanto eles viram-se contra nós. Deve ser a forma de Deus nos castigar por nos termos afastado do cristianismo durante os tempos do comunismo, concluía. Responsabilizava mais os seus compatriotas sérvios do que os albaneses.

Mas a punição divina não se restringiu aos cristãos. Na ponta mais a sul do Kosovo vive uma antiga população chamada Gorani (que significa povo da montanha), que se converteu ao Islão durante o Império Otomano, tal como a maioria dos albaneses. Mas a sua língua é o sérvio e isto é inaceitável para os albaneses. As estimativas variam, mas concordam em que pelo menos dois terços dos Gorani se foram embora desde a "libertação" da NATO. A pressão e a intimidação assumiram diversas formas. Os albaneses mudaram-se para as casas temporariamente vagas dos Gorani que tinham ido para a Áustria e para a Alemanha ganhar dinheiro para a sua reforma. As autoridades albanesas protegidas pela NATO arranjaram forma de privar as crianças Gorani de ir à escola de língua sérvia. Em Dragash, a principal cidade de Gorani, uma chusma de albaneses atacou o centro de saúde e obrigou os trabalhadores da saúde a fugir. Depois, no passado dia 5, uma forte explosão destruiu o banco de Dragash. Era o único banco sérvio ainda autorizado a funcionar no sul do Kosovo, e servia principalmente para transferir as pensões que permitiam aos Gorani locais sobreviver.

Como é habitual, o crime ficou sem punição.

David Binder, que costumava dar notícias sobre a Jugoslávia para o New York Times, antes de ser afastado por saber demais, referiu-se em Novembro passado [1] a uma longa investigação da situação no Kosovo, encomendada pela Bundeswehr [Forças Armadas] alemã. A existência deste relatório é uma prova de que os governos ocidentais, enquanto afirmam publicamente que o Kosovo está "pronto para a independência", sabem perfeitamente que isso não é verdade. Entre outras coisas, Binder relata:

Os autores, Mathias Jopp e Sammi Sandawi, passaram seis meses a entrevistar 70 especialistas e a desenterrar literatura actual sobre o Kosovo para prepararem este estudo. Na sua análise, a efervescência política e a luta de guerrilha dos anos 90 provocaram mudanças básicas a que chamam uma "reviravolta nas estruturas sociais kosovo-albanesas". O resultado é uma "sociedade em guerra civil em que aqueles que se inclinam para a violência, gente pouco instruída e facilmente influenciável, podem provocar enormes sobressaltos sociais numa soldadesca construída à pressa".

"É uma sociedade mafiosa" baseada no "assalto ao Estado" por elementos do crime.

Na definição dos autores, o crime organizado no Kosovo "é formado por organizações de muitos milhões de euros, com experiência de guerrilha e profundos conhecimentos de espionagem". Citam um relatório do serviço de informações alemão sobre "ligações estreitas entre os dirigentes políticos e a predominante classe do crime" e mencionam Ramush Haradinaj, Hashim Thaci e Xhavit Haliti como sendo lideres comprometidos que são "protegidos internamente pela imunidade parlamentar e externamente pela lei internacional".

Citam depreciativamente o chefe da UNMK [Missão das Nações Unidas para Administração Interina no Kosovo] em 2004-2006, Soeren Jessen Petersen, a tratar Haradinaj por "um amigo próximo e pessoal". O estudo critica severamente os Estados Unidos por "cumplicidade na fuga de criminosos" no Kosovo assim como por "impedirem os investigadores europeus de trabalhar".

Assinala "centros secretos de detenção da CIA" em Camp Bondsteel e denuncia o treino militar americano para a polícia (albanesa) do Kosovo, feito pela Dyncorp, autorizada pelo Pentágono.

Num aparte, cita um funcionário não identificado, falando sobre o americano que é vice-chefe da UNMIK, "A principal tarefa de Steve Schook é embebedar-se uma vez por semana com Ramush Haradinaj".

Quem sai e quem fica

Schook foi demitido da UNMIK, mas a UNMIK, a missão designada pelas Nações Unidas, tem vindo a ser chefiada arbitrariamente pela União Europeia. A "missão" da UE é uma espécie de governo colonial que, juntamente com a NATO, planeia governar o ingovernável território albanês. No entanto, já há movimentos armados de patriotas albaneses a planear a sua próxima "guerra de libertação" contra os europeus.

Então, depois dos sérvios, dos romenos, dos goranis, serão os europeus a ter que "se fazer à estrada"? Parece que só ficarão os americanos. Entrincheirados no seu gigantesco "Camp Bondsteel", controlam as vias estratégicas da Sérvia para a Grécia e acidentalmente oferecem à massa de albaneses desempregados do Kosovo oportunidades de emprego mais bem pago, em particular em troca de lugares servis e perigosos ao serviço das forças americanas no Iraque e no Afeganistão.

A realidade desta vergonhosa apropriação de território está à vista de toda a gente. Já escrevi sobre ela, Binder escreveu sobre ela, Szamuely escreveu sobre ela, muitos alemães têm escrito sobre ela. Os russos, os gregos, os romenos, os eslovenos e muitos outros conhecem-na bem. Mas na Admirável Nova Ordem Mundial, ela não existe. As pessoas não a conhecem.

Deixo a Aldous Huxley as últimas palavras:

"Quase toda a ignorância é uma ignorância transponível. Não sabemos porque não queremos saber".

18/Fevereiro/2008

[1] A notícia de Binder pode ser vista em http://www.balkanalysis.com/

Ver também: Jugoslávia, a primeira guerra da globalização , de Diana Johnstone

[*] Autora de Fools' Crusade: Yugoslavia, Nato, and Western Delusions (Monthly Review Press) e Cruzada de Cegos (Editorial Caminho).

O original encontra-se em http://www.uruknet.de/?p=m41261&hd=&size=1&l=e . Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
22/Fev/08