Um "mini-tratado" de
1300 páginas
"Os tratados europeus servem os interesses daqueles que os escrevem"
por Étienne Chouard
entrevistado por Sílvia Cattori
[*]
Em 2005, um francês como os outros, Étienne Chouard, professor do
Liceu Marcel Pagnol de Marselha, apresentou no seu blog as suas análises
do projecto do Tratado Constitucional Europeu. No decurso da campanha
referendária, o seu sítio suscitou grande entusiasmo e revelou-se
um dos mais acedidos em França. Cortando com a opacidade dos discursos
oficiais, a simplicidade dos seus argumentos tocou um público vasto para
quem "o que se concebe bem enuncia-se claramente". Ele conta-nos o
seu percurso e descreve a sua visão das instituições,
segundo ele, desnaturadas.
Sílvia Cattori:
ao consultar
o seu sítio na Internet
, percebemos
que, em 2004, você era favorável ao Tratado Constitucional
Europeu, mas que depois de ter estudado o seu conteúdo, mudou
radicalmente de opinião. Poderia resumir-nos as razões dessa
reviravolta?
Étienne Chouard:
a minha trajectória é a de alguém
que confiava nos políticos. Eu não fazia política. Quando
comecei a compreender no que se tinham tornado as instituições
europeias, caí de muito alto. Dei-me conta de que os homens do poder
estavam em vias de escrever, eles mesmos, os limites do seu poder e que esses
limites eram escritos de modo a que nós não
compreendêssemos nada.
Nas instituições europeias já nenhum actor é
responsável pelos seus actos perante os cidadãos; existem algumas
aparências de responsabilidade, que na verdade não passam de
ilusões.
Sobretudo, o Parlamento não conta para nada dentro das
instituições: este não tem a iniciativa das leis,
não participa na elaboração da lei senão sob a
tutela (a supervisão?) do Conselho de Ministros que se promulgou
co-legislador em detrimento da mais elementar e indispensável
separação dos poderes e ainda assim, não o faz para
todos os domínios. Com efeito, existem domínios sujeitos
àquilo a que se chama os "procedimentos legislativos
especiais", cerca de uma vintena, que ninguém publica em lado
nenhum, e sobre os quais o Conselho de Ministros decide sozinho, sem o
Parlamento. Sabia disso?
É impressionante ver o número de instituições
europeias não eleitas com poder importante e mal controlado.
O Banco Central Europeu também já não presta contas a
ninguém. É extravagante! E o modo como isso foi escrito:
vê-se bem, vê-se por todo o lado, que foram os ministros que
escreveram essas regras à medida, para eles próprios.
Vendo bem, uma pessoa apercebe-se que essas instituições foram
regulamentadas mais a favor do interesse dos bancos e das multinacionais do que
a favor do interesse geral. Devia-se querer saber porquê.
Quando se lê o livro de Jean-Pierre Chevènement, descobre-se que
Jean Monet, esse ícone, esse símbolo da Europa, esse quase santo
para os "eurolatras", era um banqueiro francês que vivia nos
Estados Unidos e que se impregnou dos seus valores. Na verdade, ele concebeu e
construiu a União Europeia para enfraquecer a Europa, para impedir as
soberanias populares de se reconstruírem depois da guerra. É ele
mesmo que o escreve! É perturbante!
Quando se lêem os tratados europeus com olhos de ver, eles parecem-se com
essa visão de Monet: instituições que permitem que as
multinacionais escrevam a lei e interditem os parlamentos nacionais e os povos
de se oporem. É um regime inaceitável; no entanto, Monet e os
seus fiéis impuseram-nas através de tratados desde há
cinquenta anos sem que o povo tenha alguma tido oportunidade real de dizer uma
palavra.
Houve um simulacro de debate sobre Maastricht; lembro que, na altura,
não se falou em instituições; falou-se de moeda,
certamente, mas ainda assim, não se falou do que realmente conta em
matéria monetária: não nos disseram nada, por exemplo,
sobre o abandono total da criação monetária por parte dos
Estados e a sua passagem para os bancos privados (artigo 104) que é no
entanto um autêntico escândalo, a causa maior da dívida
pública que asfixia os nossos Estados e uma causa importante do
desemprego endémico que asfixia as nossas economias.
Em 1992, convidaram-nos a debater apenas a independência do Banco Central
e a nova moeda única, que são sem dúvida coisas boas. Mas,
sobre a fragilidade do Parlamento, da confusão dos poderes, da
independência dos juízes, da impotência dos cidadãos,
da revisão sem referendo, de todas essas vergonhosas e perigosas
instituições, ninguém nos falou. Não se pode falar
honestamente do voto de Maastricht como instrumento de caucionamento das
instituições.
Se apreciarmos o conjunto da construção europeia ao longo de
cinquenta anos, concluímos que os povos, em última
análise, não tiveram direito ao menor debate essencial.
Em 2005, a única vez que nos foi pedida realmente a nossa
opinião, a primeira vez que nos retiraram a rolha, nós
gritámos "Não!" Mas logo no-la repuseram e
recomeçou a violação. E ainda nos disseram:
"Não querem, mas tê-la-ão na mesma, pela via
parlamentar
"
2007 confirmou o que 2005 havia revelado: o método e o conteúdo
do tratado de Lisboa comprovam que temos um bando de violadores nos
manípulos e o que se está a passar é um golpe de Estado.
É um acto de violência. A definição de golpe de
Estado é a de um poder executivo que não se sujeita ao
sufrágio universal. Estamos lá.
Sílvia Cattori:
Tudo isso foi possível porque os cidadãos
abandonaram as suas responsabilidades e entregaram-se ingenuamente aos seus
representantes sem imaginar que não podiam controlar as suas
acções e que eles podiam abusar dos seus poderes.
Étienne Chouard:
Sim. A mentira está por todo o lado e as pessoas
honestas não ousam acreditar nisso. Fala-se de um mini tratado
simplificado, que não é nem "mini", nem
"simplificado". É necessário ler agora três mil
páginas para saber o que está dentro do tratado de Lisboa.
É extremamente complicado. Há uma série de
remições e tudo o que estava no tratado de 2005 encontra-se
aí. Mesmo o que haviam dito que iriam retirar. Vão guardar o
hino. A bandeira vai permanecer. A referência ao euro vai ficar. Eles
disseram que retirariam a bandeira. Mas acredita que o vão fazer?
Retiraram a etiqueta "constituição". Mas num frasquinho
de veneno, o que é que é perigoso ? A etiqueta ou o veneno?
Quando se retira a etiqueta, será que o veneno é menos perigoso?
Tomam-nos por imbecis.
É uma constituição, evidentemente, mas uma má
constituição escrita por pessoas que não a deviam ter
escrito. Temos pessoas eleitas, mas não lhes compete escrevê-la.
Acredito firmemente na ideia de que não devem ser os homens no poder a
escrever as regras do poder; não devem ser os parlamentares, os
ministros, os juízes a escrever a constituição; isso
compete a outros, a pessoas desinteressadas.
Não há outro meio para nós, simples cidadãos, de
sermos protegidos contra os abusos do poder, senão uma assembleia
constituinte, mas atenção: uma que não tenha sido eleita
entre os candidatos dos partidos, porque os partidos têm membros
numerosos no poder cujos amigos escreveriam de novo as regras, eles mesmos, e
não sairíamos disto.
O que Giscard afirmou
[1]
sobre este tratado de Lisboa deveria fazer com que os 16 milhões de
eleitores que votaram "não" voltassem a descer às ruas,
pois é o mesmo tratado, ilegível, e se ele é complicado,
Giscard diz que isso é para tornar o referendo impossível;
Giscard diz também que tudo o que era importante nas Convencionais de
2004
[NT 1]
consta do tratado de Lisboa, só que numa ordem diferente.
A minha conclusão é a seguinte: tudo isto acontece porque aqueles
que redigem as regras fazem-no para si mesmos e são dissimuladores.
Sílvia Cattori:
Nenhum actor é obrigado a prestar contas?
Étienne Chouard:
Nenhum; os cidadãos não contam para nada.
Eles não têm meio de resistir contra os abusos de poder dentro
destas instituições. O único bom meio seria o referendo de
iniciativa popular, mas não o temos. Eu diria mesmo que nunca o teremos
se continuarem a ser os representantes eleitos a redigir as regras. O direito
de petição (do artigo 11 do tratado de Lisboa consolidado)
não tem nenhum valor coactivo. Não há necessidade de um
tal artigo para se poderem fazer petições: mesmo que ele fosse
retirado, as pessoas poderiam sempre fazê-las.
Silvia Cattori:
O tratado de Lisboa não contém pelo menos um
elemento positivo, por exemplo, a possibilidade de um Estado poder sair da
União Europeia?
Étienne Chouard:
Sim. Isso já existia no tratado anterior
rejeitado em 2005, e foi retomado, como todo o resto.
Sílvia Cattori:
Como é que um Estado que o desejasse poderia sair
da União? Esse procedimento é aplicável?
Étienne Chouard:
Não seria nada fácil sair da União
e custaria muito caro; existem muitas engrenagens em movimento; seria
necessário um governo muito determinado. Essa situação de
impossibilidade de retorno faz-me pensar no AGCS (Acordo Geral sobre o
Comércio dos Serviços) do qual também já não
podemos sair: esse acordo (negociado e assinado em segredo) tem o mesmo genoma
antidemocrático da União Europeia: são os mesmos que o
conceberam, são os mesmos interesses que são servidos: as
multinacionais e os bancos.
Para que serve o AGCS? Para fazer desaparecer todos os constrangimentos do
comércio de serviços. Actualmente, um Estado soberano ainda pode
interditar uma quantidade de abusos para se proteger contra os investidores
predadores: quando uma grande empresa se quer vir instalar algures, o
país tem as suas próprias regras para defender o seu direito
social, o seu direito ambiental, o seu direito fiscal, os seus recursos
naturais, etc.
Isso vai desaparecer: Os Estados, nas negociações secretas do
AGCS, estão em vias de se interditar de interditar (as empresas), uns
aos outros: eu deixo de te interditar isto, mas tu, tu deixas de me interditar
aquilo
Os cidadãos vão ficar nus, sem defesas e
ninguém fala sobre isso! Todos os serviços públicos
estão ameaçados por esses mecanismos. E isso é
irreversível: as emendas que os Estados aceitam dever pagar em caso de
recuo não são pagáveis de tão proibitivas que
são.
Os acordos do AGCS são assim negociados em segredo por uma única
pessoa: o comissário europeu do comércio exterior
Uma
única pessoa para 480 milhões de pessoas negoceia em segredo
acordos decisivos que lesam toda a gente de modo irreversível. É
um autêntico escândalo, é muito grave.
Sílvia Cattori:
Ao ver os chefes de Estado e de governo da União
a assinar o tratado de Lisboa, o que é que sentiu?
Étienne Chouard:
A sensação de ter sido violentado,
evidentemente, por esses que fingem defender-me
A sensação
de estar dentro de uma armadilha controlada por mentores profissionais e
ladrões em bando. O que me deixa desolado é o facto de as pessoas
não estarem de todo informadas e não se sentirem preocupadas.
Silvia Cattori:
Há um aspecto muito importante que está
igualmente pouco presente no debate: a política externa da União;
a participação dos seus principais membros nas
operações militares via NATO. Também aí, mesmo as
sondagens mostrando que os cidadãos são na sua maioria contra
essas guerras ilegais, estes são totalmente impotentes para as impedir.
Agora que as invasões do Afeganistão e do Iraque se revelam
aventuras coloniais, o senhor Sarkozy tenta reatar os laços da
União Europeia e dos Estados Unidos na perspectiva de um conflito com o
Irão no interesse de Israel. O que é que pensa sobre este aspecto
da União?
Étienne Chouard:
Tem-se a impressão que tudo isso foi programado
desde o início. E se foi desenvolvendo de maneira progressiva. O
"não" fê-los abrandar um pouco, mas, dois anos mais
tarde, as autoridades fazem com que o tratado seja forçosamente
aprovado. E os cidadãos não reagem, o que leva a crer na
opinião de que os governantes têm todos os direitos. Existe um
ambiente de pessimismo. Sim, eles podem roubar crianças africanas nas
escolas, sim, eles podem ir fazer guerra para o fim do mundo. É preciso
ler Alain Badiou (
De quoi Zarkozy est-il le nom?
). As críticas dos meios de comunicação social foram de
tal forma virulentas que eu não pude deixar de ler o livro. No entanto,
acho-o apaixonante. Está muito bem analisado; diz claramente que a
ambiência não é a do pétainismo, mas sim a do neo
pétainismo.
Deve ler-se também François-Xavier Verschave (
De la Françafrique à la Mafiafrique,
para começar) para compreendermos que a descolonização
ainda não se deu.
Sílvia Cattori:
A sua reflexão vai ao encontro daquela que o
sociólogo Jean-Claude Paye conduziu a propósito das liberdades
fundamentais dentro da União
[2]
. Tal como você, ele constata que as instituições foram
construídas de tal forma que as decisões escapam aos
cidadãos.
Étienne Chouard:
Efectivamente, eu não sou o único a
dizê-lo, longe disso, e de facto, todos os que estudam honestamente as
instituições estão escandalizados e lamentam terem
confiado demasiadamente nos seus eleitos.
Sílvia Cattori:
Essas cimeiras, Lisboa, o G8, não serão
encenações em que dirigentes, entre convívios e
abraços, tomam decisões sem referência aos seus
mandatários como se se estivesse num sistema ditatorial?
Étienne Chouard:
Não é ainda uma ditadura
porque numa ditadura não existe liberdade de opinião, nem de
expressão. É mais
soft
que isso, é educado, bonito de se ver, está em vias de se tornar
totalitário, mas há menos por onde se criticar, é mais
difícil de condenar. O discurso mentiroso, invertendo os valores,
já Orwell o anunciava claramente em
1984,
e consistia em dizer "a guerra é a paz", "o trabalho
é a liberdade", e o simples facto de o repetir retira armas aos
potenciais resistentes. A manipulação através da linguagem
funciona bem. Ela exige, da parte dos resistentes, uma formação,
uma aprendizagem dessas manipulações.
Silvia Cattori:
Que instrumentos têm os partidários do não
para vencer esses obstáculos?
Étienne Chouard:
Existe um que será talvez bastante forte:
trata-se de um requerimento individual feito ao Tribunal Europeu dos Direitos
do Homem que não faz parte da União Europeia, mas que a
União tem de respeitar, pois assinou uma convenção que tem
de ser respeitada.
O Tribunal admite processos de uma única pessoa contra um Estado.
É um tribunal que protege indivíduos isolados.
A sua argumentação é poderosa (veja-se o sítio
29mai.eu
), e sirvo-me dela a cada instante. O requerimento consiste em atacar o
Estado francês por violação do artigo 3 do protocolo 1 da
Convenção que diz que "as altas instâncias
contratantes se comprometem a garantir aos seus cidadãos
eleições livres que permitam uma escolha livre do corpo
legislativo".
De facto, o nosso corpo legislativo será doravante largamente europeu. E
a nível europeu, será que o corpo legislativo é eleito? No
essencial, não: não temos escolha. O corpo legislativo em
França não é a Assembleia Nacional: 80% das novas leis que
se aplicam em França são normas europeias automaticamente
transpostas para o nosso direito nacional, sem um verdadeiro debate parlamentar.
Em primeiro lugar, a nível constituinte, é um CIG (Conselho
Intergovernamental, não eleito) que redige e corrige os tratados, ou
seja, a Constituição Europeia (que esconde o seu nome,
hipocritamente). Os parlamentos (os únicos eleitos) apenas podem
ratificar ou não os tratados redigidos por não eleitos, em bloco:
eles não têm direito de iniciativa, nem direito de emendar,
são reduzidos à porção conveniente, quando, na
verdade, eles é que são os eleitos!
Assim, a nível constituinte, o poder escapa aos eleitos.
Em segundo lugar, as leis comuns europeias são escritas pela
Comissão (não eleita) que tem a exclusividade e a iniciativa das
leis, e essas leis são de seguida discutidas e votadas pelo Conselho de
Ministros (não eleito) em "co-decisão" com o Parlamento
Europeu (o único eleito).
Mas escute bem isto, é essencial não existe
co-decisão para todos os assuntos: há uma série de
assuntos em que os não eleitos (Comissão e Conselho) decidem
sozinhos sobre a lei europeia.
Esses domínios em que os executivos escrevem aquilo a que eu chamo leis
sem parlamento (é mais claro que a expressão dissimulada
"procedimentos legislativos especiais") são cuidadosamente
escondidas, não existe lista: perguntem aos vossos parlamentares ou aos
vossos ministros ou aos vossos jornalistas que vos refiram algum desses
domínios: eles próprios não os conhecem (ou então
são verdadeiros bandidos e não falam com clareza para toda a
gente).
Esta esterilização progressiva do sufrágio universal
é uma razão sólida para atacar o Estado francês por
violação da Convenção Europeia dos Direitos do
Homem: os nossos próprios representantes estão em vias de
esvaziar os nossos votos de qualquer força: a democracia agoniza num
cenário factício de democracia simulada.
Um único requerimento é suficiente, mas se forem enviados
milhares, cria-se uma força política de suporte de um
requerimento jurídico.
É gratuito. Se perdermos, isso terá apenas custado o selo para o
envio.
Além disso, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem interesse em
mostrar que serve para alguma coisa e estamos perante um caso de escola
(inédito) que poderia fazer jurisprudência.
Em todo o caso, é o único meio de que dispomos, nós, os
simples cidadãos. Todos os outros meios dependem dos nossos
representantes, parlamentares e ministros, que já mostraram que
estão decididos a violar-nos. Se estivermos à espera que eles nos
defendam, iremos esperar muito tempo, e já termos perdido.
Esse requerimento dá alguma esperança porque o Tribunal pode
bloquear o processo de ratificação, o tempo de decidir o
essencial. Parece-me uma arma poderosa, nova.
Silvia Cattori:
O que tem a dizer aos cidadãos
suíços e noruegueses que têm recusado até agora
aderir à União Europeia, geralmente qualificados de
"atrasados que recusam o progresso" pelos seus detractores?
Étienne Chouard:
Espero que eles continuem a resistir. Invejo-os, pois
tenho a impressão que nós estamos fechados pelos nossos
próprios eleitos dentro de uma armadilha horrível. A nossa
desindustrialização começou e marcha a passos largos.
Obrigam-nos a abrir as nossas fronteiras a países que não
respeitam nem os direitos do trabalho, nem os direitos ambientais, nem
quaisquer das regras que impomos às nossas próprias empresas em
virtude do progresso social. Postos em concorrência desleal com
países tão pouco comparáveis, não podemos
senão continuar a caminhar para a ruína geral.
Não se ria. Há países que já viveram essa descida
aos infernos ao aplicar essas más receitas: veja o caso assustador da
Argentina, cobaia do neoliberalismo
Sílvia Cattori:
Se se perguntasse aos cidadãos se eles queriam
ficar ou sair da União, o que é que eles escolheriam, na sua
opinião?
Étienne Chouard:
O golpe de Estado de Lisboa conduziu-me a perguntar se
não deveríamos sair já de urgência desta EU-MB
(União Europeia das multinacionais e dos bancos). Começo,
efectivamente, a desesperar em querer mudar a EU, cujo programa genético
parece ter sido concebido contra os povos e contra a democracia.
Talvez seja preciso sair desta União Europeia para construir,
finalmente, uma verdadeira sociedade europeia, desejada e defendida pelos povos
(e não pelas suas elites desfasadas).
Sílvia Cattori:
Por que não fazer campanha para uma saída
categórica, se as hipóteses de voltar à discussão
do tratado são nulas?
Étienne Chouard:
Ainda não renunciei ao meu sonho europeu de
fraternidade. Eu gostaria que se recomeçasse com menos países em
vez desse monstro concebido pelas e para as grandes corporações.
Assim, estamos a querer casar povos com o consentimento dos seus
"pais". Um casamento bem sucedido e duradouro faz-se
forçosamente com o consentimento dos povos envolvidos.
Sílvia Cattori:
Os sociais-democratas não terão a parte
principal da responsabilidade nessa forma de construção europeia?
Não foi Jacques Delors que fez a Europa do mercado?
Étienne Chouard:
Jacques Delors e a maioria dos líderes
socialistas enganaram-nos evidentemente, mentiram-nos mil vezes, e essa
evidente traição dos chefes da esquerda é uma
catástrofe para o país.
Eu tinha confiança neles, e muito particularmente em Jacques Delors:
lembro-me do último dia antes do referendo de Maastricht: Jacques Delors
tinha falado connosco pela televisão; ele confessava que ainda se
não tinha "feito justiça social" na Europa, mas que ele
se comprometia connosco, solenemente, olhando-nos com os seus olhos azuis
tristes e sinceros; prometeu-nos ardentemente que começaria a
"fazer justiça social", no dia seguinte ao nosso voto
"Sim". Prometeu-nos isso para que votássemos "SIM".
Quinze anos depois, estamos mais do que nunca em recuo social em todos os
planos
Tenho a sensação de ter sido enganado por um dos
homens em quem eu mais confiava. É triste e revoltante ao mesmo tempo.
A queda é dura.
Sílvia Cattori:
Falou do abandono total da criação
monetária. Poderia precisar-nos do que se trata?
Étienne Chouard:
este ano apercebi-me de uma engrenagem que se me
afigurou essencial. Começo mesmo a vislumbrar aí o
coração da armadilha, o diamante central, o motor da nossa
impotência
é o artigo 104 de Maastricht (que veio a
corresponder ao artigo 123 do Tratado de Lisboa).
Ele diz o seguinte: "os Estados deixam de ter o direito de pedir
empréstimos junto dos seus bancos centrais." Para o comum dos
mortais é incompreensível.
Do que é que se trata? Desde há séculos, os Estados
abandonaram uma parte do seu poder de criar moeda em favor dos bancos privados:
os bancos obtiveram dos governantes, certamente por via da
corrupção, o direito (fundamental) de criar a moeda.
Até há pouco tempo (1974 em França), os Estados
partilhavam ainda com os bancos privados o direito de criar a moeda: quando um
Estado tinha necessidade de criar vias-férreas, habitações
ou hospitais, o Estado criava ele mesmo a sua moeda, e em princípio
não devia pagar taxas de interesse durante os reembolsos
não distraia a sua atenção e não esqueça:
este é o ponto crucial, aquele que nos condena aos trabalhos
forçados em proveito dos rendeiros ociosos.
Era assim que o Estado criava moeda: o estado pedia um empréstimo ao seu
banco central (que criava essa moeda para a ocasião) e à medida
que o Estado ia reembolsando o valor do empréstimo, o banco central
destruía esse dinheiro, mas sem obrigar o Estado a pagar taxas de
interesse!
Depois de 1974, em França, na época da serpente monetária
europeia, o Estado e a situação é sem dúvida
semelhante nos outros países europeus proibiu-se a si mesmo de
pedir empréstimos junto do seu banco central, privando-se assim da
possibilidade de criação monetária. Isso significa que o
Estado (ou seja, todos nós!) se vê obrigado a pedir
empréstimos junto de entidades privadas, às quais tem de pagar
taxas de interesse, e isso torna tudo evidentemente mais caro.
No interesse de quem? Do interesse geral? Só pode estar a brincar!
Repare que, precisamente a partir de 1974, a dívida pública
não cessa de aumentar e o desemprego também.
Tenho para mim que isso está ligado.
E ainda não acabou: desde 1992, com o artigo 104 do Tratado de
Maastricht, essa proibição para os Estados de criar moeda foi
içada ao mais alto nível do direito internacional e
constitucional. Irreversível e fora do alcance dos cidadãos.
Isso não foi dito claramente: disse-se que havia doravante
proibição de pedir empréstimos ao Banco Central, o que
não é honesto, nem claro, e não permite às pessoas
compreender. Se o artigo 104 dissesse: "os Estados não podem mais
criar moeda, agora eles têm de pedir empréstimos junto das
entidades privadas e pagar-lhes uma taxa de interesse exorbitante que torna
todos os investimentos públicos demasiado caros, mas que faz a
felicidade dos rendeiros ricos, proprietários de fundos para emprestar a
quem quiser", teria havido uma revolução.
Este assalto à mão armada escandaloso custa à
França cerca de 80 mil milhões por ano
e arruína-nos ano após ano; mas já não podemos
fazer nada.
Este assunto deveria estar no centro de todas as nossas lutas sociais, ser a
ponta de lança da esquerda e da direita republicanas. Em vez disso,
há silêncio. É preocupante.
Sílvia Cattori:
é difícil para um cidadão imaginar
que os seus eleitos se comprometem até esse ponto. Finalmente, vemos
surgir cidadãos isolados, que como você, se envolvem de modo
desinteressado, que retomam entre mãos o debate que os seus eleitos
abandonaram.
Étienne Chouard:
existem pessoas que lutam.
Maurice Allais
, prémio Nobel de economia, revolta-se contra a criação
monetária entregue aos bancos privados; protesta energicamente e afirma
que é uma vergonha que os bancos privados se comportem (porque os
autorizam) como falsos moedeiros e que isso nos arruína. O
espírito livre Maurice Allais também diz que as multinacionais
que nos impõem esse grande mercado desregulado são mal feitoras.
O ultra liberal Maurice Allais denuncia a "mascarada
laisser-fairiste" da União Europeia. Não se pode ser mais
claro que isto.
Pois bem, esse senhor que dedicou grande parte da sua vida ao estudo da moeda e
que provavelmente recebeu todas as honras e todas as medalhas do mundo, esse
grande especialista da moeda é "persona non grata" nos media
de grande circulação, ele não consegue publicar nem no
Le Monde,
nem no
Le Figaro.
Quem não vê a ligação evidente entre a
perseguição de um cidadão corajoso que denuncia o que
está mal e o facto de os media de grande circulação terem
sido comprados e doravante controlados precisamente pelas
multinacionais e pelos bancos?
Maurice Allais desenvolve uma ideia maior (que todos nós
deveríamos estudar) quando diz que é necessário devolver a
criação monetária aos Estados, a um banco central
independente, que é necessário que o banco europeu (BCE) recupere
a criação monetária retirando-a aos bancos privados.
[*]
Jornalista suíça.
[1]
"La boîte à outils du traité de Lisbonne"
, por Valéry Giscard d'Estaing,
Le Monde
de 26 de Outubro de 2007.
[2] Ler a entrevista de Silvia Cattori com Jean-Claude Paye :
"Les lois anti-terroriste. Un Acte constitutif de l'Empire"
, Réseau Voltaire, 12 de Setembro de 2007.
[NT 1] Refere-se aos que participaram da
Convenção Europeia
.
O original encontra-se em
http://www.voltairenet.org/article154208.html
. Tradução de RM.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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