Austeridade automática
10 coisas que é preciso saber acerca do "compacto fiscal"
por Corporate Europe Observatory
A 1 de Março de 2012, 25 chefes de estado ou de governo assinaram um
novo tratado
[1]
; e se tudo correr como planeado, é para entrar em vigor
este ano. O assim chamado "Compacto Fiscal" foi concebido num piscar
de olhos e teve um começo dramático quando foi vetado pelo Reino
Unido num encontro do Conselho Europeu a 9 de Dezembro, ficando assim impedida
uma mudança regular do tratado da UE. Em vez disso, os governos optaram
por criar um novo veículo legal que pode ser adoptado mais
rapidamente sem qualquer risco de interferência perturbadora proveniente
do debate público e democrático; um tratado à parte da UE
que não é realmente um tratado da UE.
O tratado visa o reforço das normas que garantem que os estados
signatários aplicam políticas orçamentais restritivas.
Notoriamente, os chamados "défices estruturais" devem
permanecer abaixo do limite de 0.5% do PIB. Notícias do tratado foram
recebidas com aplauso pela comunidade de negócios, incluindo a
federação dos empregadores europeus, BusinessEurope, mas os
sindicatos denunciaram-no enfaticamente, com a Confederação
Europeia de Sindicatos (CES) a rejeitar pela primeira vez directamente um novo
tratado.
Porquê agora?
"Este tratado pode dar certezas aos amigos políticos da
chancelerina Merkel, mas não aos milhões de desempregados, de
trabalhadores pobres ou precários da Europa, que esperam um apoio
decisivo das instituições da UE. É por isso que nos opomos
a ele", declara Bernadette Ségol, a secretária-geral da CES
[2]
.
A maioria dos analistas e comentadores concorda: o assunto do tratado
não é a crise actual. Ele não alterará o decurso da
Eurocrise, e na verdade não está pensado para isso. O seu assunto
é o futuro da política económica e o seu alvo o eleitorado
alemão. A chancelerina Angela Merkel precisa assegurar o público
alemão de que está realmente a ser durona para com os
países altamente endividados, de modo a promover a sua popularidade e
fornecer ao governo uma via para cofinanciar o novo Mecanismo Europeu de
Estabilidade o fundo que fornece empréstimos aos países
membros em apuros económicos graves. Para isso, ela precisa de garantir
que estes se mantêm em contrapartida num severo programa de austeridade.
Três novidades
Uma rápida diagonal no novo tratado poderia dar a impressão de
que estamos a tratar de um conjunto complexo e integrado de novas regras e
mecanismos. O texto parece estar cheio de intricados dispositivos visando
manter na linha os estados membros quanto a um espectro de áreas. Mas se
filtrarmos as palavras de auto congratulação referindo-se a
"façanhas" passadas, a repetição de
clichés e de objectivos já cobertos pela legislação
da EU, mais o palavreado sobre iniciativas futuras, o que sobra é uma
lista bastante reduzida de três novidades: cimeiras da Eurozona mais
formalizadas, acção mais rápida contra países com
défices orçamentais, e por último (mas não menos
importante) o chamado "travão fiscal" rígida
aplicação de regras visando manter os défices reduzidos e
impedir as dívidas de aumentar.
O deslindar do enovelado é árduo, mas as linhas principais do
tratado podem ser descritas em 10 pontos.
1. É um "Tratado Austeritário"
O aspecto mais importante do tratado é e exigência de que qualquer
estado membro aperte as suas políticas fiscais (isto é, reduza os
seus défices orçamentais) mais ainda do que já é
reclamado pelas regras actuais da UE.
Conter défices não constitui evidentemente novidade para a
União Europeia. O pacto de estabilidade e crescimento que está
subjacente à União Económica e Monetária exige que
cada estado membro mantenha o seu défice orçamental abaixo dos 3
por cento do PIB. E no caso dos países da Eurozona, os governos podem
ser multados se não respeitarem esse limite. Mas primeiro é-lhes
fornecido um programa visando mantê-los rumo a um orçamento
equilibrado. O elemento chave neste "programa de ajustamento"
é a redução do "défice estrutural" (ver
caixa), tipicamente visando alcançar uma referência de 0,5 por
cento do PIB ao longo de vários anos
[3]
. Agora, sob o novo tratado, esta
referência já não é realmente um referência
passa a constituir uma regra impositiva.
Se o tratado estivesse em vigor, os cortes de despesa (ou subidas de impostos)
teriam sido dramáticos: de momento apenas quatro países da UE
têm um défice abaixo da fasquia mágica (Luxemburgo,
Finlândia, Suécia e Estónia)
[4]
. Em muitos países
seriam necessárias mudanças dramáticas, como por exemplo
na Bélgica, onde 4% de um défice total de 4,6% é
considerado "défice estrutural" pela Comissão. Nos
termos do tratado, seria imposto à Bélgica um novo e muito mais
duro "pacto de estabilidade", forçando o governo belga a
reduzir o défice para 2,1% do PIB não os actuais 3%.
À primeira vista, os estados signatários não parecem ser
coagidos a medidas precisas, como a redução da despesa social.
Mas a redução do défice estrutural requer medidas
específicas. As recomendações da Comissão a estados
membros que tenham um procedimento por défice excessivo isto
é, presentemente 23 (!) dos 27 membros tornam claro que os cortes
na despesa social são o caminho considerado certo para reduzir qualquer
défice estrutural
[5]
. Um limite de 0,5% ao défice estrutural
restringirá severamente as opções à
disposição dos governos, por exemplo, em situações
de crise. Impedirá o uso do investimento público como uma
resposta à crise, e está também claramente enviesado
contra a despesa social.
Do mesmo modo, o foco do tratado, bem como das actuais regras e dos
procedimentos da UE, tal como o pacto de estabilidade, está na despesa.
Isto é confirmado e sublinhado com a adopção do
"Europacto" (ou "Pacto Europlus") em Março de 2011,
o qual destaca que a "sustentabilidade das finanças
públicas" deve ser alcançada atacando as pensões, as
despesas com a saúde e a despesa social
[6]
.
Em resumo: este é um Tratado de Austeridade.
2. Será automático
Caso o "travão da dívida" não seja respeitado
pelo governo durante os "processos orçamentais nacionais"
(planeamento, adopção, aplicação), mecanismos
internos à própria legislação nacional desse
país desencadearão sanções suficientemente
sérias para fazerem o governo regressar ao trilho.
Isto suscita a questão: quem é que é suposto vigiar a
aplicação das políticas governamentais, e como? Quem
é que pode processar o governo e forçá-lo a mudar
políticas, ou como é que este esquema deverá funcionar?
Podemos entrever isso no texto do tratado. Este coloca a responsabilidade pela
definição de "princípios comuns" para as regras
nas mãos da Comissão Europeia, incluindo princípios
relativos à "independência das instituições
responsáveis a nível nacional pela monitorização da
observância das regras". Noutras palavras, corpos independentes em
cada estado membro deverão ser constituídos, presumivelmente
consistindo em economistas e peritos legais, visando disciplinar os governos de
cada estado membro
[7]
.
3. Vai ser para sempre
Estas políticas orçamentais restritivas deverão ser
perpétuas.
O texto afirma que os estados membros deverão adoptar
"provisões com capacidade coerciva e carácter permanente,
preferivelmente constitucional, em todo o caso salvaguardando que serão
plenamente respeitadas e obedecidas ao longo dos processos orçamentais
nacionais". Noutros termos, é para sempre.
A Alemanha prefere que os estados signatários apliquem isto da mesma
forma que a Alemanha. Recentemente, este país adoptou uma mudança
na sua constituição que forçará o futuro governo a
permanecer abaixo dos 0,35% de défice estrutural. Agora, a chancelerina
quer ver algo similar nos outros estados membros. Todavia, existe alguma
flexibilidade. Outras variedades de regras podem ser adoptadas, mas têm
de ser "permanentes". Como declarou Merkel no fim das
negociações:
"Os travões da dívida devem ser imperativos e válidos
para sempre. Nunca mais poderão ser alterados através duma
maioria parlamentar"
[8]
.
Do texto consta de facto a expressão de que "serão
plenamente respeitadas as prerrogativas dos parlamentos nacionais", mas no
contexto isso soa a algo mais do que um mero insulto involuntário.
Nalguns países as alterações à
constituição têm de ser submetidas a referendo e isso
é um cenário que os governos estão a procurar evitar. Uma
via consiste em proceder dessa forma no quadro deste novo tratado da UE, que
não é um tratado da EU, podendo-se produzir uma norma permanente
de natureza constitucional, a qual todavia não se encontra inscrita na
constituição.
4. Em caso de dúvida, o Tribunal Europeu de Justiça tem a palavra
final
E se um estado membro (ou signatário) achar que outro estado não
adoptou regras suficientemente fortes para serem compatíveis com o
princípio? Nesse caso, o estado que se considera lesado pode abrir um
processo contra o faltoso no Tribunal Europeu de Justiça. Isto pode ser
algo confuso, porque é missão do Tribunal Europeu de
Justiça defender a legislação da UE, não resolver
disputas entre estados membros, ou emitir juízos relativos a tratados
não da UE. Mas neste caso o Tribunal foi colocado em
posição de impor multas equivalentes a 0,1% do PIB. O papel-chave
do Tribunal Europeu de Justiça pode ser importante de futuro.
Permitirá a qualquer estado membro apresentar uma queixa relativa a
qualquer ponto da aplicação do tratado contra outro estado
signatário.
5. Pouca ou nenhuma flexibilidade
Será que os estados signatários terão de reduzir os seus
défices estruturais a menos de 0,5% do PIB amanhã?
Não, mas isso tem de acontecer em passo de corrida. Não resulta
claro na proposta da Comissão quanto tempo será permitido. Na sua
trajectória para o objectivo, os estados signatários podem ser
autorizados a desviar-se do caminho estreito da austeridade, desde que tenham
passado por crescimento negativo ou muito reduzido, e uma vez garantido que o
desvio não ameaçará a "sustentabilidade fiscal a
médio prazo". A mesma excepção se aplica quando o
objectivo de um défice máximo de 0,5% é atingido.
Mas a excepção não é clara, e pode nunca ser usada.
A única flexibilidade tangível consiste em os estados com uma
dívida reduzida poderem ter um défice até 1 por cento do
PIB uma excepção de que apenas um punhado de países
poderá gozar nos próximos anos
[9]
. Mas mesmo quando numa crise, ou
experimentando um crescimento reduzido, os países signatários
irão encontrar severas dificuldades caso optem por uma política
orçamental expansionista ou por investimentos públicos avultados
como via de saída. Todo este exercício está enviesado
contra o tipo mesmo de resposta Keynesiana às crises que a
história provou ser eficaz: que é realmente uma política
económica sensata responder a uma crise com medidas expansionistas,
mesmo que a custo do equilíbrio orçamental.
"Em alturas favoráveis é desnecessário. Em más
alturas é uma má política económica. Não
é um sinal de má política ter um défice em alturas
de crise", como declarou o professor de economia Jesper Jesperson
[10]
.
O tratado deixará a resposta à actual crise gravada em pedra e
garantirá que em situações de crise a culpa recairá
automaticamente no gasto público mesmo que, como acontece com a
presente crise, as raízes do problema estão na economia privada
(famílias e empresas). Mau diagnóstico, má
medicação.
6. O método de cálculo está enviesado contra a despesa
social
Os detalhes de cálculo do "défice estrutural"
são demasiado complicados para serem alguma vez compreensíveis ou
transparentes para o público. E de facto não existe consenso
internacionalmente ou sequer apenas na UE quanto ao método de
cálculo. O FMI, a OCDE, o Banco Central Europeu e a Comissão
Europeia usam, cada um deles, os seus próprios métodos, e alguns
estados membros da UE têm a sua abordagem própria.
Mas o método usado é crucial. Este número 0,5%
pode determinar o futuro de direitos sociais chave. E o facto de um
governo ficar ou não com um défice estrutural no lado errado
deste limiar é algo que resulta, em larga medida, da forma como ele
é calculado.
Por exemplo: para 2011, a Comissão calculou o défice da Dinamarca
em 3 por cento. O governo dinamarquês, por outro lado, sustenta que o
défice estrutural é cerca de 1 por cento. Se o cálculo da
Comissão fosse usado, a Dinamarca teria de cortar em despesas (ou subir
impostos), duplicando os custos do sistema prévio de descontos para fins
de aposentação! O Banco Nacional Dinamarquês e o ministro
das Finanças da Dinamarca sustentam terem desenvolvido um método
que reflecte melhor a realidade da economia dinamarquesa. Defendem que o
método da Comissão está enviesado contra países com
elevados níveis de subsídios de desemprego. Consequentemente, o
governo dinamarquês insistiu que era capaz de usar os seus
próprios métodos. E dado que a Comissão baseia os seus
cálculos numa lista muito reduzida de outras despesas as
"despesas excepcionais" isso pode ser deduzido do total
[11]
.
Se o propósito de alguma flexibilidade no método for satisfeito,
isso deverá impor uma mudança no texto do Tratado. De momento, a
Comissão deverá redigir princípios comuns a serem
adoptados mais tarde, e é muito pouco provável que sugira
métodos diferentes dos que ela própria desenvolveu e tem usado na
avaliação dos orçamentos dos estados membros. Do mesmo
modo, se a abordagem de um estado membro deve ser julgada no Tribunal Europeu
de Justiça, seria altamente improvável que o tribunal sustentasse
outros métodos que não os que a Comissão Europeia tem
usado há muitos anos. No longo prazo, os métodos nacionais
especificamente adaptados às economias dos estados individuais
não deverão sobreviver. A Comissão adora harmonizar
métodos de cálculo que lhe permitam suprimir as especificidades
das economias locais, e não é provável que mude de
trajectória num momento em que a disciplina fiscal uniforme está
na ordem do dia. Mais do que tudo, essa será a prioridade da
Comissão: um instrumento político directo de combate aos
"disparates" e às "discussões
desnecessárias".
7. É um instrumento político Os cálculos não
são fiáveis e são perigosos
Mas na verdade, a Comissão não tem nada de que se gabar quanto ao
seu currículo nos anos recentes. De facto, os cálculos da
Comissão quanto aos défices estruturais dos estados membros
têm ficado muitíssimo longe da realidade factual. A Irlanda
é um bom exemplo disso. Em finais de 2008 a Comissão projectou
que a economia irlandesa iria continuar no seu nível óptimo em
2009. Se o novo tratado em vigor estivesse em vigor, o orçamento teria
sido preparado com base nessa assunção. O governo irlandês
teria esperado um baixo défice estrutural e permitido portanto alguma
folga para a despesa. No decurso do ano, todavia, o governo irlandês
teria sido forçado a cortes drásticos e imediatos, dado que de
facto a economia irlandesa se afundou e os números tiveram de ser
drasticamente revistos. Os cálculos, em suma, forneceram um quadro
demasiado róseo do défice estrutural.
O oposto também pode ser verdade. A avaliação que a
Comissão fez das taxas de crescimento irlandesas reais e
potenciais mostrou que a profunda crise económica não
tinha alterado significativamente o diferencial entre o crescimento potencial e
o efectivo. Noutros termos: quer a economia irlandesa esteja em profunda crise
quer em rápida expansão, isso não muda realmente nada. A
Irlanda está próxima do desempenho óptimo em ambos os
cenários
[12]
. Isto não é muito realista. E na verdade é
muito perigoso. Um "diferencial de desempenho" reduzido em tempos de
crise sugere uma larga "componente estrutural" da dívida, e
com o novo tratado isso deveria conduzir directamente a cortes maciços e
imediatos.
Não é assim só porque a Comissão não
dispõe duma bola de cristal. O cálculo do défice
estrutural implica vários passos, os quais comportam diversas
estimativas por adivinhação. No método usado pela
Comissão para determinar o défice cíclico, duas
estimativas são multiplicadas uma pela outra e assim para
pôr as coisas em termos simples e directos a incerteza resulta
multiplicada
[13]
.
O uso da ideia de um "défice estrutural" não
provém da particular capacidade daquele conceito para fornecer uma
visão precisa do estado da economia. A sua elevação ao
presente estatuto provém do intuito de o usar como arma política
para acusar os défices orçamentais por todos os males da
economia, alterando em conformidade as políticas económicas dos
estados membros.
8. A Eurozona está no lugar do condutor
Para além do "travão da dívida", o tratado tem
duas outras importantes secções.
A primeira é a adopção formal da decisão de Outubro
de haver cada ano pelo menos duas cimeiras da Eurozona. Estas cimeiras
serão presididas por um novo Presidente das Cimeiras da Eurozona, o qual
será "nomeado por maioria simples pelos chefes de estado ou de
governo dos países contratantes cuja moeda é o Euro, e por um
mandato de duração equivalente". Esta parte do tratado foi
controversa. Um número significativo de países exteriores
à Eurozona, liderados pela Polónia, sentiu-se
desconfortável ao ser deixado de fora do Euroclube, o qual receiam que
passe a tomar decisões em nome do conjunto da União. A Eurozona
detém uma maioria qualificada. Como sinal de boa vontade, os estados
signatários que ficam de fora da Eurozona podem participar em
discussões sobre temas particulares nalgumas cimeiras daquela e em
separado num encontro anual dos signatários do novo tratado.
9. Submissão rápida e multas para os países
deficitários
O segundo elemento refere-se às regras relativas a países com
défice, as quais estão a mudar de novo. Ao abrigo do tratado da
UE, os estados membros são obrigados a respeitar um limite de 3 por
cento do PIB nos seus défices orçamentais. Em caso de desrespeito
pela norma, pode ser iniciado um procedimento o chamado Procedimento por
Défice Excessivo. O procedimento comporta um certo número de
passos: primeiro, existe a decisão de iniciá-lo; depois o governo
do estado membro tem de apresentar um relatório mostrando como é
que vai resolver o problema; depois, se não o resolver de forma
convincente, pode receber um aviso; e finalmente, se for um país da
Eurozona, pode ser multado. Em 2011 foi consideravelmente apertado, com a
decisão de usar no Conselho um método de votação
denominado "método do reverso da maioria qualificada". Isto
significa que, de modo a recusar a proposta de se iniciar um procedimento, tem
de existir uma maioria qualificada. Esta regra está de momento a ser
usada em todos os passos do procedimento, excepto um o do início.
Mas como pode um tratado não-UE interferir com a regulação
da UE? Não têm de pedir ao Parlamento Europeu e passar pelos
outros passos envolvidos na mudança das regras da UE?
Com o novo tratado estes procedimentos são contornados organizando-se os
votos numa Eurozona separada. A decisão fundamental é que, antes
de qualquer voto no Conselho, a Eurozona tomará uma decisão numa
reunião prévia. Dado que a Eurozona dispõe duma maioria
qualificada no Conselho, o curso dos eventos está controlado. Por isso,
quando surgir a questão de o Conselho apoiar uma decisão da
Comissão visando iniciar um procedimento contra um estado membro, tem de
existir uma maioria qualificado no interior do Euro grupo. Se não, a
Eurozona votará "em bloco", isto é, conjuntamente,
apoiando o início de um procedimento por défice excessivo.
Decidindo este procedimento fora do quadro institucional da UE, não
resultarão formalmente disto alterações nas regras
processuais da UE, e por isso o Parlamento Europeu não decidirá
nesta matéria
[14]
.
O perdedor neste caso é a França, que em 2011 se opôs ao
uso do "método do reverso da maioria qualificada" em
decisões de lançamento do procedimento. Agora esse método
está incluído no novo tratado.
Isto aumentará incessantemente em anos futuros. De momento, e de acordo
com os últimos números do Eurostat
[15]
, todos os países da UE
com excepção de quatro
[16]
tinham défices orçamentais
acima dos 3 por cento permitidos, e só quatro estados membros vão
escapar ao processo por défice excessivo.
10. Isto tornar-se-á a (verdadeira) lei da UE
O tratado não é um tratado da UE. Mesmo assim, atribui novas
tarefas e responsabilidades à Comissão e investe o Tribunal
Europeu de Justiça com um novo e formidável poder. É o
mais parecido que pode haver com um veículo da UE. No horizonte de cinco
anos, o tratado deverá ser integrado no tratado da UE, e dado o estado
actual dos debates, este é um cenário plausível. Só
a República Checa e o Reino Unido estão presentemente de fora do
tratado, e a oposição britânica foi inicialmente azeda e
obstinada. Desde então, porém, os humores acalmaram e, dada a
possibilidade de existência de arranjos, o Reino Unido poderia facilmente
ser isento das novas provisões do tratado da UE.
Um desafio ao estado de bem-estar e à democracia
Por essa altura, de qualquer modo provavelmente não fará muita
diferença. A mudança real acontecerá no curto prazo.
Só no ano passado, as regras dos défices orçamentais
excessivos foram consideravelmente endurecidas, com os países em
défice defrontando prazos mais apertados, exigências de
correcção mais rápidas, reclamações de
reforma mais intrusivas, com preferência por cortes na despesa social e
multas mais elevadas para os incumpridores. Esta tendência tornou-se mais
forte com o Euro pacto (ou pacto Europlus), acompanhado das reformas
denominadas "pacote seis" acerca de governação. Os
apertões de polegar estão a tornar-se um nó mais violentos
com o "Tratado da Austeridade", que marca o novo passo na
construção duma complexa teia visando constituir a austeridade em
marca global da resposta à crise, acarretando um violento golpe no
sistema europeu de "estado do bem-estar". Mas este não
deverá ser desmantelado facilmente. O facto de que 25 chefes de estado
ou de governo terem colocado a sua assinatura no acordo não significa
que tudo está feito. Para começar, terá de ser ratificado,
e embora o tratado tenha sido feito para evitar o voto do público, o
governo irlandês foi forçado a convocar um referendo para o final
deste ano. E mesmo que seja ratificado e aplicado, o tratado deverá
defrontar-se com uma resistência considerável, à medida que
se vão tornando claras as suas consequências.
Notas
1. O Compacto Fiscal, ou "The treaty, stability, Coordination and
governance in the Economic and Monetary Union",
http://www.european-council.europa.eu/media/579087/treaty.pdf
2. Relatório de imprensa do CES, 31 de Janeiro 2012,
http://etuc.org/a/9605
3. Regulamento 1466/97, artigo 5,
eur-lex.europa.eu/...
4. Estatísticas Eurostat,
epp.eurostat.ec.europa.eu/...
5. European Economy, Occasional Papers 65, 2010,
ec.europa.eu/...
6. The Europlus Pact, página 19, nas Council conclusions, 24-25,
Março de 2011,
http://www.consilium.europa.eu/uedocs/cms_data/docs/pressdata/en/ec/120296.pdf
7. Um papel mais importante para os corpos independentes é algo que tem
sido tema de debates nas instituições da UE, e nova
legislação parece vir a caminho.
8.
The Guardian,
30/Janeiro/2012,
www.guardian.co.uk/business/...
9. Eurostat Newsrelease, 6. February 2012,
epp.eurostat.ec.europa.eu/...
10. Professor Jesper Jespersen, entrevista, 24 de Fevereiro.
11. European Commission, European Economy no 3, 2006,
http://ec.europa.eu/economy_finance/publications/publication423_en.pdf
12. Exemplos retirados de Pat McArcle, "The Euro Crisis: The 'Fiscal
Compact' and Fiscal Policy", Working Paper 6, Institute of International
and European Affairs, 2012, página 13.
www.iiea.com/...
13. Uma crítica global do método da Comissão foi levada a
cabo pelo Banco Nacional da Dinamarca (Departamento de Economia): Ann-Louise
Winther; "Konjunkturudsving og offentlige finanser",
Kvartalsoversigt, 1. Kvartal 2011 del 1, Danmarks Nationalbank, 2011, pp. 71-
91.
https://www.nationalbanken.dk/...
14. Na verdade, porém, dificilmente isso faria diferença. Uma
maioria do Parlamento Europeu apoiaria esta abordagem. Isso resulta claro dos
debates durante o ano de 2011, acerca do fortalecimento do Pacto de
Estabilidade e Crescimento.
15. Estatísticas Eurostat;
epp.eurostat.ec.europa.eu/...
16. A Suécia, a Finlândia, a Estónia e o Luxemburgo
são as excepções à regra. Ver
ec.europa.eu/economy_finance/economic_governance/sgp/deficit/index_en.htm
Ver também:
Acção colectiva europeia contra o MEE
O original encontra-se em
http://www.corporateeurope.org/publications/automatic-austerity
.
Tradução de João Carlos Graça.
Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
.
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