A crescente vulnerabilidade dos EUA

por Umberto Martins [*]

Para descarregar a folha de cálculo com os dados da balança de pagamentos dos EUA (1960-2002) clique na imagem com botão direito do rato e faça Save As... (102 kB). Em entrevista à imprensa alemã na última terça-feira (13/Jan/04), depois de se reunir em Berlim com o chanceler Gerhard Schroder, o presidente do Banco Central dos EUA, Alan Greenspan, declarou que o déficit em conta corrente do seu país, superior a 5% do PIB, não deve ser motivo para maiores preocupações. “Há possibilidade de corrigir esse desequilíbrio bem antes de ele desestabilizar a economia”, assegurou [1] . Este “recado aos mercados”, provavelmente inspirado mais no dever do ofício do que em fundadas convicções teóricas, parece hoje pouco convincente.

As dúvidas em relação aos destinos da economia norte-americana estão se generalizando em todo o mundo em função do desempenho das contas externas e do orçamento público da potência econômica hegemônica. Déficits espetaculares na conta corrente (que constitui, conforme observam alguns economistas, uma medida mais ampla da balança comercial) vêm sendo acumulados despreocupadamente desde 1982, traduzindo o inesgotável parasitismo do Tio Sam. Houve um ano de exceção, precisamente o de 1991, quando os lucros obtidos com a Guerra no Golfo (extorquidos do Japão, da Alemanha e da Arábia Saudita), possibilitaram um saldo positivo – resultado que evidentemente não se repetiu em 2003. Mais recentemente, a irresponsabilidade fiscal e as aventuras militares do governo Bush acrescentaram ao problema do déficit externo um notável desequilíbrio das contas públicas. São dois problemas entrelaçados, caracterizados por muitos como “déficits gêmeos”.

CONCEPÇÕES IDEALISTAS

A ideologia dominante, reproduzida nos comentários de Greenspan, supõe que – graças à posição especial ocupada pelo dólar na economia mundial – os Estados Unidos não têm porque esquentar a cabeça com seus crescentes déficits, que em última instância poderiam ser resolvidos com a simples produção e emissão da moeda que ainda lidera os negócios internacionais. Mas, isto não corresponde à realidade dos fatos, traduz antes uma concepção idealista, ingênua e falsa da história e das relações sociais entre as nações. São idéias que negam o caráter objetivo das leis e dos fenômenos econômicos.

É certo que o porte e a liderança da economia estadunidense faz diferença em relação ao chamado Terceiro Mundo e permite uma acumulação de débitos que já teria provocado crises mais sérias no balanço de pagamentos de outros países. Todavia, também esta suposta vantagem tem limites. Os déficits em conta corrente que estão sendo cultivados há mais de 20 anos por Tio Sam têm resultado num passivo externo colossal e, ao contrário do que imagina o senso comum americano, este passivo não sai de graça, tem um custo que pode se revelar excessivo e amargo para o império.

Conforme a jornalista Maria Clara R. M. do Prado, a dívida externa dos EUA “caminha para algo em torno de 40% do PIB, um nível nunca antes alcançado por um país industrializado” [2] . Somada ao estoque de investimentos estrangeiros diretos, a dívida elevou a necessidade de financiamento do balanço de pagamentos norte-americano a patamares exorbitantes. Estima-se que Tio Sam já precisa captar 1,5 mil milhões de dólares no exterior todo santo dia para pagar suas contas. Não é pouca coisa.

Isto indica que o gigante imperialista da América do Norte está ficando frágil, vulnerável e dependente da boa vontade e do bom humor dos investidores estrangeiros, vivendo hoje como um grande parasita que cresce à sombra do dinheiro estrangeiro – e este flui agora principalmente do Japão, da China e da Europa. Em médio e longo prazo, como já ensinava nosso mestre Lênin, o preço do vício de viver à custa alheia tende a ser a decomposição do império e da hegemonia (ianque), mas já é possível vislumbrar os efeitos deletérios do parasitismo na conjuntura atual, valendo destacar o declínio do dólar e a persistente instabilidade cambial verificada em quase todo o mundo ao longo dos últimos anos.

NO CAMINHO DA ARGENTINA?

Num artigo intitulado “No caminho da Argentina”, o economista americano Paul Krugman, crítico assíduo do governo Bush, argumenta que “os déficits tornaram a economia estadunidense vulnerável demais”. Citando um estudo sobre o tema organizado por Robert Rubin, que foi secretário do Tesouro do governo Clinton, ele observa que “a imunidade tradicional dos países ricos, como os Estados Unidos, às crises financeiras ao estilo do Terceiro Mundo não é um direito divino. Os mercados financeiros nos dão o benefício da dúvida só porque acreditam na nossa maturidade política – na disposição dos nossos líderes de fazerem o que for necessário para conter os déficits, pagando um custo político, se necessário”.

Referindo-se à irresponsabilidade fiscal do governo Bush, que tende a se agravar neste ano eleitoral, o economista sentencia: “Se esse tipo de política inócua for levado adiante, os investidores acabarão concluindo que os EUA se tornaram um país do Terceiro Mundo, e começarão a tratá-los como tal. E as consequências para a economia americana não serão boas.” [3] .

É possível que Paul Krugman esteja exagerando ao sugerir que o império dirigido pela extrema direita republicana esteja a trilhar o mesmo caminho da Argentina, que quebrou em 2001, mas suas opiniões não são infundadas. Cabe também notar que ele não é o único a manifestar preocupações com tais déficits, que até agora têm sido cobertos pela atração da poupança do resto do mundo.

ATÉ QUANDO?

Amplia-se entre os observadores da conjuntura internacional a percepção de que o rombo externo norte-americano (comercial e em conta corrente) já alcançou um nível insustentável. “A questão que se coloca”, conforme a jornalista Maria Clara R. M. do Prado, “é a seguinte: até quando o mundo estaria disposto a financiar os EUA?”.

Tratando do mesmo tema e com idêntica preocupação, The Wall Street Journal , um diário econômico conservador que não se notabiliza propriamente pelo espírito crítico, destaca que “o fluxo de investimento estrangeiro, vital à economia do país, deixa de ser uma certeza”, em um artigo sob muitos aspectos esclarecedor e bem fundamentado [4] , que começa expondo o seguinte:

“Todo dia indivíduos, empresas e governos estrangeiros despejam US$ 1,5 mil milhões em ações, títulos do Tesouro, fábricas, empresas e imóveis nos Estados Unidos. Esse dinheiro é a seiva econômica desse país. Ele permite aos EUA financiar investimentos de capital em fábricas e outros negócios, assegurar crédito imobiliário, construir estradas – e até ir à guerra contra o Iraque”.

“Nos últimos dez anos, a dependência americana ao capital estrangeiro inflou. Duas décadas atrás, os americanos enviavam mais dinheiro para fora do país do que recebiam do exterior. Quanto tempo a infusão de dinheiro estrangeiro pode durar? Por quanto tempo os indivíduos responsáveis por decisões no mercado global vão continuar a favorecer os EUA com seu dinheiro?”

FRAGILIDADE ECONÔMICA E POLÍTICA

Entre os que hoje financiam a luxúria da sociedade norte-americana destacam-se o Japão (que em outubro de 2003 tinha um pouco mais de 500 mil milhões de dólares investidos em títulos do Tesouro dos EUA, segundo dados divulgados pelo Departamento do Tesouro), a China (com 113,8 mil milhões de dólares na mesma data) e as potências européias. É bom ressalvar que a aplicação em títulos públicos não constitui a única forma de financiamento do balanço de pagamentos, contando também os empréstimos ao setor privado e os investimentos externos diretos (IED), que despencaram do pico de US$ 314 mil milhões em 2000 para US$ 30 mil milhões em 2002.

Alguns analistas observam que a forma de financiamento do balanço de pagamentos dos EUA piorou sensivelmente após a queda das bolsas, as falências fraudulentas, a desmoralização da “Nova Economia” e a recessão de 2001, na medida em que houve uma apreciável queda da participação dos investimentos diretos e um aumento da captação através de títulos do Tesouro. “Nos 12 meses até 30 de junho de 2003, o dado mais recente disponível, os estrangeiros compraram US$ 231,5 mil milhões em dívida do Tesouro americano, mais do que qualquer outro período de 12 meses nos últimos seis anos”, salientam os jornalistas do The Wall Street Journal . “Essas compras totalizam quase dois terços de todo o montante tomado emprestado pelo Tesouro naquele período. Estrangeiros – entre eles bancos centrais – atualmente detêm mais de US$ 1 milhão de milhões de dólares em dívida do Tesouro americano, cerca de 30% de todos os títulos do Tesouro em circulação”.

Através dessas estatísticas pode-se perceber o entrelaçamento entre o déficit fiscal promovido pelo governo Bush e o rombo no balanço de pagamento, o modo pelo qual o capital que flui do exterior ajuda a financiar – ainda que em oposição aos interesses dos investidores – a criminosa invasão do Iraque. Justifica-se por aí a definição dos rombos fiscal e em conta corrente como “déficits gêmeos”.

Mas, é preciso assinalar ainda que o aumento da participação das aplicações em títulos públicos pode embutir um outro complicador, já que em boa medida os recursos em questão estão em mãos de bancos centrais estrangeiros, o que adiciona (ou pode adicionar) um molho político à vulnerabilidade econômica. O capital estrangeiro em mãos privadas move-se conforme as regras do mercado, orientando-se pela busca do lucro máximo, seu movimento é por natureza anárquico e pouco previsível. Já o mesmo não se pode dizer da reserva administrada por um banco central estrangeiro, cujo movimento nos mercados de câmbio não é guiado obrigatoriamente pela mesma lógica, podendo ser influenciado e mesmo determinado pela estratégia política. A fragilidade do império neste terreno é ao mesmo tempo econômica e política.

A INFLAÇÃO DO DÓLAR

Podemos enxergar um dos sintomas mais relevantes da saúde fundamental da economia norte-americana (conforme sugere outro famoso crítico do governo Bush, o economista Joseph Stiglitz) contemplando a dança do dólar. É verdade que os EUA têm (por enquanto) o privilégio de poder financiar seus déficits emitindo a própria moeda e provavelmente é isto que, em certa medida, tem sido feito. Todavia, este recurso artificial tem limite e este limite reside na desvalorização do dólar, que na definição de Keynes corresponde à inflação. Parece óbvio que estamos vivendo uma inflação do dólar nos mercados internacionais, embora o impacto sobre os preços internos não sejam relevantes.

A depreciação continuada coloca em questão o papel exercido pelo dólar (como reserva de valor mundial, meio de pagamento e unidade de troca) e – em médio prazo – pode anular as vantagens da liderança monetária. Fatos como o aumento da participação dos títulos globais denominados em euro e mudanças no perfil das reservas dos bancos centrais estrangeiros (em que também se registra a elevação da participação da moeda européia e do ouro, que atingiu seu valor máximo nos últimos 14 anos) sinalizam este perigo.

O declínio do dólar e a insistência do FED em garantir juros baixos também estão tornando menos atraente o retorno dos investimentos em ativos norte-americanos. Isto foi notado pelo economista Charles Collyns, chefe da equipe do FMI para a América do Norte, que coordenou um recente estudo da instituição que critica a política fiscal do governo Bush e alerta que o déficit dos EUA representam um risco muito sério para a economia mundial. “Sentimos que há um risco significativo de o apetite dos investidores estrangeiros por ativos norte-americanos, e em especial por ativos do governo norte-americano, diminuir com o passar do tempo. Achamos que isto ocorreu, em certo grau, no último ano e que este é um dos motivos pelo qual o dólar registrou fragilidade”, ressalta o economista.

DÉFICIT DE POUPANÇA

A causa mais remota e relevante da crescente vulnerabilidade da economia norte-americana é o déficit da balança comercial, que vem sendo acumulado sem maiores preocupações desde o famoso ano de 1971, quando o então presidente Richard Nixon teve de decretar o fim do lastro do dólar em ouro. Este déficit, principal via para a valorização e realização dos capitais estrangeiros destinados à exportação, é na verdade um grande espelho do parasitismo e da decadência econômica do Tio Sam. Ele traduz, todavia, perturbações mais profundas, que estão radicadas no processo produtivo. É o reflexo de um nível de poupança interna que o economista Joseph Stigritz classificou de “chocantemente baixa”.

“O déficit comercial não deveria ser surpresa para uma economia norte-americana na qual a poupança é escassa”, argumentou o economista-chefe do banco Morgan Stanley, Stephen Roach. “Eles são parte indissociável da crescente necessidade norte-americana de importar poupança externa a fim de financiar o crescimento do país. A única maneira de obter esse capital é manter déficits comerciais imensos” [5] . Há, portanto, um déficit de poupança, que conforme os economistas do Banco Mundial é equivalente ao saldo negativo da conta corrente. Sua persistência – combinada com o déficit público em crescimento – pode pressionar para o alto as taxas de juros.

A correção do desequilíbrio do balança de pagamentos dos EUA e a redução da sua vulnerabilidade externa só poderá ser obtida através da eliminação do déficit comercial, mas este caminho (que mais cedo ou mais tarde vai ser imposto pelos mercados) tende a implicar numa redução dos investimentos e afetar o crescimento interno. “Se os estrangeiros tirarem seu capital dos EUA, isto não somente depreciaria o dólar ainda mais e mais rápido. Investimento estrangeiro menor nas bolsas americanas pode levar o mercado a cair novamente”, observa o citado artigo do The Wall Street Journal . Este é uma nova questão que se insinua nesta história: será que, a exemplo do que ocorre no Brasil e em outros países do chamado Terceiro Mundo, a vulnerabilidade externa vai acabar afetando negativamente a taxa de crescimento do PIB norte-americano? A resposta a esta pergunta pode estar a caminho e se revelar ainda no decorrer dos próximos anos.
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Notas
1- Ver O Estado de São Paulo , 14/Jan/04, página B16
2- A informação consta no artigo intitulado “Benefícios e malefícios do déficit nos EUA”, assinado pela jornalista e publicado no jornal Valor (15/Jan/04, página A9)
3- Publicado originalmente no The New York Times , o artigo de Paul Krugman foi reproduzido pelo jornal O Estado de São Paulo – edição do dia 7 de janeiro deste ano (página B2)
4- O artigo, intitulado “EUA vão continuar a atrair capital externo?”, atribuído aos jornalistas Joel Milman, Phillip Day e Michael M. Fhillips (todos do The Wall Street Journal ) foi reproduzido pelo jornal O Estado de São Paulo (15/Jan/04, página B10)
5- O artigo de Stephen Roach, intitulado “A China não é culpada pela crise mundial”, com uma análise muito lúcida sobre as tensões entre China e os EUA (que no caso é apoiado pelas potências européias e o Japão) em torno da política cambial, foi publicado originalmente pelo Financial Times e reproduzido pelo jornal Folha de São Paulo (09/Out/2003, página B12)


[*] Membro da equipe de comunicação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Brasil.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

19/Jan/04