Dez razões porque Bush quer
banir o filme de Michael Moore

por Ryan Parry

Moore em Cannes. Um novo filme está a enviar ondas de choque a todo os Estados Unidos em geral e à Casa Branca em particular — e ele ainda nem foi divulgado.

Fahrenheit 9/11, que esta semana recebeu a mais longa ovação com o público de pé da história Festival de Cannes, conta como o seu director Michael Moore vê a verdade por trás da guerra no Iraque e ao terror.

Diz-se ser tão poderoso que poderia inclinar a eleição presidencial de Novembro contra George W. Bush. Como diz Moore: "Fomos capazes de conseguir equipes de filmagem incrustadas juntos às tropas americanas sem que elas soubessem que era Michael Moore. Eles estão totalmente f***dos".

A Disney recusou-se a distribuir o filme nos EUA, dizendo que o seu conteúdo poderia transtornar as eleições presidenciais. Moore afirma que é precisamente por isso que o público deveria vê-lo.

São estas as dez questões assassinas que o filme coloca:

1ª Após os ataques do 11/Set, por que o único avião a voar para fora dos EUA era o que transportava membros da família de Osama bin Laden?

Depois dos ataques, os EUA tornaram-se uma zona de não-voo (no-fly zone) . Moore pergunta: "Por que Bush permitiu a um jacto privado saudita voar pelos EUA naqueles dias posteriores ao 11 de Setembro para apanhar membros da família bin Laden e transportá-los para fora do país sem uma investigação adequada do FBI? Poderia ter sido possível que pelo menos um dos 24 bin Ladens tivesse sabido de algo?

2ª Estão os media a encobrir a tortura de prisioneiros iraquianos e o desencanto das tropas americanas?

O filme de Moore mostra soldados encapuzando e destratando detidos iraquianos, e mostra mesmo tropas a revezarem-se para abusar sexualmente de um homem idoso embriagado.

Ele afirma: "Isto ocorreu fora dos muros da prisão de Abu Ghraib. Os media estão ali todos os dias. Por que não viram isto? Não penso que tenhamos ouvido de soldados americanos em campo conversarem como fizeram neste filme acerca do seu desencanto e do seu desespero, acerca do seu questionamento do que estava a acontecer".

3ª Estará Bush a criar deliberadamente uma cultura de medo para levar a pobre juventude americana a combater a sua guerra?

Moore acusa a administração Bush de criar deliberadamente um clima de medo, particularmente com a instigação do Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security), a fim de aumentar o número de recrutas para as forças armadas. Ele chama a isto "o acto imoral de enviar garotos para a guerra com base numa mentira".

4ª Quão profunda é realmente a conexão entre a família Bush e a família bin Laden?

Moore expõe ligações de negócios entre os bin Ladens e os Bushes ao longo dos últimos 25 anos. Bush Senior tornou-se um consultor altamente pago do Carlyle Group, um dos maiores contratistas da defesa do país. Um dos investidores no Carlyle — ao custo considerável de pelo menos US$ 2 milhões — era a família bin Laden.

O activista afirma: "A família bin Laden tem vastas negócios com grandes companhias nos EUA. Eles doaram US$ 2 milhões para a alma mater de Bush, Harvard. Eles possuem propriedades no Texas, na Florida e em Massachusetts. Em suma, eles têm as suas mãos fincadas nas nossas cuecas".

5ª Precisamente quão sinistro foi o tratamento feito pela Casa Branca do registo militar de Bush?

Moore sugere que, longe de ser simplesmente um exercício para provar que Bush cumpriu os seus deveres na Air National Guard do Texas, a versão da Casa Branca também procurou esconder a evidência de que Bush e os seus associados tiveram ligações com várias companhias de petróleo sauditas. Ele também sugere que um antigo militar amigo de Bush, James R. Bath, certa vez vendeu um avião à família bin Laden.

6ª Será que Bush perdeu uma oportunidade de prender bin Laden durante as conversações secretas com os Taliban?

Moore pretende que enquanto governador do Texas Bush construiu uma relação com os governantes Taliban do Afeganistão. Eles encontraram-se no Texas para discutir um projecto de construção de um pipeline de gás natural desde o Turquemenistão, passando pelo Afeganistão controlado pelos Taliban, até o Paquistão.

Representantes da administração Bush reuniram-se com os Taliban no verão de 2001. Moore diz que eles ignoraram a questão bin Laden e estavam preocupados com petróleo. E pergunta: "Estava Bush a discutir a sua oferta para entregar bin Laden? Estava ele a ameaçá-los com força? Estava ele a discutir um novo pipe-line?

7ª Por que a família Bush tem um "relacionamento especial" com a família real saudita?

"Mais de 1,5 milhão de barris de petróleo que os EUA necessitam diariamente dos sauditas poderiam desaparecer com um capricho real, assim começamos a ver como não só Bush, mas todos nós, estamos dependentes da Casa de Saud", diz Moore. "Isto não pode ser bom para a segurança nacional".

Moore também se refere ao príncipe Bandar bin Sultan, o embaixador saudita nos EUA, o qual é alcunhado Bandar Bush devido às suas ligações estreitas com o presidente. Apesar da crescente evidência a ligar a atrocidade do 11 de Setembro a militantes sauditas, dois dias depois Bush ainda se encontrou com o príncipe Bandar para jantar.

8ª Esteve Bush a gastar demasiado tempo com férias para se concentrar no terrorismo?

Bush esteve em férias 42 por cento dos oito meses anteriores ao 11 de Setembro, deixando a sua guarda baixa, segundo Moore. Numa audiência da comissão do 11/Set, o director da CIA George Tenet admitiu que tivera conhecimento desde Agosto de 2001 de que Zacarias Moussaoui, o único homem acusado em conexão com o 11/Set, havia tomado lições sobre como voar um 747. Tenet afirmou que não contou a Bush porque o presidente "estava em férias".

9ª Bush aterrorizou-se quando lhe contaram acerca do ataque às torres gémeas?

Na manhã do 11 de Setembro o presidente Bush posava para as câmaras num evento sobre alfabetização infantil na Florida.

Anteriormente passara desapercebido a Moore, na sequência do filme que mostrava o coelho-no-carro-com-farois, a expressão na cara do presidente quando foi informado acerca do segundo avião a chocar-se com as torres gémeas.

Aparece um cronómetro no canto do écran, os minutos decorriam e o presidente manteve-se na leitura do "Meu bode de estimação", não sabendo o que fazer pois os seus conselheiros não lhe disseram.

Diz Moore: "Estaria Bush a pensar que deveria ter tomado mais seriamente os relatos que a CIA lhe dera no mês passado? Pois fora-lhe dito que a al-Qaeda estava a planear ataques nos EUA e que possivelmente seria usados aviões. Ou estaria ele paralisado pelo susto?

10ª Será que Bush manipulou as principais companhias americanas de media para acertar a sua vitória eleitoral de 2000?

O primo de Bush, John Ellis, um executivo da Fox News, foi agente instrumental ao "tratamento" de Bush/Cheney na noite da eleição e na intimidação das demais redes a fim de que aderissem. Esta confusão ajudou a preparar o cenário para o desastre que acabou na sua eleição apesar de Al Gore ter obtido a maioria popular.

No princípio de Fahrenheit 9/11, os grandes actores são vistos com sorrisos burlões e a enfeitarem-se a si próprios. "Eles estão aqui", narra Moore, "toda a gang corrupta que 'acertou' a eleição de 2000"

Ver também:
"Fahrenheit 9/11 Wins Top Prize in Cannes" de Michael Moore, 23/Mai/2004.
"Burning Bush" de Gary Younge, The Guardian, 26/Mai/2004.

O original encontra-se em Mirror.co.uk .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

31/Mai/04