A amputação deliberada do mercado médico
por David U. Himmelstein e Steffie Woolhandler
[*]
Mesmo nos Estados Unidos, há aspectos da vida que são demasiado
preciosos, íntimos ou passíveis de corrupção para
serem confiados ao mercado. Nós proibimos a venda de rins e a compra de
esposas, juizes ou crianças.
Até onde devem ir tais proibições? Nos últimos
anos, os empresários e os seus amigos no governo têm privatizado
muitos dos serviços financiados pelos poderes públicos que
anteriormente eram fornecidos pelo governo ou por agências
não-lucrativas incluindo interrogatórios de prisioneiros
iraquianos. Aqui mesmo, na Cambridge liberal, o superintendente da nossa escola
propõe-se criar uma empresa lucrativa para montar uma nova escola
secundária "pública"".
A saúde resume esta tendência. Os impostos cobrem 60 por cento
dos gastos com a saúde nos EUA considerando como despesas
governamentais não só os cuidados médicos (Medicare),
medicamentosos (Medicaid), a Administração de hospitais de
veteranos, como também os custos dos benefícios de saúde
para funcionários públicos e os subsídios à
cobertura privada. (Na verdade, numa base per capita, o financiamento
público dos cuidados de saúde nos EUA, ultrapassa os gastos
totais com a saúde nos países com serviço nacional de
saúde (National Health Insurance). Contudo, firmas de propriedades de
investidores passaram a dominar a diálise renal, lares de 3ª idade,
hospitais psiquiátricos, unidades de reabilitação e HMOs
(Health Maintenance Organizations). Fizeram incursões significativas nos
hospitais de cuidados de emergência (possuem cerca de 13 por cento de
tais unidades), bem como nos centros cirúrgicos, agências de
assistência médica ao domicílio e mesmo hospitais para
doentes incuráveis.
Os teóricos defensores do mercado argumentam que a
motivação do lucro optimiza os serviços e minimiza os
custos. Mas um crescente conjunto de provas indica que este dogma não
tem fundamento.
Os estudos mais recentes publicados na
Canadian Medical Association Journal
e no
Journal of the American Medical Association
provêm de um grupo de investigadores canadianos altamente
conceituados. Eles reviram minuciosamente todos os estudos comparativos de
custos e resultados da assistência em hospitais e clínicas de
diálise lucrativos e não-lucrativos. Para evitar parcialidade,
um documentalista eliminou as indicações sobre se o estudo
apresentava tendência para o privado ou o público. Os
investigadores usaram métodos estatísticos refinados para reunir
todos os dados (provenientes apenas de unidades de saúde dos EUA).
A sua análise meticulosa demonstra custos e taxas de mortalidade
acentuadamente mais elevados nos hospitais de propriedade de investidores do
que nos públicos, e resultados mais fracos nas clínicas de
diálise renal privadas do que nas públicas. O custo excessivo
nos cuidados privados é substancial -- 19 por cento -- implicando que
os US$ 37,348 mil milhões que os americanos pagaram pela
assistência médica nos hospitais privados de cuidados
primários em 2001, teriam custado apenas US$ 31,385 mil milhões
em estabelecimentos não-lucrativos; o desperdício atingiu os US$
5,963 mil milhões.
A perda de vidas é mais chocante: 2047 mortes evitáveis por ano
provocadas pelos hospitais lucrativos, e 2500 mortes por ano em centros
privados de diálise renal.
É fácil perceber porque razão o sentido do lucro
poderá levar a cuidados de saúde mais escassos e de pior
qualidade. Mas por que a propriedade de investidores aumenta os custos?
Os hospitais privados são maximizadores de lucros, não
minimizadores de custos. Estratégias que reforçasm os lucros
muitas vezes pioram a eficiência e aumentam os custos. O Columbia/HCA
o maior hospital-empresa usou diversos truques para inflacionar
as facturas de cuidados médicos: exagerar a gravidade do
diagnóstico, falsificar os registos de despesas que são a base
das retribuições dos cuidados médicos, passar doentes dos
hospitais de cuidados agudos para os seus hospitais de convalescença e
agências de cuidados ao domicílio, cobrando assim múltiplas
facturas por um único episódio de doença. Depois de pagar
multas e acordos totalizando US$ 1,7 mil milhões, a empresa continuou
alegremente e lucrativamente no seu caminho. O Tenet, o segundo
maior hospital-empresa, pagou quase US$ 700 milhões para resolver
acusações de ignorar indicações e reter
indevidamente doentes psiquiátricos a fim de ocupar camas nos anos 80,
quando a empresa era conhecida por NME. O Tenet voltou a ser notícia
por nova série de alegadas infracções, incluindo a
realização de centenas de exames cardíacos
desnecessários, mas lucrativos
Os executivos dos privados recolhem gratificações principescas,
sangrando os fundos da assistência. Quando o executivo chefe do
Columbia/HCA se demitiu por enfrentar investigações de fraude,
saiu com US$ 10 milhões de dividendos por rescisão e US$ 324
milhões em acções da companhia. O executivo chefe do
Tenet exerceu direito de opção em acções no valor
de US$ 111 milhões pouco tempo antes de ser forçado a sair em
2003. O director do HealthSouth (o principal fornecedor de cuidados de
reabilitação) fez US$ 112 milhões de dólares em
2002, o ano anterior à sua acusação por fraude.
Os enormes rendimentos dos executivos explicam parte, mas não a
totalidade dos altos custos administrativos nas empresas privadas de cuidados
de saúde. Os hospitais por acções gastam muito menos em
cuidados de enfermagem do que os hospitais não-lucrativos, mas os seus
custos administrativos são seis pontos percentuais mais altos
reflectindo a sua meticulosa atenção aos aspectos financeiros.
Altos custos administrativos e pior qualidade têm também
caracterizado as HMOs privadas (Health Maintenance Organizations). Actualmente
as seguradoras privadas dominantes nos EUA, tais como as HMOs, levam 19 por
cento a mais, contra os 13 por cento dos planos não-lucrativos, 3 por
cento no programa Medicare, e 1 por cento no Programa Nacional de Seguros de
Saúde Canadiano. Obviamente, os contratos com HMOs privadas têm
inflacionado os custos dos cuidados médicos. De acordo com o Gabinete
do Orçamento do Congresso, as HMOs da Assistência recrutaram
selectivamente idosos saudáveis, os quais, se tivessem permanecido no
plano Medicare tradicional, teriam custado pouco à
Assistênciacerca de US$ 2 mil milhões a menos, anualmente,
do que aquilo que o Medicare pagou às HMOs em prémios. Os planos
privados que não conseguiram recrutar os saudáveis, abandonaram
os contratos com a assistência, desestabilizando a assistência para
milhões de idosos. A resposta dos republicanos foi dourar a
pílula para as HMOs, incluindo US$ 46 mil milhões para aumentar
os pagamentos às HMO, como parte do recentemente editado decreto de
prescrição de fármacos do Medicare.
Por que razão sobrevivem no mercado, as empresas lucrativas que oferecem
produtos inferiores a preços inflacionados? Vários
pré-requisitos do mercado competitivo descritos nos manuais,
estão ausentes, no que diz respeito aos cuidados de saúde.
Primeiro, é absurdo pensar-se que os utilizadores vulneráveis dos
serviços públicos, tais como idosos frágeis e doentes
graves, os maiores consumidores da assistência, possam actuar como
consumidores informados. Geralmente não estão habilitados para
tal. Não podem comparar lojas, reduzir a procura quando os fornecedores
sobem os preços, ou avaliar a qualidade com exactidão. Mesmo
doentes lúcidos e instruídos, podem ter dificuldades em avaliar
se os acessórios de luxo num hospital, serão indicadores de boa
qualidade nos cuidados de saúde.
Segundo, os produtos de serviços complexos, como a
assistência médica, são notoriamente difíceis de
avaliar, mesmo para compradores sofisticados. Médicos e hospitais criam
os dados usados para os monitorá-los; quando usados como base para
retribuições financeiras tais dados têm o mesmo rigor de
uma declaração de IRS. Ao rotular uma pequena dor no peito como
angina, em vez de dor no peito, um hospital americano
pode aumentar a taxa de retorno da assistência em 9,2 por cento e
melhorar ficticiamente os resultados da angina. Explorar estas lacunas tem-se
revelado mais proveitoso do que melhorar a eficiência ou a qualidade.
Mesmo para empresas sérias, a selecção cuidadosa de
doentes e serviços lucrativos é a chave do êxito, ao passo
que responder às necessidades da comunidade geralmente ameaça a
lucratividade. Por exemplo, os hospitais lucrativos de especialidades,
oferecendo apenas assistência em cardiologia ou ortopedia (fontes de
dinheiro, segundo os esquemas de pagamento actuais) têm proliferado nos
EUA. A maioria destes novos hospitais duplica os serviços
disponíveis nos hospitais gerais públicos vizinhos, mas os
recém-chegados evitam os programas em que podem perder dinheiro, tais
como assistência geriátrica e departamentos de urgência (um
ponto de entrada comum para doentes não-segurados). Os lucros fluem
para os investidores, os prejuízos para os hospitais públicos, e
os custos totais para a sociedade aumentam, por via da duplicação
desnecessária de instalações dispendiosas.
Por último, um verdadeiro mercado exigiria múltiplos compradores
e vendedores independentes, com entrada livre no mercado. Contudo, muitos
hospitais exercem monopólios virtuais. Um único hospital numa
cidade não pode competir consigo próprio, mas pode usar o seu
poder no mercado para inflacionar os seus ganhos. Não surpreende que os
hospitais-empresa lucrativos nos EUA tenham concentrado as suas compras em
áreas onde podem ganhar uma boa parte do mercado local. Além
disso, muitos fornecedores e seguradores de cuidados de saúde gozam de
monopólios conferidos pelo Estado sob a forma de licenças para
médicos e hospitais e protecção de patentes para
fármacos (a indústria farmacêutica fornece uma
enciclopédia virtual do fracasso do mercado nos cuidados de saúde
dos EUA, mas deixamos isso para outra ocasião). Além disso
é um estranho mercado, que depende largamente dos fundos
públicos.
A privatização resulta numa grande perda líquida para a
sociedade, em termos de aumento de custos e perda de qualidade, mas alguns
ficam a ganhar. A privatização cria vastas oportunidades de
lucro para empresas e investidores poderosos. A família Frist, cujo
rebento, Bill, lidera os republicanos no Senado dos EUA, acumulou a sua vasta
fortuna a partir dos hospitais Columbia/HCA. Ross Perot juntou o seu dinheiro
a vender serviços informáticos ao Medicare. E cada pico nos
pagamentos do Medicare às HMOs tem feito subir em flecha o preço
das acções das HMOs.
A privatização também não redistribui o rendimento
pelos trabalhadores da saúde. As tabelas de vencimentos são
relativamente niveladas nas instituições de saúde
não-lucrativas do governo; as diferenças de salário entre
o chefe do executivo e uma governanta, são talvez 20:1. Nas
corporações dos EUA, uma razão de 180:1 é vulgar.
De facto, a privatização tira o dinheiro dos bolsos dos que
têm baixos salários, a maioria mulheres, para o dar a
investidores e gerentes bem pagos.
Por trás de falsas reclamações de eficiência
esconde-se uma verdade bem mais feia. A assistência na mão dos
accionistas dá corpo a um novo sistema de valores, que erradica qualquer
vestígio das raízes comunitárias e das
tradições samaritanas dos hospitais. Os hospitais dos
accionistas transformam médicos e enfermeiras em instrumentos dos
investidores, e encaram os doentes como mercadorias.
As intrusões do mercado têm estimulado uma nova onda de apoio
à segurança de saúde nacional (national health
insurance-NHI). Recentemente, 13,000 médicos assinaram uma proposta
de NHI (publicada no
Journal of the American Medical Association
), a qual bania seguradores e hospitais lucrativos, repercutindo o sentimento
dos 62 por cento dos americanos que defendem o NHI (de acordo com uma sondagem
em Outubro de 2003, do
Washington Post
/ABC Notícias).
Mas os fundamentalistas do mercado continuam a impingir as
privatizações como panaceia para a assistência à
saúde e para os outros problemas da América. Asseguram-nos que o
Aetna e o Columbia/HCA resolverão todas as nossas queixas de
saúde, tal como a Edison solucionará o fracasso das nossas
escolas públicas, a Enron baixará as tarifas de electricidade na
Califórnia, e a Halliburton e Blackwater nos resgatará no Iraque.
[*]
David U. Himmelstein e Steffie Woolhandler praticam e ensinam medicina em
Cambridge, Massachusetts. Eles lançaram em conjunto o programa
Physicians for a National Health.
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Como funcionam os Hospitais SA a mercantilização e privatização da saúde é ali inevitável
O original encontra-se em
http://www.monthlyreview.org/1204himmelstein.htm.
Tradução de MFA.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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