O dólar e a hegemonia dos Estados Unidos

por James Galbraith [*]

. O actual nervosismo do dólar não é surpresa alguma; os poucos economistas keynesianos que ainda restam esperavam-no desde há muito. Eis aqui as razões:

Durante muitos anos, desgastámos [os EUA] a nossa nossa posição comercial na economia internacional e o nosso nível de vida dependeu da vontade do mundo de aceitar activos em dólares – acções, títulos e notas – a troco de bens e serviços reais.

Ao longo de décadas, o Ocidente tolerou este exorbitante privilégio de uma economia com reservas em dólares, porque os Estados Unidos era a potência indispensável, que dava segurança confiável sem violência intolerável. Essa lógica evaporou-se há 15 anos.

Em finais dos anos 90, a posição dos Estados Unidos era sustentada pelo deslumbrante boom da tecnologia da informação, que atraiu enormes quantidades de capitais, provenientes dos lugares mais instáveis, como a Rússia, Ásia e outros locais do planeta. Mas também isso desapareceu.

Hoje, o comércio de manufacturas concentra-se na China e no Japão, o que significa que esses dois países contam com disparatadas reservas de dólares e que os seus actos determinam, em grande medida, o valor da moeda estadunidense.

O comportamento da China e do Japão está limitado pelo risco creditício. Vendem-se demasiados dólares, e o que restar em carteira desvalorizar-se-á e causará, a eles próprios, enormes perdas. Esta consideração indu-los à prudência. Mas se um jogador importante se apercebe de que outros podem abandonar o jogo, a prudência pode terminar. Isto é exactamente igual à velha corrida aos bancos.

Reduzir o défice orçamental não salvará o dólar, como pensam muitos democratas. Um banco que se torne presa fácil do pânico não se pode salvar a si próprio diminuindo o seu orçamento publicitário, aumentando as suas comissões ou despedindo trabalhadores. E uma vez iniciado o alarme, tão pouco o deterá a subida das taxas de juro.

Agora correm rumores de que a Rússia está trocando dólares por euros, que a Índia está a diversificar as suas reservas, e que a China pondera fazer o mesmo. Steven Roach, economista de Morgan Stanley teria dito aos clientes que se preparassem para uma hecatombe económica. O dique, que já foi sólido, começa a esboroar-se. Ninguém pode prever onde ou quando se romperá. Mas o encarregado de tapar as gretas com os dedos (como no conto infantil), Alan Greenspan, foi há pouco a Frankfurt e disse, claramente, que não tinha dedos suficientes.

O aspecto mais impressionante de tudo isto é a despreocupação de Bush. É quase como se actuasse consciente da crua verdade: que o declínio do dólar favorece particularmente os seus amigos e desfavorece principalmente aqueles que em nada o preocupam.

A queda do dólar provoca imediatamente uma alta da bolsa. As multinacionais têm lucros nos Estados Unidos e na Europa. Quando o dólar baixa, os lucros estadunidenses mantém-se iguais mas os ganhos europeus, medidos em dólares, sobem. O preço do petróleo continua alto, pelo menos o suficiente para evitar que o preço em euros caia. Isto também contribui para os ganhos – medidos em dólares – das petrolíferas estadunidenses.

Entretanto a China manterá o seu Yuan fixo e os preços das importações não subirão muito, de modo que o Wal-Mart não se verá muito prejudicado. Os consumidores estadunidenses acusam o golpe, principalmente por causa do preço do petróleo. Poucos conhecem as origens políticas do problema.

Dado que os Estados Unidos têm as suas dívidas em dólares, os primeiros afectados serão a China e o Japão. Situação difícil. Os países devedores da América Latina acusarão o impacto nas suas exportações, mas serão beneficiados nos serviços das suas dívidas. Aqueles países (como o México) que exportam quase exclusivamente para os Estados Unidos, sofrerão um forte golpe; outros (como a Argentina), que comercializam com a Europa, mas pagam os seus juros em dólares, ver-se-ão menos prejudicados.

Um perdedor claro é a Europa, que quis encontrar uma fórmula baseada nas exportações para acabar com o desemprego maciço. Será melhor irem esquecendo disso.

[*] Economista, keynesiano, professor da Universidade do Texas . O presente texto é o resumo de uma entrevista sua. A íntegra encontra-se em
http://vheadline.com/readnews.asp?id=23867 .
Tradução de José Paulo Gascão.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

31/Jan/05