Será que o colapso económico
dos EUA
acontecerá em 2005?
por F. William Engdahl
[*]
O Senado dos EUA acaba de reconfirmar Alan Greenspan com 78 anos de idade
para um inédito quinto mandato como presidente do mais poderoso banco
central do mundo, o Federal Reserve, ou Fed como é conhecido. O facto
de que o presidente Bush tenha renomeado Greenspan sublinha quão
vulnerável é o edifício financeiro global, e não
quão excelente é Greenspan como banqueiro central.
Aparentemente, o crescimento mundial está finalmente a expandir-se,
após severa recessão e a queda de 60% do mercado de
acções americano em 2000-2001. O Federal Reserve diz que
está tão confiante em que o crescimento da economia americana
toma um caminho seguro que elevou a sua taxa de juro básico de
uma baixa récord de 1% para 1,25% no mês passado, assinalando que
isto vagarosamente traria as taxas para níveis "neutros" de
3,5%-4,5% durante os próximos meses. No resto do mundo, verificam-se
fortes crescimentos das exportações desde o Brasil até ao
México e à Coreia do Sul. O crescimento na China é
tão forte que o governo está preocupado com o seu
superaquecimento. Na Europa, o Reino Unido está a expandir-se à
velocidade mais rápida dos últimos 15 anos. A França
espera que o PIB cresça 2,5%, e mesmo a Alemanha fala de um crescimento
da exportação mais forte. O condutor é o crescimento
económico americano.
O problema com este quadro optimista é o facto de que ele está
baseado totalmente sobre o dólar e na criação sem
precedentes de crédito barato em dólar por Greenspan e pela
administração Bush. O seu objectivo único a curto prazo
tem sido manter a economia americana suficientemente forte para assegurar a
reeleição de George Bush em Novembro. As
informações de Washington
dizem que Bush fez um negócio ao re-indicar Greenspan com a
promessa de que Greenspan manteria a economia em crescimento até às
eleições. Eles fizeram isto através de uma
combinação de taxas de juro aos mais baixos níveis
históricos, taxas apenas vistas em tempos de guerra ou depressão,
e através do estímulo à economia com récords de
gastos deficitários no orçamento, emitindo títulos do
governo para financiá-los. Em consequência, o mundo foi inundado
com dólares baratos.
O que está claro agora é ser provável que este
esforço insustentável chegue a um fim em algum momento de 2005,
logo após as eleições, sem importar quem venha a ser o
presidente. Dada a escala da impressão de dinheiro por parte do Fed e
do US Treasury desde 2001, está pré-programado que a
"correcção" da última orgia de crédito de
Greenspan terá impacto sobre todo o sistema financeiro e
económico global. Alguns economistas temem uma nova Grande
Depressão tal como a da década de 1930. O mundo hoje depende do
crédito de barato de dólares dos EUA. Quando as taxas de juro
americanas forem finalmente forçadas a subir, choques
dramáticos fustigarão a Europa, a Ásia e toda a economia
global, de forma diferente de qualquer coisa já vista desde os anos
1930. Dívidas que agora parecem administráveis subitamente
tornar-se-ão impagáveis. Incumprimentos
(defaults)
e bancarrotas espalhar-se-ão tal como aconteceu no rastro do colapso do
Creditanstalt em 1931.
A BOLHA DA ECONOMIA INTERNA AMERICANA
O mito oficial americano é de que a recessão de 2000-2001
terminou em Novembro de 2001 e a "recuperação" tem
estado em andamento desde então. A realidade não é
tão positiva. Utilizando um récord de taxas de juro baixas, o
Fed atraiu famílias americanas para o endividamento a taxas
récord, criando aquilo que pode ser chamado uma
"recuperação virtual", financiadas por quantias
récord de novas dívidas dos consumidores. Nunca houve uma
recuperação anterior na qual os níveis de endividamento
aumentassem, acontecendo antes o oposto.
O sonho americano de possuir um lar foi a fonte do récord de
empréstimos, ajudado pelas mais baixas taxas de juro desde há 43 anos.
Greenspan frequentemente apregoou que foi este o impulsionador da economia
americana a partir de 2001. Quando famílias compram uma casa, elas precisam
mobiliário, empregam trabalhadores da construção,
electricistas, engenheiros e a economia cresce. O récord de baixa das
taxas de juro tornou muito fácil às famílias conseguirem um
empréstimo bancário, utilizando a sua casa própria como
colateral ou garantia. Estes empréstimos, ligados aos preços
ascendentes do imobiliário, permitiram às famílias
americanas financiarem novo mobiliário, carros e inúmeras
outras coisas. Em 2003 os bancos atingiram um récord de US$ 324 mil
milhões em empréstimos para casa própria, no topo de US$ 1
milhão de milhões
(trillion)
de novos empréstimos hipotecários.
Todo este consumo criou a ilusão de uma
recuperação da economia. Abaixo da superfície, no entanto, um enorme
fardo de dívidas foi acumulado. Desde 1997, o total da dívida com
lares hipotecados de americanos cresceu 94% chegando a colossais US$ 7,4
milhões de milhões, uma dívida de uns US$ 120 mil numa
família em cada quatro. Empréstimos bancários para
compras imobiliárias desde 1997 ascenderam 200%, para US$ 2,4
milhões de milhões. Os preços médios das casas
americanas aumentaram 50% neste período desde 1998. Só em 2003
foi atingido um récord total de US$ 1 milhão de milhões em
novos empréstimos hipotecários. Em 1997 as hipotecas totalizavam
US$ 202 milhões de milhões.
Em muitas partes dos EUA, a inflação dos preços da
habitação tornou-se alarmante. Um apartamento em Manhattan agora
vale mais de US$ 1 milhão. Os preços da habitação
em Boston aumentaram 64% em cinco anos. Na Califórnia os preços
do imobiliário estão em ascensão. Em média os
preços da habitação americana aumentaram 50% em seis anos,
um aumento sem precedentes, conduzido pelo crédito fácil de
Greenspan. Nos sete anos até 2004 os preços das
habitações americanas aumentaram no papel em US$ 7 milhões
de milhões para um total de US$ 15 milhões de milhões, o
mais elevado da história americana. O problema é tão
obviamente perigoso que Greenspan recentemente foi forçado a negar a
existência de qualquer "bolha" do imobiliário, tal como
ele negava uma bolha nas acções das dot.com em 2000.
Mas foi exactamente isto que ele criou com as suas baixas taxas de juro. A bolha
das dot.com foi transformada numa maior e mais ameaçadora bolha
imobiliária. Famílias foram convencidas a investir num lar como
alternativa a comprar acções para os seus anos de reforma.
A ascensão nos preços das casas foi guiada pelas taxas de juro
baratas e pela ânsia dos bancos em emprestarem com
largueza. Porque duas agências semi-governamentais, a Federal National
Mortgage Association, conhecida como FannieMae, e a Government National
Mortgage Association, ou GinnieMae, recompram os contratos hipotecários
dos bancos, assumindo o risco dos bancos locais, de modo a que o banco local que
empresta sinta menos pressão para garantir que empresta a
famílias de baixo risco, respeitáveis do ponto de vista do
crédito, que possam repagar o empréstimo tomado.
O Congresso americano aprovou novas leis tornando ainda mais fácil
para as famílias comprar casas sem que nem um centavo do seu
próprio dinheiro seja exigido inicialmente como entrada. Isto
significou um enorme ascenso nos empréstimos hipotecários para
gente economicamente marginal ou famílias de risco. O número de
tais empréstimos hipotecários arriscados aumentou 70% só
este ano, e agora eleva-se a 18% de todas as hipotecas americanas. Muitas
destas hipotecas arriscadas são feitas com "taxas ajustáveis". As
taxas ajustáveis de hoje são baixas, pouco mais de 4%. Assim,
uns 35% de todas as novas hipotecas são hoje ajustáveis.
Enquanto as taxas permanecerem baixas, a roleta da dívida continuará a
girar. O problema começa quando as taxas de juro aumentam e as
famílias, atraídas para a compra de um lar com pagamentos a taxas
de juro variáveis, subitamente descobrem que o seu custo mensal com o pagamento
da hipoteca explodiu devido ao aumento das taxas de juro. Nessa altura, os bancos
americanos enfrentarão um sério problemas com os maus
empréstimos, de longe pior que aquele de 1990-92 quando vários
dos maiores bancos americanos estiveram à beira da falência. As
taxas americanas começaram a aumentar significativamente em Maio, e o
Fed foi forçado a elevar a sua taxa oficial no dia 30 de Junho, pela
primeira vez em quatro anos. Muitos bancos têm empréstimos
subscritos em taxas hipotecárias ajustáveis. Na medida em que as
taxas americanas continuarem a aumentar ao longo dos próximos doze
meses, isto disparará uma onda de incumprimentos de hipotecas. Alguns
peritos da indústria temem um "banho de sangue" em 2005.
A família americana está altamente endividada, e não
é apenas por causa da sua casa. Os dados do Federal Reserve mostram
agora um nível de dívida total acima dos US$ 35 milhões de
milhões, ou uns US$ 450 mil para uma família típica de
quatro membros. A dívida do consumidor médio com cartões
de créditos, automóveis e outros bens está em alturas
récord. Os fabricantes de carros continuam a oferecer
empréstimos para a compra de carros a seis ou mesmo sete anos. Muitos
americanos devem mais do seu carro do que ele vale. A dívida cresce.
Como as taxas do Fed estão no mais baixo nível desde 43 anos, a
dívida é administrável. Quando as taxas americanas se
elevarem, tornar-se-ão inadministráveis para muitos. A
ascensão começou. Há dois caminhos pelos quais as taxas
podem aumentar a partir daqui.
Primeiro, o próprio Fed foi forçado a actuar, elevando a sua
taxa básica pela primeira vez nos últimos quatro anos para 1,25%
em relação aos 1% que vigoravam em 30 de Junho. Ele não teve opção.
Greenspan durante meses afirmou que a recuperação americana estava
"forte" e que em breve as taxas retornariam ao "normal".
Foi um bluff calculado. Se ele não tivesse actuado para que os dados de
emprego americano convencessem os investidores que a recuperação
podia ser real ele enfrentaria uma grande crise de confiança no
dólar. A administração Bush confirmadamente manipulou
estatísticas para mostrar um melhor crescimento do emprego
a fim de ajudar a eleição.
Uma vez elevadas as taxas, Greenspan acalmou mercados nervosos declarando que
as elevações futuras seriam sempre graduais. Por outras
palavras: não se preocupem, especuladores. Mas se ele tem de manter a
confiança dos grandes mercados de títulos, deve também
convencê-los de que continua vigilante contra a inflação.
Isto é difícil quando os preços de tudo, desde o cobre ao
petróleo, à madeira, à soja e à sucata de
aço estão a elevar-se entre 50% e 110% ao longo dos
últimos meses. A sua única ferramenta
anti-inflação são as taxas de juros mais elevadas, ou a
promessa disso. Quanto mais tempo ele demorar para elevar as taxas mais os
preços aumentarão, maior o risco de uma crise do dólar,
assim como o medo do pior por parte dos investidores estrangeiros, nomeadamente
de que a economia americana esteja numa condição muito pior do
que os seus responsáveis admitem. O Fed está num beco sem
saída.
Mas taxas de juro mais elevadas ameaçam explodir a bolha da
dívida do milhão de milhões
(trillion)
de hipotecas de habitação, em que os valores das casas
estão estimados estarem supervalorizados em pelo menos 20% a
nível nacional, ou seja, US$ 3 milhões de milhões.
Quando os investidores em títulos privados -- tais como grandes fundos
de pensão e bancos -- perderem a confiança no compromisso
inflacionário de Greenspan, a única outra fonte de apoio para
baixas taxas de juro seria sobretudo a disposição do Japão
e da China para despejarem mais milhares de milhões dos seus
dólares na compra de títulos americanos.
MANTENDO O GOVERNO BUSH A FLUTUAR
Os maiores compradores da dívida governamental americana têm
sido os bancos centrais da Ásia-Pacífico. Os bancos centrais do
Japão e da China sozinhos possuem mais de US$ 1 milhão de
milhões de títulos do Tesouro do EUA como reservas de divisas
estrangeiras. Bancos centrais de todo o mundo possuem cerca de US$ 1,3
milhão de milhões da dívida do governo americano. Se a
dívida privada for somada, os Estados Unidos são o maior devedor
do mundo, com uns US$ 3,7 em dívida externa líquida no
princípio deste ano, provavelmente mais de US$ 4 milhões de
milhões agora. Em 1980, quando Ronald Reagan foi eleito, os EUA eram os
credores do mundo com um excedente de US$ 1 milhão de milhões.
Os países que dependem de grandes exportações para o
mercado americano reciclam os seus excedentes comerciais de dólares
comprando a dívida do Tesouro americano para manter a sua divisa fixada
ao dólar. Como o Japão, a China e outros continuam a comprar
quantias récord da dívida americana, pagando-as com seus
dólares ganhos duramente no comércio, as taxas de juro americanas
podem permanecer muito mais baixas do que o normal. Se as compras estrangeiras
de títulos americanos revertessem ou mesmo enfraquecessem, o Tesouro do
EUA teria de oferecer taxas de juro mais elevadas para atrair investidores a
fim de comprar a dívida. Isto tornaria as taxas de juro sobre
habitação mais caras muito rapidamente. Milhões de
proprietários de casa enfrentariam o incumprimento. Os preços
entrariam em colapso em muitas regiões, conduzindo a um desemprego mais
elevado.
Isto não será como o crash das dot.com, o qual foi um crash
deliberado provocado pela elevação de taxas do Fed a fim de
deflacionar aquela bolha. No ano 2000 as taxas de juro estavam em 6,5% e o Fed
tinha espaço para reduzi-las para 1% e criar a bolha alternativa da
habitação para o dinheiro manter a economia a flutuar num mar de
dívida. Desta vez, as taxas estão a níveis
históricos baixos, a dívida a níveis históricos
elevados, a dependência das contínuas entradas de capital
estrangeiro a níveis sem precedentes.
A especulação hoje tornou-se tão global como nunca. O
crédito barato no mundo do dólar levou ao embaratecimento do
crédito em todo o mundo. As economias do Brasil, do México e
mesmo da Argentina beneficiam com bancos e especuladores como George Soros que
tomam emprestado a taxas de juro americanas ou japonesas super baixas a fim de
investir em títulos nas terras em que as taxas de juro são altas,
como o Brasil, a Turquia ou a Argentina. Estes assim chamados mercados
emergentes estiveram em alta no ano passado com a promessa de Greenspan de
manter baixas as taxas de juro americanas. Isto agora principia a parecer
muito arriscado. Além disso, quando a administração Bush
fala de possíveis ataques terroristas em torno da época das
eleições está a fazer com que muitos grandes investidores
tenham receio em arriscar-se investindo em acções ou
títulos americanos. Eles, ao invés disso, começam a
guardar o dinheiro dos seus lucros recentes ao invés de
aplicá-los no boom de 2003-04 de Greenspan, mantendo-o seguro sob a
forma de cash.
Esta é uma razão importante porque os mercados de
acções e outros dos EUA têm estado em queda firme nas
últimas semanas. A bolha da dívida americana depende da
manutenção do mito de uma recuperação americana
para atrair capital estrangeiro ao investimento, ajudando a afastar o
dólar do colapso. Se os fundos de pensão estrangeiros dos bancos
centrais da China e do Japão ficassem convencidos de que a
recuperação americana está em perigo isto poderia levar a
uma grande mudança dos fundos para fora do dólar.
Mas a China e o Japão, temendo a crise do dólar,
começaram recentemente a comprar mercadorias (commodities) intensamente, desde
petróleo a minério de ferro, desde cobre a ouro. Eles
estão a utilizar os seus dólares comerciais para a compra de
mercadorias reais, ao invés de títulos da dívida do
Tesouro dos EUA, os quais são meros papeis. O pânico chinês
pela compra de petróleo para acumular reservas é um importante
factor a pressionar os preços do óleo outra vez para
níveis récord de US$ 42 por barril apesar de dois grandes
aumentos de quota da OPEP. Os preços do aço explodiram devido
à procura chinesa.
Quando chegou à presidência Bush herdou um orçamento federal com
excedente. Desde então ele criou os maiores défices da
história americana, cerca de US$ 500 mil milhões em 2004 e que se estima
alcançar os US$ 600 mil milhões em 2005. Em 1971, quando Nixon
retirou o dólar do padrão ouro, o orçamento federal estava
nuns "alarmantes" US$ 23 mil milhões.
Estes enormes défices são financiados pela venda a investidores de
títulos governamentais do Tesouro dos EUA ou de papeis semelhantes.
Desde 2001, os bancos centrais da Ásia, conduzidos pelo
Japão e pela China, compraram somas enormes, uns 43% de toda a
dívida do governo americano. Eles, com efeito, reciclaram os seus
dólares comerciais ganhos com a exportação de
automóveis, electrónica, têxteis e outros bens para o
consumidor americano. No período de 12 meses até Abril
último, o Banco do Japão gastou um récord de US$ 200 mil
milhões na compra de títulos americanos em dólar ou, com
efeito, no financiamento do custo da guerra do Iraque de Bush. Os bancos da
China, Coreia do Sul e Formosa compraram quase a mesma quantia em
títulos denominados em dólar.
Eles fizeram isto por razões claras: As suas divisas estão
ligadas ao dólar, e se o dólar caísse em
relação ao Yen ou ao Yuan, as exportações da
Ásia sofreriam um declínio, perigando o seu crescimento
económico e levando a aumentos explosivos de desemprego por toda a
Ásia. Ao reciclarem os seus excedentes de dólares comerciais
comprando dívida do Tesouro dos EUA eles argumentam que estão a
cuidar dos seus próprios interesses. Uma crise do dólar no
princípio de 2005 poderia assinalar a próxima crise global. O
mundo inteiro é refém de políticas económicas
distorcidas por um padrão dólar fora de controle.
26/Jul/2004
[*]
Jornalista económico, autor de
A Century of War – Anglo-American Oil Politics and the New World Order
(1992).
O original encontra-se em
http://www.studien-von-zeitfragen.net/. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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