O império Carlyle
O grupo Carlyle é um dos candidatos à privatização dos restantes 48% da
GalpEnergia.
O historial sinistro deste grupo não deve fazer esquecer que as
forças progressistas portuguesas são contra a própria privatização em si mesma,
sejam quais forem os abutres que sobre ela se debrucem.
A entrega da petroleira portuguesa ao capital monopolista é uma
monstruosidade.
A única solução que serve os interesses nacionais é reverter a
privatização selvagem já efectuada,
cancelar a privatização em curso e mantê-la no sector estatal.
Só um governo de traição nacional como este é capaz de alienar o
restante da GalpEnergia.
Ao povo português não interessa que caia nas mãos de nenhum
dos quatro grupos que a disputam (Viapetro, Luso-Oil liderado pelo Carlyle,
José de Mello, CVC).
resistir.info
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O maior investidor privado do mundo, bem implantado no sector do armamento,
é um grupo discreto, que cultiva relações com homens
influentes, entre os quais os Bush, pai e filho.
Há um ano, a 1 de Maio de 2003, George Bush pousava, envergando uma
indumentária de piloto de caça, no porta-aviões
USS Abraham-Lincoln
, ao largo da Califórnia. A imagem tornou-se célebre. Sob uma
faixa que proclamava "Missão cumprida"
("Mission accomplished"),
o presidente anunciava prematuramente o fim das operações
militares no Iraque e a sua vitória. No dia seguinte, de regresso a
terra firme, ele pronunciava um outro discurso marcial, não longe de San
Diego, numa fábrica de armamento da United Defense Industries.
Esta empresa é um dos principais fornecedores do Pentágono.
Fabrica, entre outras coisas, mísseis, veículos de transporte e,
na Califórnia, o blindado ligeiro Bradley. O seu principal accionista
é o maior investidor privado do mundo. Um grupo discreto, baptizado
Carlyle.
Não está cotado na Bolsa e não presta contas senão
aos seus 550 investidores multimilionários e fundos de
pensão. O Carlyle gere hoje 18 mil milhões de dólares,
colocados nos sectores da defesa e da alta tecnologia (biologia,
principalmente), na indústrial espacial, na informática ligada
à segurança, nas nanotecnologias, nas
telecomunicações. As empresas que controla apresentam como
característica comum terem por clientes principais governos e
administrações. Como esta sociedade descreveu-se numa brochura:
Investimos nas oportunidades criadas nas indústrias fortemente afectadas
pelas mudanças de política governamental
.
O Carlyle é um modelo construído à escala
planetária com base no capitalismo de relações ou
capitalismo de acesso
, para usar a expressão da revista americana
New Republic
, em 1993. O grupo encarna hoje, apesar das suas negativas, o complexo
militar-industrial contra o qual o presidente americano Dwight Eisenhower
alertava o povo americano, ao deixar as suas funções em 1961.
Isto não impediu George Bush, pai, de ocupar durante dez anos,
até Outubro de 2003, um posto de conselheiro da Carlyle. Era a primeira
vez na história dos Estados Unidos que um antigo presidente trabalhava
para um fornecedor do Pentágono. O filho, George W. Bush, conhece
igualmente muito bem a Carlyle. O grupo deu-lhe um emprego em Fevereiro de
1990, quando o pai ocupava a Casa Branca: administrador da Caterair, uma
sociedade texana especializada na restauração aérea. O
episódio já não figura na biografia oficial de presidente.
Quando George W. Bush deixa a Caterair, em 1994, antes de se tornar governador
do Texas, a empresa está em apuros financeiros.
Não é possível estar mais próximo da
administração do que está a Carlyle,
afirma Charles Lewis, director do Centro para a Integridade
Pública, uma organização não partidária de
Washington.
George Bush, pai, ganhou dinheiro proveniente de interesses privados que
trabalham para o governo do qual o filho é presidente.
Poder-se-á mesmo dizer que o presidente virá um dia a beneficiar
financeiramente, por via dos investimentos do pai, das decisões
políticas que tomou,
acrescenta.
A colecção de personagens influentes que trabalham, trabalharam
ou investiram no grupo deixariam de boca aberta os adeptos mais convencidos da
teoria da conspiração. Encontram-se nele, entre outros: John
Major, antigo primeiro-ministro britânico, Fidel Ramos, antigo presidente
filipino, Park Tae Joon, antigo primeiro-ministro da Coreia do Sul, o
príncipe saudita Al-Walid, Colin Powel, actual secretário de
Estado, James Baker III, antigo secretário de Estado, Caspar Weinberger,
antigo secretário para a Defesa, Richard Darman, antigo director do
Orçamento da Casa Branca, o multimilionário George Soros e,
mesmo, membros da família Ben Laden. A esta lista podem acrescentar-se
Alice Albright, filha de Madeleine Albright, antiga secretária de
Estado, Arthur Lewitt, antigo presidente da SEC (o polícia da Wall
Street), William Kennard, ex-patrão da autoridade para as
telecomunicações (FCC). Finalmente, é preciso juntar,
entre os europeus, Karl Otto Pöhl, antigo presidente do Bundesbank, o
falecido Henri Martre, que foi presidente da Aerospatiale, e Etienne Davignon,
antigo presidente da Générale na Bélgica.
A Carlyle não é apenas uma colecção de homens de
poder. Possui participações em perto de 200 sociedades e,
sobretudo, a rentabilidade anual dos seus fundos ultrapassa os 30% de há
uma década para cá.
Relativamente às 500 pessoas que empregamos no mundo, o
número de
antigos homens de Estado é muito diminuto, uma dezena quando muito,
explica Christopher Ullmann, vice-presidente da Carlyle,
responsável pela comunicação.
Acusam-nos de todos os males, mas nunca ninguém apresentou uma
prova de
qualquer malversação. Nunca nenhum processo judicial foi
apresentado contra nós. Somos um alvo cómodo para quem quer
atacar o governo americano e o presidente
A Carlyle foi criada em 1987 com 5 milhões de dólares, nos
salões do palácio nova-iorquino do mesmo nome. Os seus
fundadores, quatro juristas, um dos quais, David Rubenstein, antigo conselheiro
de Jimmy Carter, tinham como ambição limitada
aproveitar uma falha na legislação fiscal, que autorizava as
sociedades no Alaska pertencentes a esquimós a ceder as suas perdas a
empresas rentáveis que, deste modo, pagariam menos impostos. O grupo
vegeta até Janeiro de 1989, quando chega à sua
direcção o homem que inventará o sistema Carlyle, Frank
Carlucci. Antigo director-adjunto da CIA, conselheiro para a segurança
nacional, depois secretário para a Defesa de Ronald Reagan, o sr.
Carlucci tem peso em Washington. É um dos amigos mais chegados de
Donald Rumsfeld, o actual ministro da Defesa. Os dois partilharam um quarto
quando estudantes em Princeton. Cruzaram-se depois em numerosas
administrações e, durante um certo tempo, trabalharam para a
mesma empresa, a Sears Roebuck. Seis dias após ter deixado oficialmente
o Pentágono, a 6 de janeiro de 1989, Frank Carlucci tornou-se
director-geral da Carlyle e levou consigo homens de confiança, antigos
funcionários da CIA, do Departamento de Estado e do Ministério da
Defesa. Apelidado M. Clean (o Sr. Limpo), Frank
Carlucci tem uma reputação demoníaca.
Este diplomata esteve colocado, nos anos de 1970, em países como a
África do Sul, o Congo, a Tanzânia, o Brasil e Portugal, onde os
Estados Unidos e a CIA tiveram um papel político duvidoso. Ele era o
número dois da embaixada americana no Congo belga, em 1961, e foi
suspeito de estar implicado no assassinato de Patrice Lumumba, o que sempre
desmentiu firmemente. A imprensa americana acusou-o também de estar
implicado em vários tráficos de armas nos anos de 1980, mas nunca
foi processado. Dirigiu durante um certo tempo a Wackenhut, uma sociedade de
segurança de reputação detestável, implicada num
dos maiores escândalos de espionagem, o desvio do logicial Promis. Frank
Carlucci teve por missão compor as coisas na administração
Reagan no momento do caso Irão-Contra e sucedeu então a John
Pointdexter no posto de conselheiro para a segurança nacional. Quando
entrou em funções, tinha nomeado como adjunto um jovem general...
Colin Powel.
Com o seu nome, Frank Carlucci atrai capitais para a Carlyle. Em Outubro de
1990, o grupo apodera-se da BDM International, que participa no programa da
guerra das estrelas, e faz disso a sua ponta de lança. Em
1992, Frank Carlucci alia-se ao grupo francês Thomson-CSF para apanhar a
divisão aerospacial da LTV. A operação fracassa, o
Congresso opõe-se à venda a um grupo estrangeiro. A Carlyle
encontra outros associados, a Lorale Northrop, e deita a mão à
LTV Aerospace, rapidamente rebaptizada Vought Aircraft, que participa na
fabricação dos bombardeiros B1 e B2.
Nessa mesma altura, o fundo multiplica as aquisições
estratégicas, tais como a Magnavox Electronic Systems, pioneira em
matéria de imagens por radar, e a DGE que detém a tecnologia dos
mapas em relevo electrónicos para mísseis de cruzeiro. Seguem-se
três sociedades especializadas em descontaminação nuclear,
química e bacteriológica (Magnetek, IT Group e EG & G Technical
Services). Depois, por intermédio da BDM International, uma firma
ligada à CIA, a Vinnell, que está entre as primeiras como
fornecedora de contratados privados ao exército americano e seus
aliados, isto é, de mercenários. Os da Vinnell enquadram as
forças armadas sauditas e protegem o rei Fahd, tendo combatido na
primeira guerra do Golfo ao lado das tropas sauditas. Em 1997, a Carlyle
revende a BDM e a Vinnell, que era particularmente perigosa. O grupo já
não precisa delas pois tornara-se o 11º fornecedor do
Pentágono, quando se apoderou, nesse mesmo ano, da United Defense
Industries.
A Carlyle sai obrigatoriamente da sombra com o 11 de setembro de 2001. Nesse
dia, o grupo organiza no Ritz Carlton de Washington uma reunião com 500
dos seus mais importantes investidores. Frank Carlucci e James Baker III
têm o papel de mestres de cerimónia. George Bush, pai, faz uma
passagem-relâmpago por lá, ao princípio do dia. A
apresentação é rapidamente interrompida, mas há um
pormenor que não escapa a ninguém. Um dos convidados ostenta na
sua identificação o nome de Ben Laden. Trata-se de Shafiq Ben
Laden, um dos numerosos meio-irmãos de Oussama. Os meios de
comunicação americanos descobrem a Carlyle. Um jornalista, Dan
Briody, escreve um livro sobre a face oculta do grupo,
The Iron Triangle
, e interessa-se particularmente pelas relações estreitas entre o
clã Bush e os dirigentes sauditas.
Algumas pessoas interrogam-se sobre a influência de George Bush, pai, na
política externa americana. Em Janeiro de 2001, quando George Bush,
filho, rompe as negociações com a Coreia do Norte relativamente
aos mísseis, os coreanos do Sul, consternados, intervêm junto do
pai. A Carlyle tem interesses importantes em Seul. Em Junho de 2001,
Washington retoma as discussões com Pyongyang.
Outro exemplo, em Julho de 2001, segundo o
New York Times
: George Bush, pai, telefona ao prícipe saudita Abdallah que se mostrava
descontente com as tomadas de posição do presidente quanto ao
conflito israelo-palestiniano. George Bush, pai, assegura então ao
príncipe que o filho
está a fazer coisas boas
e que
o coração dele está do bom lado.
Larry Klayman, director da Judicial Watch, uma
organização resolutamente conservadora, pede ao
pai do presidente que se demita da Carlyle. O grupo tem conflitos de
interesses que podem criar problemas à política externa
americana.
Por fim, em Outubro de 2003, George Bush, pai, deixa a Carlyle. O
pretexto oficial é o de que ronda os 80 anos.
Embora a Carlyle tenha posto fim a qualquer relação com a
família Ben Laden, em Outubro de 2001, o mal já estava feito. O
grupo torna-se com a Halliburton o alvo dos opositores à
administração Bush.
A Carlyle substitui a Comissão Trilateral nas teorias da
conspiração,
reconhecia David Rubenstein, em 2003, numa entrevista ao
Washington Post
. Pela primeira vez, o grupo nomeia um responsável para a
comunicação e muda de patrão. Frank Carlucci torna-se
presidente honorário e Lou Gerstner, dirigente respeitado que salvou a
IBM, toma oficialmente as rédeas. A operação parece ser
sobretudo cosmética. O sr. Gerstner não passa muito tempo no seu
gabinete. Mas a Carlyle quer tornar-se respeitável.
O grupo cria um sítio na Internet. Abre certos fundos a investidores,
contribuindo somente com 250 mil dólares (210 mil euros).
Afirma ter reduzido a sua participação na United Defense
Industries e que a Defesa e a Força Aérea não representam
mais de 15% dos seus investimentos. Mas a Carlyle continua a fazer uso
intensivo dos paraísos fiscais e é difícil conhecer o seu
perímetro e o nome das sociedades que controla.
A Carlyle multiplica também os seus esforços na Europa. Em
Setembro de 2000, passa a controlar o grupo sueco de armamento Bofors por meio
da United Defense. Tenta em seguida, sem sucesso, deitar a mão à
Thales Information Systems e, em princípios de 2003, às
participações da France Telecom na Eutelsat, que tem um papel
importante no sistema europeu de posicionamento por satélite,
concorrente do GPS americano. De 1999 a 2002, gere uma
participação no
Le Figaro
. Em Itália, abre caminho, apanhando a filial aeronáutica da
Fiat, a Fiat Avio. Esta sociedade fornece a Arianespace e permite à
Carlyle entrar no Conselho da nave espacial europeia. Outro golpe: em
Dezembro de 2002, a Carlyle compra um terço da Qinetic, filial privada
do Centro de Investigações e Desenvolvimento Militar
britânico. A Qinetic ocupa uma posição única como
conselheira do governo britânico.
Anteciparmo-nos às tecnologias do futuro e às empresas que
as
desenvolvem é o nosso primeiro papel de investidor. Os fundos de
pensões trazem-nos o dinheiro para isso. Não nos podem reprovar
que tentemos assegurar posições estratégicas,
sublinha o sr. Ullmann.
[*]
Jornalista de
Le Monde
. Artigo publicado na edição de 30/Abr/04. Tradução
de MJS.
O original encontra-se em
http://www.lemonde.fr/web/article/0,1-3230,36-362942,0.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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