A reeleição de Bush Jr.:
A outra face da moeda
por Carlos Flanagan
Em escrito anterior passámos em revista os três processos
eleitorais ocorridos no mesmo domingo 31 de Outubro em que celebrámos
as nossas [uruguaias] eleições nacionais. Se a estes somarmos o
claro triunfo da Frente Sandinista de Libertação Nacional nas
eleições municipais da Nicarágua, no passado dia domingo
7 de Novembro, reforçamos a nossa percepção acerca da
perspectiva de mudança que começa a gerar-se na nossa
região.
Simultaneamente assinalávamos o triunfo de George W Bush a 2 de
Novembro, ao conseguir a sua reeleição para a Presidência
dos EUA, facto sobre o qual é necessário determo-nos e analisa-lo.
Houve aspectos prévios que, a nosso ver, diferenciam esta
eleição da anterior e que devemos sublinhar. Em primeiro lugar a
alta taxa de concorrência às urnas. Cerca de 60%, para os
norte-americanos, é uma percentagem muito elevada e que não se
verificava desde os anos 60, quando foi eleito John F. Kennedy. A aposta Kerry
a contar com a presença maciça do voto jovem fracassou mas, por
outro lado, contou com uma enorme maioria dos votos dos latinos e
afro-americanos.
Em segundo lugar, diferentemente das eleições anteriores, Bush
Jr. ganhou por uma clara maioria, sem necessidade de recorrer a nenhum processo
fraudulento.
Em terceiro lugar, sem esquecer as tropelias internacionais tanto de
administrações republicanas como democratas
tendências do mesmo Partido do
establishment
não era para os povos do mundo absolutamente indiferente
que nesta eleição triunfasse Kerry ou Bush; começando
pelo Irão, Síria, Cuba, Venezuela ou a zona da fronteira tripla.
O MEDO TRIUNFOU SOBRE O EVIDENTE
Cabe agora perguntar, depois da infame agressão ao Iraque e das imagens
do tratamento dado aos prisioneiros espezinhando os mais elementares direitos
humanos, que percorreram e sacudiram as consciências do mundo (se bem que
para nós latino-americanos não fosse novidade nenhuma): o que se
passou pela cabeça dos cidadãos norte-americanos quando votaram a
2 de Novembro?
Como muito bem analisa Michael Moore no seu filme
Farenheit 9/11,
o actual governo conseguiu impor a sensação de incerteza
permanente na população, como uma componente importante de uma
política (externa e interna) do terrorismo de Estado.
Só assim se pode explicar o potenciado grau do síndroma de
autismo político adquirido do norte-americano médio; que
supera com vantagem aquele outro autismo tradicional da indiferença
perante a política externa do seu governo, sempre que não afecte
os impostos ou o preço do combustível para o automóvel.
Agora, o terror perante o terrorismo instalado impede-lhes a mínima
análise da sua própria situação interna.
Vejamos alguns dados.
No campo económico:
a crise estrutural do sistema capitalista bate já às suas
portas de forma retumbante. O desemprego continua a subir, fundamentalmente na
indústria. No total perderam-se 1,5 milhão de postos de
trabalho. Se deitarmos uma olhadela ao orçamento, vemos que o
superávite que lhe deixara Bill Clinton estimado em 127 mil
milhões de dólares, o Mago Bush Jr. converteu-o em
413 mil milhões de milhões de dólares de défice.
Logo a seguir à sua fraudulenta eleição no ano 2000,
dissemos, então, que as suas primeiras medidas adiantavam a
previsão do que seria toda a sua gestão no mandato. Baixou
impostos sobre os lucros das grandes empresas (principalmente
petrolíferas) que haviam generosamente contribuído com 3.000
milhões de dólares para a sua campanha e lançou-se numa
aventura de agressão pelo petróleo e em benefício do
grande complexo militar industrial. Rapidamente o tempo nos deu razão.
Lançou a agressão ao Iraque que até agora atinge já
um custo económico de 140 mil milhões de dólares. Pelo
que os lucros fabulosos das empresas armamentistas são duplos: por
facturação (há mísseis inteligentes que
custam um milhão de dólares cada um) e por baixa ou
isenção de impostos. Esta reforma tributária regressiva
afectou principalmente as camadas médias: 52% dos votantes de Bush
reconheciam que nestes últimos três anos a sua
situação económica piorou com o crescente desemprego, o
caos na prestação dos serviços de saúde e da
segurança social. No entanto...
No campo político:
aceitaram pacificamente a aprovação do Patriot Act
que cerceia direitos civis fundamentais, como o
habeas corpus,
permite escutas telefónicas indiscriminadas e sem
autorização judicial, o julgamento de civis por militares e o
controlo dos materiais que se lêem nas bibliotecas.
Esqueceram-se da fraude no estado da Florida, pela qual Bush chegou à
presidência, das mentiras da existência de armas de
destruição maciça em poder de Sadam Hussein, desculpa para
a invasão.
O QUE AÍ VEM
Um medíocre com poder é perigoso. Se esse poder é da
principal potência mundial e esse medíocre é um ungido e a
sua política belicista é legitimada por uma maioria
indiscutível, ainda é pior. Que pode esperar o povo palestino e
o processo de paz no Médio Oriente? Qual será o próximo
objectivo, integrante, segundo Bush, do eixo do mal? Qual
será a atitude da ONU? Nestes dias, já as primeiras
informações sobre as mudanças no gabinete fazem prever um
endurecimento da sua política externa.
A alternativa para os povos do nosso continente, que se estão a
pronunciar, inequivocamente, nas suas lutas sociais quotidianas, e nas urnas
por mudanças anti-neoliberais é clara: caminhar firmemente e sem
pausas pelo caminho da integração de povos e governos (tanto no
continente, como no forjar da aliança SUL-SUL com a China, Índia,
e África do Sul) que nos permita enfrentar, unidos, os desígnios
hegemónicos do imperialismo em todas as suas vertentes, como por exemplo
a ALCA, as políticas proteccionistas e de intercâmbio desigual na
OMC, o Plano Puebla-Panamá, o Plano Patriota ou o assalto à nossa
bio-diversidade por parte grupos transnacionais.
É outro dos desafios que devemos encarar na política externa do
novo governo da EP-FA-NM
Tradução de JPG.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
|