A esquerda diante da lição de dignidade e democracia na Catalunha

– Frente àqueles que só recorreram à força para vencer e fracassaram estrepitosamente, o soberanismo catalão convenceu e saiu triunfante

por Oskar Matute e María del Río

Devemos felicitar o povo que conseguiu alcançar êxito, um rotundo sim nas urnas, no chamado Procés. Mas, acima de tudo, valorizamos o exemplo das centenas de milhares de pessoas que o tornaram possível fazendo frente aos obstáculos, às ameaças, às proibições e à ocupação pelas armas das suas ruas, povoados e cidades. As mulheres e os homens da Catalunha deram-nos um exemplo de organização e de audácia, de capacidade e de resistência pacífica; em definitivo, de dignidade e de democracia.

Em vésperas do referendo reunimo-nos com alguns dos agentes sociais que abriram o caminho e surpreendia a calma e a determinação com que se exprimiam. E isso apesar da situação gerada pelas graves infracções de direitos civis e políticos perpetrados desde o passado 20 de Setembro pelo Governo de Espanha. Frente àqueles que apenas exibiram a força para vencer e fracassaram estrepitosamente, o soberanismo catalão venceu e saiu triunfante, abrindo além disso uma janela de oportunidade não só para construir uma república mais digna e justa como também para empreender a explosão descontrolada mas democrática do regime pós-franquista de 1978.

Perante este cenário, a esquerda estatal deve impor-se. Ainda que mais uma vez cheguem tarde ao encontro, deve assumir a decisão de escorar o sistema ou, pelo contrário, aproveitar essa oportunidade de construir, por fim, uma democracia que lhes agrade ou não, deverá respeitar o direito a decidir dos povos que o reivindicam. Perante os discursos da direita, encarnada não só por Rajoy como também por [Pedro] Sánchez e [Albert] Rivera, a esquerda espanhola faria bem em olhar-se no espelho do PSOE e procurar as diferenças entre os seus discursos. Sua única solução às legítimas aspirações da Catalunha, do Eukal Herria e de outros povos passa por depor um dos pilares do regime para colocar outro em seu lugar. E isso, companheiras e companheiros, está muito longe de ser mudança; quando muito será substituição e qualquer maneira acaba por ser insuficiente. Já o era antes do 1-O [1 de Outubro] e também o é, ainda mais, após esta jornada transcendental.

Cabe assinalar que não se deve confundir a tibieza das cúpulas dirigentes estes partidos com o compromisso e a solidariedade mostrada por centenas de milhares de pessoas em muitos lugares do estado [espanhol], desde Madrid até Sevilha. Não é possível denunciar a porretada ignorando que alguém esgrime o porrete e que outros, ainda por cima, ordenaram fazê-lo para garantir a integridade territorial e o destino no universo de uma nação grande e livre. Exercer a ternura dos povos não pode ser condicionado a que algum dia o PP e o PSOE deixem de alternar-se no poder. Será que alguém imagina um partido condicionando o apoio aos direitos do povo sarauí à sua vitória eleitoral? Pois isso que ninguém vislumbra é a norma quando se trata da Catalunha ou do Euskal Herria.

E ao olhar em casa, voltamos a reiterar a lição valiosa oferecida pela cidadania catalã. É certo que a vergonha atitude do PNV [Partido Nacionalista Vasco] em relação ao referendo deste domingo não convida ao optimismo quanto ao futuro do nosso país. Se [Iñigo] Ukullu [presidente do PNV] alguma vez for mencionado na história da Independência da Catalunha, fá-lo-á na secção do cómico ou do ridículo, com o seu críptico "I love CAT" junto a uma bandeira autonómica, só superado pelo barco do Tweety & Silvestre [NR] fretado por Madrid.

Felizmente, as dezenas de milhares de pessoas em protesto permanente, desde as manifestações nacionais até as caçaroladas locais, as centenas que foram apoiar o desenvolvimento normal da jornada eleitoral ou os bombeiros que se somaram aos seu homólogos catalães para defender a democracia, estiveram à altura da solidariedade que Eusakal Herria devia mostrar à Catalunha.

Mas o certo é que, em troca, recebemos muito mais. Grandes e pequenas lições como por todo um país a caminhar num projecto comum. Alguns a partir de pontos de origem muito distantes, tanto que teve de ser a defesa mais elementar da democracia o único lugar em que se cruzaram seus caminhos. Enquanto a caverna mediática se empenha em vender a farsa da doutrinação e a batuta dos partidos políticos independentistas, nós que conhecemos de perto a realidade catalã sabemos que foi a constante mobilização cidadã que os pressionou a empreender a marcha. E também que o boca a boca, panfleto a panfleto e acto a acto conseguiu abrir os olhos a muita gente, mostrando-lhes por exemplo as conquistas sociais que automaticamente entrariam em vigor no minuto zero da República catalã porque já foram aprovadas pelo Parlament mas recorridas pelo Constitucional. Leis como aquela que impede cortar a luz a pessoas em situação de vulnerabilidade; a que promove a igualdade efectiva entre mulheres e homens ou a que proíbe espectáculos com sofrimento animal como a tauromaquia.

O repto para Euskal Herri passa, portanto, mais pela activação social e pela tomada de consciência colectiva da necessidade de soberania do que pela difícil tarefa de mover um PNV mais dado a pactuar vantagens com aqueles que reprimem do que a solidarizar-se com as suas vítimas. Conseguir isso "apenas" exige encontrar esses pontos em comum, que podem bem passar pela ânsia própria à grande maioria de construir um futuro mais justo e mais digno, que nos permita superar as políticas infractoras de direitos e repressivas dos herdeiros de Franco. Como sucedeu na Catalunha, que sejam também as mulheres e os homens de Euskal Herria que abram o caminho para uma República Vasca na qual sejamos mais iguais e mais livres; um país no qual a desvergonha do Governo espanhol e suas política seja, mais do que nunca, vergonha alheia.

07/Outubro/2017

[NR] No Brasil, Piu-piu & Frajola.

Ver também:
  • "El elemento determinante del proceso catalán es la irrupción de pueblo organizado" , Angeles Maestro (vídeo)
  • A guerra dos cruzeiros , César Príncipe

    O original encontra-se em https://ppcc.lahaine.org/la-izquierda-ante-la-leccion


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 09/Out/17