Simmons deseja estar errado

O principal analista de energia acredita que a oferta de petróleo bruto da Arábia Saudita está próxima do pico e apela a maior transparência nas reservas globais para prevenir 'cataclismo'.

por F. Jay Schempf


. Matt Simmons tem a esperança de estar errado.

Mas se ele estiver certo na sua crença de que os campos petrolíferos gigantes da Arábia Saudita já atingiram o pico e poderiam entrar num rápido declínio em apenas uns três anos, é melhor que alguém tenha um "Plano B" preparado ou não haverá, afirma ele, absolutamente nenhum meio de evitar um cataclismo energético mundial.

Palavras fortes. Mais fortes, talvez, do que quaisquer outras expressas antes sobre energia. Simmons pronunciou-as e, além disso, numa apresentação feita em 9 de Julho, em Washington, numa reunião sobre o futuro da Arábia Saudita. O Hudson Institute patrocinou a reunião.

Simmons pediu para alguém, incluindo os próprios sauditas, refutar a sua afirmação. Mas até agora, segundo ele, ninguém o fez. Ele reconhece, entretanto, que os sauditas recentemente têm estado mais acessíveis quanto à sua capacidade para fornecer todo o petróleo extra que o mundo exija dos campos sauditas. Mesmo assim, parece que ninguém está desejoso de se contrapor às suas alegações específicas.

Simmons sabe do que fala. Ele vê o quadro da oferta mundial de petróleo do ponto de vista vantajoso de quem tem 30 anos de experiência como fundador da Simmons & Company International, de Houston, que hoje é um dos maiores grupos de bancos de investimento do mundo. Desde a abertura do primeiro escritório em Houston, no ano de 1974, Simmons e o seu grupo tem orientado uma vasta base de clientes a completar mais de 500 projectos bancários de investimento em petróleo e gás num valor combinado de uns US$ 58 mil milhões. A companhia agora tem sucursais em Boston, Londres e Aberdeen, Escócia.

UNS POUCOS CAMPOS PRODUZEM QUASE TODO O PETRÓLEO SAUDITA

Mas todo o capital de investimento do mundo não será de muita ajuda se, como suspeita Simmons, a Arábia Saudita não puder abrir mais a torneira dos seus campos petrolíferos chave como o produtor "de serviço" do mundo para atender ao constante crescimento da procura mundial de petróleo. Ao contrário da opinião generalizada, a "prenda" de petróleo da Arábia Saudita para o mundo, pelo menos na visão de Simmons, não continuará a ser dada.

Apesar de recentes comentários da Saudi Aramco de que descobriu 85 campos petrolíferos no país e até agora desenvolveu só 23 deles, Simmons afirma que apenas um punhado de campos representa virtualmente toda a produção saudita. O maior de todos, Ghawar — o maior campo petrolífero do mundo — tem representando cerca de 60 por cento de todo o petróleo que o país já produziu, afirma ele. Hoje, acrescenta, Ghawar ainda produz cerca de 5 milhões de barris por dia da actual produção saudita de 7,5 a 8,0 milhões bpd. Cinco outros campos produzem o remanescente: Abqaiq, Safaniyah, Zuluf, Berri e Shaybah.

Mas todos estes seis campos, observa, têm mais de 30 anos. Abqaiq foi descoberto em 1940, Ghawar em 1948 e Safaniyah em 1951. Os últimos três foram descobertos em meados da década de 1960.

NÃO HÁ SEGUNDO ACTO

Normalmente, declarou Simmons numa entrevista em 23 de Julho à Petroleum News , os campos sauditas estariam sujeitos às mesmas curvas de declínio experimentadas por quaisquer campos petrolíferos do mundo, uma vez que a pressão do reservatório começa a reduzir-se. A diferença, diz ele, é que a Saudi Aramco esforçou-se por conseguir, quase desde o princípio, manter as pressões nos reservatórios — e as taxas de fluxo dos furos individuais — tão elevadas quanto possível, aparentemente por um período tão longo quanto possível.

Em termos simples, considera Simmons, os sauditas têm realizado nos seus campos simultaneamente as recuperações primária e secundária, para tal tendo instituído desde relativamente cedo enormes programas de injecção de água após completarem o desenvolvimento dos campos.

"Todos estes campos são velhos", destaca, "mas a Saudi Aramco administrou-os num estilo 'gold standard' ao instituir cuidadosas e rigorosas injecções de água a fim de manter pressões muito elevadas nos reservatórios. Eles estão efectivamente a varrer os reservatórios até que todo o óleo facilmente recuperável tenha saído. Ao fazer isso, desafiaram as curvas de declínio padrão. Com essa injecção de água mantiveram pressões nos reservatórios acima do ponto de emergência. O perturbador é que, uma vez que tenham finalmente acabado de os varrer, terão efectuado tanto o esgotamento primário como o secundário. Não haverá 2º acto.

Aparentemente, o conhecimento pormenorizado deste duplo mergulho não tem sido comum. Os números da produção saudita e as estatísticas de campo foram encarados amplamente como segredos de Estado a partir da década de 1980. No entanto, diz Simmons, a maior parte dos estudos da oferta de petróleo mundial assumem que a produção saudita é praticamente inexaurível e pode ser aumentada quase sem esforço a partir de qualquer procura que o mundo dite.

NÃO HÁ NOVOS CAMPOS GIGANTES NA ARÁBIA SAUDITA

Mas hoje há dados suficientes no domínio público, considera Simmons, que, quando combinados e analisados, revelam um quadro muito diferente.

Durante a última década ou mais, afirma, a falta de dados de campo seguros em relação à maior parte dos países produtores, particularmente de países membros da OPEP e mesmo mais particularmente da Arábia Saudita, tornou extremamente difícil à sua companhia planear diferentes cenários de investimentos em energia para os seus clientes.

Assim, Simmons instituiu um estudo de 12 meses sobre apresentações técnicas da actividade em campo petrolíferos na Arábia Saudita efectuadas em diferentes reuniões por todo o mundo pela Society of Petroleum Engineers, principiando em 1961 e indo até 2003. O estudo reuniu mais de 200 de tais documentos técnicos, diz ele, efectuados sobretudo por companhias de serviços nos campos petrolíferas e tratando de aspectos altamente técnicos em todos os seis campos gigantes sauditas.

"Cada documento individual não nos conta muito", diz ele. "Mas, percorrendo esta incrível acumulação de documentos e a seguir voltando atrás e isolando cada um por campo específico eles tratam daquilo que, cronologicamente, poderia ser considerada a história do que se tem passado na Arábia Saudita durante este período de tempo.

Se bem que o estude revele toda uma "ladainha" de surpresas, afirma Simmons, a mais importante delas é que enquanto os seis campos gigantes da Arábia Saudita têm representado tudo o que a Arábia Saudita tem produzido até agora, há evidências suficientes para argumentar que uma vez que aqueles campos estejam em declínio, os sauditas não terão muitos outros meios de extrair novo petróleo.

A Saudi Aramco explorou o país cuidadosamente, considera Simmons, e daí não resultaram novos campos 'gigantes'.

"Enquanto isso, a administração superior da Saudi Aramco é inflexível em que os seus actuais campos estão em grande forma e podem confiavelmente produzir tanto quanto 15 milhões bpd por mais 50 anos", diz Simmons. "Eles também insistem em que as suas reservas provadas são realmente conservadoras e que ainda há outros 200 mil milhões de barris por serem descobertos em vários bolsões inexplorados da Arábia Saudita". O mundo tem apenas a palavra da companhia sobre isto, observa Simmons.

A NOVA TECNOLOGIA NÃO CONSEGUIRÁ ISTO

Ele acrescentou que os administradores da Saudi Aramco também acreditam "com alguma paixão" que as ferramentas tecnológicas que estão agora a empregar conteriam a ascensão da água nos campos existentes. Tais ferramentas, observou, incluem furos horizontais e de longo alcance (horizontal and extended-reach wells) e terminais múltiplos de furos (multi-lateral well completions) , entre outras.

"A minha preocupação é que demasiadas outras companhias de petróleo por todo o mundo também acreditem que estas mesmas ferramentas lhes permitiriam aumentarem firmemente a sua produção a partir de uma reduzida quantidade de furos efectuados", diz ele. "Ao invés disso, verificou-se que virtualmente todo produtor chave de petróleo que utilizou estas mesmas ferramentas acabou tristemente por ver o crescimento da sua produção definhar".

Se bem que as ferramentas extraíssem mais petróleo por furo, explicou, elas também aceleraram a recuperação do petróleo económico. Por sua vez, isto criou taxas de declínio nunca vistas antes na actual produção.

Simmons reuniu as descobertas e conclusões do seu estudo e actualmente está a escrever um livro, o qual planeia auto-editar no fim deste ano.

APELOS À TRANSPARÊNCIA OBRIGATÓRIA DAS RESERVAS DE PETRÓLEO

Mas sem considerar quem está certo ou errado, diz Simmons, a solução para determinar se os campos sauditas podem atender à procura sempre ascendente é muito simples. Adoptar um padrão muito mais elevado de transparência nos dados petroleiros e começar a relatar periodicamente, campo por campo, as estatísticas de produção, suportadas pelo número médio de furos produtores em cada campo, e ter isto verificado por uma terceira parte confiável.

"Eu também gostaria de vê-los actualisar as suas estimativas, por campo, do petróleo original in situ , pela recuperação estimada final (estimated ultimate recovery) e pela produção acumulada", disse ele. "Uma vez que se tenham estes dados, quaisquer analista pode determinar num dia se tudo está bem na Arábia Saudita, ou se é 'Katy, feche a porta! Este campo está prestes a entrar num declínio muito acentuado".

Ele observou que uma exigência obrigatória de maior transparência nas reservas de petróleo deveria ser efectuada em base global. Contudo, até agora só a International Energy Agency, com sede em Paris, está a trabalhar para montar um tal programa. Embora voluntário, o programa pelo menos apela a maior transparência por parte das nações produtoras de petróleo, disse ele.

No entanto, sem tal informação e sem que ela seja proporcionada muito rapidamente, o mundo poderia deparar-se com uma enorme surpresa, considera Simmons. Na sua opinião, as grandes crises surgem do facto de se ignorarem os grandes problemas, e quanto mais cedo o mundo estiver consciente de um problema, mais cedo terá uma solução — "Plano B" — poderá ser alcançado. Ele afirma que se houvesse maior transparência da oferta de petróleo, o preço actual provavelmente não variaria do modo como o fez no passado. "O conhecimento acrescido do que está realmente em andamento no negócio da energia versus a percepção do que nós pensamos que está em andamento, ajudará as pessoas a entenderem que precisamos nos habituar a altos preços de energia e que US$ 40 por barril de petróleo não é perigoso", declara Simmons.

O que é perigoso, afirma ele, é US$ 40 por barril ainda estar demasiado barato.

A DIFERENÇA NÃO PODE SER PREENCHIDA
A PARTIR DE QUALQUER OUTRO LUGAR


Mas a perspectiva ainda é extremamente grave, considera.

"Se eu estiver correcto nas minhas preocupações, a Arábia Saudita está agora a produzir mais do que deveria para manter a sua produção de óleo", asseverou impassível. "Quanto mais depressa se puxa um campo pela sua produção, mais rapidamente se conduz ao fim da pressão no seu reservatório. Assim, eu poderia argumentar que para o bem estar do mundo a Arábia Saudita provavelmente deveria retroceder e passar a produzir 3 a 4 milhões bpd de modo que o seu petróleo possa perdurar outros 30 a 50 anos. Contudo, eles já podem ter atingido o pico da sua capacidade de aumentar a produção de petróleo, e, se for assim, o mundo também atingiu o pico".

Poderia a diferença ser coberta por outras áreas produtoras de petróleo do mundo? Mais uma vez, Simmons duvida. Nem da África Ocidental, diz ele. Nem da Rússia, tão pouco. E actualmente combustíveis alternativos também não poderão cobrir. Nem o gás natural, cujas estatísticas de oferta global são ainda mais turvas do que as do petróleo. Nem combustíveis a hidrogénio, uma vez que eles exigem uma fonte de energia primária. Nem mesmo a energia nuclear, a qual ele considera que levaria décadas para aumentar, quase sem qualquer pista de quanto urânio continua a existir no mundo.

"Não há qualquer hipótese que se possa fazer, por qualquer esforço de imaginação, baseado em qualquer coisa que conheçamos, que se pudesse encontrar para cobrir a diferença", afirma Simmons. "Esta poderia tornar-se a maior questão energética que o mundo já enfrentou desde sempre".

Entre todas as ramificações decorrentes de uma escassez mundial de energia, afirma Simmons, as implicações geopolíticas são talvez as mais severas, particularmente porque os Estados Unidos importam 25 por cento do total das exportações de petróleo da Arábia Saudita, a qual é cerca de 6 milhões de bpd.

"Tenho dito muitas vezes que eu não desejaria fazer parte de qualquer delegação encarregada com a responsabilidade de ter de contar aos líderes da Índia, ou particularmente de China, que a sua excitante emergência para a prosperidade está acabada porque não temos energia de reserva para alimentar os seus grandes sonhos".

Enquanto isso, Matt Simmons está à espera — e desejoso — de alguém que lhe prove estar errado.

O original encontra-se em Petroleum News , Agosto de 2004, Vol. 9, Nº 31, semana de 01/Ago/2004. Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

09/Ago/04