O súbito e estranho "amor " de Sócrates pelo
investimento público
Nos últimos quatro anos o investimento público em Portugal
diminuiu em 32,3%
RESUMO DESTE ESTUDO
Sócrates converteu-se repentinamente num defensor ardente do
investimento público, apresentando isso como um ponto importante que o
diferenciaria de Manuela Ferreira Leite. E isto quando nos últimos
quatro anos foi precisamente o seu governo que mais reduziu o investimento
público em Portugal.
De acordo com o Eurostat, em 2004, o investimento público total em
Portugal correspondia a 3,1% do PIB, mas em 2008 era já apenas de 2,1%
do PIB. Portanto, em quatro anos de governo de Sócrates, o investimento
público em Portugal, em percentagem do PIB, diminuiu em 32,3%.
Neste mesmo período, o investimento público nos países da
União Europeia (27 países) aumentou, em média, de 2,4% do
PIB para 2,7% do PIB, portanto cresceu 12,5%. Em 2004, ou seja, antes do
governo de Sócrates tomar posse, o investimento público, medido
em percentagem do PIB, era em Portugal superior à média da UE27
(em Portugal 3,1% do PIB; na UE27: 2,4% do PIB), mas em 2008. Portanto, depois
de quatro anos de governo de Sócrates, verificava-se precisamente o
contrário pois o investimento público em Portugal já era
inferior à média da UE27 (2,7% do PIB na UE27, e apenas 2,1% do
PIB em Portugal). É evidente que esta quebra tão acentuada no
investimento publico em Portugal contribuiu para a dimensão que a crise
está a atingir no nosso país, na medida que o deixou, sob o ponto
de vista económico e social, extremamente fragilizado e, portanto,
não preparado para enfrentar uma crise como a actual.
Por outro lado, muitos dos distritos do País menos desenvolvidos e com
mais graves problemas sociais foram os mais sacrificados com esta politica de
redução do investimento público do governo de
Sócrates, pois foram precisamente esses distritos os que sofreram maiores
cortes. Entre 2005 e 2009, o investimento público feito através
do PIDDAC diminuiu de 6.724 milhões para apenas 4.061 milhões de
euros, ou seja, sofreu um corte de -39,6% em valores nominais. Em termos reais
a redução foi de -45,5%. No entanto, se analisarmos a
variação por distritos durante este período constata-se
que alguns dos distritos mais atingidos pelos cortes de investimento
públicos feitos pelo governo de Sócrates foram precisamente
distritos menos desenvolvidos ou com graves problemas sociais. Assim, entre
2005 e 2009, o investimento publico feito através do PIDDAC diminuiu,
mesmo em termos nominais, no distrito de Aveiro em -56,%; no de Castelo Branco
em -68,1%; no de Coimbra em -54,6%; no de Évora em -61,3%; no de Faro em
-61,9%; no de Leiria em -62,9%; no de Portalegre em -67,8%; e no de
Santarém o investimento público diminuiu em -73,2%. Como
consequência desta politica também discriminatória seguida
por Sócrates as assimetrias regionais, que eram graves, devem ter
aumentado ainda mais no País.
Mas esta critica à política de Sócrates não deve
fazer esquecer que a defendida por Manuela Ferreira Leite não é
melhor. Quem se dê ao trabalho de ler o programa eleitoral do PSD
ficará certamente surpreendido com a falta de consistência
técnica dos argumentos utilizados contra o investimento público.
Assim, logo no princípio, na pág. 8, o PSD manifesta a sua
oposição ao investimento público nos seguintes termos:
"O novo modelo económico (que o PSD defende em
oposição ao do PS) tem de assentar prioritariamente nas
exportações e no investimento privado, nacional e estrangeiro,
substituindo a actual prioridade baseada no consumo, privado e público,
e no investimento público". Para Manuela Ferreira Leite uma
redução de -32,3% no investimento público total, e de
-45,5% no PIDDAC, como se verificou com Sócrates, ainda não
é suficiente.
É de perguntar: Como se pode apostar nas exportações
quando elas estão em queda livre (até Junho de 2009, as
exportações portuguesas caíram 26%) e no investimento
privado, quando ele está em quebra acentuada (até ao 2º
Trimestre de 2009, a quebra no investimento, segundo o INE, atingiu -16,6%)?
Como se pode estar contra o consumo interno quando é ele que garante o
bem-estar da população e ainda dá alguma
animação à economia? Uma politica económica como a
defendida pelo PSD de Manuela Ferreira Leite só poderá levar ao
descalabro económico e social ainda maior, com um aumento vertiginoso do
desemprego. Se esta crise teve alguma coisa de útil, mas parece que
Manuela Ferreira Leite não aprendeu nada, foi mostrar a falência
de um modelo de crescimento económico baseado fundamentalmente nas
exportações ("o crescimento milagroso" de que falavam
alguns dos teóricos do neoliberalismo em Portugal), na
"auto-regulação dos mercados", e na
redução do papel do Estado na economia.
A nova politica económica a sair desta grave crise financeira
internacional e desta recessão mundial terá ser uma politica em
que o papel do Estado e, consequentemente também o investimento
público, terá de aumentar significativamente. Nada poderá
ficar como antes depois dos gigantescos apoios dados com dinheiros
públicos aos bancos e às grandes empresas privadas. Se a politica
seguida no passado, de total submissão aos grandes grupos, não
mudar radicalmente, corre-se o risco sério de novas crises no futuro
ainda mais graves e profundas, com custos económicos e sociais ainda
muito maiores que os actuais. Só uma direita agarrada à defesa
dos interesses de uma minoria privilegiada é que ainda não
compreendeu isso e se opõe a essa mudança.
|
Sócrates converteu-se repentinamente num defensor ardente do
investimento público, apresentando este "novo amor", que
está também nas págs. 13 e 14 do programa eleitoral do PS,
como uma das coisas que o diferenciaria de Manuela Ferreira Leite. Apesar de a
presidente do PSD se opor ao investimento público, no entanto esta
mudança repentina e radical de Sócrates não deixará
de espantar quem o oiça. E isto porque durante toda esta legislatura, o
seu governo foi aquele que mais reduziu o investimento público em
Portugal. Efectivamente, Sócrates dominado pela obsessão do
défice orçamental, para o reduzir, sem olhar a meios, sacrificou
todo o investimento publicou e levou à falência técnica
muitas empresas públicas (CP, Metro, REFER, TAP), já que as
obrigou
a suportarem a totalidade dos investimentos em infra-estruturas
que tiveram de fazer, apesar disso ser também responsabilidade do
Estado, contribuindo assim para a grave crise que o País actualmente
enfrenta, porque o deixou extremamente fragilizado, tanto na económica
como socialmente. É o que se vai provar neste estudo utilizando dados
oficiais.
ENTRE 2004 E 2008, O INVESTIMENTO PUBLICO EM PORTUGAL DIMINUIU 32,3%
Segundo o
Eurostat
, que é o serviço oficial de Estatística
da União Europeia, entre 2004 e 2008, o investimento público,
medido em percentagem do PIB, diminuiu em Portugal, enquanto na União
Europeia, em média, aumentou. O gráfico seguinte,
construído com dados divulgados pelo Eurostat, mostra precisamente isso
de uma forma clara.
De acordo com o Eurostat, em 2004 o investimento público em Portugal
correspondeu a 3,1% do PIB mas, em 2008, já foi apenas de 2,1% do PIB.
Portanto, em quatro anos de governo de Sócrates, o investimento
público em Portugal diminuiu em 32,3%. Neste mesmo período, o
investimento público nos países da União Europeia (27
países) aumentou, em média, de 2,4% do PIB para 2,7% do PIB,
portanto cresceu 12,5%. Em 2004, ou seja, antes do governo de Sócrates
tomar posse, o investimento público, medido em percentagem do PIB, era
em Portugal superior à média da UE27 (em Portugal 3,1% do PIB; na
UE27:2,4% do PIB), mas em 2008, portanto quatro anos depois de Sócrates
tomar posse como 1º ministro, já se verificava precisamente o
contrário, pois o investimento em Portugal já era inferior
à média da UE27 (2,7% do PIB na UE27, e apenas 2,1% do PIB em
Portugal). É evidente que esta quebra tão acentuada no
investimento publico em Portugal contribuiu para a dimensão que a crise
está a atingir no nosso país, na medida que o deixou, sob o ponto
de vista económico e social, extremamente fragilizado e, portanto,
não preparado para enfrentar uma crise como a actual.
COM SÓCRATES, O PIDDAC DIMINUIU ENTRE 2005 E 2009, EM TERMOS REAIS, EM
-45,5%, E AS DESIGUALDADES ENTRE DISTRITOS AGRAVARAM-SE
O PIDDAC, que é o Programa de Investimentos e Despesas de
Desenvolvimento da Administração Central, portanto o plano de
investimentos mais importante do Estado, por um lado, sofreu uma forte
redução com Sócrates e, por outro lado, agravou a
desigualdade na distribuição do investimento público entre
os diferentes distritos, sendo fortemente penalizados os distritos menos
desenvolvidos e com maiores problemas sociais, como mostra o quadro seguinte,
construído com dados dos Relatórios que acompanhavam os
Orçamentos do Estado no período 2005-2009.
QUADRO II- Repartição por distritos do investimento
público feito através do PIDACC no período 2005-2009
|
DISTRITOS
|
REPARTIÇÃO DO PIDDAC POR DISTRITOS 2005-09
|
VARIAÇÃO 2005-2009
|
2005
Mil
|
2006
Mil
|
2007
Mil
|
2008
Mil
|
2009
Mil
|
Em
%
|
Em
Mil
|
|
TOTAL PIDDAC
|
6.724.022
|
4.853.534
|
4.978.135
|
3.616.091
|
4.061.038
|
-39,6%
|
-2.662.984
|
|
Continente
|
6.245.172
|
4.432.081
|
4.168.015
|
|
3.203.648
|
-48,7%
|
-3.041.524
|
|
Aveiro
|
254.789
|
219.331
|
127.449
|
63.581
|
111.483
|
-56,2%
|
-143.306
|
|
Beja
|
134.692
|
91.300
|
79.524
|
92.997
|
71.579
|
-46,9%
|
-63.113
|
|
Braga
|
182.649
|
110.632
|
72.390
|
62.285
|
100.145
|
-45,2%
|
-82.504
|
|
Bragança
|
94.711
|
59.149
|
65.611
|
45.135
|
88.611
|
-6,4%
|
-6.100
|
|
Castelo Branco
|
124.805
|
127.441
|
62.962
|
62.132
|
39.777
|
-68,1%
|
-85.028
|
|
Coimbra
|
231.777
|
168.737
|
148.911
|
140.458
|
105.214
|
-54,6%
|
-126.563
|
|
Évora
|
151.891
|
105.688
|
81.991
|
71.700
|
58.801
|
-61,3%
|
-93.090
|
|
Faro
|
262.268
|
171.857
|
105.165
|
95.225
|
99.991
|
-61,9%
|
-162.277
|
|
Guarda
|
103.284
|
75.066
|
68.113
|
57.891
|
55.414
|
-46,3%
|
-47.870
|
|
Leiria
|
120.171
|
91.832
|
50.028
|
52.072
|
44.555
|
-62,9%
|
-75.616
|
|
Lisboa
|
1.169.517
|
766.311
|
510.528
|
480.171
|
400.217
|
-65,8%
|
-769.300
|
|
Portalegre
|
85.973
|
55.641
|
59.697
|
45.328
|
27.670
|
-67,8%
|
-58.303
|
|
Porto
|
1.202.379
|
542.276
|
323.835
|
282.527
|
351.487
|
-70,8%
|
-850.892
|
|
Santarém
|
233.431
|
150.080
|
92.927
|
48.429
|
62.559
|
-73,2%
|
-170.872
|
|
Setúbal
|
219.963
|
192.576
|
131.786
|
93.866
|
178.573
|
-18,8%
|
-41.390
|
|
V. Castelo
|
54.771
|
35.443
|
44.047
|
27.989
|
42.393
|
-22,6%
|
-12.378
|
|
Vila Real
|
106.341
|
61.380
|
70.106
|
51.957
|
72.928
|
-31,4%
|
-33.413
|
|
Viseu
|
125.731
|
74.617
|
60.515
|
54.653
|
70.699
|
-43,8%
|
-55.032
|
|
RA Madeira
|
24.006
|
11.355
|
18.519
|
|
5.472
|
-77,2%
|
-18.534
|
|
RA Açores
|
|
|
10.557
|
|
36.801
|
|
36.801
|
|
Vários distritos
|
1.386.028
|
1.332.728
|
2.012.424
|
984.655
|
1.223.550
|
-11,7%
|
-162.478
|
Fonte : Relatório do OE de 2005, 2006, 2007, 2008, e 2009 -
Ministério das Finanças
Entre 2005 e 2009, o investimento publico feito através do PIDDAC
diminuiu de 6.724 milhões para apenas 4.061 milhões de euros, ou
seja, sofreu um corte de -39,6%, apesar do Orçamento de Estado para 2009
ter sido aprovado (Dezembro/2008) quando já era evidente a gravidade da
crise internacional. Em termos reais o corte foi ainda maior (-45,5%) já
que os 4.061 milhões de euros para 2009 correspondem apenas a 3.661,3
milhões de euros a preços de 2005. Se analisarmos a
variação por distritos durante este período constata-se
que alguns dos distritos mais atingidos pelos cortes de investimento
públicos feitos pelo governo de Sócrates foram precisamente
distritos menos desenvolvidos ou com graves problemas sociais. Assim, entre
2005 e 2009, o investimento publico feito através do PIDDAC reduziu-se,
a preços correntes, em -39,6% a nível nacional. No entanto, a
preços também correntes, no distrito de Aveiro a
redução no investimento público, durante o governo de
Sócrates atingiu -56,%; no de Castelo branco -68,1%; no de Coimbra
-54,6%; no de Évora -61,3%; no de Faro -61,9%; no de Leiria -62,9%; no
de Portalegre -67,8%; e no de Santarém -73,2%. Como consequência
desta politica também discriminatória seguida pelo governo de
Sócrates as assimetrias regionais inevitavelmente aumentaram no nosso
País. É evidente que, em termos reais, ou seja, deduzindo o
efeito do aumento dos preços verificado entre 2005 e 2009, os cortes
foram ainda maiores.
Perante as conclusões que se tiram destes dados e dos analisados
anteriormente a pergunta que naturalmente se coloca é a seguinte:
Será que este repentino "novo amor" de Sócrates pelo
investimento público não será falso e de curta
duração tendo apenas como objectivo "caçar
votos"? E que ultrapassadas as eleições e a fase mais grave
da crise também esse "amor" será posto de lado como
sucedeu com muitas outras promessas feitas por Sócrates
(criação de emprego, não aumento de impostos, etc)? Estas
perguntas e duvidas ainda se tornam mais pertinentes quando se lê o
programa eleitoral do PS de Sócrates que diz na pág. 41 que um
dos objectivo de um governo PS na próxima legislatura será o de
"prosseguir com a consolidação das finanças
públicas". E já sabemos que Sócrates utiliza estas
palavras para ocultar a sua "obsessão pela redução
do défice orçamental".
MANUELA FERREIRA LEITE CONSIDERA QUE OS CORTES DE 32,3% NO INVESTIMENTO
PÚBLICO TOTAL E DE 45,5% NO PIDDAC FEITO POR SÓCRATES AINDA
NÃO SÃO SUFICIENTES
Apesar da critica que fazemos a Sócrates por este repentino e só
agora "amor " pelo investimento público, é preciso
não esquecer que Manuela Ferreira Leite e o actual PSD, e também
o CDS, não têm uma posição melhor contra o
investimento. E para justificar essa oposição ao investimento
público utilizam as PMEs, procurando criar a falsa ideia junto da
opinião publica que investimento público é
incompatível com o apoio às PMEs. Quem se dê ao trabalho de
ler o programa eleitoral apresentado pelo PSD não deixará de
ficar surpreendido com a falta de consistência técnica dos
argumentos utilizados por este partido para justificar a sua
oposição ao investimento público.
Assim, logo no princípio do seu programa eleitoral, na pág. 8, o
PSD manifesta a sua oposição frontal ao investimento
público nos seguintes termos: "O novo modelo económico (que
o PSD defende em oposição ao do PS) tem de assentar
prioritariamente nas exportações e no investimento privado,
nacional e estrangeiro, substituindo a actual prioridade baseada no consumo,
privado e público, e no investimento público". Portanto,
Manuela Ferreira Leite considera que o corte feito por Sócrates no
investimento público total de -32,3%, e de -45,5% no PIDDAC não
é ainda suficiente. E por isso pretende ainda reduzi-lo mais se for
governo. É de perguntar: Como se pode apostar nas
exportações quando elas estão em queda acentuada
(até Junho de 2009, as exportações portuguesas
diminuíram 26% relativamente a igual período de 2008) e no
investimento privado, quando este está em quebra significativa (a
previsão do Banco de Portugal é uma redução de 14%
no investimento total este ano)? Uma politica económica como a defendida
pelo PSD de Manuela Ferreira Leite só poderá levar ao descalabro
económico e social, com um aumento muito maior do desemprego. Se esta
crise teve alguma coisa de útil, que parece que Manuela Ferreira Leite
ainda não aprendeu, foi mostrar a falência de um modelo de
crescimento económico baseado fundamentalmente nas
exportações ("o crescimento milagroso" de que falavam
alguns dos teóricos do neoliberalismo em Portugal), na
auto-regulação dos mercados, e na redução do
papel do Estado na actividade económica.
03/Setembro/2009
[*]
Economista,
edr2@natecabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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