PT e accionistas não pagam impostos com a conivência do governo
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O escândalo que constitui o facto de a Portugal Telecom não pagar imposto de mais-valias pelas mais-valias que obteve com a venda da "Vivo" à Telefónica por 5.515,5 milhões , assim como a distribuição de um dividendo extraordinário de 1.000 milhões aos accionistas em 2010 para estes não pagarem 160 milhões de impostos, tudo isto feito com conivência do governo de Sócrates, veio tornar claro os "buracos" existentes nas leis fiscais aprovadas pelos sucessivos governos (PS, PSD, PSD/PP) com o objectivo de beneficiar os grupos económicos. Contrariamente ao que se pode pensar, o caso da PT não é único. Todos os anos verificam-se muitos outros que passam despercebidos à opinião pública porque os media não falam deles. Segundo o Relatório do OE-2011, no próximo ano o governo prevê perder uma receita fiscal no montante de 1.368 milhões resultantes de benefícios fiscais concedidos às empresas, cuja maior parte não são certamente benefícios fiscais concedidos a PMEs e micro-empresas. Os resultados da banca referentes aos primeiros nove meses de 2010 confirmam que os grupos económicos em Portugal, e nomeadamente a banca, continuam a gozar de elevados privilégios fiscais. Para concluir isso, basta comparar os Resultados Antes dos Impostos com os impostos pagos pelos cinco maiores bancos a operar em Portugal (CGD, BCP, Santander-Totta, BES, BPI). Os Resultados Antes de Impostos (RAI) destes cinco bancos atingiram, nos nove primeiros meses de 2009, 1.620,6 milhões e, em 2010, 1.423,3 milhões ; e os impostos pagos foram apenas 185,7 milhões em 2009 e somente 114,3 milhões em 2010. Isto significa que a taxa efectiva de imposto foi de 16,1% nos primeiros nove meses de 2009 e de apenas 9,2% em 2010. Os Resultados Antes de Impostos em 2010 são inferiores aos de 2009 (1.620,6 em 2009 e 1423,3 milhões em 2010), mas os Resultados depois de Impostos de 2010 já são superiores aos de 2009 (1.150,5 milhões nos primeiros 9 meses de 2009, e 1.240,7 milhões em 2010), o que foi conseguido à custa de uma redução significativa dos impostos em 2010. O BPI, apesar de ter apresentado um RAI de 139,8 milhões não paga imposto, tendo a haver do Estado ainda 2,2 milhões . Apesar do escândalo da PT o governo de Sócrates apresentou na Proposta de Lei do OE2011 uma alteração ao artº 14º do CIRC (pág. 139) que isenta de pagamento de impostos os lucros distribuídos por uma entidade residente em Portugal, pois basta que os grupos económicos detenham nela pelo menos 10% do capital. Na Proposta de Lei do OE2011 (pág. 152) há também uma alteração ao artº 92 do CIRC que dispõe que "o imposto liquidado das deduções previstas nas alíneas a) e b) do nº2 do mesmo artigo (deduções relativas a dupla tributação e a benefícios fiscais), não pode ser inferior a 90% (actualmente é 75%) do montante que seria apurado se o sujeito passivo não usufruísse de benefícios fiscais e dos regimes previstos no nº 13º do artº 43 (contribuições para Fundos de Pensões) e no artº 75º (dedução de prejuízos fiscais)". Portanto, à primeira vista este limite à redução do imposto parece ser positivo. No entanto, o nº2 do mesmo artigo da Proposta de Lei do OE2011 reduz o seu efeito pois isenta desse limite os benefícios fiscais: (a) Que revistam de carácter contratual, portanto os concedidos por decisão do Conselho de Ministros a grandes grupos por investimentos elevados realizados; (b) Os benefícios fiscais concedidos às Zonas Francas (Madeira e Porto Santo); (c) Os previstos nos artº 32º e 42º dos Estatuto de Benefícios fiscais, ou seja, a Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS), a Sociedades de Capital de Risco e a Investidores de Capital de Risco (e qual é o grupo económico que não tem uma SGPS através da qual controla todas as empresas do grupo?). Portanto, o efeito positivo é aparente, e os privilégios fiscais mantêm-se. A completar o que se acabou de dizer interessa ainda referir uma disposição contida na Proposta de Lei que revela a insensibilidade social de Sócrates. O OE2011 reduz, entre 2010 e 2011, as transferência do OE para a Segurança Social destinadas à luta contra a pobreza em 874 milhões , o orçamentado para o subsidio de desemprego em 156 milhões , e o destinado ao abono de família em 217 milhões , mas mantém o apoio à banca de 20.181,5 milhões (artº 88º da Proposta). Corta-se nos apoios sociais mas mantém-se o apoio à banca. Para esta já há dinheiro. Um dos factores que contribui mais para o elevado endividamento do Estado e, consequentemente, para as graves dificuldades financeiras que o País enfrenta, são as chamadas Parcerias Público Privadas (PPP), que garantem lucros elevados e certos aos grupos económicos, e sacrifícios para os portugueses. Cavaco Silva e o PSD, pretendem fazer esquecer que o "pai" das PPP foi Cavaco Silva, já que foi precisamente um governo em que era ministro Cavaco Silva que as introduziu, pela primeira vez, em Portugal. De acordo com o relatório de 2010 das PPP elaborado pelo governo, no período 1992-1995, em que o 1º ministro era Cavaco Silva, e ministro das Finanças Catroga, foram assinadas pelo governo 12 Parcerias Público-Privadas, sendo a mais conhecida a Concessão Lusoponte, cujo maior accionista é a Mota-Engil, e presidente um ex-ministro de Cavaco (F. Amaral). Mas agora pretendem fazer crer que nada têm a ver com elas. |
Quem se dê ao trabalho de ler o documento divulgado pela
administração da Portugal Telecom referente aos resultados do
3º Trimestre de 2010, que se encontra disponível no seu
"site", naturalmente ficará escandalizado com os
elevadíssimos resultados apresentados por este grupo e com os
reduzidíssimos impostos que pagou.
De acordo com o quadro 2 desse documento, o "Resultado consolidado
liquido" referente aos nove primeiros meses de 2010, atingiu 5.617,7
milhões , e o imposto pago pela empresa, foi apenas de 64,1
milhões , o que corresponde a somente 1,1% dos Resultados Antes
de Impostos (RAI). Isto significa que a Portugal Telecom não pagou
qualquer imposto ao Estado pela mais-valia obtida com a venda da empresa
brasileira "Vivo" à espanhola Telefónica por 5.515,5
milhões . O contraste com o que acontece a qualquer família
portuguesa é violento e imoral. Quando um português vende, por
ex., a sua casa, e se não investe rápida e totalmente a
importância da venda na compra de outra casa, metade da mais valia obtida
com a venda é incluída no seu rendimento e tem de pagar IRS.
O escândalo é ainda maior quando se observa o comportamento da
administração da PT que decidiu distribuir este ano um dividendo
extraordinário de 1.000 milhões , de um total de 1.650
milhões que pretende distribuir fundamentalmente aos grandes
accionistas (BES, Brandes Investiments Partners, CGD, Ongoing, Barclays,
Visabeira, BlackRock, Controlinveste, Norges Bank) ), para assim evitar que
estes tenham de pagar 160 milhões de imposto.
Em todo este episódio escandaloso o cinismo do governo com o objectivo
de manipular a opinião pública é chocante. Há
vários meses que Sócrates e o seu ministro das Finanças
sabiam que a PT vendeu a "VIVO" à Telefónica tendo
obtido uma gigantesca mais-valia e nada fizeram para, numa altura em que
são exigidos tantos sacrifícios aos portugueses, alterar
atempadamente as escandalosas leis fiscais que permitem aos grupos
económicos reduzir significativamente ou mesmo não pagar impostos
em contraste violento com o que é exigido aos trabalhadores portugueses.
E mesmo a alteração que a Proposta de Lei do OE2011 introduz no
nº 3 do artº 14 do CIRC, o qual determinaria que os accionistas da PT
pagassem imposto em 2011, não resolve totalmente a
situação escandalosa existente na lei fiscal, pois basta que um
accionista tenha mais de 10% do capital para que os lucros continuem isentos. O
requinte deste governo chegou ao ponto de não ter dado qualquer
indicação à CGD, que é um dos maiores accionistas
da PT, para obstar a tal manobra, e vir só depois a público dizer
que o governo estava contra a distribuição do dividendo aprovado
no conselho de administração com o apoio do próprio
representante da CGD. É para dizer que não há ética
nem moralidade em todo este episódio escandaloso por parte quer do
governo quer da PT que se aproveita de leis fiscais feitas para beneficiar os
grupos económicos, não pagando os impostos devidos que
são exigidos a todos os portugueses.
ESCÂNDALOS COMO O DA PT ACONTECEM TODOS OS DIAS COM AS LEIS FISCAIS QUE
VIGORAM EM PORTUGAL, SÓ NÃO SÃO TÃO MEDIATIZADOS
As leis fiscais que vigoram em Portugal foram elaboradas pelo PS, pelo PSD e
CDS, pois são estes partidos que estiveram no governo em Portugal nos
últimos 34 anos. Nessas leis fiscais existem disposições
que concedem benefícios escandalosos aos grandes grupos
económicos permitindo a estes aumentar os lucros à custa da
redução significativa dos impostos que pagam ao Estado. A
comparação dos resultados obtidos pelos cinco maiores bancos a
operar em Portugal em 2010 com os impostos pagos leva à conclusão
que o que sucedeu com a PT verifica-se com outros grupos económicos. O
quadro seguinte prova isso.
Quadro 1- Lucros e impostos sobre o rendimento registados nos resultados dos
cinco principais bancos a operar em Portugal 2009/2010
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Milhões |
Milhões |
Milhões |
Milhões |
% |
% |
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| CGD | 470,4 | 97,2 | 182,6 | 42,3 | 20,7% | 23,2% |
| BCP | 241,6 | 51,3 | 284,0 | 24,1 | 21,2% | 8,5% |
| Santander-Totta | 289,4 | 41,9 | 272,1 | 37,8 | 14,5% | 13,9% |
| BES | 470,4 | 78,0 | 544,8 | 54,6 | 16,6% | 10,0% |
| BPI | 148,8 | 14,5 | 139,8 | -2,2 | 9,7% | -1,6% |
| TOTAL | 1.620,6 | 283,0 | 1.423,3 | 156,7 | 17,5% | 11,0% |
| TOTAL (s/ CGD) | 1.150,2 | 185,7 | 1.240,7 | 114,3 | 16,1% | 9,2% |
Um dos aspectos mais chocantes da situação actual é a
tentativa daqueles que foram responsáveis pelas decisões que
contribuíram fortemente para a gravidade da situação que o
País enfrenta em esconder isso, não tendo a coragem de assumir as
responsabilidades. Neste processo de branqueamento contam com a prestimosa
colaboração dos "comentadores e fazedores de
opinião"
("opinion-makers")
do pensamento único que dominam os grandes media em Portugal, pois
só eles é que têm acesso privilegiado.